terça-feira, 19 de julho de 2016
Soul Jazz à 'tuga!
A k7 voltou! Ou melhor regressou de vez porque se foi sempre existindo como um formato de oposição à voracidade dos meios digitais ("googlar", descarregar, ouvir, despejar) para uma música que se pretende melhor e que requer atenção, não se esperava que também fosse usada para reedição de "música antiga" - mas porquê o espanto? Quando a k7 apareceu, não disseram que ia dar cabo da indústria fonográfica porque era um meio fácil de piratear?
O Instituto Fonográfico Tropical é o R.S., um gajo omnipresente em todas as festas e sítios populares (pós-lumpen não hipster, atenção!) e pelos vistos é um coleccionador de música perdida em singles e EPs que já ninguém quer saber. Faz de DJ (ou será unDJ?) por onde o Império Romano passou - ou seja, de Roma a Évora - com estas pérolas "afrosulamericanas". Não está a fazer um trabalho de pesquisa como a Soul Jazz, Soundway ou Awesome Tapes of Africa porque não há materiais de contextualização (fotografias, ensaios, fichas técnicas, etc...). São apenas umas compilações para a malta curtir no auto-rádio - 77,8% dos ouvintes de k7s afirmam ouvir exclusivamente no carro - como naqueles tempos em que se parava numa estação de serviço à cata de uma cena fixe para se ouvir para a viagem.
Ainda só ouvi a de Cumbia e de Coladera, na primeira k7 parte-se a loiça todo com os orgãos ácidos e ritmo de engate barato - destaque para La Chichara de Hugo Blanco! - e na outra curte-se como um doido graças ao Bana, Tubarões e cia - mesmo com o som sujo do vinil que o IFT gamou a malha. Nice!
sábado, 9 de julho de 2016
REVISÃO : Bandas Desenhadas dos anos 70 - lançamento na Feira Morta 9 JULHO Bedeteca de Lisboa, às 16h
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| Capa de Isabel Lobinho e títulos por João Maio Pinto |
2016 marca 40 anos do fim da icónica Visão, uma revista improvável num país com graves problemas económicos mas que se apresentava nas bancas com ar luxuoso, cores ácidas e brilhantes, temáticas políticas e libertárias.
Quisemos comemorar esta publicação que fez uma ruptura com a BD tradicional portuguesa mas sobretudo recuperar um conjunto de BDs esquecidas dos anos 70 cheias de frescura, rebeldia e prazer criativo, vindas de outras experiências editoriais como Evaristo, O Estripador ou &etc.
Contem com António Pilar, Bruno Scoriels, Carlos Barradas, Carlos "Zíngaro", Fernando Relvas, Gracinda, Isabel Lobinho, J.L. Duarte, João Manuel Barroso, Nuno Amorim, Paralta & Zé Baganha, Pedro Massano, Pedro Potier, Tito, Zé Paulo (1937-2008), Zepe e ainda António Pinho, Carlos Soares, Jorge Lima Barreto (1949-2011) e Mário-Henrique Leiria (1923-1980) para muita BD psicadélica, urbana, cósmica, mórbida, erótica, pessimista, ácida, crítica, tão ying & yang tal como foi a década de 70 neste país periférico.
Nova paginação!
Vintage Free!
Completista!
Uma delícia!!!
«o»
9º volume da colecção Mercantologia
editado por Marcos Farrajota
arranjo gráfico de Joana Pires
184 páginas a cores 23,5x34cm
Capa com uma bandana
Edição apoiada pelo Instituto Português do Desporto e Juventude e pela A3 - Artes Gráfica
Após uma apresentação deste livro no Festival de BD de Beja (29 de Maio),
o livro será lançado dia 9 de Julho, às 16h na Feira Morta
a decorrer na Bedeteca de Lisboa (Biblioteca dos Olivais).
O lançamento conta com a presença de Marcos Farrajota (editor) e António Pilar, Carlos Barradas, Carlos "Zíngaro", Fernando Relvas, J.L. Duarte, Pedro Potier, Zepe (autores) e Ágata Simões (filha do autor já falecido Zé Paulo) no auditório da Biblioteca dos Olivais.
