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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Isto é que é!


Alien Sex Fiend: "It" The Album (Anagram; 1986)

Os Alien Sex Fiend são capazes de ser a banda mais esquecida no mundo, mesmo para uma "banda de  culto" seja lá o que isso quer dizer. O que é muito estranho porque se gostam de Cramps estes tipos não ficarão atrás a nível de selvajaria sonora, se gostam de Goth / Death Rock estes tem muito mais humor e panache que os clássicos do género, se gostam de electrónica e sintetizadores ácidos os ASF sempre evoluíram nesse campo podendo ser descartado o retro-Krautrock que anda por aí. Come on! Músicas sobre cheirar a merda? Sobre não conseguir parar de fumar? É aqui! Com a vantagem de terem as capas mais selvagens do Rock, pintadas pelo demente vocalista Nik Fiend. 
Isto é "steampunk" completo, como se primitivos do Rock'n'Roll descobrissem maquinaria vinte anos antes delas serem aplicadas ao Rock. Com esta afirmação, teríamos de ignorar toda uma carreira vanguardista dos Suicide, bem sei... Comparando com eles, os ASF são mais orelhudos, graças à sua origem britânica imersa em décadas de Pop, embora os discos deles vão melhorando com o tempo, cada vez mais electrónicos e com os temas mais extensos para sugestão hipnóticas de acordo com a cartilha Rave e Techno, sobretudo na passagem para os anos 90. "It" é de 1986, fica ainda no cruzamento de Rock e Electrónica.
Se há gente a coleccionar vinilos estes serão os poucos que valem a pena fazé-lo, a música é soda cáustica, as capas são quadros para pendurar no quarto de "teenager" tardio e... caramba, não é que este LP traz um zine, para montar (!) todo mamado com BDs e "detournements" punks!? Edita-se muito neste novo milénio mas são poucos discos que são realmente necessários ouvir, ver e ler. É preciso voltar a 30 anos atrás para se curtir alguma coisa? Isto é Nostalgia!?

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Nunca confiar nos aústriacos


É uma nação de gente estranha, soturna e desviante. Bem que íamos bem cagadinhos de medo quando entrámos nos portões da Schaumbad na tournê Boring Europa... Nem me lembrava destes austríacos Fetish 69 que ouvia nos tempos da universidade senão nem tinha lá posto os pés. 
Nos anos 90 e até agora só ouvi este álbum, o Antibody (Nuclear Blast; 1993), que era o pão de cada dia já que era doido por Ministry, Malhavoc e afins. Redescobrindo o álbum, continua a ser brutal apesar da fórmula já ser agora bastante conhecida: Metal & Industrial de mãos dadas com temas rápidos e pujantes como Hyperventilator e Stomachturner (que por si só valem pelo CD todo) e com tortura lenta como o tema Anti Body. Ao longo da carreira da banda até 2003 o estilo de música foi se "trip-hopando" e que não está mal de todo pelo que ouvi nos "youtúbaros". Será que a versão do excelente tema Being boiled dos Human League já eram uma piscadela de olho para essa evolução? Em 1993 ninguém sabia, claro, como ninguém sabia da família Fritzl...

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Esta é a razão porque as pessoas deixaram de comprar discos...


Dysrhythmia Pretest (Relapse, 2003)

A produção no virar do milénio tornou-se GIGANTE graças aos meios digitais que afectou tudo, da gravação à edição, da promoção à distribuição. Com tanta música acessível, muita dela sucedânea e derivada, deixou-se de fazer sentido ouvir discos inteiros como acontece com este. Ouvir um tema de Pretest chega. Até é fixe ouvir um instrumental Rock, agora, o CD inteiro é inútil e inócuo. A música não é má mas percebe-se que faz parte de uma época qualquer pós-net, que implica um encolher de ombros e uma colisão contra uma parede auto-imposta. É post-metal antes de se chamar assim, ou se se chamava, ainda era uma novidade em 2003 e a Relapse, grande e a melhor "indie" do Metal não dorme em serviço. Bom, se calhar é Math-Rock ou apenas seguidores dos Slint... 14 anos depois há tantos assim que mesmo ouvir os mais velhos da cena pouco adianta, o "post-metal" é a barreira musical mais lixada de todas. Como alguém me disse há pouco tempo, é música para músicos. Justificasse a esterilidade do género, música dos Zombies que não se adaptaram aos novos tempos.

sábado, 24 de junho de 2017

Rocka - bílis


Suck Pump (Energy + Roadrunner; 1994) foi o disco de estreia dos Bile, banda de Metal Industrial de Nova Iorque na mesma sintonia dos Ministry ou KFMDM ou My Life With The Thrill Kill Kult. O que não faz deles propriamente uma imitação ou uma segunda divisão - quer dizer, até faz porque nunca conseguiram ter o impacto dos Ministry ou Marilyn Manson, coisa que teriam desejado de certeza. Infelizmente seguem o mesmo filão e com o (dev)evoluir da carreira só pioram pois não acrescentam nada de novo. Este deve ser o melhor álbum da banda porque ainda querem surpreender o mundo irritando-o. Aliás essa é ainda a maior característica das bandas Rock até aos anos 90, havia vontade de fazer coisas obscenas em palco ou em disco. Foi assim que os Black Sabbath criaram o Heavy Metal nos anos 70 ou os Big Black criaram o Rock Industrial nos 80...
Assim sendo entre samplagem parva há faixas de atrofio de estúdio como 9 minutos de Suckpump que parece uma ilustração de uma lavagem ao estômago - de certa forma esta atitude traz saudades dos discos mais psico dos Butthole Surfers - embora também signifique "um gajo que goste de fazer broches"... O prato principal é claro Rock com tratamentos Metal e electrónicos que permitem pé de dança e headbanging para todas as tribos urbanas (outra coisa ainda muito anos 90, as tribos urbanas), as letras são niilistas (Ura fucking loser) e escatológicas (Feeling like shit), há distorção em vozes e alguns instrumentos, tudo fixe na realidade, sobretudo há groove! Bom para passar numa discoteca!

