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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Este tipo tem 68 anos e continua a fazer coisas tão interessantes.

A bela frase do título deste "post" é uma declaração do David Fonseca numa entrevista no último número da revista Blitz.
Pois é, Fonseca, o David Bowie tinha 68 anos e continuava a fazer coisas interessantes, ao contrário de ti que não deves ter mais de 40 e precisas de o vampirizar (camuflado de homenagem oportunista) para venderes discos com os teus outros amiguitos nulos que tal como tu nem fazem nada de interessante como não têm ideias...
Admiram-se por estar aqui a falar do Blitz? É razão para tal porque esta foi a quarta vez que comprei a "revista-ex-jornal" desde que surgiu nesta fórmula editorial em 2006. Acho que comprei os dois primeiros números por hábito de consumo do jornal semanalmente. Ao segundo número irritei-me e deixei de comprar esta trampa.
Passado mais de 10 anos, nada mudou, a revista continua a ser uma bosta de velhice burguesa que é constrangedora. O motivo de ter comprado este número? O CD dedicado à Ama Romanta que nada adianta para os colecionadores anais que tem toda a discografia alguma vez produzida em Portugal (não é o meu caso mas conhecia a maior parte do material editado) mas é um bom serviço público de divulgar o que foi a mais emblemática editora fonográfica independente nacional dos anos 80.
Com muita vergonha comprei esta publicação com a capa da banda mais nojenta do mundo - meu, se o Trump os bombardeasse até eu votaria nele nas próximas eleições (oh yeah!). A outra vez que comprei a revista foi também graças a um CD e um Canibal na capa porque de resto os discos que acompanham tem sido do pior, ou xungaria ou velhotes que ao contrário do Bowie já não tem nada para oferecer ao mundo a não ser velhas glórias. Poderiam acusar de que este CD - Ama Romanta : 1986-1990 : uma História Divergente - também poderia estar neste grupo das velhas glórias para nostálgicos mas ouvir Sei Miguel ou Mão Morta passados 30 anos garanto-vos que ainda não entraram no registo datado nem as suas produções mais recentes ao contrário de tudo mais que se produz no pop/rock português ou o que é divulgado pelo Blitz. De resto a entrevista a João Peste é suficientemente demolidora face à situação...
Futuro da revista? Só a coluna do Dr. Bakali que mesmo nos tempos do formato jornal divulgava tanto fanzines de BD como alta-tecnologia. Hoje continua ser a única voz na revista com um pingo de sanidade, inteligência, cosmopolitismo e contemporaneidade, tarefa nada fácil nos tempos do pós-modernismo e nostalgia pechisbeque.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Manuel João Vieira : "Só desisto se for eleito" (Artemágica; 2004)

Eis o livro que é uma paródia artística, social e política do artista "homeostético" Manuel João Vieira, mais conhecido por ser músico dos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita. Se ele tivesse levado a sério (mas a brincar) poderia ter antecipado o Trump a 15 anos de diferença!!! Portugal poderia estar na vanguarda política - embora esteja se formos a ver bem, temos a "geringonça" de Esquerda enquanto que o resto do Mundo está a virara à Direita fascista. Ainda por cima com as vantagens sobre Trump é que o machismo de Vieira é proto-feminista, o ser alcoolismo é pseudo-abstémio, a sua alimentação omnívora é pós-vegetariana, o seu conservadorismo é vanguarda do catano, além de que de longe que Vieira seja monossilábico, pelo contrário é polígamonossilábico! Teria sido o primeiro Presidente do mundo reaccionário aberto. Um verdadeiro político Ying / Yang da escola de pensamento Hon-Hin-Hom.
Como é bem dito sobre este livro, Vieira concebeu em 2002 a sua maior (...) obra de arte pública: candidatou-se a Presidente da República de Portugal. Uma candidatura firme assente numa campanha completa - teve tempo de antena televisivo, radiofónico e na imprensa; percorreu Portugal de lés-a-lés; discursou de varandas e palanques; escreveu reivindicações; teve seguidores. Só desisto se for eleito é a reunião de textos, desenhos, fotografias, cartas, situações vividas, enfim, de um sem número de manifestações do povo português que nestes meses reagiu surpreendentemente.
Se a partir de hoje começa a luta contra a Grande Puta na gringolândia, é preciso estar atento que à nossa porta estão outros parecidos com ele pela Europa fora e nunca se sabe quando aparece um bardamerdas mais carismático que o António de Sousa Marinho e Pinto.
Um bom livro para relembrar que no tapete da Democracia tudo é possível por isso nunca se pode dormir sobre ele com o risco de ser-se pisado pelos porcos. Obrigado Dr. Gamão por esta literatura tão necessária para descomprimir da época natalixa.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Kim Gordon : "A miúda da banda" (Bertrand; 2016)

Gordon é uma ex-libris de uma geração "alternativa" graças a fundação dos Sonic Youth, banda que partilhava com o seu ex-marido Thurston Moore. Juntos eram vistos como um casal de sonho ou modelo para quem acharia impossível nos séculos XX e XXI ter dois artistas íntegros a fazerem as caretices como casar e ter filhos (só tiveram uma criança, calma) mas mantendo uma banda de Rock que era "do contra". O divórcio de ambos foi uma pedra no charco para muitos, quase tão chocante como o tiro na cabeça de Kurt Cobain em 1994.

