Para provar a inabalável certeza deste texto vamos lá ver, estive recentemente na Feira de Metal de Almada e trouxe uma mão cheia de CDs, compras aleatórias de gajo que ainda curte discos a 10 paus ou mais.
Tomb of Finland adquiri pelo nome parvo associado ao grande fazedor e ícone de BD gay Tom of Finland, só por isso valia a pena pegar nele se Frozen Death (Target; 2018) não fosse dos discos mais chatos de Doom/Death do mundo, e de sempre! São finlandeses gordos, bem na vida sem nada para dizer a não ser banalidades, curtem a Morte? Olham suicidem-se agora em Abril que é a altura mais popular para essas acções na Escandinávia. Ainda por cima tive de esperar uma eternidade para que o vendedor soubesse o preço desta merda, além que foi o mais caro do lote que trouxe e ainda ouvi a boca "isto é Doom com onda Death mas não é para Hipsters!". Ou o CD é uma grande merda ou eu sou uma grande merda de hipster, o que me estou bem a cagar porque sei que irei vender isto no discogs.com e recuperar o meu guito... E foi o que aconteceu, uma semana depois foi para um grego com falta de bom gosto!
Felizmente trouxe dois CDs de Beherit que deixam qualquer um K.O. Engram (KVLT; 2016) é de 2009 e é o mais purista na forma, ou seja Black Metal. Desta banda finlandesa que volta a ser banda e não projecto de um músico só. Vamos lá ver, Beherit faz parte da segunda geração de Black Metal, digna de rivalidade com os broncos noruegueses mas que rapidamente se desfez ficando Nuclear Holocausto (voz, guitarras e sintetizadores da banda e sim é o pseudónimo de um músico), dizia, Nuclear Holocausto ficou sozinho a criar mais dois discos electrónicos de má onda ambiental. Engram é puxado para os ouvidos virgens de BM, Aqui e acolá ouve-se uns samplers de Ambient a completar a coisa, mas mostra de quem sabe sabe e que não é preciso mais gente neste subgénero de música. Electric Doom Synthesis (KVLT; 2017) já é outro campeonato, é dos tais discos electrónicos de (Dark) Ambient, de 1996, e parece mesmo música feita para festa do Santo Cabrão, sobretudo impressiona por ser dinâmico na sua estrutura, pouco dado a repetições e drones tão na moda do século XXI. Lembra Throbbing Gristle que tinha feito algo 20 anos antes, tudo bem, mas um metaleiro é um metaleiro e vice-versa. Álbum impressionante que deve ter posto muita gente a pensar no futuro da música e na ninfa loura com maminhas à mostra do livrinho do CD - em LP deve ser melhor, claro!
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sexta-feira, 26 de abril de 2019
quinta-feira, 3 de maio de 2018
Arroto Dub e outros poemas
Quando é que um disco de música experimental não é chato?
1) Quando vamos a meio do disco e não damos por ele
2) Quando se ouve várias peças e há variedade q.b.
3) Quando há humor das peças (até o John Zorn sabe disso!)
O festival Avanto, de música electrónica experimental que acontecia no Kiasma, editada alguns CDs com os artistas que convidava, podia ser "brutistas" como o japonês KK Null ou "gender-bender" como o Terre Thaemlitz mas sobretudo não parecia ser chato. Porquê?
Porque os finlandeses gostam de se divertir mesmo ao ponto de não serem sérios como geralmente são este tipo de iniciativas. Kiitos.
segunda-feira, 26 de março de 2018
Janice Caiafa : "Movimento Punk na cidade : A invasão dos bandos sub" (Jorge Zahar; 1989)
O Punk sofre nas mãos da academia sempre que esta se lembra dele. Se não são livros com gráficos como vimos acontecer em Portugal recentemente e com prosa poética vinda do Rio de Janeiro. Pouco se aprende aqui, usam-se os nomes de sempre (Barthes, Baudrillard, Deleuze, Foucault, Freud, Guattari, Lyotard) para justificar o romance que a autora teve a dada altura com a comunidade Punk e os Coquetel Molotov, entre 1983 e 1984, sem que se perceba o que a autora quer explicar ou o que é esse "movimento" ou "anti-movimento". Intelectualismo bacoco e vazio, em que talvez na falta de informação na altura, mistura-se conceitos e géneros de música que ainda não tinham rótulos - considerar "positive" o som dos Bauhaus parece-me uma piada tanto em 2018 como em 1989, enfim...Interessante que pelo menos a autora apanhou a ligação ao Hardcore finlandês e em especial a Läjä dos Terveet Kädet. Há que fale que o Punk brasileiro veio de classes menos privilegeadas (ao contrário em Portugal que eram só meninos do papá) mas neste livro não dá entender isso, a não ser que, no Brasil, "subúrbio" signifique directamente "pobreza", o que não estarei certo de tal. Por falar em dinheiro, obrigado às BLX por não me terem feito gastar guito nesta perca de tempo.
domingo, 31 de dezembro de 2017
Suomis cubanos
Já sabia dos Força Macabra, banda Hardcore finlandesa que canta em português brasileiro sem saber a língua. Agora apanhei os El Septeto que são finlandeses a fazerem música cubana tradicional, mais verdadeira que os próprios cubanos. Que país fodido da cabeça... Que saiba só existe este CD: Somos El Septeto (Mipu; 1993). Para quem não tinha música para a festa de hoje... Bom Ano Novo!!
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
Suomis velhos
A recente visita do Tommi Musturi à Mundo Fantasma deu numa prenda catita: Chief (Svart; 2016), segundo disco dos Talmud Beach. A primeira audição irrita bastante, parece que fui parar a um LP dos Eagles of Death Metal com aquele Blues contemporâneo, "clean" e branquelas. Convenhamos, são os piores temas do disco, os temas mais ritmados e roqueiros. Eles próprios admitem que já são velhos demais para curtirem estas vidas loucas - e ainda só devem ter uns 40 e tal anos, finlandeses velhadas! Ainda por cima dizem isto quando um deles até toca nestes javardolas... Os temas mais calminhos são bem bons! Mais Folk que Blues, mais psicadélicos que presenciais, são músicas de Natal para estar a ouvir num jantar com amigos em casa a comer "crumble" ou com a gata a ronronar enquanto se lê um livro do tipo "coffe-table". Sim, música de quarentões calminhos... Kiitos Tommi!
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Suomi Ramp
Reza a lenda que o baterista desta banda está sempre a mudar, seja em disco seja ao vivo, só se mantêm os gajos das máquinas, o "k" e o "p". Soletrem lá: K X P, K-X-P, KXP... Foram uma bela de uma descoberta no Tremor estes finlandeses. Disfarçados em capuzes à druída (obrigado sunn0))) por teres massificado essa ideia) o trio lá tocou um Techno / Electro anacrónico mas com um pingo qualquer de magia que convence a mexer a anca. E mais estranho ainda, a ouvir intensamente em casa, em "repeat" até os dois CDs III part I (2015), III part II (2016) e o mini-LP The History of Techno (2014), todos da respeitável editora Svart.