terça-feira, 30 de maio de 2017

Medo do escuro



Spectre : The last shall be first (Wordsound; 2016)

Spectre já é mais velho que a potassa (1995 já é muito lá para trás, meu!), grande cromo de Hip Hop na veia do Horrorcore que dispensa apresentações a não ser que se esteja morto desde... ehm... sempre? Neste 11º álbum serve-se de diálogos de filmes de série B, de assustador nada tem dado ao kitsch que naturalmente que esses filmes encarnam (encarnam, nham nham nham). Os beats tem o ritmo típico do Hip Hop, gingões demais para ser levado para um "Dark Side", mucho cool o suficientes para destruírem qualquer mais outro som que possa criar tensão. Soa a andar na grande cidade de headphones, tipo Ghost Dog (filme do Jim Jarmush), vestido de monstro das bolachas na noite de Halloween. Nada se altera com este disco...

PS - Sem relação com o "nada se altera", este disco podia ser a banda sonora para a inauguração da próxima exposição de Paulo Mendes - como comissário, na Galeria Municipal do Porto, dia 2 de Junho, Them or Us, tomem nota!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Greñudos locos del Porto! Brujeria te va joder tu ojo del culito!


Ontem houve Brujeria em Lisboa e hoje há no Porto... Aconselha-se ir ver, é um bom show!!! Vi-os há 10 anos em Madrid e se por um lado estão mais "cartoonescos" por outro a presença do vocalista loco Pinche Peach torna tudo mais energético. Pocho Aztlan (Nuclear Blast; 2016), novo álbum 16 anos depois do último de originais, quase nem é tocado porque eles sabem que é azeite artificial... A banda tende para ser uma espécie de "Ramones do Grind narco-satânico", mais caricatura de si mesma do que exploradora da estética zapatista que os tipificou e mitificou quando apareceram - nesse mundo sem web 0.2.
Em Lisboa, como há malta fixe ao contrário do que se pensa, até apareceu pelo concerto o número 5 do fanzine de BD Olho do Cu que tem uma capa fabulosa... bom, é apenas um olho do cu realmente mas está impresso com umas cores impecáveis. Fuerza Sandro!

domingo, 13 de novembro de 2016

Outros tempos...

Lolita Storm: Girls Fucking Shit Up (DHR; 2000)

Se há coisa fantástica nos Atari Teenage Riot é que passados estes anos todos, pode-se ver neles uma importância extra-musical tão importante como a dos Crass. Mais do que música e contestação política, significaram acção em várias frentes. Uma delas e talvez uma das mais importantes terá sido impulsionar mulheres a fazerem Digital Hardcore, género punk na cultura Rave, ou seja, não ter limites da abordagem sonora e sobretudo ter uma posição anarco e anti-sistema.

No meio de meia-dúzia de projectos editados pelos Atari nos seus tempos dourados (anos 90) encontra-se este/a/s Lolita Storm, três gajas e um gajo da ilha britânica, que soam a Ramones tocado em Drum'n'Bass. Faixas que nunca ultrapassam os 2 minutos são básicas, auto-repetitivas e previsiveis após ouvirmos três músicas. Parece também um coro de "cheerleaders" que snifaram buéda coca no balneário. Passado 16 anos chega a roçar o rídiculo mas acredito que era feito com graça e fé.

Resta saber o que foi feitas desta malta, aposto que uma vende aspiradores para limpar ácaros, outra é directora de recursos humanos da Starbucks e assim por adiante... vai uma aposta?

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AfroTechno

Os Buraka Som Sistema quando afirmaram no disco de estreia que o seu primeiro disco era "From Buraca to the world", eles tinham mais razão do que imaginaram há 10 anos atrás... Como projecto criativo morreu logo no segundo registo mas fizeram o impensável, abriram o Techno africano para o mundo. Agora fala-se em Gqom de África do Sul ou em "batida" dos subúrbios de Lisboa. Seja qual a designação que apareça trata-se de uma renovação da música Techno à escala global.

Em relação à "batida", ela é feita por jovens africanos em Portugal metidos em guetos à procura de uma identidade que foi perdida pela diáspora dos seus pais e negada pelas instituições portuguesas ao não se esforçarem em integrar uma massa enorme de gente. Felizmente para eles existe um "Príncipe encantado" que tem explorado (o termo parece neo-colonialista, bem sei) de forma ética (ah bom!) os DJs "foxes" que andam pelos bairros "fodidos" de Lisboa. E melhor tem conseguido projectá-los pelo mundo fora, como se bem sabe pelo sucesso internacional do Marfox. Nessa senda deu-se também uma edição de três mini-LPs pela grande editora britânica Warp numa série intitulada de Cargaa em 2015. Comprei o último que prometia, segundo uma crítica da revista The Wire, mas não fiquei muito surpreendido. Quer dizer, se o som tem algo de novo e fresco, serão os doidos da dance music que o poderão dizer, por mim, leigo na matéria passa-me ao lado e até acho a música bastante fria. Pode-se dizer o mesmo do drum'n'bass, EBM ou outras correntes dançantes mas talvez o meu principal embirranço seja justamente ao ouvir estes "ecos de África" não oiça vozes humanas. Essa falta de vocalizações dá a entender que a identidade destes descendentes africanos foi apagada, criando um desconforto pouco estimulante para quem não é DJ ou oiça música de dança de forma quotidiana. Percebo a euforia em volta desta música pelo seu ingénuo "afrofuturismo" cujas texturas são tão sintéticas como um cromado de um carro quitado "lá do bairro" e que isso seja um ponto positivo para muitos.