O livro apesar de ser muito abrangente devido à vida rica de experiências de Gordon, acaba ter algo de ressabiado e de lavagem de roupa suja mesmo que Gordon escreva com elegância e energia suficiente para não estarmos a ler um romance de cordel ou livro de escândalos dos famosos mas é verdade que Moore aparece mesmo como um teenager idiota no que diz à crise e final da sua relação com Gordon. Para uma banda de cinquentões a chamarem-se ainda de "Youth" ele deveria levar isso muito a sério, pelos vistos...

O livro é bem melhor do que parece depois disto dito, é uma biografia que vai desde a infância até aos dias pós-divórcio e final da banda, tendo Gordon tiradas certeiras sobre uma série de temas como o casamento, maternidade, espectáculo e arte no mundo do Rock ou ainda da história ou evolução da música Rock. Algumas vezes cândida outras vezes agressiva (mas sem ser bruta nem burra), a escrita de Gordon parece-se as oscilações e texturas da música dos Sonic Youth, o que se calhar mostra que a banda era mais dela do que dos outros...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

André Costa : "As aventuras subjetivas de Björk" (ed. autor; 2014)


Não há artista Pop que mais fascine que a Björk - só mesmo os Die Antwoord para competir com ela - dado ao seu estatuto de estrela mundial sem que exponha a bundinha por tudo e por nada como as porcas das Madonnas & Britney Spears. Mais que uma cantora ou música, ela é uma artista mutante e com conteúdo. É natural que apareçam leituras sobre ela, como o caso deste livro brasileiro que faz uma actualização à dissertação de mestrado As aventuras subjetivas de Björk: da emergência de novas subjetividades no universo pop contemporâneo defendida em 2003 na Faculdade de Comunicação da Universidade do Brasil.

Feita uma actualização dos 10 anos de carreira da artista não contemplados pelo trabalho original de André Costa, este deve ter tido gozo em colaborar com a artista visual Adriana Peliano e o projecto gráfico de Maurício Chades para construir um livro manipulável com surpresas inesperadas, fazendo jus à carreira da islandesa. À primeira vista o livro é sem dúvida uma pérola, como se tivesse descido num pedaço de gelo lá da ilha com a bença da Santa B. Uma capa recortada, imagens-postais inseridas entre folhas, vários tipos de papeis e um texto paginado de forma pouco canónica - lê-se primeiro as primeiras páginas, salta-se lá mais para a frente do livro e como um "split-book" continua-se a leitura virando o livro. Sem dúvida a melhor forma de homenagear a sofisticação de Björk.

No entanto, o que temos é mais um texto académico a brincar com o fascínio pelo mundo Pop. Não é o pior texto que já li do género, dá até bastantes referências filosóficas e pensamentos sobre o ambiente da música para quem for curioso mas é aquela escrita que baralha e volta a baralhar em discurso circular para que o leitor comum não se sinta à vontade ou aprenda ideias de forma clara. Constata-se o óbvio, na Academia não há ideias só constatações do óbvio. O livro não é uma biografia da artistas mas uma análise sobre o seu trabalho. Interessante mas péssimo para ler na cama...

As fotografias que ao principio dá-nos estímulo para comprar o livro revelam-se tão monótonas como a tese, sempre imagens de uma boneca cheia de ambiente bling bling infantil e onírico, tornando-se um cliché na terceira foto desvendada. Pior que isso é que imagética imposta recusa a hipótese de ter uma visão análoga de Björk para além de uma bonequinha vintage no País das Maravilhas quando a tese afirma que ela é muito mais do que isso (como bem sabemos): teen punk islandesa emigrada, inocente cosmopolita, princezinha regressada, mulher artista exploratória, mãe colaborativa, divorciada politizada, pedagoga vanguardista, fora todos os avatares que vai criando ou irá criar ainda. Aqui ficamos com a sensação que ela sempre será uma boneca islandesa, pior, um objecto e não uma pessoa. Preguiça intelectual paga-se com preguiça estética.

Por fim, o design do livro é uma boa experiência com "o que um livro pode" para além de ter uma arranjo gráfico super-legível - convenhamos que o texto também não é assim tão grande, o que facilita o design. Faltam mais imagens dos materiais björkianos (capas dos discos, frames dos vídeos, fotos promocionais) para ilustrar melhor o texto, senão temos de estar com o computador aberto para ir acompanhando o que o texto analisa.

Não sendo um seguidor desta artista, sabia que estava a adquirir, um livro giro para ter ideias para futuras edições que venha a fazer. Obrigado, nesse caso.