The History of Techno será o discos mais sóbrio e direccionado de todos, há quase ausência de vozes e é muito contido. Se é para fazer um disco de dança, o objectivo é completo, isto poderá ser a Rave music depois da bomba. "A primeira parte" de III é o menos convincente a roçar algum azeite Electro-trólóró, anda aos trambolhões apesar de algumas boas faixas. Já "a segunda parte" talvez um bocado mais Pop e como tal orelhuda, atraente e viciante. Ou então, o disco consegue criar mais micro-universos de faixa em faixa de modo a criar uma viagem mais dramática e memorável. Ou então, é mesmo porque embirrei com este e não com o "primeiro". Analiticamente eles não serão muito diferentes entre eles, o que leva a achar o "segundo" melhor, realmente?
domingo, 26 de março de 2017
Arto Paasilinna : "As dez mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi" (Relógio D'Água; 2010)
O livro em português que me faltava deste escritor finlandês! Sempre naquela promoção de 5 paus na Feira do Livro de Lisboa. Parece-me que este é o livro que acusam Paasilinna de porco sexista porque mete um capitalista (um empresário é um capitalista?) a foder dez mulheres em 24 horas (!). Um proeza digna dos 12 trabalhos de Hércules e sendo um trabalho de 2001 de certeza que há aqui uma sátira ao Viagra - criado ou autorizado anos antes, em 1998. Nem é bem "foder foder", algumas mulheres que o inDUSTrial visita não acontece cópulas substituindo por alguma candura e amor. Elas ao saberem das demasiadas visitas do maroto SEXagenário vingam-se na sua segunda ronda de visitas que realiza nas festas de final de ano.Numa era P.C. é um livro que pode ser realmente mal entendido mas é estranho que mesmo que o velho Rauno seja um porcalhão (é um coche, admito) é ainda mais estranho as pessoas achem que as personagens de um escritor tenham de ser necessáriamente os seus avatares tout-court. Não poderá um escritor pôr-se na pele do lobo, sendo ou não ovelha? Fingir-se ser um cabrãozinho? Ou será inveja do público conservador terem de admitir que os velhos gostam de pinar e que tem as mesmas fantasias de predação sexual do rapazito cheio de vigor?
Este livro não é impressionante como o esqueleto do César Monteiro na cena de cama d'As Bodas de Deus porque Arto faz o de sempre com boa disposição, ou seja, mostrar o estado da situação da sociedade finlandesa. O leitmotiv pouco importa aqui mas realmente falta-lhe a extravagância dos excursionistas suicidas ou do protector anarquista da lebre. Por mais Viagra que tenha tomado para escrever este livro, ele saiu frouxo...
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Arto Paasilinna : "A Lebre de Vatanen" (Relógio D'Água; 2009)
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Arto Paasilinna : Um aprazível suicídio em grupo (Relógio D'Água; 2010)
Uma capa tão horrorosa em 2010 é mais escandalosa que a escrita deste finlandês em 1990 - realmente a Relógio D'Água pode ser uma grande editora mas deveria repensar a imagem gráfica!O suicídio pelos países nórdicos é uma catástrofe humana e não se deve brincar com isso mas Paasilinna brincou e com bastante estilo... Não é um livro pesado, na realidade está na linha de filmes "celebração da vida" - tipo Kusturika ou "o destino de Emélie" - em que se consegue prever o final - e que será nesse "fim do mundo" que é Sagres, daí a capa manhosa?
Tal como ler os romances gráficos de Jarno Latva-Nikkola ou os filmes de Aki Kaurismäki ou ainda saber de histórias da Finlândia (e eu sei um bom par delas desde 2002) encontramos uma linha comum nisto tudo e percebermos o que será um "Finlandês verdadeiro", e é fácil: são casmurros, deprimidos, moralistas e dados a um sentido de "non-sense" cujo estereótipo seria mais fácil de identificar com o "Sul". Este livro é uma polaróide daquela sociedade apesar da história começar com um militar reformado e um empresário falido a encontrarem-se por coincidência no mesmo estábulo para se suicidarem. Depois de desistirem de acabarem ali com as suas vidas, gozam o verão finlandês (diz-se que ninguém tira um finlandês do seu país nesta estação do ano) e decidem criar uma Sociedade de Suicidas Anónimas com o objectivo de se matarem em colectivo e com dignidade. Situações trágicas e cómicas sucedem-se de forma a viciar o leitor. Torna-se um bocado inconsequente tal como o "nosso" Saramago foi com As intermitências da Morte mas pelo menos Paasilinna é mais divertido, perfeito para as férias.
Ler sobre suicídio na época balnear? Why the fucking not? Na realidade este livro é um verdadeiro "fun fun fun in the Autobahn", um mórbido "road-movie" com excursionistas "kamikazes",... como não ler isto a assar bem de frente aos cancerosos raios solares?
Já agora, como o mercado livreiro em Portugal é uma selva de oportunidades, os livros de Paasilinna já se encontram a 5 euros na Feira do Livro. Valem isso!
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Pica-miolos
Eis uma k7 comprada em Angoulême, não uma qualquer porque sei lá o que eram as outras que andavam por lá... Um gajo joga pelo seguro, ora bem: 1) é da Finlândia, 2) da Lal Lal Lal e 3) do Roope Eronen disfarçado de Nuslux! Ah! e Custou 3 euros apenas! E o desenho é do Eronen! Impossível de falhar!E realmente, mesmo sendo música feita com sintetizadores (a grande panca da música finlandesa!) em modo de ensaio, há algo de catita nestas gravações de arquivos - a k7 chama-se Archives C (2013). Começa um bocado mal com um pica-miolos que mais parece um bébé-robot a gemer por bytes-de-leite mas depois uma inocência pateta de "drones" prolongam-se pela fita magnética como se estivessemos a ouvir uma música de jogo de computador para crianças. Lado B o ambiente muda, passamos para banda sonora de Carpenter. É música perfeita para guiar um carro enquanto chove a potes. Genial e simples como as BDs do autor!
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
#23 : Inverno
one comix collection about the WINTER (Inverno, in Portuguese) to comemorate 20 years of the zine Mesinha de Cabeceira created by Pedro Brito and Marcos Farrajota in1992
published by Chili Com Carne
edited by Marcos Farrajota
designed by Joana Pires
covers by José Feitor e Pedro Brito
500 copies, 352 A6 b/w pages ALL in ENGLISH
...
Antologia comemorativa dos 20 anos do zine Mesinha de Cabeceira, criado em 1992 por Pedro Brito e Marcos Farrajota.
Publicado pela Associação Chili Com Carne
Editado por Marcos Farrajota
Design por Joana Pires
capas: José Feitor e Pedro Brito
Foram impressos 500 exemplares, são 352 páginas A6 a preto e branco. todas as BDs foram redigidas em inglês.