Muito mais entusiasmante achei a colectânea Balani Show Super Hits: Electronic Street Parties From Mali (Sahel Sounds; 2014) porque os gajos que fazem de MC estão presentes. Ouvem-se vozes! Até podem estar a dizer as maiores barbaridades, nunca saberei porque apesar da língua oficial ser o francês, é óbvio que quem grava música popular caga bem de alto na língua do opressor. Festa assumida porque o "Balani Show" é uma festa de rua, eis um LP para mexer o rabo (mesmo o dos caucasianos chatos) em que o kuduro aparece como caminho principal, tendo como paralelas instrumentos locais e o Hip Hop.

Mais agressivo, rápido e estimulante são os Supreme Talent Show também do Mali - a Sahel lançou uma k7 homónima em 2015. Inserem-se numa corrente musical chamada de "Ambience" que incorpora o Balani mas com mais Rap, o uso de sintetizadores e suponho eu letras socialmente interventivas. Ao que parece o género Ambience (atenção que de Ambiental não tem nada!) trata-se de um som underground no Mali por isso apreciem quando os descobrirem... Bring tha noize!


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Intermezzo


Music from Saharan Cellphones (Sahel Sounds; 2011) é um LP (originalmente editado em k7) que compila a múica mais popular que se ouvia em 2010 no deserto do Saara através da transferência de ficheiros via Bluetooh dos telemóveis... Já quando o autor Bruno Borges foi à Mauritânia (creio...) tinha-me contado que não encontrou nem k7s nem CD-Rs das músicas regionais, como se esperava para quem pensar por exemplo na Awesome Tapes of Africa. Invés disso, era preciso ter uma pen USB para os locais colocassem músicas nela. Uma sofisticação tecnológica inesperada sem dúvida. Voltando à compilação, uns gringos de Portland, andaram pelo Saara, gamaram essas músicas e fizeram a tal k7. Mais tarde depois de localizar os compositores saiu o LP, supostamente pagando os royalties aos seus autores. Alguns deles aliás que se transformaram em stars do circuito "world music" como Mdou Moctar ou repetentes para outras colectâneas da Sahel como Kaba Blon. Além do "Blues tuaregue" que já há muitos anos tem sido difundido pelos Tinariwen à escala global, encontra-se Hip Hop e Techno do Mali - a lembrar o kuduro - mostrando de quem anda de camelo no meio do deserto sabe curtir mais a vida do que os coninhas ocidentais que ouvem Arcade Fire e outras bandinhas indie da tanga.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Soul Jazz à 'tuga!


A k7 voltou! Ou melhor regressou de vez porque se foi sempre existindo como um formato de oposição  à voracidade dos meios digitais ("googlar", descarregar, ouvir, despejar) para uma música que se pretende melhor e que requer atenção, não se esperava que também fosse usada para reedição de "música antiga" - mas porquê o espanto? Quando a k7 apareceu, não disseram que ia dar cabo da indústria fonográfica porque era um meio fácil de piratear?
O Instituto Fonográfico Tropical é o R.S., um gajo omnipresente em todas as festas e sítios populares (pós-lumpen não hipster, atenção!) e pelos vistos é um coleccionador de música perdida em singles e EPs que já ninguém quer saber. Faz de DJ (ou será unDJ?) por onde o Império Romano passou - ou seja, de Roma a Évora - com estas pérolas "afrosulamericanas". Não está a fazer um trabalho de pesquisa como a Soul Jazz, Soundway ou Awesome Tapes of Africa porque não há materiais de contextualização (fotografias, ensaios, fichas técnicas, etc...). São apenas umas compilações para a malta curtir no auto-rádio - 77,8% dos ouvintes de k7s afirmam ouvir exclusivamente no carro - como naqueles tempos em que se parava numa estação de serviço à cata de uma cena fixe para se ouvir para a viagem.
Ainda só ouvi a de Cumbia e de Coladera, na primeira k7 parte-se a loiça todo com os orgãos ácidos e ritmo de engate barato - destaque para La Chichara de Hugo Blanco! - e na outra curte-se como um doido graças ao Bana, Tubarões e cia - mesmo com o som sujo do vinil que o IFT gamou a malha. Nice!


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Joder! Es mas bueno que pensava!



Von Magnet : El Sexo Sur-realista (Dancetaria; 1987), El grito (auto-edição; 2007; orig. 1994), Electroflamenco (auto-edição; 2004)

O historiador Friedrich Heer no livro Mundo Medieval: A Europa de 1100 a 1350 diz que nesses tempos e neste continente as pessoas viajavam mais e havia mais intercâmbio de culturas do que no século XX. Ao que parece se houve realmente uma Europa tolerante foi no século XI e XII onde as religiões e nacionalidades não tinham o peso que começou a surgir no final dessa Era até aos dias de hoje, com a criação de pátrias e nações arrumadinhas a jeito e os cismas que vieram daí. Esta evocação de um mundo que era mais mestiço é-me sugerido pelos Von Magnet, grupo de artistas (músicos, visuais, bailarinos, multimedia) com uma cotação mítica e de culto. São nómadas como muitos europeus deveriam ser em 1100, acho que são franceses mas estiveram por Londres até aos anos 90 e depois vadiaram por aí como ciganos cyberpunks que são.

