Mostrar mensagens com a etiqueta O meu coração é árabe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O meu coração é árabe. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Arabi Jazz



Antes de Amir ElSaffar e antes das foleiradas da ERC Records, em 1958 já se tinha fundido o Jazz com os sons das Arábias, graças a Ahmed Abdul-Malik (1927-1993) a tocar oud no East Meets West (Riverside). Nascido nos EUA, dizia que o pai dele era sudanês, mas "wikis" consultados dizem que o pai era das Caraíbas, bof, talvez por isso que Abdul-Malik não voltará a fazer discos assim (a peta não pegou?) - FAKE, volta a fazer um disco este-encontra-oeste em 1963!
No primeiro LP a fórmula ainda está para se descobrir mas é melhor que o segundo disco e mais tarde e melhor em Jazz Sahara (RCA, 1960) porque tem faixas mais longas, e por isso, mais adequadas às expansões melódicas da música árabe - especialmente a faixa El Haris / Anxious. Há muito saxofones intrometidos ao ritmo dromedário da coisa mas mais tarde ou mais cedo calam-se. Uma boa descoberta que me faz esquecer o excesso de ElSaffar...

terça-feira, 26 de junho de 2018

Em frente em todas as direcções!


Num ano é música dos Balcãs, noutro é Cubano, no seguinte é Afrobeat e Highlife, depois é Klezmer, etc... O Ocidente capitalista e bronco vai descobrindo a música do "resto do mundo" desta forma homeopática. Para quem quer tudo ao mesmo tempo há uma solução e não, não são os Clash nem os Mano Negra!

É uma banda inglesa que se pode meter no meio dessas duas, os 3 Mustaphas 3, um verdadeiro "melting pot" de músicas do mundo pelos quais não temos de esperar pelo David Byrne ou pela Soul Jazz para esperar pela moda musical primavera / verão. Estes ingleses eram uns sete em palco mais o seu frigorífico, onde guardavam fruta fresca - colocando o Bez dos Happy Mondays numa situação complicada: o que é melhor ter como elemento extra de uma banda? Um gajo que dança ou um electrodoméstico que dá vitaminas? O Bez arranjava drogas, hummmm...

Quer ouvindo Shopping (1987) ou Heart of Uncle (1989) não encontro grande diferenças entre os discos. A base desta banda é Balcãs, Klezmer, música árabe e cigana mas nada impede que eles mudem para ritmos Africanos e Afro-latinos ou até para Funk e Rap. A diferença passa pelos formatos de edição apenas, Shopping é ainda um disco pensado para LP e o outro já se estica para o tempo de uma hora graças à tecnologia do CD - que se imponha na altura como o formato áudio do futuro [rir nesta parte]. Uncle incluía mais vozes femininas também ou assim parece, se calhar tem a mesma proporção para uma hora de música... Quem sabe?

Apesar de serem todos uns branquelos britânicos - e tal como todos os ingleses tem focinho que parece que gostam de tau tau - os 3M3 (posso-vos tratar assim?) eram contra as fronteiras físicas e musicais, estavam nitidamente 30 anos à frente da Inglaterra-Brexit de hoje. Em 2018 é bom ouvir música destes tipos com aqueles chapéus marados (o chapéu chama-se "fez" ou "tarbush"), ainda dá alguma esperança na Humanidade ou naquela ilha...


Thanks Fikaris for the tip. Obrigado à Glam-O-Rama por ser o único sítio em Lisboa (essa capital tão falsamente cosmopolita) que tem estes discos!

PS - entretanto apanhei Soup of the Century (Ace / Ryko; 1990), o último disco desta banda e é uma grande seca. A inspiração passou a gordura de comer muito, provavelmente... pena!

domingo, 29 de abril de 2018

Procissão


Um disco inesperado este Gahvoreh (Transmedia; 1988) de António Emiliano, músico e académico, para um bailado do luso-iraniano Gagik Ismailian na Gulbenkian. Que existam peças destas não seria de admirar mas editadas é que é inesperado. New Age manhoso, com travos de Rão Kyao, mistura música persa com sintetizadores, eis uma espécie de Dead Can Dance mais oriental que ocidental. É um LP instrumental que deixa a dúvida entre a beleza, o kitsch e o insuportável, ainda assim é bom saber que em 1988 nem tudo neste país atrasado era só GNR ou Xutos... Claro que isto passou-me ao lado quando era puto e descobri recentemente na Megastore by Largo, no Intendente.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O melhor disco de... [raios, o que se passa comigo?]


Um russo com nome de Holy Palms fez um disco do caraças! Lançado em digital e em k7 pela italiana Arte Tetra, soa a um "up grade" dos Secret Chiefs 3 ou ao disco novo que nunca irá acontecer dos Çuta Kebab &Party. Mais do que isso, é um labirinto...
Metam a versão k7 de Jungle Judge (2016) em "loop" no vosso leitor (ok, na treta do leitor mp3 também serve em "loop") e vão sentir que estão andar à roda pelo deserto - sim, aquela imagem típica de quem se perde no deserto - e que ao descobrir as pegadas feitas anteriormente, ao contrário do normal, não haverá desespero mas antes alegria em identificar alguma parte desse deserto.
É um disco que tem o exotismo ao gosto Muzak, ao mesmo tempo que é denso em informação. Ouvem-se guitarradas Surf ou Metal (Secret Chiefs 3 sem tirar nem por) com ritmos manipulados tradicionais e Hip Hop / Techno (Çuta!) sempre em constante mutação, o que torna cada faixa difícil de identificar. Ao todo é uma hora de música instrumental de metamorfoses várias que estimula uma audição constante, ora para o festão/ orgia ora para o repouso de sofá / "siesta". Acredito piamente que se pode passar isto a toda a hora num "shopping" ou naquelas lojas de roupa durante um ano que tudo seria diferente e mais interessante.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O melhor disco de 2017 é de 1967



O Kárlon que me perdoe mas o disco dos Devil's Anvil - Hard Rock From The Middle East (Columbia; 1967; reed. Rev-Ola; 2009) - é um concorrente para melhor disco do momento para qualquer um que o descubra.