Com trabalhos de / comix by João Chambel, Daniel Lopes, Sílvia Rodrigues, Afonso Ferreira, Rafael Gouveia, Sara Gomes & André Coelho, José Smith Vargas, Bruno Borges, João Maio Pinto, Silas , Stevz (Brazil), Martin López Lam (Peru/ Spain), Lucas Almeida, Dice Industries (Germany), Uganda Lebre, Filipe Abranches, Tea Tauriainen (Finland), João Fazenda and Zé Burnay.
Apoios / support: Instituto Português do Desporto e Juventude e Trienal Desenho 2012
BUY BUY BUY @ chilicomcarne.com/shop
Lançamento na exposição 20 anos do Mesinha de Cabeceira, 25 de Outubro, às 19h, na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, Lisboa.
To be released 25th October at the exhibition "20 years of Mesinha de Cabeceira" at Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, Lisbon.
Antes de apagar a luz...
Não vou dizer que 20 anos passam rápido - embora seja verdade quando se ultrapassa a barreira dos 30 - como também não vou dizer que tudo mudou desde do dia 22 de Outubro de 1992 quando eu e o Pedro Brito lançamos o número zero do Mesinha de Cabeceira.
Se nesse ano, o MdC era uma reacção à apatia que a BD sofria na altura, em 2012 os motivos para continuar um título embevecido de "bedroom punk" não são muito diferentes apesar de tudo. Aliás, é curioso que quando houve uma “época alta” para a Nova BD Portuguesa - ou seja, entre 1996 e 2002 aquando da Direcção de João Paulo Cotrim na Bedeteca de Lisboa - foi nessa altura que o MdC teve menor actividade editorial. Quero dizer com isto que vejo o MdC como uma “oposição”, não necessariamente a um sistema ou uma ordem instituída mas contra a modorra e a inércia no mundo da BD portuguesa. Geralmente cada número é feito para dar o exemplo, é portanto um projecto moralista... O que soa muito mal mas parece que faz algum sentido.
Em 1992, eu, o Pedro Brito e alguns amigos precisamos de zines de desenhos xungas com argumentos escatológicos, e porque os zines de BD que existiam não abriam portas a toda uma cultura urbana que estávamos a descobrir (música, poesia, colagem), foi a nossa mini-vingança a todos os coninhas que nos rejeitaram! Em 1995 precisava de deitar a BD autobiografia que passei da dedicar-me, coisa inédita na BD portuguesa. Em 1997 ninguém queria saber do meteórico Nunsky e fez-se uma edição especial, já ela comemorativa e de passagem para uma produção profissional. Em 2000 não se faziam concursos de BD em que se contemplasse a publicação de monografias dos trabalhos vencedores... Fez-se então! Em 2002 era porque ninguém ligava ao André Lemos nem à técnica de serigrafia. Também o polémico autor norte-americano Mike Diana não tinha um livro a solo, mais dois monográficos! Em 2003 só se pagava 10 euros por página em revistas de editoras profissionais, então a pobretanas da Associação Chili Com Carne, até ela, seria capaz de dar esse miserável valor e preparou três números do “laboratório sincopado de texto + imagem”! Em 2006 já não me lembro, foi apenas por luxúria ou porque tinha deixado de haver BD portuguesa... Em 2009 o João Maio Pinto merecia um livro num formato de meter respeitinho. Em 2010 foi para limpar a minha honra pessoal de muitos trabalhos para projectos falhados que tinham de sair por algum lado! Na coincidência cósmica da coisa tive acesso a uma nova geração de autores brasileiros a merecer embaixada em Portugal. E em 2012?
A primeira razão seria vaidade pura pelos 20 anos de existência que noblesse oblige tem de se comemorar. E chegava-se ao número 23 que sempre foi uma das obsessões do Pedro Brito - e de muita outra boa gente - para que ele voltasse aos comandos do MdC e acabava-se com a coisa, afinal 20 anos é demasiado tempo para um fanzine. Para quem não sabe o Pedro Brito por volta do número 6 abandonou o barco para se voltar para outras actividades profissionais mas nunca deixamos de ser amigos. Este 23 seria uma forma de amizade sacana de lhe passar uma batata quente mas ele conseguiu afastar-se outra vez. Entretanto à perna foi feito compromisso de participar na Trienal Desenha 2012 que incluía uma exposição retrospectiva no Museu da Água / Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos entre 25 de Outubro e 16 de Dezembro.
Sendo um número de despedida, o “Inverno” como tema seria ideal porque representa o "final" (a morte ou um final de um ciclo) e como o número zero do MdC começou com "Outono... regresso às aulas" (que merda de tema juvenil, pá!), a estação do frio traria o sentido para fecharmos esta publicação de vez. Só que entretanto comecei um trabalho de grande envergadura que me exigiu uma publicação regular para conseguir concluí-lo, logo já saiu o número 24 em Julho 2012 sem este 23 ter ainda a sua forma completa - e em breve sairá o 25 e mais alguns números nesse registo.
E como se poderia comemorar? A forma iria ditar o conteúdo porque queria-se um objecto grosso que se pudesse abrir com prazer à mesinha-de-cabeceira a caminho do descanso merecido do final do dia - uma pretensão que explica o seu nome, para quem nunca o adivinhou... Um bloco de papel que tivesse muita BD de preferência com forte narratividade - embora se aceite outras deambulações textuais. Eis uma situação complicada num período (outra vez) negro da BD portuguesa em que os autores (e tudo mais) perderam as evoluções que se registaram no mundo ocidental nos últimos... 20 anos! Falo da ascensão da BD de autor, a abertura das livrarias, galerias e instituições a este médium (na sua vertente literária e artística, não pela mera sociologia da popularidade), a interactividade entre agentes no plano internacional, o uso da autobiografia - e as vertentes paralelas dos diários de viagens, jornalismo, ensaio, crítica e reportagem - para expandir o meio, a imposição comercial do romance gráfico como modelo editorial, etc… Aspectos todos eles de máxima importância e que tenho orgulho - e talvez o único que tenho nestes 20 anos de actividade - ter difundido pelos meios limitados que tive acesso. Aproveito para agradecer à Associação Chili Com Carne (e à El Pep) por terem editado alguns dos números do MdC, algumas vezes até com apoios institucionais para ajudar a causa. Já agora, sobre os outros “selos”, a FC Kómix (doze primeiros números) e a MMMNNNRRRG (quatro números) não contam para os agradecimentos porque são estruturas por onde me escondo...