"Vadio" é um termo que lhes fica bem porque o seu "electroflamenco" não se compromete nem com categorias rígidas da música "world" nem da "electrónica". A fusão é total e perfeita, de tal forma que confunde os sentidos e funções das tais categorias originais. Estes discos deles não servem propriamente para dançar apesar do "electro" e do "flamengo", mostrando que a modernização de géneros tradicionais não passa por aberrações populares como os Gotan Project [falo neles por ser o mais mediático, em Portugal] que simplesmente metem umas batidas hip hop por cima do som tradicional e já está.

Aqui há Electrónica mas também há Amor. Se houver baile então ele será novo e diferente dos antigos bailaricos, um novo ritual cosmogónico, o que até faz sentido visto que o colectivo veio das cinzas da cultura Industrial que se ouve em algumas partes dos discos. Em 1987 já há IDM com Pop dramalhão, até uma pitada de Free Jazz, cinematografia, sangue na arena, chamas no bordel, palmas e castalholas a 98 bpm's, tusa e sapateado. Olé!

PS - para quem nunca tomou conta deles, bom é porque é surdo, a Thisco fartou-se de os editar por cá e até está o Phil Von (mentor da coisa) num Antibothis.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Guilty pleasure

 

Prince : Batman - motion picture soundtrack (Warner; 1989)

Era puto, o filme Batman pelo Tim Burton saía no mesmo ano que ia a Inglaterra pela primeira vez na vida... Comprei a cassete porque na altura não havia dinheiro para CDs ou vinil, k7 essa que todos os anos oiço no auto-rádio do carro mas em 2012 eis-me a comprar a versão em vinil, em segunda mão numa loja em Lisboa. Qual a desculpa? Pá, um dia nas minhas sessões de unDJ poderei passar uma das faixas, nem sei qual, são todas boas... Até a baladinha xungeta é bem esgalhada. O Prince é o James Brown e Stevie Wonder dos anos 80/90, o gajo faz caldeirão de Pop, Rock, Soul, Funk, Hip Hop e tudo o mais que for necessário para meter a malta a curtir. A banda sonora é melhor que este filme sobre o fascista do Homem Morcego! Duvido que o filme se aguente ao teste do tempo como a música, garanto-vos! Agora só falta contratarem-me para uma noite para eu passar o Partyman ou o Batdance. E a pensar que troquei o Prince pelo Punk...

Prince deixou-nos ontem entregues aos lobos da Pop de merda que se produz hoje. 1989 sempre!

terça-feira, 19 de abril de 2016

Infecção Urinária Etíope

O mundo é feito de encontros e descobertas, acontecimentos esses que podem trazer desgraças ou glórias para a Humanidade. Os encontros inesperados, diria eu, são os melhores pois quem alguma vez iria supor que os The Ex, uma banda anarco-punk holandesa criada em 1979, iria juntar-se a Getatchew Mekuria, um músico etíope já com 71 anos? Melhor que ser um “evento bizarro” é que ofereceu jóias à coroa divina da Música! Desde 2004 que estas duas entidades têm-se encontrado para concertos e discos (incluindo um DVD ao vivo), trazendo todo um sopro de ar fresco na música que conhecemos. Nem sei muito bem por onde começar esta história…

Se calhar deve-se afirmar logo que os The Ex não são os típicos “punk biesta” fechados no 4/4 e gritos básicos de ódio ao sistema. No auge do movimento Punk, é verdade, que começaram com singles a chamarem de estúpidos aos americanos e tudo mais mas ao longo da carreira foram progredindo sob várias formas musicais que merece o respeito de qualquer melómano – famosas são as suas colaborações com membros de Sonic Youth (outros que se podem nivelar num patamar de Rockeiros de mente aberta), o violoncelista Tom Cora (1953-1998), os provocadores e recém-extintos Chumbawamba,…Não é de admirar que em 2011 tocaram no festival lisboeta Jazz em Agosto com dois conhecidos improvisadores do Jazz: Paal Nilssen-Love e Ken Vandermark.

Depois, há toda a Música da Etiópia, impossível de sintetizar num texto como este mas quem tiver curiosidade pode ser ouvida (e lida em francês e em inglês) nos 27 discos da série Éthiopiques pela editora francesa de “world music” Buda Musique. Focada essencialmente na “época de ouro” da música etíope – ou seja, o seu Jazz registado entre 1969 e 1975 – esta série de discos também faz desvios para documentos étnicos como o volume 12, Kirba Afaa Xonso (2001), dedicado à música do povo Konso; ou o segundo volume, Tètchawèt! : Urban Azmaris of the 90’s (de 1997) dedicada à música urbana dos anos 90 depois da queda do “Derg”.

O “Derg” foi um regime militar de inspiração "comunista" que desde os anos 70 governou o país com recolheres obrigatórios, censura e propaganda, levando a músicos à prisão ou ao exílio, destruindo a rica cultura da Etiópia e, em triste apoteose, às epidemias de fome nos anos 80 – que levou à famosa manifestação musical Live Aid, em 1985, talvez um dos primeiros fenómenos mediáticos da Aldeia Global ou «a maior operação de braqueamento de dinheiro do tráfico de cocaína» segundo o Frank Zappa. Seja como for, o lado negativo do Live Aid é hoje ainda evidente, pois transformou a imagem de um país de forte personalidade - ao contrário dos outros países africanos, a Etiópia nunca foi colonizado pelos europeus, tirando a curta estadia dos italianos (1936-41) - em algo ultrajante como um país desértico e miserável.