Há 10 anos escrevi sobre eles mas designados por Kareem Issaq & Middle Eastern e tenho pena que não escrito isto: a malha deles é tão potente que quase apetece vestir um cinto de explosivos e suicidar-me para dentro de uma carrinha de transporte de putos israelitas. Isto era sobre outra banda muito boa que desconfio que não se chama Raks... Ainda assim escrevi que o tema deles na colectânea: numa língua incompreensível usa um "fuzz" infernal e um andamento mortal, Besaha é o nome desta petita de ouro negro!

10 anos depois lembrei-me de procurar pela banda e descobri que tinham um álbum inteiro! Yes! Comprei o disco em formato CD baratinho claro, não há cu para pagar balúrdios pelas edições originais e tal. No CD vêm a história todo do grupo... É malta árabe e norte-americana de Nova Iorque que fazem fusão de Rock e Folk árabe (usando instrumentos tradicionais). Tiveram um azar com a carreira porque lançaram este (único) disco no meio da guerra entre Israel e os países árabes. Ninguém quis pegar neles. Com as ondulações típicas da música que se celebram na voz, ritmos e cordas acrescente-se peso Rock garageiro, bem sujo e energético - oiçam o tema Selim Alai e não me digam que não é o tinido juvenil desejado!!! A combinação é explosiva (as piadas são para manter, desculpem lá) e sem uma ruga do tempo. Há quem diga que é um disco feito antes do seu tempo. Em 2017 estava fresco, em 2018 vai continuar a bombar nas colunas...

E já agora: FREE AHED TAMINI!!!

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Santuário de Fāṭimah


Mdou Moctar : Afelan (Sahel Sounds; 2012)

Há uma idade em que um gajo fica com menos energia mas há música calma chata e outra que é calma e estimulante. Há um cliché enorme da beleza dos Blues do Sáara. Há uma ideia Ocidental que as músicas dos outros povos - do Terceiro Mundo - é sempre bonita e cheias de boas intenções. Moctar pode estar a dizer que os portugueses são uns idiotas (o que é uma verdade pouco ofensiva, diga-se) mas um gajo papa esta música sem perceber pevas. Ela é feita em ambiente de volta da fogueira com uma festa para acontecer... Não a sério, este disco é bonito, fofinho e aconchegante. Perfeito para a noite de verão, fim de verão e até na noite de inverno, ao contrário da música ocidental que cada vez mais é histriónica pela overdose de açucar digital e café plastificado.
Como é bom voltar a casa depois de um dia de stress e ouvir este LP e ler o Albert Cossery!

sábado, 27 de maio de 2017

O meu coração não é árabe


Muita polémica se gera sobre Muslimgauze, um bife que mistura música electrónica com excertos de música árabe. Defensor da causa palestiniana, o falecido Bryn Jones (o gajo detrás do nome) deveria ser só mais um parvinho autista - a julgar pela quantidade enorme de música que fez, cerca de 2000 músicas! - incapaz de separar o sentido de injustiça que sente pelo conflito Israel-Palestina do ódio anti-semita propagando pela Extrema Direita e o Islamismo Radical que mais do que uma vez se apoiam um no outro -Israel a financiar o Estado Islâmico, por exemplo. Pior de que Jones não ter uma causa humanista é ter tido um excesso de naïvité (ou falta de intelecto?) para confundir o anti-imperialismo com movimentos fascistas islâmicos, da mesma forma como o burro do Valete rapou numa faixa de 2004. Aliás, é um erro comum na Esquerda radical achar que alguns movimentos terroristas no mundo árabe ou do Terceiro Mundo são "cool" porque matam gringos, esquecem-se que se alguma vez estes grupos subirem ao poder, os primeiros da lista para o extermínio serão justamente eles, a malta de Esquerda. Enfim... 
Ouvindo Chapter of Purity (Tantric Harmonies; 2002) que reedita faixas de inicio de carreira, de 1985 a 1987, confirma-se que a música de Muslimgauze é chata e preguiçosa, Dub e electrónica ambiental sobre excertos orientais, em que se ouve mais multidões em fúria (manifestações sacadas da TV?) do que melodias hipnotizantes com cheirinho a kif - nem podia, um tema é dedicado ao "Santo" Jarnaii Singh Bindranwale que era contra as drogas. Valerá a pena explorar mais discos dele? Tudo neste CD de uma editora russa é manhoso, desde os temas que se intitulam de Hezbollah ao "artwork" pró-militarista típico dos merdinhas do Industrial Militar e Dark Folk. Ainda bem que Jones já deu o badagaio, deve ter morrido virgem e foi para o céu de Allah fazer das 72 prometidas para o suicida-bombista que cumpre o seu dever...

domingo, 16 de abril de 2017

Ghostalking


Dois carros param no vermelho no meio de um deserto (um semáforo no meio de nenhures já é uma grande cena).  Num dos carros o condutor é um israelita, no outro é um palestiniano. Ficam ali parados, à espera do verde, a ouvir uma versão trip-hop-arabesca de I Put a Spell on You pela maravilhosa Natacha Atlas, talvez a melhor versão de sempre desta emblemática música de Screamin' Jay Hawkins (1929-2000). Reparem como a letra ganha contornos irónicos perante a javardice territorial-política daquela zona: I put a spell on you / Because you're mine / You better stop the things you do / I tell ya I ain't lyin' I ain't lyin' / You know I can't stand it / You're runnin' around / (...) I can't stand it 'cause you put me down / Oh no I put a spell on you / Because you're mine  / You know I love you I love you I love you I love you anyhow / And I don't care if you don't want me / I'm yours right now (...) Esta era a melhor cena do filme Intervention Divine (2002) do palestiniano Elia Sulelman.
Não sei porque raios só gravei metade da banda sonora original, em 2003 (?), para uma k7, toda ela é uma maravilha, ora mostrando alguns clássicos da música árabe como Mohamed Abdel Wahab ou Nour El Houda, novas estrelas Pop como Amr Diab, indies libaneses como os Soapkills ou ainda produtores electrónicos como Amon Tobin, Mirwais ou Marc Collin. Esta grande miscelânea de velho e moderno é uma joia. Compra-se isto nos dias de hoje por 3 euros, vale bem a pena...