Etiquetas:
João Maio Pinto,
leituras,
Mercantologia
segunda-feira, 4 de julho de 2016
CIA info 84.1
Novo trabalho que deve sair em Abril num guetho 'tuga de Nova Iorque... Que no fanzine do Gato Mariano afirmou que afinal sai em Julho... Vamos ver se é verdade!
sexta-feira, 24 de junho de 2016
quinta-feira, 23 de junho de 2016
Marcos Fantasma
Para quem não sabe, ando a escrever resenhas críticas a livros de BD para o sítio da loja Mundo Fantasma... O último é sobre o Hip Hop Family Tree do Ed Piskor que é bem fixe!
quinta-feira, 16 de junho de 2016
quarta-feira, 15 de junho de 2016
Sobre o Negative Born Killers
O Filme da Minha Vida é o título genérico de uma colecção de banda desenhada que a Associação Ao Norte lançou, em maio de 2008, nos VIII Encontros de Viana – Cinema e Vídeo. Esta colecção é o resultado de um desafio lançado aos autores nacionais de banda desenhada, e consiste em criar uma obra a partir de um filme que tenha deixado memória. A Associação Ao Norte tem registado um depoimento de cada um dos artistas que participam neste projecto.
Vídeo sobre este livro... AQUI.
Vídeo sobre este livro... AQUI.
sábado, 28 de maio de 2016
Bons velhos novos tempos!

(...) 150 estivadores a frente do parlamento, disparando very lights, petardos, a bombar Xutos (a tal música censurada), gritando: "Sócrates escuta, és um filho da puta, vai pá puta que te pariu" de cara tapada e tronco nu, ou só de colete reflector dizendo nas costas "DON'T FUCK WITH THE STIVADORS!" (Junho 2010)
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Joder! Es mas bueno que pensava!


Von Magnet : El Sexo Sur-realista (Dancetaria; 1987), El grito (auto-edição; 2007; orig. 1994), Electroflamenco (auto-edição; 2004)
O historiador Friedrich Heer no livro Mundo Medieval: A Europa de 1100 a 1350 diz que nesses tempos e neste continente as pessoas viajavam mais e havia mais intercâmbio de culturas do que no século XX. Ao que parece se houve realmente uma Europa tolerante foi no século XI e XII onde as religiões e nacionalidades não tinham o peso que começou a surgir no final dessa Era até aos dias de hoje, com a criação de pátrias e nações arrumadinhas a jeito e os cismas que vieram daí. Esta evocação de um mundo que era mais mestiço é-me sugerido pelos Von Magnet, grupo de artistas (músicos, visuais, bailarinos, multimedia) com uma cotação mítica e de culto. São nómadas como muitos europeus deveriam ser em 1100, acho que são franceses mas estiveram por Londres até aos anos 90 e depois vadiaram por aí como ciganos cyberpunks que são.
"Vadio" é um termo que lhes fica bem porque o seu "electroflamenco" não se compromete nem com categorias rígidas da música "world" nem da "electrónica". A fusão é total e perfeita, de tal forma que confunde os sentidos e funções das tais categorias originais. Estes discos deles não servem propriamente para dançar apesar do "electro" e do "flamengo", mostrando que a modernização de géneros tradicionais não passa por aberrações populares como os Gotan Project [falo neles por ser o mais mediático, em Portugal] que simplesmente metem umas batidas hip hop por cima do som tradicional e já está.
Aqui há Electrónica mas também há Amor. Se houver baile então ele será novo e diferente dos antigos bailaricos, um novo ritual cosmogónico, o que até faz sentido visto que o colectivo veio das cinzas da cultura Industrial que se ouve em algumas partes dos discos. Em 1987 já há IDM com Pop dramalhão, até uma pitada de Free Jazz, cinematografia, sangue na arena, chamas no bordel, palmas e castalholas a 98 bpm's, tusa e sapateado. Olé!