Como afirma Andy Moor (guitarrista dos The Ex) no artigo da The Wire 337 (Mar’12), na Etiópia come-se e bebe-se bem, e a hospitalidade é de uma refinação ancestral. E claro, há o tal Jazz Etíope que será de agrado de qualquer pessoa que embirre com os saxofones do Jazz ocidental. É uma música bastante peculiar que nas suas origens dos anos 60 procurava a modernidade ocidental em sintonia com o espírito rebelde que acontecia em todos os países no mundo dessa altura, e que os músicos desenvolveram um estilo de som de sopros metálicos que nos embalam numa perspectiva mais “soft” e exótica, misturando raízes próprias com o Jazz e o Blues norte-americanos. As bandas etíopes vinham de grupos de fanfarras da polícia ou bandas do exército e que, pouco a pouco, tornaram-se independentes tocando em sessões para clientes de hotéis e mais tarde em outros circuitos privados. Aconselho ouvir, por exemplo, Alèmayèhu Esthèté, que é dado destaque no volume 22 (de 2007) das Éthiopiques.

Com o regime do Coronel Mengistu perdeu-se uma geração musical entre 1975 e 1991, e pior, criou-se uma geração que não conhece o seu próprio passado, situação essa que o coordenador das Éthiopiques, Francis Falceto tenta perspectivar, seja pela tal programa de reedição dos discos antigos como descobrindo linguagens quer contemporâneas quer etnógrafas. Mas ele não é o único apaixonado pelos sons daquela terra, há outros tipos como estes holandeses The Ex, completamente enfeitiçados pelo país, onde alguns dos seus membros viajaram nos meados dos anos 90.

Nos meados nos anos zero deste milénio começaram a tocar pela Etiópia, a organizar eventos e workshops e em 2004 começaram a editar discos de artistas etíopes, na sua sub-label Terp Records. Os The Ex, tal como os Fugazi com a sua Dischord ou Jello Biafra e a Alternative Tentacles, são punks que controlam os seus meios de produção, no melhor esprírito DIY, e usam o nome da banda para a sua editora, The Ex Records. A Terp é uma “subsidiária” para discos de música improvisada em que os seus membros participam ou para os artistas africanos que desejam dar a conhecer, colaborando ou não com eles. Daí que tenham editado Ililta! New Ethiopian Dance Music (2009) que é seguimento cronológico de Tètchawèt! onde se intercepta o cantor cego Mohammed “Jimmy” Mohammed (?-2006) nas duas colectâneas. Nesta última escolheram uma nova geração de músicos que pegam em temas tradicionais etíopes com novas roupagens dançáveis mas sem ser a produção plástica Pop. Nada de sintetizadores e “drum machines” foleiros nem a prática “dance mix” tal como a conhecemos no Pimba, Turbo-Folk e outras variedades. A selecção que nos é mostrada é sobretudo uma atitude acústica que remete para uma transformação da música etíope sem entrar nos esquemas cosmopolitas e imundos da Aldeia Global. Já agora, aconselho vivamente o single Gue / Selame, que lançaram dois anos depois da colectânea, em que dois músicos dos The Ex intervêm conjurando duas “trips” etno-cósmicas que fazem mexer as ancas em tremeliques, especialmente o primeiro tema, com a voz feminina de Tirudel Zenebe que revela ser um inesperado docinho saltitão.

Ao comemorar os seus 25 anos de existência, The Ex organizaram um festival em Amsterdão em 2004, com convidados de vários estilos musicais onde trouxeram também Getatchew Mekuria, de 71 anos a actuar pela primeira vez na Europa. Assim chegamos a Moa Anbessa (2006), primeiro registo de Mekuria com The Ex e com convidados – um combo de metais – num disco explosivo que consegue mesclar todo o saber de um saxofonista “sénior” com os “punkers” pouco-ortodoxos. Temas como Ethiopia Hagere ou Che Belew Shellela acrescentam algo de novo no mundo musical, contrariando os cínicos de “já se fez de tudo”. É um disco ingenuamente eclético em os temas de guerra são revistos à percussão do Punk ou com recitais de panfletismo anarca. Ainda pelo meio há temas mais puros do Jazz Etíope dos anos 70, mesclas desses temas com as guitarras sub-reptícias dos The Ex e um solo ao vivo de Mekuria. Um disco de música pura, que estaleja o cérebro e o pontapeia o corpo relembrando-os quando a música nos fazia sentir algo inesperado.

Entretanto os músicos viajaram pela Europa, Etiópia e Norte da América com o disco na mão, entrelaçando o seu companheirismo e sintonias musicais e lançam Y’Anbessaw Tezeta (2012), duplo CD que cheira infelizmente a epitáfio e a documentário. No primeiro CD é feita mais uma colaboração entre estes amigos e o segundo CD é o registo de várias participações de Mekuria ao vivo. Apesar de ambos os discos de 2006 e 2012 terem partido do saxofonista a convidar os The Ex como “sua banda de estúdio”, existem algumas diferenças nas condições - como a saída da banda do vocalista dos The Ex - e nos resultados pois de alguma forma o primeiro disco (de 2006) é nitidamente uma “parceria” (por mais eurocentristas que possamos ser) enquanto o de 2012 soa realmente a “convite”. Em 2012 temos um saxofonista com 76 anos que acha que este será o seu último disco após uma vida cheia, especialmente nos últimos anos em digressão mundial cheia de histórias hilariantes – que o livrinho do CD conta – e parece que os The Ex tomam uma posição submissa.