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Intermezzo


Music from Saharan Cellphones (Sahel Sounds; 2011) é um LP (originalmente editado em k7) que compila a múica mais popular que se ouvia em 2010 no deserto do Saara através da transferência de ficheiros via Bluetooh dos telemóveis... Já quando o autor Bruno Borges foi à Mauritânia (creio...) tinha-me contado que não encontrou nem k7s nem CD-Rs das músicas regionais, como se esperava para quem pensar por exemplo na Awesome Tapes of Africa. Invés disso, era preciso ter uma pen USB para os locais colocassem músicas nela. Uma sofisticação tecnológica inesperada sem dúvida. Voltando à compilação, uns gringos de Portland, andaram pelo Saara, gamaram essas músicas e fizeram a tal k7. Mais tarde depois de localizar os compositores saiu o LP, supostamente pagando os royalties aos seus autores. Alguns deles aliás que se transformaram em stars do circuito "world music" como Mdou Moctar ou repetentes para outras colectâneas da Sahel como Kaba Blon. Além do "Blues tuaregue" que já há muitos anos tem sido difundido pelos Tinariwen à escala global, encontra-se Hip Hop e Techno do Mali - a lembrar o kuduro - mostrando de quem anda de camelo no meio do deserto sabe curtir mais a vida do que os coninhas ocidentais que ouvem Arcade Fire e outras bandinhas indie da tanga.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Kebab de fusão

Os Trans-global Underground são uma instituição de como a música podia trazer a paz mundial se isso implicasse apenas fazer uma amalgama de sons de um bocado de todo o planeta. A prova é que o pouco que os TGU apanham em Londres, nas lojas de indianos ou de exilados do médio-oriente ou de África, ao qual juntam os "big beats" da música ocidental mostra que resulta e podiamos ser uma verdadeira Aldeia Global, feliz e em festa. Yes Boss Food Corner (Ark 21; 2001) é o sexto disco que mantendo o pézinho de dança de sempre não avança muito mais naquilo que eles projectaram quando começaram a sua carreira fonográfica em 1993. Falta a presença da fantástica cantora Natacha Atlas para que o disco tenha uma aura emblemática.
Desconfio que nesta altura do campeonato (seja em 2001 seja em 2016) algures na Índia ou no Egipto alguém já fez melhor do que isto. Mas como disse logo início, os TGU são tão importantes como a ONU, para o melhor e para o pior, com ou sem apoio da Coca-Cola.

E se o TGU são uma instituição, Nusrat Fateh Ali Khan (1948-97) é uma Lenda. A sua voz e música lembram banhos no mar atlântico, aquele ir e vir de ondas potentes que vão contra o corpo de um gajo, naquela luta inútil e imersa na Natureza, em que só quem se banha perde energia, o mar ganha sempre. Resta depois descansar satisfeito na toalha no meio da areia com a sensação que se foi espancado mas que soube bem! É o que sinto sempre que oiço Body and Soul (Real World; 2001) e deve ser a única vez que fico feliz com a capacidade do CD ultrapassarem o tempo do disco vinil LP. Se isto foi uma das razões porque a música tornou-se balofa nos anos 90 e seguintes com o pessoal a encher chouriços nos discos só porque podiam ir aos 80 minutos, aqui o excesso sabe bem, preenche a Alma com o sufismo e a anca com Qawwali. E por escrever sobre excessos, foi a obesidade mórbida desta voz paquistanesa que lhe causou a morte demasiado cedo. Mesmo morto ele continua a bater-nos...

Crisis (Pi; 2015) de Amir ElSaffar / Two Rivers Ensemble é um grande disco para quem não gosta de Jazz ou de música "árabe" - ou "maqams" iraquianos em especial. Os dois géneros fundem-se em perfeição total, sob as composições e improvisações deste trompetista norte-americano (de pai iraquiano e mãe americana) num formação de sexteto. Disco e temas dedicados à Primavera Árabe, tem tanto de dramático como de exaltação física, de fuga emocional como de conservador ao mesmo tempo. Quem não gosta de Jazz nem reparará que ele está lá. Quem não gosta de "world music" achará que está aqui algo diferente e que se encontra até em algumas ideias dos Secret Chiefs 3 mas muito sinceramente, quem é que não gosta de música árabe?

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Arabic Punk não é para ímpios

Escrevi esta resenha em Agosto do ano passado, bem que desejei ver estes tipos no Milhões de Festa mas foi cancelado e hoje, finalmente, vai haver festa na ZDB! Ah no Porto, quem fez o cartaz do concerto foi o Dr. Uránio (o que fez as capas dos últimos três Mesinha de Cabeceira!).



Há quem diga que a música árabe só deve ser apreciada ao vivo. Talvez por isso muita dela editada em disco são gravações ao vivo. Topa-se a emoção e pujança de uma performance em directo dos deuses Om Kalsoum ou Farid Al-Trash com o público a arrotar postas de pescada, a puxar pelos artistas, a participar na catarse colectiva,... Mas também percebe-se isso em E.E.K. e o LP Live At The Cairo High Cinema Institute (Nashazphone; 2014), projecto de Islam Chipsy que toca sintetizador e de mais dois bateristas, embora a barulheira é tal que mal se ouve o público. O que se ouve é um power-trio (e que power, grande Alá!) que improvisa em palco arabic-punk! Punk que já não se vê no Ocidente, doideira a lembrar os ritmos "Electro" de Omar Souleyman ou Jibóia mas em orgia total de festa e improvisação que a gravação de 2011 capta numa perfeição "lo-fi".
Estes egípcios são loucos!
Por acaso, este sistema "festa ao vivo que se lixe tudo e todos" dá no que pensar quando se vê ao vivo os Flamingods (das realmente boas surpresas do Milhões 2014) e depois quando se ouve o seu LP Sun (Art Is Hard Records; 2013)... pois é, deviam era ter gravado ao vivo!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

My kind of people...