Voltando à irritável BD portuguesa, este MdC deveria ser um "tour de force" para mostrá-la energética e com (alguma) saúde, cof cof... e tal como em 1992 conseguisse chegar aos objectivos. Criou-se um tema, um formato e encomendas que foram recebidas com atenção e amor por colaboradores originais da estaca zero (Pedro Brito, João Fazenda), alguns que participaram anteriormente em números antigos (João Chambel, Rafael Gouveia, João Maio Pinto, o alemão Dice Industries, Filipe Abranches, José Smith Vargas, Stevz, José Feitor, Daniel Lopes, Bruno Borges, Silas) e algumas estreias absolutas como Sílvia Rodrigues, Afonso Ferreira, André Coelho, Sara Gomes, Martin Lam López (Peru/ Espanha), Lucas Almeida, Uganda Lebre, Tea Tauriainen (Finlândia) e Zé Burnay. A todos eles agradeço o empenho e (espero eu) gozo que tenham tido para me ajudarem a marcar a data.
Modestamente o vosso criado,
Marcos Farrajota
29/09 Lx
Agradecimentos a Ana Guerreiro / Trienal Desenha 2012, Ana Laborinho / EPAL, Travassos / Trem Azul, André Lemos, Diego Gerlach, Rudolfo e David Campos. Em especial à Joana Pires que acabou de "crashar" no sofá depois de uma derradeira sessão de design deste extenso volume.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Infecção Urinária da Finlândia (VI)
Nova “crónica sónica Suomi”! Só que este regresso à Finlândia foi mais pobre musicalmente do que as outras quatro vezes que lá estive. Algum cansaço da viagem impediu-me de ir à Digelius e outras lojas de música de Helsínquia fazendo com que trouxesse menos discos deslumbrantes deste país.
Mais uma vez fui representar a Associação Chili Com Carne ao Festival de BD de Helsínquia que decorreu no início de Setembro, durante as minhas férias de verão. Perguntam vocês o que me leva fazer férias para um país escandinavo chato?
Em primeiro lugar acompanho a cena da BD da Finlândia desde 2004, a sua evolução artística e mercantil, por isso tenho todo o interesse ir lá despachar livros que se vendem mais facilmente do que em Portugal (inclusive até os que estão escritos em português!) e voltar a ver caras conhecidas, finlandesas e de outras nacionalidades - o festival tem muitos convidados estrangeiros. Segundo, não considero a Finlândia um país chato. Desde a primeira vez que estive lá aconteceram-me peripécias impensáveis – algumas registadas numa BD de Jarno Latva-Nikkola – o que mata os mitos e preconceitos que se têm dos nórdicos. Algumas histórias de tão absurdas que estão mais próximas do imaginário latino ou dos Balcãs… Não tendo bem a certeza do que afirmo para justificar alguma loucura que por lá impera, diria que a Finlândia é a “pobretanas” da rica zona escandinava. Só que a Noruega tem petróleo, a Suécia os ABBA e a Finlândia só sauna, alces e gelo! Foi o sucesso da Nokia que fez subir a Finlândia ao estatuto de país rico mas mesmo assim a julgar pelos preços das cervejas comparando com a vizinha Suécia, por exemplo, continua a ser o país mais barato daquelas zonas...
E nada melhor que ser “pobrezinho” para ser-se humilde e não ter peneiras. Basta ver o tal Festival de BD, por exemplo, é de facto um evento de grande dimensão mas que não tem um orçamento gigantesco como outros festivais na Europa, como o “nosso” vergonhoso Festival de BD da Amadora ou o supra-sumo dos festivais, o de Angoulême (França). O espaço principal é uma grande tenda no centro da capital onde se encontram as mesas das editoras para venderem as suas edições ao público. Como disse há convidados especiais e estrangeiros, alguns com viagens pagas outros com dormidas pagas, dependendo se os autores tem custos suportados por editoras comerciais ou se os artistas tem alguma exposição patente organizada pelo Festival. Outros convidados – como era o meu caso – são metidos em casas de particulares de pessoas que se voluntariaram em receber os convidados nas suas habitações. No fundo, serve para dizer que se não há dinheiro para hotéis não é por isso que os estrangeiros não deverão deixar de vir a um festival de BD possibilitando sinergias e parcerias para promover a BD finlandesa.
Normalmente os convidados devem ficar em casa de artistas, que cinicamente significa “estamos em casa” pois vamos encontrar os mesmos livros, discos, objectos, cartazes, serigrafias e arte na parede… Mas também podem aparecer outras situações como as casas de leitores! Foi o que me aconteceu desta vez. Fiquei na casa de um casal super-simpático de classe média. O tipo deu-me um CD da sua banda, os Monolith Resistor, intitulado Exit Autumn (auto-edição, 2010?) que é um revivalismo de Acid House, tipo de música que não me aquece nem me arrefece, para além de ser uma grande seca a maior parte das vezes. A cena Rave e Acid já teve os seus dias quando significava nomadismo, liberdade, confrontos com os porcos da bófia e claro, muita muita muita droga na cabeça. Passados 20 e tal anos este projecto parece apenas um gesto anacrónico, não só pela música poder ser considerada “retro” mas precisamente porque se volta apenas à sua forma superficial, um mimetismo puramente centrado no som sem que haja uma envolvência na cultura e acção que lhe estão (estavam?) inatas. Neste caso temos “música de informáticos” e não é preciso fazer 4h30 de viagem para apanhar com isto, basta ir aos discos funcionais das “nossas” Thisco ou Marvellous Tone para termos algo idêntico, para não dizer melhor. Avanti!
E realmente para se avançar é preciso recuar qualquer coisa… Temos de ir parar ao Fricara Pacchu, do qual apanhei numa mesa do Festival de BD um single já velho (passe a redundância) intitulado de Stories of the Old (Fonal; 2007). É anterior ao álbum Midnight Pyre e é composto por três temas de neo-psicadelismo que foge aos velhos rocks dos 60s, ao Techno dos anos 90 e às novas fornadas folktrónicas e outras “friqualhadas” dos últimos anos. Os temas são quase indescritíveis na sua mescla de guitarras espremidas, de vez em quando acompanhadas por batidas motorika ou Hip Hop. Temos aqui um ambiente de trip em sintonia com este nosso mundo industrial cheio de referências Pop, plástico, desperdício e cores berrantes. Não é uma má trip nem estamos perante ambientes negros e opressivos de malta Dark, a embriaguez é positiva que até lembra alguns momentos de Pure Guava dos Ween ou as mamadices dos Butthole Surfers. O single é acompanhado por um livro que compila trabalhos gráficos do autor / músico, onde encontramos um denominador comum da psicadelia finlandesa – em que o jornal de BD Kuti será o seu órgão de comunicação mais oficial e acessível – ou seja, temos colagens, fotografias encontradas (bastante bizarras! e não no sentido clássico de “sexo & morte!), desenhos rabiscados em marcadores de cor, tudo numa orgia sensorial que “bate” bem com a música. Como o autor de BD Tommi Musturi me confidenciou: «o Kevin [o Fricara Pacchu] é uma pessoa muito especial». Eu subscrevo!