Os discos que Mekuria gravou tem sempre duas facetas, uma telúrica “militar” vinda da tradição de bandas militares onde todos os músicos modernos etíopes ensaiavam e tocavam, e outra faceta, melancólica com sabores orientais num Jazz mais tipificado mas que não corresponde ao “template” do Jazz norte-americano até porque os músicos etíopes não tiveram, ou por questões económicas ou por censura estatal acesso aos discos estrangeiros. O caso de Mekuria é sintomático, agora que foi descoberto no Ocidente, os críticos musicais tentaram compará-lo a Ornette Coleman, o que o senhor respondeu que nada sabe, não o conhece… e que só toca música etíope!

Y’Anbessaw Tezeta é mais cristalizado, mais calmo, uma espécie de testemunho musical que Mekuria quis deixar do seu estilo, do teu talento e da qualidade musical da Etiópia, que até está mais patente no segundo CD deste novo álbum onde encontramos vários registos ao vivo de Mekuria: com o grupo holandês e mutante de música improvisada ICP no clube Paradiso (onde se comemorou o tal festival dos 25 anos dos The Ex), gravações de Mekuria e The Ex em tournê de promoção do seu primeiro disco em conjunto e dois temas do saxofonista com a Orquestra de Polícia Fukera e Orquestra do Teatro Haile Selassie 1 durante os anos 60 gravados numa k7 qualquer encontrada pelos The Ex.

Para quem tiver com orçamento apertado Y’Anbessaw Tezeta é uma salganhada tão agradável, diga-se, que permite ter um bocadinho de tudo que se escreveu até aqui. E já agora, este CD duplo custa só 15 euros (portes incluídos) pedindo directamente à Terp. É DIY puro e duro!

Artigo escrito em Setembro de 2012 para a Infektion Magazine, hoje recuperado porque soube do falecimento de Mekuria a 4 de Abril, com 81 anos.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Que se lixe!


Skrew : Shadow of Doubt (Metalblade; 1996)

Devem meter ácido na água do Texas tal é a quantidade de bandas estranhas que aparecem por lá. Os Skrew nem são assim tão marados como uns Butthole Surfers mas estão bem para um universo Industrial Metal, ou seja um crossover de géneros para quem gosta de Ministry e My Life With The Thrill Kill Kult. Todo o disco é bem 90s: pesado, agressivo, sujo mas pronto para o disco-headbanging de forma a render a quem não acredita em pureza sonora. É o terceiro disco da banda, lembro-me que os primeiros disocs eram melhores ou mais pesados. Acabaram em 1998 e voltaram à pouco tempo mais metaleiros que electrónicos ao que parece. Em 2016 ninguém quer saber deles por isso bem vale 1 euro comprado num metal-feirante de Barroselas...

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Ubik para todos


Telectu : Ctu Telectu (iPlay; 2008)

Caramba, 'tá difícil escrever práqui, é muitos discos e livros para consumir, pouco tempo e dedos cansados com a recente colaboração de resenhas críticas para o sítio da Mundo Fantasma. Como este disco tem muita relação com a BD, aqui vai: este é o primeiro disco dos Telectu, duo de música experimental que marcaram os anos 80 em Portugal fazendo parte Jorge Lima Barreto (1949-2011) e Vítor Rua. Segundo, uma conversa recente com o músico e autor de BD Carlos "Zíngaro" por causa de um projecto da Chili Com Carne para reeditar BD's dos anos 70, este autor disse-me que quer na área da BD "alternativa" quer na da música improvisada/ experimental/ vanguarda, os anos 80 foi a pior década.
Não quer dizer com isto que não pudessem aparecer OVNIs como este disco de 1982, editado pela Valentim de Carvalho (sabe-se lá porquê). Ctu Telectu soa a um primitivo Art Rock nas suas improvisações - o vocalista que aparece neste disco recita de forma aleatória textos de BDs inglesas e italianas (!) - enquanto bate num No Wave qualquer. Soa a dimensões alternativas não fossem todos os títulos das músicas dedicados/roubados ao escritor PK Dick, falecido nesse mesmo ano.
É bem provável que o álbum tenha sido ignorado na altura e tenha batido a quem recebe raios lazer divinos cor-de-rosa. Se Ctu Telectu foi um OVNI em 82, passados sete anos aconteceria o mesmo com os Santa Maria, Gasoolina em teu ventre! É importante que se recupere a discografia dos Telectu, dado aos seus preços proibitivos da segunda mão e a importância do projecto.
Ah! Na reedição deste disco (sabe-se lá porquê, estranhamente numa editora de Pimba, Fado e Pop) estão dois "Ruis amigos", o grande Rui Eduardo Paes escreve as notas sobre o disco e o Rui Garrido (designer da terceira série da revista Quadrado e que entra num sonho meu no MdC #24) que fez a adaptação gráfica de LP para CD. Zoing!

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Cagufa da Revolução



The Last Poets (Celluloid; 1984 - orig. Douglas, 1970)