Para os fãs portugueses assanhados, o livro foi comprado durante o super-porreiro evento Zinefest Pt mas creio que podem pedir à Montra Graphics.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Maximum Rock'n'Roll

A MRR é um dos fanzines punk mais emblemáticos e resistentes (existe desde 1982!!) vindos dos EUA. No entanto por vir da terra dos porcos imperialistas não significa que registe a cena nacional apenas, muito antes pelo contrário o que não faltam são artigos desde o México à Dinamarca, de Espanha ao Brasil.
A parte dos discos será a que menos me interessa porque já recebo as minhas doses homeopáticas de Rock. Embora a MRR passe muito pela música (música que tenha bateria e voz senão não entra!) também tem muitas colunas de opinião em que se discute política, prostituição, queercore, vivências, livros, filmes e arte. E até BD! Sobre o caso Mike Diana, os ataques de extrema-direita ao Le Dernier Cri, sobre Nathan Ward, Ben Passmore ou a editora Silver Procket. Os números recentes que adquiri eram números especiais, um sobre fanzines (o que eles tem a dizer depois do mundo web 0.2) e sobre "arte punk" - o que é isso?
Zeus! Mexer neste zine faz-me pensar o que aconteceu à imprensa portuguesa que deixou de existir - se isto for indício de velhice, admito que sim, meu, não era mesmo fixe pegar três em três meses um novo número da Mondo Bizarre e mais ainda da Underworld / Entulho Informativo!? De resto, o que temos de imprensa musical? Nada, só blogues feios e redacções homofóbicas como as da revista Blitz, Diário de Notícias, Expresso, Público e I - digo isto porque todas receberam exemplares do livro do Queercore e ignoraram-no, o Público que sempre escreveu sobre os livros do Rui Eduardo Paes, desta vez fechou-se nas suas copas... Pelos vistos, tem de ser como "no antigamente" (antes dos anos 90), é preciso comprar publicações estrangeiros para matar o marasmo editorial!

A hamburgeria vegetariana / discoteca Black Mamba (do Porto) distribui este fanzine em Portugal. É ir lá comer um "punkburger" e comprar o último número da MRR... é uma boa desculpa para ir ao Porto-cada-vez-mais-parecido-com-Lisboa-que-nojo! [à parte, numa recente visita ao Porto vi um grafito pintado a azul que dizia "Lisboa" apenas...] 

Greñudos locos del Porto! Brujeria te va joder tu ojo del culito!


Ontem houve Brujeria em Lisboa e hoje há no Porto... Aconselha-se ir ver, é um bom show!!! Vi-os há 10 anos em Madrid e se por um lado estão mais "cartoonescos" por outro a presença do vocalista loco Pinche Peach torna tudo mais energético. Pocho Aztlan (Nuclear Blast; 2016), novo álbum 16 anos depois do último de originais, quase nem é tocado porque eles sabem que é azeite artificial... A banda tende para ser uma espécie de "Ramones do Grind narco-satânico", mais caricatura de si mesma do que exploradora da estética zapatista que os tipificou e mitificou quando apareceram - nesse mundo sem web 0.2.
Em Lisboa, como há malta fixe ao contrário do que se pensa, até apareceu pelo concerto o número 5 do fanzine de BD Olho do Cu que tem uma capa fabulosa... bom, é apenas um olho do cu realmente mas está impresso com umas cores impecáveis. Fuerza Sandro!

sábado, 26 de novembro de 2016

Jon Savage & Stuart Baker: "Punk 45: The Singles Cover Art of Punk 1976-80" (Souljazz; 2013)

Livro de mesa de café (ou será de chá uma vez que é britânico?) que compila uma selecção de capas de singles e EPs de 7" do Punk entre 1976 e 1980. Quem o faz e escreve sabe do que fala e como tal uma série de peças raras são aqui reunidas para deleite de todos. A restrição a discos do formato 7" deve-se ao facto de haver uma numerologia cripo-esotérica ao Punk. 1977 foi o ano do Punk, não a sua criação mas o seu auge, e os discos de 7" eram o médium favorito para quem aprendeu "os três acordes e agora faz uma banda" (e grava um disco). O livro lavra o que é preciso saber sobre o punk e as suas origens.

O maior choque é só agora aperceber-me que o Punk sempre teve um fetichismo pelo coleccionismo, algo que pensava que só teria acontecido mais tarde após uma geração aburguesada... mas não, desde do inicio que se falam de edições limitadas, de vinis coloridos e outros exercícios mercantis manhosos que repudio. Não admira que se diga que o Punk salvou a indústria fonográfica da crise, essa mesmo que queriam destruir...

Visualmente mostra duas ou três coisas, uma é sem dúvida o visual das capas dos discos que é empobrecido pelos orçamentos DIY mas que em compensação acabam por ser mais ricas em força gráfica. Basta dois exemplos tão díspares como a capa dos Offs que trazem a violência para este mundo puro e virginal dos vinis ou uma dos The Special A.K.A. a mostrarem a sua audiência 8uma troca de papeis interessante), para se perceber as novas potencialidades de comunicação que as capas trouxeram. No entanto, pela fragilidade destes objectos tão simples é também imediato perceber-se quem queria ser "boys band" do rock mantendo capas de fotografias da banda e quem queria fazer manifesto e agitação com capas com outro tipo de mensagens - e daí os Sex Pistols (inconscientemente) e os Crass (conscientemente) terem sido os mestres do complicado triângulo música-grafismo-politica.

Por fim, é sempre de referir os quatro singles que davam instruções de como era fácil fazer um disco: a estreia dos The Desperate Bicycles (1977) a gravar os dois temas e acabar por dizerem "it was easy, it was cheap - go and do it!",  no segundo single tem um dos melhores títulos de sempre, The Medium was Tedium e cantam em Don't Back the Front: "cut it, press it, distribute it / Xerox music's here at last". A seguir temos o single Being boiled (1978) dos Human League a admitirem o custo de 2,50 libras para gravar o disco (o valor da k7 para onde gravaram?) e por fim o icónico (ou deveria ser) Work In Progress 2nd Peel Session (de 1978) dos Scritti Politti com um orçamento mais exacto de como editar um single... Com estes gestos começa todo um novo mundo, se calhar este livro é o "Génesis" da Bíblia Punk, não?