Depois do fim-de-semana “bedéfilo” em Helsínquia fui para Tampere, a segunda maior cidade da Finlândia mas como qualquer cidade finlandesa, é quase minúscula para chamarmos de cidade... É conhecida pela cena Punk e lojas de segunda mão – ou “feiras da ladra” como eles lhe chamam. No entanto estas “ladras” são na realidade espaços enormes, onde as pessoas podem alugar uma mesa / estante para vender a sua tralha. Tudo está etiquetado e no final paga-se numa caixa comum. Não é uma Feira da Ladra como a de Lisboa, Vandoma (Porto) ou os “Rastros” de Espanha, em que estamos ao ar livre a confrontar as pessoas que comercializam as suas bodegas. Para aqueles lados, como se pode bem imaginar, com o frio, vento, chuva e gelo a apanhar a maior parte do ano, tal prática seria inviável – ou então os finlandeses, bons nórdicos que são, não tem coragem de estar a regatear com outras pessoas preços...
Considero estas lojas como outro exemplo de humildade finlandesa, no final de contas não é preciso, neste mundo de super-abudância, gastar muito dinheiro para se ter roupa, cultura ou acessórios – para quê comprar tudo novinho em folha? Lojas em segunda mão e/ou feiras da ladra são habituais pelo país inteiro, no caso de Tampere é um exagero, há por todo o lado! No centro há umas sete, nos limites da cidade existem outras três gigantescas – pelo o que me foi dito. Fui a quatro no centro e já estava farto de ver tanto lixo da nossa sociedade do consumo…Por gozo “vintage” comprei um disco a 1,5 euros do Coro masculino da Estónia, Meeksoorid (Мелодия / Melodia; 1969?), que canta em estónio (parecido com o Suomi) e o disco foi editado nos tempos da URSS, o que significa que provavelmente o coro deve cantar sobre o fantástico novo homem soviético, o proletário iluminado ou algo assim – não creio que será religioso afinal este LP vêm desses curtos e bons tempos da Humanidade em que o Cristianismo foi proibido!!! É o tipo de disco que deve ter influenciado Type O Negative a gravarem com o seu “Bensonhoist Lesbian Choir”, hehehe…
Voltando ao Punk e afins, quem quiser ouvir esse som ao vivo tem de ir ao Clube Vastavirta, onde numa quarta-feira à noite, por três euros (!) deu para ver três bandas (de Metal, na realidade), sendo a que mais curti foi The Reality Show, power-trio bem coordenado que cada música tocada por eles parecia uma estalada na cara. Vi algures num sítio na ‘net a catalogá-los de Fastcore. Não sei de tanto sobre sub-géneros no Hardcore e nem me interessa mas se existe essa caixa, os Reality Show são bem capazes de caberem nela, pois é Hardcore bem rápido e cheio de riffagem Metal da antiga. Por isso adquiri o EP 7” de estreia A Candle in Hell (Eternal Now Records + Raakanaama + Psychedelica Records; 2011) que é uma descarga eléctrica que deve aquecer os finlandeses no Inverno…
Talvez seja pela estação do frio que desde o final dos anos 70 que o Punk e Hardcore finlandês surgiu com tal agressividade que teve uma influência monstruosa a nível nacional e global. É seminal o género de som que os Terveet Kädet começaram a fazer por aquelas bandas chegando a influenciar bandas como Ratos de Porão, por exemplo…Para completar o ramalhete de Punkcore finlandês actual, o Tommi Musturi ofereceu-me outro EP 7”. Desta vez dos Haistelijat, intitulado Pakkomielle (Nuuhkaja + Joteskii Groteskii; 2012) onde apresentam 10 temas que raramente passam de um minuto de duração. É outro power trio que ultrapassa Mudhoney e Discharge em rapidez Rock’n’Roll com letras cuspidas na língua materna - que a dada altura soa a desenhos animados sei lá porquê. Lembra os Zeke...
Algures percebi que havia uma música dedicada ao artista e autor de BD Kalervo Palsa (1947-1987) - aliás, a capa lembra o tipo... Musturi traduziu-me a letra dessa música e acho que diz algo do tipo «K. Palsa encontra-se morto ali, ali onde é a fronteira»… Inaugura-se um novo estilo? O Haiku Punk?
Kiitos Tommi & Tiina
Mais uma vez fui representar a Associação Chili Com Carne ao Festival de BD de Helsínquia que decorreu no início de Setembro, durante as minhas férias de verão. Perguntam vocês o que me leva fazer férias para um país escandinavo chato?
Em primeiro lugar acompanho a cena da BD da Finlândia desde 2004, a sua evolução artística e mercantil, por isso tenho todo o interesse ir lá despachar livros que se vendem mais facilmente do que em Portugal (inclusive até os que estão escritos em português!) e voltar a ver caras conhecidas, finlandesas e de outras nacionalidades - o festival tem muitos convidados estrangeiros. Segundo, não considero a Finlândia um país chato. Desde a primeira vez que estive lá aconteceram-me peripécias impensáveis – algumas registadas numa BD de Jarno Latva-Nikkola – o que mata os mitos e preconceitos que se têm dos nórdicos. Algumas histórias de tão absurdas que estão mais próximas do imaginário latino ou dos Balcãs… Não tendo bem a certeza do que afirmo para justificar alguma loucura que por lá impera, diria que a Finlândia é a “pobretanas” da rica zona escandinava. Só que a Noruega tem petróleo, a Suécia os ABBA e a Finlândia só sauna, alces e gelo! Foi o sucesso da Nokia que fez subir a Finlândia ao estatuto de país rico mas mesmo assim a julgar pelos preços das cervejas comparando com a vizinha Suécia, por exemplo, continua a ser o país mais barato daquelas zonas...
E nada melhor que ser “pobrezinho” para ser-se humilde e não ter peneiras. Basta ver o tal Festival de BD, por exemplo, é de facto um evento de grande dimensão mas que não tem um orçamento gigantesco como outros festivais na Europa, como o “nosso” vergonhoso Festival de BD da Amadora ou o supra-sumo dos festivais, o de Angoulême (França). O espaço principal é uma grande tenda no centro da capital onde se encontram as mesas das editoras para venderem as suas edições ao público. Como disse há convidados especiais e estrangeiros, alguns com viagens pagas outros com dormidas pagas, dependendo se os autores tem custos suportados por editoras comerciais ou se os artistas tem alguma exposição patente organizada pelo Festival. Outros convidados – como era o meu caso – são metidos em casas de particulares de pessoas que se voluntariaram em receber os convidados nas suas habitações. No fundo, serve para dizer que se não há dinheiro para hotéis não é por isso que os estrangeiros não deverão deixar de vir a um festival de BD possibilitando sinergias e parcerias para promover a BD finlandesa.