PS - para quem nunca tomou conta deles, bom é porque é surdo, a Thisco fartou-se de os editar por cá e até está o Phil Von (mentor da coisa) num Antibothis.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
CIA info 83.9
Meti-me numa alhada e só 3 anos depois é que consegui resolvê-la... mas está feito! O novo livrinho é lançado no 13 de Maio de 2016 (bem sei, é a data das porcas beatas...) nos Encontros de Cinema de Viana do Castelo. Era para se intitular É "a banda sonora da minha vida"! Ha ha ha ha (a sério!) mas não vai dar e mudou para Negative Born Killers! É para a colecção O Filme da Minha Vida da Associação Ao Norte que lança o repto a autores portugueses de BD para criarem um mini-álbum inspirado num filme que tenha deixado marcas nas suas vidas.
12 Maio / 14h30 - Auditório Carolino Ramos / Escola Secundária de Monserrate: exibição do filme Assassinos Natos de Oliver Stone (EUA, 1994, 119m)
13 Maio / 15h - Sede da Associação Ao Norte: inauguração da exposição Negative Born Killers, de Marcos Farrajota + lançamento do livro + encontro com o autor.
A exposição estará patente até dia 8 de Julho.
14 Maio / 00h30 - Republica Caffe Bar (Praça da Erva): festa com o unDJ MMMNNNRRRG a tentar invocar a narrativa sonora criada por Trent Reznor para o Natural Born Killer mas sem as mesmas músicas. Porquê? Porque não tem os mesmos discos nem os diálogos do filme... Nesta divertida sessão haverá música de Nusrat Fateh Ali Khan, Diamanda Galas e Lard, será suficiente?
entretanto fica aqui o texto de apresentação de Pedro Moura para o livro: Music to kill by.
Em que medida é
que é possível re-ouver um filme? Se
o idiomatismo peculiar de José Duarte pode ser recuperado em novas ocasiões, a
velha cassete que Marcos Farrajota tem no carro é o mecanismo que permite,
apenas através da banda sonora do filme Natural
Born Killers (real. Oliver Stone, 1994), revisitar o filme, sem ter de
passar sequer pela trilha visual real. A banda sonora, como é explicada no livro, é feita das mais díspares canções, montadas numa frenética colagem pelo
músico e produtor Trent Reznor, com troços dos diálogos e sons do próprio
filme, criando assim uma textura caótica que permite essa revisitação, ou
reminiscência, se bem que não seja cumprida da forma mais normalizada. Não há aqui nenhuma adaptação.
O road movie transforma-se assim numa
oportunidade para o autor, no interior da sua própria e menor road trip, tecer comentários sobre a
música que compõe a banda sonora do filme. Repórter em banda desenhada, e com
uma atenção particular para com um mundo da música que as mais das vezes anda
arreigado dos meios de comunicação social, quase exclusivamente focados num tom
jubilatório da cultura de massas mais empedernida e/ou suportada por grandes
interesses mediático-capitalistas, Marcos Farrajota acaba por criar pequenos
mapas alternativos da cultura no nosso burgo. Esta é então uma oportunidade
para criar um discurso totalmente livre de forma ou de organização programática
para nos devolver os próprios processos do pensamento, da memória e do trabalho
a que se entrega.
O autor, de
facto, também partilha connosco de forma explícita os obstáculos que atravessa
no burilar da sua história quer a nível dos instrumentos expressivos quer nos
da memória. As confissões (do erro sobre o rosto de um actor, da utilização de
um CD novo), o semi-arrependimento a meio do percurso, enfim, a “alhada” em que
se mete, não é mais do que o grande sinal de que estamos num território que não
pretende de forma alguma assumir-se como definitivo. Há em todo esse percurso
que abraça a deselegância de forma directa um posicionamento claro na estética
pós-punk, em que é a expressão a rainha. Formalmente, a presença dos traços
materiais do papel usado para desenhar, as colagens de material das cassetes, fotos,
e a própria composição – entre o regrada e bem-comportada e a concatenação ou
empilhamento de materiais -, são apenas confirmações disso.