Estes manos do Estado Islâmico são tudo menos fixes mas admito sentir uma ponta de admiração em terem explodido com um estádio olímpico no Iraque. Se há algo que merece uma bomba nos cornos são os templos do Desporto. Obrigado por me alegrarem a Segunda-Feira!

terça-feira, 10 de março de 2015

Algaraviada do papagaio

No Monstre andava por lá à procura de um WC (não, não do livro mas realmente de uma casa-de-banho) quando a porta que me parecia com as instalações sanitárias era afinal uma discoteca (não, não uma "dancetaria" mas onde se vendem discos, sabem?). Um sítio que já é mítico pelos vistos, a Urgence Disk que era um sonho de sítio para quem gosta de Industrial e afins. Os tipos da loja foram impecáveis e ficaram logo com três cópias do vinilo dos Çuta Kebab & Party para espalhar por lá! Conversa puxa conversa e foi parar ao catálogo da Barraka El Farnatshi, editora suiça de "arabtronics".
Trouxe o terceiro disco dos Ahlam (sonho), Les Riam (1997) que significa "miúdas" e talvez por isso que eles tenham abandonado os temas sociais que caracterizavam os primeiros discos. Para mim, dá igual sem domínio da linguagem marroquina, restam as linguagens musicais alinhadas ao Techno / Hip Hop / Dub - com algumas passagens pelo Reggae - sem nenhuma inspiração especial. Soa bem mas falta sair do artifício. A capa diz tudo porque roça o mau gosto ácido-digital misturado com universos New Age, ainda assim o que falta mesmo é o ácido na música. A editora é de pesquisar por mais discos de outros projectos, sem dúvida!

Já tinha avisado aqui do meu interesse pelo Maurice Louca, um egípcio que faz manipulação electrónica sobre música árabe mas ao contrário de Çuta Kebab & Party e outros projectos electrónicos do tipo, Louca tem uma série de músicos a quem recebe peças originais para trabalhar. Salute the Parrot (Nawa; 2014) é um álbum simples que nem chega aos 40 minutos mas é viciante de se colocar em "loop" eterno a qualquer hora do dia. A lógica de "remix" está incrustado nos beats e na mesa de mistura que vão alterando, adicionando ou retirando elementos sonoros e que devido aos padrões melódicos e rítmicos da música árabe (o maqam), facilmente consegue-se efeitos psicadélicos e de beleza narcotizante. Técnicas nada novas se pensarmos em My life in the bush of ghost de Eno e Byrne, passando ainda pelo poderoso tema industrial Hizbollah dos Ministry ou as centenas de músicas de Muslimgauze. Não sei se em relação ao último isso acontecia mas nos primeiros os músicos usaram cantares muçulmanos sem pensar (ou saber?) o que estavam a usar (?), talvez por isso que a edição de My life (...) tem temas retirados após a pressão de associações muçulmanas que acharam mal usar textos "divinos" do Corão para fazer música pueril - vulgo "Pop". Com Louca e o seu "papagaio" ou também os Ahlam (ou já agora os Checkpoint 303!) isso não deverá ser um problema porque usam também instrumentos e vocalizações originais, embora claro que não percebemos peva, talvez até haja "esquerda" nestas letras dado às "primaveras orientais" mas não sei! Só sei que com Corão ou com Esquerda Unida Jamais Será Vencida soa sempre bem todos estes arabescos!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Laurence Yadi & Nicolas Cantillon : "Multi Styles FuittFuitt" (Bulbooks; 2014)


Acho que foi a única que trouxe da Monstre - ou melhor, a única coisa que quis mesmo trazer... Trata-se de um guia prático para dançar FuittFuitt, uma dança contemporânea desenvolvida pela Compagnie 7273 - que ainda no mês passado actuou em Portugal. O livro foi desenhado, editado e publicado pelo suiço Nicolas Robel - quem é que se lembra da exposição na CHILI! em 2009?
Esta dança é uma espécie de "punkice" na cena, liberta de formalismos e dogmatismos desta área performativa, conseguindo fazer um ponto de encontro de ideias tão díspares como citar Bruce Lee ou referir a Mohamed Matar mas é sobretudo no "Tarab" em que se focam. Esse êxtase árabe que não há palavra ocidental para a traduzir e que permite uma liberdade de movimentos e de conceitos que não se deve encontrar em mais lado nenhum... Robel fez um excelente trabalho, daqueles que merecem ser copiados por outros de tão exemplar que é, em que mistura fotografia, desenho, infografia, (a técnica de) flipbook e texto num livrinho de simples consulta que até vai ao requinte de fazer padrões árabes no corte dianteiro (o lado oposto da lombada, ou seja todas as folhas do miolo que fazem também uma "lombada") para surpresa dos seus utilizadores. Duvido que olhe para este livro para começar a dançar, mas para roubar boas ideias editoriais é quase certo que voltarei a ele...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Azeite do Médio-Oriente



Dois CDs de música dos desertos... balelas! São mais urbanos do que sei-lá-o quê...