Normalmente os convidados devem ficar em casa de artistas, que cinicamente significa “estamos em casa” pois vamos encontrar os mesmos livros, discos, objectos, cartazes, serigrafias e arte na parede… Mas também podem aparecer outras situações como as casas de leitores! Foi o que me aconteceu desta vez. Fiquei na casa de um casal super-simpático de classe média. O tipo deu-me um CD da sua banda, os Monolith Resistor, intitulado Exit Autumn (auto-edição, 2010?) que é um revivalismo de Acid House, tipo de música que não me aquece nem me arrefece, para além de ser uma grande seca a maior parte das vezes. A cena Rave e Acid já teve os seus dias quando significava nomadismo, liberdade, confrontos com os porcos da bófia e claro, muita muita muita droga na cabeça. Passados 20 e tal anos este projecto parece apenas um gesto anacrónico, não só pela música poder ser considerada “retro” mas precisamente porque se volta apenas à sua forma superficial, um mimetismo puramente centrado no som sem que haja uma envolvência na cultura e acção que lhe estão (estavam?) inatas. Neste caso temos “música de informáticos” e não é preciso fazer 4h30 de viagem para apanhar com isto, basta ir aos discos funcionais das “nossas” Thisco ou Marvellous Tone para termos algo idêntico, para não dizer melhor. Avanti!
E realmente para se avançar é preciso recuar qualquer coisa… Temos de ir parar ao Fricara Pacchu, do qual apanhei numa mesa do Festival de BD um single já velho (passe a redundância) intitulado de Stories of the Old (Fonal; 2007). É anterior ao álbum Midnight Pyre e é composto por três temas de neo-psicadelismo que foge aos velhos rocks dos 60s, ao Techno dos anos 90 e às novas fornadas folktrónicas e outras “friqualhadas” dos últimos anos. Os temas são quase indescritíveis na sua mescla de guitarras espremidas, de vez em quando acompanhadas por batidas motorika ou Hip Hop. Temos aqui um ambiente de trip em sintonia com este nosso mundo industrial cheio de referências Pop, plástico, desperdício e cores berrantes. Não é uma má trip nem estamos perante ambientes negros e opressivos de malta Dark, a embriaguez é positiva que até lembra alguns momentos de Pure Guava dos Ween ou as mamadices dos Butthole Surfers. O single é acompanhado por um livro que compila trabalhos gráficos do autor / músico, onde encontramos um denominador comum da psicadelia finlandesa – em que o jornal de BD Kuti será o seu órgão de comunicação mais oficial e acessível – ou seja, temos colagens, fotografias encontradas (bastante bizarras! e não no sentido clássico de “sexo & morte!), desenhos rabiscados em marcadores de cor, tudo numa orgia sensorial que “bate” bem com a música. Como o autor de BD Tommi Musturi me confidenciou: «o Kevin [o Fricara Pacchu] é uma pessoa muito especial». Eu subscrevo!
Depois do fim-de-semana “bedéfilo” em Helsínquia fui para Tampere, a segunda maior cidade da Finlândia mas como qualquer cidade finlandesa, é quase minúscula para chamarmos de cidade... É conhecida pela cena Punk e lojas de segunda mão – ou “feiras da ladra” como eles lhe chamam. No entanto estas “ladras” são na realidade espaços enormes, onde as pessoas podem alugar uma mesa / estante para vender a sua tralha. Tudo está etiquetado e no final paga-se numa caixa comum. Não é uma Feira da Ladra como a de Lisboa, Vandoma (Porto) ou os “Rastros” de Espanha, em que estamos ao ar livre a confrontar as pessoas que comercializam as suas bodegas. Para aqueles lados, como se pode bem imaginar, com o frio, vento, chuva e gelo a apanhar a maior parte do ano, tal prática seria inviável – ou então os finlandeses, bons nórdicos que são, não tem coragem de estar a regatear com outras pessoas preços...
Considero estas lojas como outro exemplo de humildade finlandesa, no final de contas não é preciso, neste mundo de super-abudância, gastar muito dinheiro para se ter roupa, cultura ou acessórios – para quê comprar tudo novinho em folha? Lojas em segunda mão e/ou feiras da ladra são habituais pelo país inteiro, no caso de Tampere é um exagero, há por todo o lado! No centro há umas sete, nos limites da cidade existem outras três gigantescas – pelo o que me foi dito. Fui a quatro no centro e já estava farto de ver tanto lixo da nossa sociedade do consumo…Por gozo “vintage” comprei um disco a 1,5 euros do Coro masculino da Estónia, Meeksoorid (Мелодия / Melodia; 1969?), que canta em estónio (parecido com o Suomi) e o disco foi editado nos tempos da URSS, o que significa que provavelmente o coro deve cantar sobre o fantástico novo homem soviético, o proletário iluminado ou algo assim – não creio que será religioso afinal este LP vêm desses curtos e bons tempos da Humanidade em que o Cristianismo foi proibido!!! É o tipo de disco que deve ter influenciado Type O Negative a gravarem com o seu “Bensonhoist Lesbian Choir”, hehehe…
Voltando ao Punk e afins, quem quiser ouvir esse som ao vivo tem de ir ao Clube Vastavirta, onde numa quarta-feira à noite, por três euros (!) deu para ver três bandas (de Metal, na realidade), sendo a que mais curti foi The Reality Show, power-trio bem coordenado que cada música tocada por eles parecia uma estalada na cara. Vi algures num sítio na ‘net a catalogá-los de Fastcore. Não sei de tanto sobre sub-géneros no Hardcore e nem me interessa mas se existe essa caixa, os Reality Show são bem capazes de caberem nela, pois é Hardcore bem rápido e cheio de riffagem Metal da antiga. Por isso adquiri o EP 7” de estreia A Candle in Hell (Eternal Now Records + Raakanaama + Psychedelica Records; 2011) que é uma descarga eléctrica que deve aquecer os finlandeses no Inverno…
Talvez seja pela estação do frio que desde o final dos anos 70 que o Punk e Hardcore finlandês surgiu com tal agressividade que teve uma influência monstruosa a nível nacional e global. É seminal o género de som que os Terveet Kädet começaram a fazer por aquelas bandas chegando a influenciar bandas como Ratos de Porão, por exemplo…Para completar o ramalhete de Punkcore finlandês actual, o Tommi Musturi ofereceu-me outro EP 7”. Desta vez dos Haistelijat, intitulado Pakkomielle (Nuuhkaja + Joteskii Groteskii; 2012) onde apresentam 10 temas que raramente passam de um minuto de duração. É outro power trio que ultrapassa Mudhoney e Discharge em rapidez Rock’n’Roll com letras cuspidas na língua materna - que a dada altura soa a desenhos animados sei lá porquê. Lembra os Zeke...
Algures percebi que havia uma música dedicada ao artista e autor de BD Kalervo Palsa (1947-1987) - aliás, a capa lembra o tipo... Musturi traduziu-me a letra dessa música e acho que diz algo do tipo «K. Palsa encontra-se morto ali, ali onde é a fronteira»… Inaugura-se um novo estilo? O Haiku Punk?
Kiitos Tommi & Tiina
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sexta-feira, 30 de março de 2012
I-I-I-I

Festival de Helsínquia 2008 (?), foto sacada ao blogue do Marko Turunen, Kristiina a falar comigo, Tommi Musturi por trás, Jucifer e Marko ainda mais para trás (?).