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Frans De Waard : "This is supposed to be a record label" (Timeless; 2016)

 Se este não for o melhor título de sempre para um livro sobre uma editora (de música) então que me caia um raio na cabeça! Livro sobre a mítica Staalplaat, editora e loja de música experimental situada em Amsterdão e mais tarde em Berlim - onde ainda sobrevive mas já sob uma outra identidade, a Le Petit Mignon. Aliás, o que melhor mostra o livro é que a Staalplaat era uma espécie de empresa quase sem hierarquia, em qualquer um que estivesse por lá fazia o que lhe apetecia - é exagerado o que afirmo mas algumas das histórias reveladas e olhando para o catálogo da editora, sobretudo nas "sub-labels" percebe-se que reinava uma feliz anarquia. No entanto, o que seria de esperar quando se trata de Arte ou de Vanguarda (ou as duas neste caso)? Senão houver uma criatividade louca e uma vontade de fazer piças ao dinheiro e valores, como fazer algo diferente e que rompa com tudo? Apesar de ser mais rock, pode-se sentir paralelos em algumas partes sobre a editora Sub Pop no livro sobre os Nirvana que escrevi aqui. Muitas distâncias à parte, o rock vende, o "toing toing" é mais complicado de comercializar mas até se consegue com alguma cabeça. Talvez o espírito mitra de holandês - assim intercalado entre os estereótipos do Judeu e do Protestante - tenha mantido a casa desde os anos 80 até hoje. Como se sabe, noutros exemplos do passado, pouco a pouco todas as casas editoriais e lojas foram fechando. Aliás, hoje, com os centros gentrificados e turistificados, já se sabe que tudo que é "alternativo" tem fechado, seja em Londres seja em Lisboa.
A editora diz que o livro não é sobre os "anos 80 ou 90" mas é impossível não pensar que os testemunhos de De Waard sobre a sua estadia na Staalplaat não deixa de se cercar de uma época com balizas bem precisas: antes da 'net, antes do 11 Setembro, antes da imaterialidade da cultura, antes da web.02, antes dos Fachos no poder, antes da crise, antes do lowcost e do bnb... É uma divertida leitura para quem sabe ainda o que é uma discoteca - uma loja de discos, man! - que goste de música ou de "comércio cultural"... De resto, é de salutar todo a edição exemplar de uma editora exemplar, a Timeless.
Obrigado ao Camarada Thisco pelo empréstimo!

sábado, 24 de setembro de 2016

Brad Morrell : "Nirvana & O som de Seattle" (Relógio D'Água; 1999)

Faz hoje 25 anos que foi editado (e explodido) o Nevermind (DGC; 1991) dos Nirvana e foi há 17 anos que se publicou a versão portuguesa deste livro. Nem sabia que existia, foi daquelas compras a 5 paus na Feira do Livro de Lisboa, no stand daquela que será a maior editora portuguesa independente (no termo que não faz parte dos cabrões das Leyas e afins...).
É assim tão bizarro ter um livro sobre Rock em Portugal? Sim é muito raro editar-se sobre o tema ao ponto que os poucos livros que existem, pelos vistos, nem são bem divulgados - olhem para o Blitz que não divulga os livros do Rui Eduardo Paes como exemplo... Sim, os portugueses não gostam de ler, povinho ignorante, e ainda menos de ler sobre música. Mas lá está... temos esta pequena pérola, um livro sobre Rock escrito à americana ou à escrita Rock canalha sem papas na língua sem deixar de ser bem documentado e de bom gosto sobre o que foi a carreira desta banda tão importante - sim, ainda gosto deste trio improvável - incluindo as polémicas em volta das vidas privadas de Kurt Cobain e Courtney Love. O livro conta também porque existe o outro lado da mesma moeda sonora - os "parolo geme" - na mesma cidade que trouxe pela última vez Barulheira para as tabelas de venda.
Já agora, é de apontar que nos últimos anos houve edição portuguesa de mais "rockers" como Patty Smith (biografia e poesia) e Kim Gordon, A Miúda da Banda... Quem diria que isto é editado por cá? Ainda por cima, de "gaijas" rockers! Afinal há Esperança para este país! Para comemorar tantas razões de ânimo vamos lá pôr as colunas no máximo a bombar o Nevermind, sobretudo a faixa Endless, Nameless!

sábado, 9 de julho de 2016

REVISÃO : Bandas Desenhadas dos anos 70 - lançamento na Feira Morta 9 JULHO Bedeteca de Lisboa, às 16h

Capa de Isabel Lobinho e títulos por João Maio Pinto

2016 marca 40 anos do fim da icónica Visão, uma revista improvável num país com graves problemas económicos mas que se apresentava nas bancas com ar luxuoso, cores ácidas e brilhantes, temáticas políticas e libertárias.

 Quisemos comemorar esta publicação que fez uma ruptura com a BD tradicional portuguesa mas sobretudo recuperar um conjunto de BDs esquecidas dos anos 70 cheias de frescura, rebeldia e prazer criativo, vindas de outras experiências editoriais como Evaristo, O Estripador ou &etc.