Com a distância
que as décadas permitem, podemos olhar para Natural Born Killers em enquadramentos mais alargados. Se numa primeira instância conseguimos perceber onde estão as assinaturas de Oliver Stone, olhando para o
filme como uma reflexão sobre a América e certas das suas obsessões menos
saudáveis, ou os estranhos paradoxos da civilização ocidental, também é
possível compreender quais são os sinais que se mantiveram de Quentin Tarantino
(que escrevera a primeira versão do argumento): uma certa glorificação da
violência e a manipulação das emoções em torno delas, através de diálogos
banais nos momentos mais dramáticos, numa sólida história de amor invencível no
meio das maiores tempestades morais em torno. Até certo ponto, o filme tem
aspectos algo datados, como a estrutura pluri-material dos média visitados, e que
a banda sonora escolhida como objecto de análise de Farrajota tão bem espelha. É
provável que este último verbo talvez não seja apropriado já que tudo se
estilhaça…
Mas esse frenesim é expectável, em que géneros e estilos aparentemente
contraditórios, não-reconciliáveis, se encontram no mesmo palco (no mesmo
guarda-luvas)… De novo, o signo da colagem está aí presente. E esta não deseja
de forma alguma providenciar com uma lisura que explicasse tudo ou resumisse e
subsumisse as coisas a uma “razão de ser”. Bem pelo contrário, quer mesmo que
as contradições sejam visíveis, e a falta de suavidade sentida ao longo da
leitura. Mortífero ou em final feliz, Farrajota terá chegado ao seu destino.
FEEDBACK:
li o livro. o texto do Pedro Moura é uma merda. funciona(ria) bem como review/post, mas não presta para prefácio (ou lá o que é) do livro. a incluir um texto, deveria ser algo a rasgar a sério e não algo previsível e auto-explicativo, com pérolas do género: posicionamento claro na estética pós-punk, em que é a expressão a rainha; idiomatismo peculiar de José Duarte recuperado...!!! Foda-se, quem se lembra de escrever isto para uma cena do Farrajota??! O que tinha valido a pena, era ter aproveitado as páginas iniciais (e já agora, também a página da sinopse curricular) - e ter dado mais amplitude ao livro/ filme. Ficávamos todos a ganhar. A.Silva (via e-mail)
Já me fartei de rir a ler o teu livro. Desde cenas em que eu podia visualizar com perfeição que se passava no filme, a momentos de "a merda desta música, não me lembro do que se passa aqui" muito fixe ;) A.Rechena (via e-mail)
domingo, 24 de abril de 2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Guilty pleasure
Prince : Batman - motion picture soundtrack (Warner; 1989)
Era puto, o filme Batman pelo Tim Burton saía no mesmo ano que ia a Inglaterra pela primeira vez na vida... Comprei a cassete porque na altura não havia dinheiro para CDs ou vinil, k7 essa que todos os anos oiço no auto-rádio do carro mas em 2012 eis-me a comprar a versão em vinil, em segunda mão numa loja em Lisboa. Qual a desculpa? Pá, um dia nas minhas sessões de unDJ poderei passar uma das faixas, nem sei qual, são todas boas... Até a baladinha xungeta é bem esgalhada. O Prince é o James Brown e Stevie Wonder dos anos 80/90, o gajo faz caldeirão de Pop, Rock, Soul, Funk, Hip Hop e tudo o mais que for necessário para meter a malta a curtir. A banda sonora é melhor que este filme sobre o fascista do Homem Morcego! Duvido que o filme se aguente ao teste do tempo como a música, garanto-vos! Agora só falta contratarem-me para uma noite para eu passar o Partyman ou o Batdance. E a pensar que troquei o Prince pelo Punk...