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domingo, 5 de fevereiro de 2012
Javardo Suomi Rock

Räjäyttäjät : Räjäyttäjät räjäyttää! (TNT + Bad Vugum/BV2; 2011)
Um amigo meu ligado á cena Free / Improv disse-me uma vez que a Finlândia é o país escândinavo mais fraco no que diz respeito à música. Estranho, sempre tive a impressão completamente oposta a isso. Complementando melhor a "acusação" percebi que deveria haver com virtuosismo. Bom, se calhar é mesmo isso que faz a diferença... Talvez seja verdade que não haja cromos de músicos como da Noruega ou Suécia mas é inegável que "loucura" e "experimentação" é algo que a Finlândia bate aos seus pares. E estes Rajayttajat (faltam os tremas bem sei mas é uma chatice metê-los) são o exemplo disso. Considerada a "melhor" banda da Finlândia do momento, não passa de um trio rocker-garageiro-javardeiro que cantam/ berram no Suomi desconhecido - por mim, as letras até podem estar a dar a receita de fazer brigadeiros. A energia e sujeira é total que nunca poderíamos meter no mesmo saco dos betos-suecos vizinhos Hives, por exemplo. É displicente como tocam o que já se ouviu milhares de vezes mas pelos vistos até já fez resurgir a editora Bad Vugum do seu limbo editorial. Um fenómeno local de um país cuja costela russa fode o calculismo sueco.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
08.10.11 09.10.11 (pós-produzido)

o 3º capítulo (e os anteriores) do meu novo livro estão quase pós-produzidos... Quem é que vai publicá-los???
O Little Bob é um rocker francês que aparece no último filme do Aki Kaurismäki, Le Havre.
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Infecção Urinária da Finlândia (VI)

E com este texto fecho os relatos sobre as minhas aventuras sonoras nórdicas durante a minha estadia na Finlândia. Na última semana ainda consegui ir a Turku e comprei um CD-R enganoso. Intitulado Avarrus Suomesa (trad.: Finlândia espacial?) de 2006 (?) é um “set” de dois DJs, Prof. Roland Fender e Prof. Megatron Holaris (ligados à bd? Adquiri numa loja de bd) que misturam músicas Pop sobre o espaço cósmico numa pespectica descendente de 2020 a 1959 seja lá como isso é possível. Pensava que era um disco do colectivo experimental Avarus, que fez a banda sonora da exposição Glömp X patente na Bedeteca de Lisboa em 2009 mas não, é uma “mix-tape” de kitsch em que o único nome conhecido é Jimi Tenor com um “tango espacial”. No fundo, isto só tem piada pelas letras que nos transportam para uma era perdida e inocente (o passado é sempre considerado inocente mesmo que tenha sido bárbaro!) em que se ainda sonhava com a conquista do Espaço. Não percebendo patavina da lingua “suomi” é mais fácil imaginar este objecto deslocando-o para uma versão portuguesa em que teriamos misturadas fatais de um tema de 10.000 anos depois entre Vénus e Marte de José Cid com a Amália a cantar o Sr. Extraterrestre seguido de Planet Lakroon dos Pop Dell’Arte, as Doce com Starlight, os Space Boys, Stealing Orchestra, etc…Talvez esta tenha sido a minha pior despedida cultural de sempre!
“Pop Will Eat Itself” é capaz de ser o melhor nome e manifesto para música urbana pela forma canibalesca e autofágica como vemos as fórmulas repetirem-se até à exaustão, com uma indústria fonográfica a gastar mais dinheiro em promover lixo do que a incentivar à criação – aliás, como seria possível de outra forma? A música é um negócio capitalista, e o Capitalismo é o Rei do Trash! Talvez pelo avanço na minha idade vou tendo menos paciência para a Pop e o Rock e infelizmente também para os outros géneros que se foram cristalizando como o Punk, Hardcore, Metal, Hip-Hop, etc… Ouvir estas formas de criação que insistem em serem eternamente jovens quando a maior parte delas já têm pelo menos 30 anos de História provocam-me vómitos e enjóos fáceis. Talvez por isso prefiro ouvir Noise, música árabe ou Africana do que a última sensação Pop sueca anunciada pelo Imbecílon… Ops! Caí na esparrela agora! Porque ando louco a ouvir Melanie Is Demented e os seus últimos dois álbuns online Melanie är Demented e MXLXNXXXSDXMXNTXD, ambos editados este ano pela sua label Wormfood. Mas como é uma coisa DIY, a imprensa oficial não vai ligar patavina, estou livre de culpa!
MID é uma “one-band man” que tem vivido em instituições psiquiátricas a gravar estes maravilhosos discos, é sueco e não finlandês mas serve para fechar este ciclo de artigos. Conheci-o em Estocolmo em 2008 durante o SPX (festival de bd alternativa) nas condições descritas nesta bd mantendo um contacto permanente com este jovem perturbado mas com uma sensibilidade Pop/Rock apurada. É aquele tipo de gajo que consegue sacar o famoso e obrigatório “orelhudo” em todos os seus temas mesmo quando canta em sueco, completando a famosa equação do “indie” Pop/ Rock para ser viciante - sem deixar de ser "inteligente".
Para mim é uma espécie de Frank Zappa pelas ideias de fusão e ruptura (não a forma superficial) em versão “bedroom punk”. Há partes da voz que lembra David Bowie, outras Butthole Surfers, onde aliás, instrumentalmente acaba por haver alguma ligação com a banda texana que na sua última fase investiram num Rock Electrónico não muito longe do que MID faz: loops, samples, ritmos Hip-Hop ou Drum'n'Bass com guitarradas balizadas entre o Blues e Rock. Enquanto os Butthole desapareceram sem glória, MID tem todo o sangue na guelra e sente-se a poderosa evolução de registo em registo. As letras tratam de assuntos endérmicos de quem escolheu o Rock como expressão criativa, passando por uma forte crítica ao negócio fonográfico e as suas bandas atrasadas-mentais, ao fascismo dos Sociais Democratas, à Globalização, aos abusos da polícia e à apatia social. MID escreve numa componente autobiográfica e irónica que é contudente e longe da futilidade do “teenage love” ou “teenage angst” como 99% da música que se ouve. Quando ele dedica um tema ao Batman não é para se armar em Gótico da pacotilha mas para criticar o alter-ego da personagem, Bruce Wayne, que é um filho-da-puta de um beto rico. Quando canta um tema sobre pastilhas elásticas não é para celebrar o gozo de mastigar este produto pueril mas para lembrar que ele é feito de dinheiro sujo de países explorados do terceiro mundo.