Contem com António Pilar, Bruno Scoriels, Carlos BarradasCarlos "Zíngaro", Fernando Relvas, Gracinda, Isabel Lobinho, J.L. Duarte, João Manuel BarrosoNuno Amorim, Paralta & Zé Baganha, Pedro Massano, Pedro Potier, Tito, Zé Paulo (1937-2008), Zepe e ainda António Pinho, Carlos Soares, Jorge Lima Barreto (1949-2011) e Mário-Henrique Leiria (1923-1980) para muita BD psicadélica, urbana, cósmica, mórbida, erótica, pessimista, ácida, crítica, tão ying & yang tal como foi a década de 70 neste país periférico.

Nova paginação! 
Vintage Free! 
Completista!
Uma delícia!!!

«o»

9º volume da colecção Mercantologia 
editado por Marcos Farrajota 
arranjo gráfico de Joana Pires
184 páginas a cores 23,5x34cm
Capa com uma bandana

Após uma apresentação deste livro no Festival de BD de Beja (29 de Maio), 
o livro será lançado dia 9 de Julho, às 16h na Feira Morta 
a decorrer na Bedeteca de Lisboa (Biblioteca dos Olivais).

O lançamento conta com a presença de Marcos Farrajota (editor) e António Pilar, Carlos BarradasCarlos "Zíngaro", Fernando Relvas, J.L. Duarte, Pedro Potier, Zepe (autores) e Ágata Simões (filha do autor já falecido Zé Paulo) no auditório da Biblioteca dos Olivais.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Velho Anarquista


O Rafael Dionísio tem um novo livro... e é uma colecção de contos! Um deles é dedicado a mim, snif snif... Sempre é melhor ter um título como este que "O Lenine fodia-te todas as Sextas" ou algo do tipo.
O livro é O Fantasma de Creta e outros contos, co-edição Bicicleta e Chili Com Carne, capa é do João Chambel e sai oficialmente HOJE na Leituria. 'Tá fixe o livro!
E já está à venda pelo sítio da Chili...

sábado, 26 de março de 2016

Riccardo Balli : "Apocalypso Disco" + "Frankenstein Goes to Holocaust" (Agenzia X; 2013-16)

DJ Balli (aka de Riccardo Balli) esteve cá em Lisboa e deixou-me uns livros dele... O primeiro é este Apocalyso Disco que ainda tem um subtítulo catita: "a rave-o-lução do post techno".
Há quem diga (Simon says) que o Techno foi a última revolução na música urbana. É bem capaz de bem ser verdade porque ela envolve a derradeira tecnologia que nos acompanha desde a Revolução Industrial (sons de máquinas a trabalhar, máquinas que nos controlam, etc...), a rebelião (drogas, festas ilegais, o anonimato das produções e edições) e por fim o "life-style" pois... Para quem ficou a arder com o "exta-si-exta-no" dos anos 80-90, novidade: entretanto muito mais se avançou neste tipo de música, seja na sua desconstrução de batidas (jungle, drum'n'bass, breakcore), velocidade das mesmas (o excesso do Extratone, a proposta mais radical que li neste livro) e os métodos de produção - o cut/paste primitivo da Jamaica passou a ser um "hyper-mash-up" com um clique de rato e que está a tornar a cultura mestiça - yes! sempre achei esta melhor forma de erradicar o nazismo e outros "ismos" tontos e fanáticos.
Tudo isto é descrito neste livro de Balli de uma forma orgânica pois ele não faz uma "História" mas apresenta apontamentos ou entrevistas como a músicos / produtores politizados como Christoph FringeliVJs como os Sansculote ou ainda um académico que trata do Psy-Trance e Goa Trance (sendo referido com muito respeito o festival Boom em Portugal). Para além deste lado documental há a provocação, não fosse Balli o DJ conceptual que é, que apresenta conceitos de mestiçagem como o "Mutant Dancefloor" onde poderia estar lá os ritmos Doomduro dos Black Taiga, para além dos "mash up" textuais de excertos de Philip K. Dick ou Fulcanelli.
No caso de PKD, Balli usa um capítulo de Os Clãs da Lua de Alfa em que substitui os nomes das várias tribos de doentes (dessa lua) pelos vários tipos de produtores de música de dança: gabbers, hiphopers, etc... mais do que um mero gesto brincalhão, existe uma lógica por detrás, pois Balli mostra ao longo do livro como o tipo de diferentes músicas de dança moldam a personalidade dos seus consumidores - e voltamos ao princípio, o Techno é a música que melhor expõe a puerilidade das nossas vidas de robots ao serviço do Capitalismo.
O livro está redigido em italiano, é óbvio que não apanhei tutto... ma... o que apanhei fez sentido! Não fosse ele certificado por Steward Home, para bom entendedor meia-palavra basta. Tradução obrigatória! Aspetta:

O "Frankenstein" já é mais manhoso, pelo menos fiquei à espera de algo que depois não se concretizou. A culpa pode ter sido, outra vez, do meu fraco italiano mas também do conteúdo mais gerido pelo formato editorial.
Balli tenta criar um livro todo ele um "mash up" literário e ensaísta que talvez fracasse pelo design saloio da editora, colocando imagens de Frankensteins a torto e a direito, apenas porque sim, ou pelo excesso de compartimentos em capítulos. Deveria ser um livro mais fluído e labiríntico na sua leitura. O corpo (cadáver?) do texto é "plundertext" que pega no famoso romance de Marry Shelley, escrito em 1818 (808 State?), para ser remisturado com episódios autobiográficos de Balli na sua relação com a música, seja de uma forma muito fortuita seja densa quando escreve uma carta a explicar que ele não é o Billy Corgan -é uma carta aberta a uma gaja que foi prá cama com ele porque ela pensava que ele era esse "grande poeta das abóboras de Chicago". Há textos gamados ao John Oswald e artigos de convidados sobre os KLF ou V/VM, enfim, a dada a altura pergunta-se o que o Balli escreveu realmente para ter o seu nome da capa - piada reaccionária!
O que ele faz é "brand new, you're retro" (Tricky) porque ao misturar isto tudo ele não é só o "DJ literário" pós-moderno como parte da base da cultura como ela deveria ter sido sempre antes de virem as ideias parvas da "originalidade" e do "copyright" no século XIX. Dizia um compositor de música clássica que o melhor compositor é aquele que absorve todas as obras à sua volta e faz algo de novo com elas - o Girltalk parece um velhinho depois disto... Balli parte de mil pedaços de corpos musicais - da clássica à "novelty" (Spike Jones), da xenocronia de Zappa ao Horrorcore - para montar um ensaio de música contemporânea sobre um "monstro sónico" do século XXI que ele imaginou. Só que este ensaio deve ser lido como um romance de terror, não esperem daqui um livro "factual" mas sim uma ficção de referências reais. Génio ou fraude? Muitas vezes não há diferenças entre ambos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

António Concorda Contador & Emanuel Lemos Ferreira : “Ritmo & Poesia : Os Caminhos do Rap” (Assírio & Alvim; 1997)

Um livro publicado há quase 20 anos ainda faz sentido ler sobretudo quando trata de cultura Pop? Eis um caso positivo até porque depois dele acho que não saiu mais nada que tratasse sobre o Hip Hop em Portugal.
Ainda assim, pensava que seria um livro mais interessante, com uma componente portuguesa mais vincada ou até uma análise sobre as letras dos rappers portugueses. Não, quase todo o livro trata da História do Hip Hop norte-americano, algumas tretas para encher-chouriços (listas de bandas pelo globo fora e um glossário de calão dos "dreadas") sendo mínimo a que se dedica a Portugal. uma História do movimento, umas entrevistas e fotografias aos nossos hiphopers. Ainda assim é um livro que  mostra que a Assírio & Alvim era A editora nos anos 90 apostando num livro que tratava de uma cultura marginalizada. Claro que hoje há Hip Hop em toda a rádio ou TV, o Pac Man/Carlão só diz merda, as gajas kotas que não tem cuidado com a alimentação vão prá dança Hip Hop do ginásio e as câmaras municipais arranjaram uma fonte de fazer guito com os graffitis (sem mexer uma palha nos problemas urbanos de base) mas em 1997 os discursos dos seus agentes ainda é de confusão e de ansiedade dada às más experiências, inexperiências e ignorância de todos: jornalistas, editoras, promotores de festas e claro dos próprios artistas - no livro até se apanha um belo de um achado: em 1996 um tal de DJ Groove fez um rap de campanha presidencial pró mete-nojo do Cavaco, "coerência onde estás tu?" escrevem os autores...
O Hip Hop é a primeira música pós-moderna do século XX, ao contrário do Blues, Jazz e Rock que vêm de raízes rurais na transição para a urbanidade, ou seja tem uma narrativa linear e cronológica enquanto que o Hip Hop não tem um centro mas sim vários. Não é fácil perceber a sua História nem fixar as suas figuras importantes, até porque muitas vezes parecem-se com pessoas que podiam estar a apanhar o metro no Bronx (é de ver os livros Hip Hop Family Tree de Ed Piskor para perceber esse mundanismo) ao contrário do Pop onde há Reis Camalões, Lagartos e outros drogados. para além de usarem pseudónimos que distraem mais do que ajuda a memorizar. Pode-se procurar origens nos Last Poets ou nos Watts Prophets, nas festas jamaicanas ou nas "blockparties", nos Sugar Hill Gang ou no Grandmaster Flash mas ao contrário de, por exemplo, no Punk em que imediatamente se diz "Sex Pistols" ou "Ramones", no Hip Hop porque - bom, vou deixar de dar desculpas politicamente correctas - era "música de pretos" ou de pobres (que não interessam a ninguém quando se é da classe "mé(r)dia") são poucas as pessoas que diriam "Kool Herc", por exemplo, ou saibam dizer um tema musical seminal do Hip Hop.
Em Portugal, um livro destes é uma pérola a porcos porque estando nós sempre atrasados em relação a tudo e em especial à cultura Pop, em 1997 conseguiu-se produzir um documento bastante credível quase sem tempo de ressacar o importante disco Rapública (Columbia; 1994) que aguenta o peso do tempo e que realmente educa a quem quiser saber sobre o tema - devia estar um exemplar nas bibliotecas escolares!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Colectivo Rock On : "David Bowie : Três Décadas de Metamorfoses" (Centelha; 1983)

