sexta-feira, 16 de março de 2012

Infecção bruta





Porque raios haveria eu de me interessar pelos Wraygunn?

É bem capaz de ser um dos melhores projectos de Pop/Rock português nos dias de hoje, com uma boa e sofisticada produção que percorre os Blues e a Soul com balanço para revisitá-las sem clonagens nostálgicas ou mimetimos chatos. Este projecto está na linha de revitalização da música (negra) norte-americana onde encontramos paralelos e influências de Jim White ou (claro) Jon Spencer Blues Explosion. Wraygunn sabem o que fazem e têm pinta. Mas sejamos sinceros não passam de Pop / Rock, coisinha fofinha para agradar pessoas, marcas de telemóveis e jingles publicitários. Quem quiser o "Pop canibal" que o oiça, ao menos esta tem qualidade – coisa rara em Portugal.

O que me fascinou neste novo e quinto registo da banda é a coragem senil e provinciana de lhe intitular de L’art brut (Arthouse / EMI; 2012). Art Brut!? Mas aonde? Em meio dúzia de desenhos de um tal Artur (?) que está na embalagem do disco? A pretensão de usar o termo cunhado por Jean Dubuffet para mais uma produção medíocre de música ligeira é de bradar aos céus. Talvez porque nos últimos anos tenha havido movimentações neste tipo de arte como os acontecimentos (mais ou menos mediáticos) do Hospital Miguel Bombarda / Pavilhão de Segurança, a recuperação do filme Jaime de António Reis e Margarida Cordeiro, os Subsídios da MMMNNNRRRG, criação da Associação Portuguesa de Arte Outsider, exposição de António Peralta no Museu de Etnologia ou a futura grande mostra de Art Brut na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, etc…Até uma daquelas revistas de novas tendências paneleirosas, ou a Dif ou a Parq já não me lembro, já publicou um artigo sobre “art brut” há poucos meses... O termo deve estar mesmo na moda, até há uns ranhosos do Indie Rock ingleses / alemães chamados de Art Brut...

E como Wraygunn e as centenas de bandas Pop / Rock deste planeta nada têm mais nada a dizer, decicidiram investir neste “novo” conceito “cool”. O que é estranho porque vivemos momentos terríveis de crise económica, social e ambiental que são ricas para comentário político ou para exercício de novas praticas de inovação / mudança – mas não, os Wraygunn fazem parte daquela facção do Rock que afirma que não se mete em política, que o Rock é apenas para divertir, etc… Pá, divirtam-se, façam dinheiro com os concertos, façam-se à vida, agora não se armem em espertos que o pessoal não é burro!

É natural que quem descubra a Art Brut – ou Outsider Art ou Arte Crua – fique fascinado por ela e queira divulgá-la ou associar-se a ela – eu que o diga com o projecto editorial MMMNNNRRRG. Os seus autores, todos eles marginais do mundo da arte comercial ou institucional, fazem arte (desenho, pintura, escultura, instalação, arquitectura, decoração) a maior parte das vezes em autismo com o mundo, fazem-no porque é a única forma de expressão que conhecem e os resultados que surgem tendem a ser cosmogónicos e inéditos em criatividade – estes artistas não têm as referências artísticas da cultura oficial. Exemplos: o brasileiro Estevão Silva da Conceição criou na sua favela um edifício parecido com as construções de Antoni Gaudi sem no entanto alguma vez ter conhecido a obra do arquitecto catalão; Henry Dagger criou o maior livro de sempre de 15 145 páginas onde conta a história das suas “Vivian Girls”, um universo que criou em seis décadas às escondidas de todos até o seu quarto ser invadido após a sua morte. Na música também há “outsiders” para além daqueles que se gostam de chamar “underground” porque é uma forma de auto-promoção, como André Robillard, Daniel Johnston ou Wesley Willis… Podia dar mais mil exemplos que não se encontra nenhum paralelo com Wraygunn porque esta malta da banda não sofre de doenças mentais, sabe vender bem o seu peixe e têm tanta visão ou imagética como centenas de outros branquinhos do mundo ocidental que gostam de Rock.

O última tema do disco, I’m for real, tenta ser a única justificação deixada pela banda para se afirmar como criadores compulsivos e que se estão a cagar para categorias musicais, que ‘tão fartos de fakes e isso tudo. Yeah! Somos a cena real, tásjaver!? Sim vejo perfeitamente até porque até percebo "americano"... O que é bom na "cultura digital" é que tudo é imaterial, recebi o disco dos Wraygunn em sistema de descarga, ouvi o que tive de ouvir no Mediaplayer e a seguir deitei-o no caixote do lixo do PC. Só falta carregar na função “esvaziar reciclagem”.

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