Recentemente escrevia sobre uma antologia de BD de um autor queer e dizia que o que gostava no trabalho desse autor era que ele não tinha um discurso só para a sua comunidade diferenciada e que alguns sentimentos das suas BDs seriam universais para qualquer ser humano. Os oprimidos podem ter a cor de pele ou outra coisa qualquer que os faz serem reprimidos pelo "Velho Branco Europeu" mas é bom que o discurso do reprimido seja entendido por outros reprimidos.
Estes vovôs do Hip Hop tinham A Fúria contra a miséria que o negro era submetido nos EUA. The Last Poets com três vozes e uns batuques fazem mais barulho contestário que qualquer banda de Grindcore.
Stop! Escrevi "era submetido"?
Sim "era"... desde os anos 70 que passou a haver uma classe média de população negra norte-americana, até mais do que isso, passou haver ricos e até elegeu-se um Presidente inútil duas vezes. Pelo caminho continuam haver milhares de miseráveis. Negros. Ameríndios. Brancos (o racismo do capitalismo: o "white trash"). Outras etnias.
Ouvir  em 2016 os The Last Poets por mais que se dirigam a uma comunidade negra nos finais dos anos 60 fazem ainda todo o sentido ouví-los mesmo sendo eu branco, português e hetereossexual (o típico repressor!). O que eles gritavam em 1970 tem ainda A Força. A Mensagem deles pode ser absorvida/adaptada para qualquer outra situação de quem vive vítima sobre a marcha incontrolada do Capitalismo brutal (todos nós, quer queiramos quer não). Dizem eles nos seus recitais que os "niggers" gostam de anúncios de publicidade ou que "niggers" tem medo da revolução, substituam "branquela" invés de "niggers" e o significado é o mesmo. Os brancos daqui da esquina embrigados por futebol, roupa e Kuduro? Uma miséria idêntica a de 50 anos no Harlem, a diferença é que os poetas 'tugas são todos uns meninos.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Hinos Nacionais

Nástio Mosquito com Se eu fosse angolano (Dzzzz; 2014) mostra que a música angolana moderna não precisa de ser bronca-populista-kudurista nem de intervenção-máquina-do-tempo como Ruy Mingas. A verdade desta frase é sobretudo provada no CD de "remix" (mas que também tem temas novos) intitulado S.E.F.A. Fast Food que acompanha o CD "oficial", o original, o que dá título à coisa e que é mais Mingas que "electrónico".
No Fast food os complexos são mandados às favas e lá se vai ouvindo temas com pendor Electro / House que podem rolar na boa num bar ou numa discoteca de música "alternativa"... Um sopro de ar fresco para a lusofonia! Só é estranho não estarem todos as músicas dois CDs numa só rodela uma vez até que cabiam num só disco. Vaidade de artista com orçamento?
Os temas de Mosquito passam pela crise de identidade de um angolano cuja pátria pouco lhe diz - e realmente, para que serve a Pátria a não ser para os tarados nazis? Ou ainda, o que é que o teu país fez por ti? E afinal, pensando melhor, do que há de angolano destes discos? A produção é de bifes, Mosquito deve ter vivido mais em Portugal ou fora de Angola do que viver lá. Se eu fosse...





Já escrevi várias vezes em publicações físicas ou em linha que o Hip Hop português tem apenas duas ou três personagens que valham a pena ouvir os discos do princípio ao fim. Ou seja, artistas com visões próprias que recusam serem carneiros do género musical e que ousam quebrar barreiras. Um era o Ex-Peão que entretanto entrou num jogo comercial muito pouco interessante, os outros dois são Allen HalloweenNerve. 2015 foi o ano de regresso de ambos e foram os álbuns do ano do Pop/Rock/música urbana portuguesa. Se não concordarem ide ouvir o Stoner de trazer por casa!

(..) o público não compreende a gente (...) porque as letras agora (..) não interessam (...) não sabem apreciar o trabalho do poeta até dizem: isto é tão grande (...) a letra é tão grande - um "sample" no tema Conhaque in "Trabalho & Conhaque” ou “A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança" (Mano a Mano; 2015). Esse "sample" de um poeta português do século passado (?) poderia justificar o enorme tempo que levou a saída deste CD desde o primeiro de Nerve na saudosa Matarroa... sete anos! O mundo web.2 impôs uma velocidade alucinante em qualquer campo das nossas vidas. A única forma de fazer Arte é desacelerar e até é justo que se consumam sete anos para elaborar, idealizar, realizar e despejar manifestos de como esta nossa modern life is rubbish... ou a vida não presta e ninguém merece a tua confiança.
Nerve faz-se de bobo moderno, vomita bílis por cima do PC e do engate "one night stand", nada é poupado e sendo o bobo não lhe cortam a cabeça. E ainda bem, precisamos de alguém que nos esgote a nossa esperança fazendo de espelho (não muito) distorcido e misantrópico para recuperarmos o que pudermos das cinzas deixadas no fim de cada audição. É preciso um sentido de humor bem negro para aceitar este disco como algo fixe! Obrigado Nerve!
Duas notas negativas numa produção fabulosa, a primeira é a capa que parece uma composição da C+S e tal como Allen Halloween podiam ser menos óbvios no aproveitamento daquela ideia do Tyler The Creator da segunda voz, ou seja, aquela voz distorcida de diabinho da consciência a dizer aos nossos queridos rappers para serem maus e xungas. Come on! Cena cristã batida!