 Foi com algum espanto e agrado que li esta mini-biografia de David Bowie (1947-2016) assinada pelo Colectivo Rock On que albergava Álvaro Costa, Fernando Costa e Francisco Pacheco e que também dava título à colecção da Centelha sobre música Pop/Rock. É de admirar a qualidade das reproduções fotográficas e dos textos cosmopolitas (aposto que em 1983 a maior parte dos leitores não percebiam as expressões anglo-saxónicas usadas) comparando com a edição nacional actual de escrita sobre música.
Claro que a Wikipedia em 2015 bate o livro (que ainda teve uma segunda edição em 1986 mas não deverá ter sido actualizado) mas ainda assim por ser impresso - ponto a favor contra a radiação dos aparelhos electromagnéticos - e por estar bem feito, ainda é um excelente guia para quem quiser saber mais sobre o "Camaleão do Rock" que faleceu ontem.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Christoph Fringeli e Lynx : "Almanac for noise & politics 2015" (Datacide / Praxis; 2015)

 Livro em formato A6 que faz uma espécie de "best of" do fanzine Datacide, publicação internacional que trata de "barulho e política". Se o livro "anarquista" do Rui Eduardo Paes apontava que o pensamento anarco-libertário foi ultrapassando o punk/ hardcore para outros géneros musicais, a maior falta que o nosso respeitado crítico cometeu foi não ter encontrado a ligação política ao Breakcore e à música pós-rave - a entrevista a Fringeli (cabeça da publicação e da editora Praxis) é bastante interessante sobre a intersecção entre música de dança que é essencialmente instrumental e a transmissão de ideias políticas, tema aliás que tem sido bastante debatido nos últimos números da Wire.
O Datacide tem conseguido fazer a ligação contemporânea sobre música e política, ora relembrando movimentos sócio-políticos que o status quo tenta apagar, alguns exclusivamente políticos como a "Autonomia" em Itália nos anos 70 outros alguns ligados à música de embate contra o Estado - a cena Rave inglesa dos anos 80 e a consequente "Criminal Justice Bill". Mas não é só relembrar o que se tenta ser apagado com a cultura dominante que a Datacide pretende fazer, noutros casos, também denuncia ou desmistifica situações como a de Boyd Rice - fuck, sinto-me envergonhado com isto - que se não é um Nazi mas apenas um provocador cultural então o seu narcisismo público e discurso artístico analisado como foi nesta publicação deixa poucas dúvidas sobre tal. E isto é o melhor que estas cento e poucas páginas fazem, dão-nos coordenadas novas para quem não quer estagnar culturalmente. Leitura obrigatória para 2015!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Arto Paasilinna : "A Lebre de Vatanen" (Relógio D'Água; 2009)

 Não resisti a comprar outro livro do Paasilinna porque além da minha pancada assumida pela Finlândia, a Feira do Livro de Lisboa é mesmo uma oportunidade para arriscar em livros / autores que não se tem muita confiança. Mais 5 euros muito bem gastos diria... Se Um aprazível suicídio em grupo era previsível no seu "happy-ending" já desta Lebre não se pode dizer o mesmo apesar de ter um começo mais ou menos idêntico, desta vez com um jornalista quarentão que é abandonado no meio do campo enquanto ajuda uma lebre. Torna-se num dissidente social e também percorre o Verão finlandês e o país inteiro, sempre com a sua lebre selvagem. Episódio a episódio, Paasilinna demonstra que ainda é possível fazer boa ficção no nosso mundo chato, burocrático e controlado pelo Estado. Pró ano compro As Dez Mulheres do Industrial Rauno Ramekorpi? Claro que sim, se calhar até antes da Feira do Livro!

quarta-feira, 24 de junho de 2015

João Paulo Ferro : "Roll Over : Adeus anos 70" (Documenta; 2013)