O primeiro é um CD-R que comprei na Feira Medieval em Lamego (não me perguntem o que estava lá a fazer, ok?) e que o bacano da tenda queria 7 euros por ele quando se topava que a caixa era aquela de CD-single, a capa era uma impressão manhosa, impossível de saber o nome dos artistas e claro que via-se que era um CD-R com uma estampa manhosa para parecer oficial. O que percebi mais tarde é que mazika.com é um portal livre de música árabe - seja lá o que isso quer dizer... Saiu a sorte grande apesar de tudo! Ah, e a negociação ficou pelos quatro euros que justificam as 18 faixas de Pop de arabescos, algumas com House tão falsificado como a rodela auditiva,... uma festa mesmo!!! Provavelmente deve ser tudo do Líbano mas não tenho a certeza. Mais certo é que isto deve ser o Pimba árabe mas soa bem e não sei o que eles cantam. Mas só assim é que se consegue curtir Pop, não? Nos anos 80 não percebia o inglês que os artistas Pop cantavam e era bem mais feliz do que mais tarde quando entendi as pobrezas líricas que cantarolavam. Mais estranho é ver os vídeos no youtube, tal como os clips Bollywood nos restaurantes indianos, em que pouco a pouco o corpo feminino também é explorado como no Ocidente, os gajos parecem uns broncos como qualquer norte-americano, as bundas saltitam, etc...O mundo inteiro transforma-se numa MTV gigante!

O segundo CD é um digipack (uau!) de música turca fazendo versões de monstros do Pop/Rock Ocidental: Sting, R.E.M., Madonna, Michael Jackson, Black Eyed Peas e ainda clássicos como It's Raining Men e Can't Take My Eyes Off You... Ouvir na rua o Smoke in the Water (dos Deep Purple claro) nesta versão é qualquer coisa! Foi o que me aconteceu em Badajoz em Setembro, na Noite Branca / Noite dos Fanzines. Fui a correr ao DJ de serviço perguntar o que era, resposta: Dolapdere Big Gang... Comprando o disco no discogs esperava uma bomba mas infelizmente a banda não tem génio a fazer as versões pois respeita ad nauseam as vocalizações dos temas originais, com a desvantagem que elas não tem a graça de Stipe ou Jackson, se quisermos ficar só pelos Michaels. São quase uma hora de "Ídolos" com uma orquestra de ritmos e texturas turcas que dão uma cor exótica a temas insuportáveis Pop - os bons momentos são quando os temas são bons de origem como o referido Deep Purple ou os Depeche Mode ou o Billie Jean. Ao menos que cantassem em turco estas músicas tal como Rachid Taha fez com os Clash! Sempre teria mais vida! Local Strangers (Yakartop; 2006) chega a ser tão plástico como a capa sugere com a sua bailarina desenhada a estilo Manga. Tal como foram feitos muitos edíficios à pressa no Algarve também esta Aldeia Global prefere o betão invés de materiais tradicionais.

PS
Pimba mesmo deve ser isto e que é ainda melhor que o Pop sofisticado dos CDs. Azeite do bom!

sábado, 8 de março de 2014

Vou tentar dizer mal deste álbum...



Secret Chiefs 3 : Book of Souls : Folio A (Web of Mimicry; 2013)

Queria escrever que este álbum não é tão bom como os outros... E que aquela ideia do Spruance dividir os SC3 em outras 6 ou 7 sub-bandas não resulta porque cada vez mais elas soam iguais entre si - comparando com o primeiro volume desta trilogia, Book of Horizons (Web of Mimicry; 2004), quando ele começou esse conceito, as bandas tinham muito mais definição... Queria também escrever que numa altura que ninguém compra CDs, o "artwork" deste disco é feio e que se o mentor deste projecto diz que gosta de esoterismo, a julgar pela informação que coloca no livrinho do CD parece-me pouco profundo e até naíve. Enfim, o gajo é norte-americano, como poderia fazer algo esotérico num país que abateu os índios e vive pró dollar? Mas aí está, é norte-americano, sabe entreter e o disco just grows on you!
Rendição!
Como viram, tentei rejeitar o disco mas de audição em audição, os poucos 39 minutos levam a repetições infinitas e cada vez mais o álbum vai-se mostrando bonito. As fronteiras estão expostas daquilo que é SC3, ou seja, música oriental a rodos, o habitual Surf Death Metal, banda sonora de "gialo" existente ou não (por acaso até faz uma versão de um tema do Halloween de Carpenter), colagens cabotinas e canções Pop vintage - surpresa Mike Patton aparece neste disco em registo Mondo Cane, ou seja, volta a trabalhar com Spruance depois de anos de arrufos, numa versão de uma fantástica canção de Jacques Brel.
Nada de novo no horizonte, trata-se do aperfeiçoamento das fórmulas do som da banda. Os fãs até se queixam que muitos destes temas já sairam em singles nos últimos 9 anos entre os álbuns de originais desta trilogia que já agora chama-se Book of Truth. Ainda assim, apesar disto tudo, acreditem!, continua a ser da música mais excitante do planeta para se ouvir como novidade editorial. Também se pode dizer que o disco que fizeram com composições de John Zorn será a perfeição das fusões estílisticas dos SC3, só que este disco continua a ser bom, ponto.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Montijo: entre mosquitos, merda e cachaça

As férias acabaram na F.E.I.A., uma grande iniciativa do camarada David Campos, autor do livro Kassumai, e que vai na terceira edição - adoro dizer "terça feia"... Mas o evento que tornou-se uma seca a dada altura, e é incrível que bastou uma banda para estragar tudo.

O Montijo é um retrato deprimente do país real que tanto percorri nestas férias, do Alentejo aos Açores, das Beiras ao Norte,...  A sua única diferença é que fica ao lado de Lisboa, separado pelo rio dando-lhe um colorido suburbano mal-parido. Mal-parido porque demora-se meia-hora para chegar à outra margem de barco, e depois de se lá chegar ainda é preciso apanhar um autocarro para o centro! Os horários são rídiculos (quase não há barcos se formos bem a ver!) e um bilhete é caro, não esquecendo que ainda temos de pagar mais um, o de autocarro! Tudo isto cria uma terra em que apesar de ter um pé à cultura urbana acaba por meté-lo na água graças a este isolamento estranho.