Ops! O que fui dizer! Com Híbrido (ed. de autor), terceiro álbum de Allen Halloween, este despede-se da vida gangsta, dá aquela lição de moral aos putos apelando ao facto de que Deus é que é - virou Jeová como acontece qualquer africano de gueto a dada altura da sua miserável vida, invés de se virar para o anarquismo ou qualquer projecto social, infelizmente existe esta tendência do homem do gueto preferir-se enganar e aos seus próprios irmãos com patranhas religiosas. Seja como for, neste disco ainda não é grave a mensagem evangélica mas ai dele que avance com um próximo disco vestido de branco missionário e com orquestrações celestiais!
Para além das questões luso-africanas e de guetização social dos negros em Portugal, Allen é mais do que um panfleto da miséria local e consegue tratar de miséria... universal! Sendo um álbum com 13 faixas inesquecíveis há dois temas transversais para Portugal 2015 ou 2016 tanto faz: Gangsta Junkie é um surf rock melhor que qualquer banda garageira que ande por aí com uma letra tuk tuk que no seu primeiro minuto faz a polaróide lisboeta que ainda ninguém musicou. Será um hino para a Capital do Turismo se é que já não é! Mr. Bullying é uma narrativa alucinante (e terrivelmente orelhuda) de um potencial Columbine 'tuga. É tão assustador que nos deixa na merda e penso como ainda não aconteceu algo assim em Portugal? Bem... no ano passado houve um puto em Salvaterra de Magos que assassinou outro por causa de umas sapatilhas ao que parece. Para 2016 prevê-se o tiroteio numa escolinha, não? Afinal, seja para brancos ou negros, nada mudou, as nossas vidas continuam pendulares casa-trabalho como Nerve denuncia, os putos na escola ou na prisão é quase o mesmo resultado - estão lá, esquecidos pelos pais - e já foi anunciada nova crise financeira.
Bro, a Bíblia deixa-nos interpretar todos estes sinais do Apocalipse por causa do nosso próprio ADN cristão que aborve imediatamente as suas fábulas como verdades normativas. As soluções estão noutros livros mais à esquerda, citar os Clash já não é mau mas vai ler Bakunin, Halloween, e mete Javé no teu cu!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Comprei um disco de Emocore...


Pensava que podia comprar um disco de Drumcorps sem pensar em ouvi-lo e ficar louco por ele à primeira audição (todos procuramos o áudio virgem, certo?) porque o álbum anterior, Grist (Ad Noiseam; 2006), foi das melhores coisas que ouvi nos últimos tempos. Falling Forward saiu agora, é o segundo disco deste projecto e é uma valente merda!

Não sou um fã de Breakcore do tipo dogmático - como os punks bestas ou metaleiros com palas - mas este disco parece que é Emocore! Armado em Rock Star de merda? Um trabalho para fazer guita? Eis perguntas estranhas... a verdade é que o Breakcore que teve uma explosão de criatividade na primeira metade deste milénio não conseguiu - e ainda bem! admito, afinal, ter uma costela dogmática e fanática - saltar de um grupo mais ou menos pequeno de radicais para esquemas comerciais, como aconteceram com todas as outras subculturas urbanas. O que acontece é que neste disco há uma série de músicas cantadas por Aaron Spectre (é assim que se chama o gajo de Drumcorps) numa onda tão Emo que até mete nojo...

Sua bestinha, esta é a razão porque se ouve barulho Breakcore, é justamente para não ouvir trampa!! Por causa disso (nada contra projectos Breakcore com vozes) funciona como um produto para massas, sem muito a transmitir, tipo Nine Inch Nails desde que eles se tornaram irrelevantes. Há faixas que mostram Spectre sabe des/cons/truir "beats" completamente alucinantes que o deveria protagonizar como uma vanguarda do corpo morto e putrefacto do Metal - um género incapaz de ter ideias novas há uma década. Drumcorps é maquinaria mas também é uma guitarra de riffs metaleiros, daí a aproximação possível à Arena Rock sem desdenhar a pista de dança.

A sua vozinha de mosca morta estraga o que poderia ser apenas um bom disco mesmo que a parte instrumental não tenha ideias assim tão brilhantes como há 9 anos atrás. Está num beco sem saída? Pior, que faço eu com isto agora!? Prendinha de Natalixo de certeza... Vingança final: uma pontuação  à fanzine Metal: 3,2 em 5, toma lá ó vendido!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Linha Clara



Eis o segundo disco de Fay Lovsky & La Bande Dessinée intitulado Numbers (Basta; 1997). Porquê, ó Farrajota? Cheguei a esta senhora holandesa da forma estranha, pois sou um fã incondicional da banda sonora de Natural Born Killers (não do filme, atenção!) e como preparo uma BD sobre isso andei às voltas de uma das faixas de uns tais A.O.S. Projecto esse que não existe para além do elegante tema da banda sonora e cujos elementos são Klaus Buhler (compositor), Thomas Wilbrandt (condutor de orquestra) e a cantora Lovsky que grava desde 1980.
Entretanto descobri na discografia da cantora este CD com um tema dedicado a Portugal, capa do autor de BD Joost Swarte (pró ano e aqui poderão ler um texto sobre ele, estejam atentos), uma banda chamada de "banda desenhada" e o discogs.com a bombar barato... como não comprar tal coisa?
Revelou-se feio o objecto fonográfico em que só a capa de Swarte é que se safa. O resto é uma americanice com fundos orquestrais, tudo bom gosto como aliás A.O.S. já prometia. O tema Portugal é realmente fixe e a melhor coisa do disco, nacionalismo-barato à parte.
E agora?
Volta para o discogs, né? Podia ter passado no Invisual se ainda fizesse rádio, bah!

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Finger lickin' good



Fudge Tunnel : Creep Diets (Earache / Columbia; 1993)

Meu, cada vez acho que os anos 90 foi a última década de música Rock à séria, ou pelo menos para o Rock "pesado"... E com isto admito ficar velho, quadrado e estúpido. Que se lixe... Nunca ouvi os Fudge Tunnel nos anos 90 embora soubesse que um tal de Alex Newport fosse da banda. Sabia que este cromo Newport era um produtor conceituado e soube que ele existia através daquela bomba de pregos "Indus-trash" que eram os Nailbomb - a única merda de jeito que o Max Cavalera fez fora dos Sepultura.
Fudge é Rock sujo, a roçar Hardcore e Metal, muito nas linhas de Helmet ou Nirvana-porque-não, são ingleses da mesma cidade da editora Earache e dos Napalm Death, por isso, se falamos de rock barulhento é isto. São do melhor. O resto pouco importa...