O estranho é como ele o faz de forma armadilhada onde podemos encontrar em doses idênticas de militância, energia, crítica, astúcia, empatia, desordem, desobediência e humanismo. Características de um verdadeiro artista. MID é um “filho de uma colisão cultural” (roubo descaradamente a expressão ao meu tema favorito dos Urban Dance Squad!), que obviamente tanto se passa a ouvir Stoner Rock como Gangsta. Um híbrido da civilização Ocidental que não se alinha no conforto zombie da boa integração social, especialmente o da sueca que pretende que os seus cidadãos sejam humildes e que escondam qualquer forma de exibicionismo. Ora isto é uma missão impossível para este tipo, ainda o ano passado enviou-me uma foto dele a mostrar a pila em frente ao monumento (não menos fálico) do centro de Estocolmo. Havia um contexto, ainda assim, que era a comemoração dos 10 anos da MMMNNNRRRG e o lançamento do livro Pénis Assassino do Janus mas ainda assim eu não precisava de ver os seus genitais… Freud explica!
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Infecção Urinária da Finlândia (V)

É verdade que basta um “clique de rato” – já um anacronismo por causa dos botões dos portáteis – para acedermos ao Rock dos anos 60 da Coreia do Sul ou ao EBM norueguês dos anos 90 ou (inserir um género musical, uma década e uma nação) sem ter de viver no espaço-tempo circunscrito. A cultura digital permite um “eterno presente” sobre qualquer matéria mas não substitui a descoberta de objectos culturais físicos, sobretudo numa viagem ao estrangeiro. A minha viagem à Finlândia, entre Setembro e Outubro, foi uma residência artística numa terra longe de lojas ou sítios de concertos, por isso o meu consumo de música finlandesa foi homeopático. Acedi a discos quando consegui sair da residência, como por exemplo, em meados de Setembro, estive no Festival de BD de Helsínquia, a representar a Chili Com Carne e MMMNNNRRRG, e fui à Digelius sacar mais “Histeria Árctica”. Durante o Festival propriamente dito também adquiri algo mais, na tenda dos zines talvez por ser um inferno para ver as coisas como deve ser devido à pequena dimensão do espaço para tantos visitantes, acabei não por comprar BD mas CD! O que não me chateia muito, não dou tanta importância à cultura bedéfila como isso...
Comprei o primeiro álbum de Arka, Naamio (Siko Records; 2009) pelo seu aspecto curioso que acaba por ter alguma raiz Pop de bd... É embalado em cartolina cinzenta onde está colada uma mascara de ladrão ou de super-herói (tipo Robin), para sacar o disco da embalagem é preciso despregar o botão da fita da máscara. Depois disso temos música electrónica que faz passagens pelo Acid-Jazz e pelo Lounge Glitch, lembrando alguns foguetes lançados no passado como os Sad Rockets ou os conterrâneos Space Rockets – dos quais aconselho o mini-disco Bez Kalhotek. Para dizer a verdade nem sei ao certo se Arka é finlandês, quase nenhuma informação existe na internet, a pouca que há apresenta um deus sírio ou uma língua criada em 1991 para um jogo japonês. Sobre esta também existe pouca informação, apenas que é a língua com mais palavras inventadas (cerca de 15000). Arka, o projecto electrónico também é um mistério de intenções que não se porta bem na sua produção, muitas vezes colidindo com a experimentação e o psicadelismo. Não seria um CD que deixaria tocar num hall de hotel!
Supondo que Arka seja finlandês, fará sentido o tipo de som que desenvolve. A tradição de música experimental na Finlândia é longa, bem difundida (pelo menos nacionalmente), de qualidade e cheia de “heróis” ou figuras distintas como Pekka Streng (1948-1975), rapaz do campo que veio prá “grande cidade” de botas de plástico - como se identifica um finlandês numa multidão? Pelas botas de plástico! Morreu jovem, vítima de cancro, mas foi basilar no Rock Progressivo finlandês por misturar Folk, Jazz, Rock e música experimental em dois álbuns apenas, o primeiro com a banda Tasavallan Presidentti, Magneettimiehen Kuolema (trad.: A Morte do Homem Magnético) de 1970 e o segundo Kesämaa (trad.: Casa de Verão) de 1972, ambos pela lendária Love Records, foram reeditados em CD em 2003 com temas extra. Canta na língua que só 5 milhões de podem perceber, fazendo a sua percepção complicada para os outros humanos! Mas não deixa de ser uma experiência curiosa ouvir os discos mesmo não percebendo as letras. Na essência ouve-se uma música acústica, quase sempre calma e contemplativa, de texturas pastorais com rasgos de Jazz, de sons concretos e loops numa altura que não era habitual fazer loops,... sobretudo o primeiro é mais virado para experimentação e merece o seu estatuto seminal. Alguns momentos podem ser mais irritantes por alguma exaltação vocal – numa língua que nada nos diz – o segundo sinceramente mais acústico e tranquilo tem uma coerência formal que resulta melhor. Curiosamente uma das faixas tem uma letra da Tove Jansson, criadora dos emblemáticos Moomin, personagens de livros infantis e tiras de bd dos anos 50 - estas últimas têm sido reeditadas e premiadas no Canada e França.
Para finalizar, outro disco Prog de 1972, considerado la creme de la creme do género na Finlândia, a estreia homónima dos Haikara – reedição em CD pela Fazer Records, em 1998. Também cantam em finlandês e podem ser posicionados entre os King Crimson e os Magma. Pessoalmente acho as primeiras duas faixas parvinhas por serem circenses ficando o melhor do disco nas últimas três restantes músicas que entram num registo psicadélico, com cada tema a chegar aos 10 minutos, cheio de maneirismos Jazz, numa atmosfera cool. A capa também é porreira, faz-me pensar o quanto melhor será este disco em formato LP!
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Saudade de Sauna



Tirem a Sauna aos finlandeses e tiram-lhes tudo... São os inventores da coisa e é um hábito higiénico tal como pode ser um evento social. Não é de admirar que algumas zonas residências de Helsínquia ou cidades mais pequenas como Uusikaupunki, como já vi, de repente se vejam um grupo de homens nus, apenas com uma toalha, a refrescarem-se na via pública com uma lata de cerveja na mão. Com 70ºC, suor a escorrer por todos os poros, sair da cabine de sauna pode equivaler a uma bela porrada tranquila pelo corpo inteiro... Uma cervejinha depois? Porque não? Um duche gelado? Yup! Ou... quando fomos ao ITE e passamos a noite de sábado numa casa de campo, à meia-noite saimos da sauna só de sapatos e tolha para mergulhar no lago! Ah! Que sensação maravilhosa! Só falta rolar pelo gelo depois de uma sessão como reza a lenda.
Outra coisa curiosa, nos países nórdicos (já com a Alemanha incluída) é a liberdade do corpo nu na sociedad. Nós, os latinos, temos a mania que somos descomplexados porque mostramos as banhas no Verão, acabamos por ser mais púdicos e ressabiados (graças à nojenta submissão católica) em relação à nudez do que dos povos friorentos... Que progresso teria Portugal se tivesse tido a Reforma e Pornografia Dinamarquesa invés da Inquisição e Mocidade Portuguesa!
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