A terrinha também é nula em pontos turísticos o que faz que não haja nada atraente ir lá visitar a não ser a barbárie das touradas ou a discoteca xunga Kaxaça cujo ex-libris é ter o DJ Pete Tha Zouk a altos berros a ouvir-se por toda a cidade. Pergunto-me como as pessoas toleram esta barulheira à noite mas considerando que nesta cidade também cheira a merda de porco de vez enquando... A FEIA como já perceberam é um oásis cultural, ou antes, uma pérola a porcos! Caramba, até o Barreiro que tinha as descargas industrais brutais deixou de ser uma cidade agreste, aliás muito antes pelo contrário, a julgar pelas exposições de ilustração ou os festivais de música que têm lá acontecido - o Out.Fest, por exemplo!

Voltando à coisa, a FEIA foi porreira mas foi uma grande seca porque a dada altura uma banda local - os Satguru - armaram-se em super-stars, fazendo aquele clássico idiota dos concertos, ou seja, o que 'tá marcado de horas para começar a tocar é muito pouco importante porque a banda foi jantar! Chegaram tarde, tocaram balofadas dignas de Supertramp ou Dave Mathews Band, e graças a isso queimaram tempo de actuação da outra banda (os simpáticos mas mediocres garageiros Invaders from Verdelha) e do casal fixe de DJs. Creio que este é o tal espírito de querer ser urbano sem se viver a urbanidade, onde humildade, DIY e cooperação são facilmente trocados pelo espírito agrário e ruralidade.

Apesar da canseira de aturar isto e outros cromos, ao nível de música adquirida neste fim-de-semana foi bastante produtivo - muito graças a essa confusão mental dos próprios habitantes da cidade. Por exemplo, aos Sábados de manhã (acho que não são todos - é ao segundo portanto?) há uma "feira da ladra" no centro da cidade, que não é exploratória como a de Lisboa nem lixo-infinito como a Vandoma (Porto). Por isso, sem querer pode-se arranjar curiosidades a preços parvos. Por exemplo, comprei três CDs por um euro apenas! Entre eles o clássico The Bleeeding (Metal Blade; 1994) dos Cannibal Corpse que já tinha mas sem capa ou caixa... E quando mundo não podia ser mais estranho, aparece o Godkiller com The End of the world (Wounded Love; 1998), um CD de um metaleiro de Monaco!? Yup! Deve ser o único na cidade de aristocracia paneleira e o som soa a isso mesmo, Goth Metal, pós-Black Metal, Doom e uso de electrónica porque (mais uma vez) deve ser o único metaleiro da cidade. O CD entretanto vale bastante mais que um terço de um Euro, aliás, 100 vezes mais. A música é que não!
E ainda neste molho, um CD duplo de Gabber, ou se preferirem o Techno prós metaleiros se a primeira abordagem ainda não fosse tão má. Industrial Strengh (Earache; 1995) é uma compilação feita por Leenie Dee para a editora que editava o Metal mais extremo do planeta (Napalm Death, Godflesh,...), longe do que viria a ser isto (clicar link) embora o DJ Skinhead já samplava Pantera com as batidas bestas Techno. Chato passado um bocado, não admira que esta música tenha mesmo de ser consumida com drogas.

Ao nível do vinil - a um euro cada - arranjei um LP dos Traffic ao vivo, Welcome to the canteen (Island / ed. pt Dacapo; 1971) que só têm piada porque o nome da banda não aparece mas sim os dos elementos da banda, e um dos concertos foi de um "benefit" à revista Oz, publicação underground que na altura teve sérios problemas com a Censura na terrinha puritana britânica. Rock psicadélico simpático dos anos 70 que não aquece nem arrefece. "São os Led Zeppelin?" perguntou a minha mulher. Eu perdou-lhe a simples heresia porque ela é do Montijo... E até porque estou demasiado feliz por ter encontrado este disco:



You Shouldn't-Nuf Bit Fish (Capitol; 1983) de George Clinton é o que se pode esperar da cabeça por detrás dos Parliament / Funkadelic: P-Funk a rodos, Rock no meio e algumas bocas ao Rap ao lado para acompanhar os tempos... Mas o que me fez mesmo comprar isto foi a capa de Pedro Bell, grafista das bandas citadas e que criou um imaginário Black urbano dos EUA desde os anos 70. O disco até podia estar todo riscado (por acaso não!) e ser uma treta (é um bocado) que ainda assim levaria esta capa cheia de informação, cor e BDs maradas!

A seguir vamos para outro de psicopatologia montejinense através da aquisição do melhor do lote: Brian Eno e David Byrne e a sua obra-prima: My life in the bush of ghost (Sire; 1981). Disco de catalogação difícil ainda nos dias de hoje, em que os dois cromos juntaram peças encontradas - samples, na altura nem se dizia desta forma aposto - e tocaram por cima criando uma ponte entre o Funk branco, world music e electrónica - a pensar que o tema Hizbollah dos Ministry era algo de inédito, quando o que não falta aqui são arabescos sacados com instrumentações dos cromos por cima... Já tinha ouvido falar muito deste disco, da última vez, foi o autor de BD Diniz Conefrey para explicar como foi a sua influência para fazer a BD de colagens Avés Marias Rap (Lx Comics #2, 1990). Vale todo o dinheiro do mundo!


Mas perco-me a falar de música... O disco foi comprado na banca do Hey Joe! que estava lá na FEIA. O que dizer do Hey Joe? Era um bar de metaleiros que o dono expulsou passando sempre os mesmos temas dos Stone Roses e dos Sonic Youth. Pretendia nesta acção de terorismo sonoro ser um bar com loja de discos e livros mas passado poucos meses já não se percebia o que era os discos do dono ou os que eram para venda. A degradação do negócio tornou-se tal que pelos vistos o dono quis despachar tudo a 5 euros cada vinil. Ah! E os metaleiros voltaram lá a beber copos e muitas vezes como DJs... Aproveitei para comprar também um dos Nitzer Ebb já agora, o Belief (Mute; 1989), segundo LP desta banda britânica de EBM que varia entre temas fortes, excelentes para pista de dança, e temas a roçar a foleirada. Não têm os grandes temas da banda que acho que serão do terceiro disco mas percebe-se que andam a dar passos para lá!