Odeio a expressão "oportunidade perdida", seja vindo de um rabeta que nunca faz nada de jeito na vida seja de um intelectual com a sua tese empinada! O que é que as pessoas sabem dos bastidores da produção de um livro ou de um espectáculo para dizerem isso? O que sabem das dificuldades ou objectivos de quem criou uma peça artística ou editorial?
Infelizmente, ao folhear este livro deixei-me levar por essa expressão ressabiada... Outra expressão terrível é "uma imagem vale por mil palavras", como se um médium pudesse substituir outro! E aqui estou eu a olhar para um livro lindo que, paradoxalmente, as imagens dizem pouco, muito pouco... Os prefácios do livro acham que não, que estas fotografias tiradas à boémia de uma certa elite social lisboeta são diferentes aos da geração Instagram / Vice que tudo fotografam e que deixam mais facilmente uma pegada documental. Olhando para estas fotos do livro, subtraindo as roupas e máquinas que são dos finais dos anos 70, o que fica são jovens iguais aos de 2015 - até porque nos últimos anos, os "70s" estão na moda - nas suas poses, risos e excessos. Temos jovens betos em Cascais, Sintra, Caldas da Rainha e Lisboa a falarem, drogando-se, apanhando carraspanas, com poses sensuais, algumas sexualmente ambíguas outras libertárias, a dançarem, a curtirem a vida à noite em espaços públicos ou em casas particulares. Alguns até estão vestidas à rocker que realmente podia ser "vanguarda" em Portugal mas já era anacrónica noutra parte do planeta - é sem dúvida retro em 2015 mas ainda existe malta assim sabe-se lá porquê!
As fotografias mostram actuações ao vivo de bandas como Anar Band, os Xutos & Pontapés no primeiro concerto, Faíscas mas também de outras futuras personalidades como Miguel Sousa Tavares e o Al Berto com ares de putos (que eram). Mas é preciso conhecer estas pessoas publicamente, não há legendas a indicá-las nem explicações de outra hora. Nem precisa e o livro pode ser o que é, uma recolha autónoma de imagens de uma geração pós-PREC e pré-Cavaquistão I. Havendo um défice de informação sobre esses tempos em relação à cultura urbana portuguesa é realmente uma "oportunidade perdida" não haver um livro que tenha textos com a mesma qualidade destas fotografias que contem histórias da altura, histórias com sangue e suor, tão íntimas como a da fotografia do gajo a chutar-se - e que encerra o livro, como se profetizasse a merda toda que viria aí e que iria destruir ou queimar muita gente nos anos 80 e 90.
É impossível publicar um livro destes sem que se deseje um relato pessoal do fotógrafo longe da preguiça que este almejou e cumpriu. Se calhar não foi possível, se calhar o autor não se sente à vontade, se calhar "uma imagem vale por mil palavras" - o caralho que vale!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Arto Paasilinna : Um aprazível suicídio em grupo (Relógio D'Água; 2010)

Uma capa tão horrorosa em 2010 é mais escandalosa que a escrita deste finlandês em 1990 - realmente a Relógio D'Água pode ser uma grande editora mas deveria repensar a imagem gráfica!
O suicídio pelos países nórdicos é uma catástrofe humana e não se deve brincar com isso mas Paasilinna brincou e com bastante estilo... Não é um livro pesado, na realidade está na linha de filmes "celebração da vida" - tipo Kusturika ou "o destino de Emélie" - em que se consegue prever o final - e que será nesse "fim do mundo" que é Sagres, daí a capa manhosa?
Tal como ler os romances gráficos de Jarno Latva-Nikkola ou os filmes de Aki Kaurismäki ou ainda saber de histórias da Finlândia (e eu sei um bom par delas desde 2002) encontramos uma linha comum nisto tudo e percebermos o que será um "Finlandês verdadeiro", e é fácil: são casmurros, deprimidos, moralistas e dados a um sentido de "non-sense" cujo estereótipo seria mais fácil de identificar com o "Sul". Este livro é uma polaróide daquela sociedade apesar da história começar com um militar reformado e um empresário falido a encontrarem-se por coincidência no mesmo estábulo para se suicidarem. Depois de desistirem de acabarem ali com as suas vidas, gozam o verão finlandês (diz-se que ninguém tira um finlandês do seu país nesta estação do ano) e decidem criar uma Sociedade de Suicidas Anónimas com o objectivo de se matarem em colectivo e com dignidade. Situações trágicas e cómicas sucedem-se de forma a viciar o leitor. Torna-se um bocado inconsequente tal como o "nosso" Saramago foi com As intermitências da Morte mas pelo menos Paasilinna é mais divertido, perfeito para as férias.
Ler sobre suicídio na época balnear? Why the fucking not? Na realidade este livro é um verdadeiro "fun fun fun in the Autobahn", um mórbido "road-movie" com excursionistas "kamikazes",... como não ler isto a assar bem de frente aos cancerosos raios solares?
Já agora, como o mercado livreiro em Portugal é uma selva de oportunidades, os livros de Paasilinna já se encontram a 5 euros na Feira do Livro. Valem isso!

domingo, 5 de abril de 2015

Sepul culture


Os mortos não descansam no mundo do "anarquivismo" da web.2. Se é fácil ressuscitar Elvis para mais um passo de dança-mash-up, lançar campanhas publicitárias de refrigerantes da nossa infância, descobrir toda a produção fonográfica High Life do Gana e mais algo que me escape ao meu cinismo cultural. Faltava a má-onda em ressuscitar a própria Morte, ou melhor os seus registos excluindo o circo colorido do Pop. O English Heretic soa a um cruzamento gótico de Negativland com Pink Floyd ou Death in June geneticamente transformado em Trip Hop, ou ainda This Mortal Coil a transmitir um "podcast" com o registo perturbado electro-magnético do Ian Curtis (RIP). É verdade, o disco The Underworld Service (2014) soa a isso tudo... e também a ingleses a molharem "scones" no chá, enquanto lêem uma biografia sobre o alquimista Fulcanelli [quem? não sabe / não (deve) responder] enquanto bomba na TV uma "soap-opera" merdosa da BBC. É de incluir ainda Monges do Vietname, Zombies, Hiroshima, Polanski, mausoléus, catacumbas, ossadas (a lembrar Infiltrate Assimilate Propagate Disseminate de Nomex) e toda uma reinterpretação de factos culturais mórbidos, ficcionais ou reais, num caldeirão sonoro e literário - pode-se comprar o disco com um livro mas este último objecto é tão hermético que não se consegue ler sem pensar que estamos a perder tempo... para a Morte. A música no entanto é bastante agradável... tanto como morrer afogado pelo que se diz.