 Por fim, o David foi simpático em oferecer-me um disco, a versão limitada digipack do 3 (Roadrunner; 2002) dos Soulfly - a propósito, podem ler uma BD minha sobre o primeiro concerto da banda no livro Talento Local. Deve ser um dos discos de Metal mais azeiteiros de sempre para quem já fez dos discos mais fixes de sempre - quando Max Cavalera era o vocalista dos Sepultura, claro!
Neste disco usa todos os clichés que fizeram a fase "étnica" dos Sepultura, neste caso umas batucadas sem piada com Riffs de guitarrada Nu Metal por cima. Uma porra. Onde o CD começa a ser bom, e porque é um CD com extras, é a partir do final do disco "normal" com os temas de Soufly III (instrumental psicadélico porreiro), Sangue de Bairro (versão de Chico Science & Nação Zumbi) e Zumbi (outro instrumental a lembrar quase o minimalismo de Terry Riley)... Ou seja as últimas três faixas do disco, seguido pelos extras I Will Refuse (versão dos Pailhead, banda punk-industrial com elementos de Ministry e o emblemático Ian Mackaye) e Under the Sun (outra versão! dos mestres Black Sabbath).
É incrível como um tipo que pregava o chifrudo e assuntos espirituais (!) acabou por se transformar num merdas conservador do tipo mais básico: Deus (o álbum é dedicado a esse ser abstracto), Família (todo o "espiritismo" é pespectivado segundo as frustrações das mortes e sofrimentos da sua família, e para não dizer que o actual baterista da banda é o seu filho Zyon) e Pátria (Max vive nos EUA e dedica um minuto de silêncio às vítimas do 11 de Setembro).
A evitar portanto, talvez seja por isso que em todas as mesas da feira da ladra do Montijo se encontrava um disco da banda, aliás, na FEIA só o David tinha duas versões nem ele sabia como... Ainda bem que me deu a escolher e optei pela versão especial! Os metaleiros não são nada parvos em despacharem-se disto.

domingo, 19 de maio de 2013

Uma noite, faltam mil!





Não, o Festival Islâmico de Mértola não é uma merda de uma feira medieval! Não é um carnaval, é uma celebração da cultura islámica deixada pela península Ibérica e é mesmo fixe! E sim pode-se beber álcool!
A vila (aldeia?) de Mértola é linda e mais linda fica porque se transforma num "souk" mas sem a chatice das javardices dos países muçulmanos - sim, neste caso admito que prefiro uma fabricação ocidental do mundo árabe do que ir à coisa verdadeira. Sou europeu numa europa decadente, é certo, mas gosto da minha "zona de conforto" e não me apetece apanhar com a ignorância dos árabes, para isso, já chega todos lisboetas do dia-a-dia: os "boys" do bairro, os vizinhos imbecis, os velhos fascistas, os salazarentos, os pindéricos, os porcos (há de vários tipos, dos que cospem no chão aos que dão prémios a si mesmos), os fanáticos da bola (que é toda a gente até as gajas nos dias que correm) enfim, um manancial de merda urbana que somos obrigados a viver com, quanto mais ir para um país que não se percebe a língua e também replica tudo isto mas de outras forma?
Por isso, viva o artesanato inútil que nunca irei comprar para casa, as roupas e afins, os produtos de higiene que nunca liguei pevas - embora goste do shampoo finlandês e da sauna! - e as bugigangas que não interessam a ninguém. Tenho prazer em ver toda estas futilidades apenas para criar uma ilusão temporária de exotismo que nunca irei pôr pé... mas claro, queijos alentejanos e os doces marroquinos não há forma de resistir sem encher a pança e o saco destas iguarias!
À tarde e de noite há concertos, workshops e conferências. Os concertos no Cine-Teatro Marques Duque esgotam ficando centenas de pessoas cá fora à toa como um ímpio embriagado no deserto - se cobrassem um euro isto já não aconteceria, certo? Por isso foi mesmo uma frustração estar a mongar pela aldeia por ter perdido os concertos da tarde. Conferência vi uma, sobre "agricultura e capitalismo" de um alucinado espanhol. Algumas pespectivas que referiu eram interessante, outras fossem já conhecidas, embora seja sempre bom relembrar que a Monsanto quer foder o planeta!
Concertos à noite custavam 3 euros por noite - embora isso não fosse referido no programa oficial do festival - e na noite de Sábado houve Mad Sheer Khan e Bombino. O primeiro era um velho com rastas francês de origens argelinas numa dilruba quitada e tinha uma parceira mais novinha com ar de francesinha que tocava um harmónio, juntos fazem uma espécie de Rock psicadélico com batidas Rave e Hip Hop, o poderia ser interessante se as batidas não fossem convencionais e muito chatas. Fiquei com a sensação de ver um velho chéché que começava todas as músicas como versões do Jimmy Hendrix para javardá-las mais tarde, como uma fraude de Aldeia Global para meter no mesmo buraco dos horríveis Gotan Project e afins. O segundo era bem melhor embora não tenha assim tanta admiração pelo "blues do deserto" que anda por aí... E depois do Mad Sheer cansar-nos, já não dava para aguentar a calmaria do trio que usava curiosamente instrumentos tradicionais... do Rock! Sim falo de baixo, guitarra e bateria! É curiosa estas trocas de instrumentos, os ocidentais a quererem pegar nos instrumentos "exóticos" e os "outros" a pegarem nas vulgaridades do Ocidente. Assim sendo, só lá faltava Çuta Kebab & Party e Jibóia. agora só daqui a dois anos!

terça-feira, 14 de maio de 2013

O disco mais fodido de 1980 e o disco mais cool de 1981



Yello : Solid Pleasures (1980) + Claro que si (1981)
(Ralph / Vertigo)

O título é exagerado como é óbvio, em 1980 deve ter havido discos mais fodidos e discos mais "cool" em 1981... O meu interesse e fascínio por Yello começou pelo Claro que si comprado na Feira da Ladra nos inícios dos anos 90, deles conhecia o vídeo-clip do tema The Race (de 1988) e pouco mais. O vídeo e o som eram extravagantes para quem estava condicionado aos programas de TV como o Top + nos anos 80 em Portugal. Já ter passado não sei aonde na TV e não me esquecer deles (pudera!) foi uma sorte. Apesar de nos anos 90 querer afastar-me do Pop "mainstream" à descoberta da "música alternativa" tinha curiosidade na banda e comprei o disco por 500 paus, hoje, 2,5 euros mas que ainda era coisa cara para um disco em segunda mão na altura. Rendeu porque é um dos meus discos favoritos de sempre.
Começa com Daily Disco e tal como quase tudo dos Yello parece errado e tosco apesar dos grandes padrões de produção sonora - Boris Blank é conhecido por ser um picuínhas nos sons que produz - mas o "disco" que tocam não tem a "fiesta" dos Boney M nem coisa que se pareça. Sobretudo não tem uma fantasia escapista, os temas parecem que foram feitos por pessoas deprimidas sabendo que o Prozac só irá aparecer na década seguinte - e a essa espera é dolorosamente eterna! Esta é uma hipótese, a outra é que soa a boémios blasés - uma forte hipótese, porque se Yello não é "working class heroes" também não é "teeny bopper", o milionário vocalista Boris Meier entrou na banda já com uns 30 anos. Na altura levei um duche de água fria porque Claro que si não era uma electro-fanfarra como conhecia do tema The Race. Em compensação conheci uma música cheia de ambientes noturnos, cinematográficos e cínicos, que mudam de camisa de faixa em faixa, passando pelo Reggae falsificado de Ballet Mecanique, ao igualmente falsificado (?) Cuad El Habib - um tema Dark Synth com letra e voz em árabe - voltando ao Disco para camionista que é The Lorry e que até para não haver dúvidas inclui um solo xunga de guitarra à ZZ Top. Depois metem-se na selva New Age de Homer Hossa; e por fim, acabam com Pinball Cha Cha que dá a pista do que os Yello seriam mais conhecidos no futuro, ou seja, andróides dandys com suor latino-americano, caricaturas de machismo e de ar Retro.
Recentemente, numa feira de discos na Matéria Prima (do Porto) encontrei o Solid Pleasure, primeiro álbum do grupo que comprei a 6 euros (roubalheira, a edição é uma porcaria!) e foi novamante um choque! Claro que primeiro estranha-se e depois... Repete algumas coisas do Claro que si, do Disco tosco (Downtown Samba) ao tal "Reggae falsificado" (Rock Stop), só fica de fora é o arabesco. O que entra é que é inesperado, nomeadamente os temas Assistant's cry e Stanztrigger, o primeiro parece Test Dept se estes tivessem previsto os "call-centers".  Os temas imediatamente anteriores, Magneto e Massage, só ajudam para criar esse ambiente Industrial, tanto que a primeira vez pensava que eram um tema só. Stanztrigger podia ser sem querer dos Throbbing Gristle se estes fossem mais técnicos. Acaba com Bananas to the beat parecido ao que viria ser um ano depois a conclusão de Claro que si com o Pinball Cha Cha.
Não esperava esta aproximação Industrial nos Yello, habituado a vê-los como flâneurs pós-modernos ou uma raça pós-colonialista em extinção mas pesquisando vê-se que estes temas em específico tinham como créditos Carlos Peron, que abandonaria o projecto e fará bandas sonoras Dark fatelas e EBM sem piada. Peron foi com Blank o fundador dos Yello. Meier entrou mais tarde para voz / letras / videos fazendo deles um trio - e não o duo que estamos habituados a ver. Tem piada que o tipo com o nome latino pelos vistos queria ser um europeu chato do pós-industrial enquanto os que tem nome mais germânicos queriam era libertar a franga.
Seja como for, são dois álbuns fabulosos, que obrigam a ouvir como deve ser tão cheio de histórias e universos em cada faixa, curiosamente são discos cada um com menos de 40 minutos! É incrivel como as bandas até há mais de 20 anos atrás eram capazes de fazer discos com vários tipos de música - ex.: Kashmir dos Led Zep, qualquer tema dos Mano Negra, os três primeiros discos de Ministry com Paul Barker, os Mão Morta, Beastie Boys, Talking Heads, etc, etc, etc,... Nos dias de hoje, as bandas fazem discos em que tocam o mesmo tema vezes o número de faixas do disco. Quem explora um nicho de mercado, seja Punk seja EBM seja Indie, tem de trabalhar como robots para os círcuitos comerciais que há em cada um desses nichos, que geralmente são completamente conservadores - se encontrarem um gótico que curta ska será de admirar, por exemplo. Ouvir Yello no século XXI pode parecer um bocado triste mas a verdade é que ninguém é capaz de fazer mais discos assim - e ao que parece, nem eles próprios que foram envelhecendo senilmente. Entre Yello ou uma merda indescritível como os Vampire Weekend mais vale ouvir uns velhotes, não por sentimentos de nostalgia (não os ouvi na altura e na realidade podia o ter feito porque era adolescente nos anos 80) ou por ser vintage (a idioteira do século XXI). Vale apenas pela qualidade comprovada, no fundo, é a mesma coisa como ter de escolher entre um livro do Graham Greene e um Peixoto que ande prái...