Prince deixou-nos ontem entregues aos lobos da Pop de merda que se produz hoje. 1989 sempre!
terça-feira, 19 de abril de 2016
Infecção Urinária Etíope
O mundo é feito de encontros e descobertas, acontecimentos esses que podem trazer desgraças ou glórias para a Humanidade. Os encontros inesperados, diria eu, são os melhores pois quem alguma vez iria supor que os The Ex, uma banda anarco-punk holandesa criada em 1979, iria juntar-se a Getatchew Mekuria, um músico etíope já com 71 anos? Melhor que ser um “evento bizarro” é que ofereceu jóias à coroa divina da Música! Desde 2004 que estas duas entidades têm-se encontrado para concertos e discos (incluindo um DVD ao vivo), trazendo todo um sopro de ar fresco na música que conhecemos. Nem sei muito bem por onde começar esta história…
Se calhar deve-se afirmar logo que os The Ex não são os típicos “punk biesta” fechados no 4/4 e gritos básicos de ódio ao sistema. No auge do movimento Punk, é verdade, que começaram com singles a chamarem de estúpidos aos americanos e tudo mais mas ao longo da carreira foram progredindo sob várias formas musicais que merece o respeito de qualquer melómano – famosas são as suas colaborações com membros de Sonic Youth (outros que se podem nivelar num patamar de Rockeiros de mente aberta), o violoncelista Tom Cora (1953-1998), os provocadores e recém-extintos Chumbawamba,…Não é de admirar que em 2011 tocaram no festival lisboeta Jazz em Agosto com dois conhecidos improvisadores do Jazz: Paal Nilssen-Love e Ken Vandermark.
Depois, há toda a Música da Etiópia, impossível de sintetizar num texto como este mas quem tiver curiosidade pode ser ouvida (e lida em francês e em inglês) nos 27 discos da série Éthiopiques pela editora francesa de “world music” Buda Musique. Focada essencialmente na “época de ouro” da música etíope – ou seja, o seu Jazz registado entre 1969 e 1975 – esta série de discos também faz desvios para documentos étnicos como o volume 12, Kirba Afaa Xonso (2001), dedicado à música do povo Konso; ou o segundo volume, Tètchawèt! : Urban Azmaris of the 90’s (de 1997) dedicada à música urbana dos anos 90 depois da queda do “Derg”.
O “Derg” foi um regime militar de inspiração "comunista" que desde os anos 70 governou o país com recolheres obrigatórios, censura e propaganda, levando a músicos à prisão ou ao exílio, destruindo a rica cultura da Etiópia e, em triste apoteose, às epidemias de fome nos anos 80 – que levou à famosa manifestação musical Live Aid, em 1985, talvez um dos primeiros fenómenos mediáticos da Aldeia Global ou «a maior operação de braqueamento de dinheiro do tráfico de cocaína» segundo o Frank Zappa. Seja como for, o lado negativo do Live Aid é hoje ainda evidente, pois transformou a imagem de um país de forte personalidade - ao contrário dos outros países africanos, a Etiópia nunca foi colonizado pelos europeus, tirando a curta estadia dos italianos (1936-41) - em algo ultrajante como um país desértico e miserável.
Como afirma Andy Moor (guitarrista dos The Ex) no artigo da The Wire 337 (Mar’12), na Etiópia come-se e bebe-se bem, e a hospitalidade é de uma refinação ancestral. E claro, há o tal Jazz Etíope que será de agrado de qualquer pessoa que embirre com os saxofones do Jazz ocidental. É uma música bastante peculiar que nas suas origens dos anos 60 procurava a modernidade ocidental em sintonia com o espírito rebelde que acontecia em todos os países no mundo dessa altura, e que os músicos desenvolveram um estilo de som de sopros metálicos que nos embalam numa perspectiva mais “soft” e exótica, misturando raízes próprias com o Jazz e o Blues norte-americanos. As bandas etíopes vinham de grupos de fanfarras da polícia ou bandas do exército e que, pouco a pouco, tornaram-se independentes tocando em sessões para clientes de hotéis e mais tarde em outros circuitos privados. Aconselho ouvir, por exemplo, Alèmayèhu Esthèté, que é dado destaque no volume 22 (de 2007) das Éthiopiques.
Com o regime do Coronel Mengistu perdeu-se uma geração musical entre 1975 e 1991, e pior, criou-se uma geração que não conhece o seu próprio passado, situação essa que o coordenador das Éthiopiques, Francis Falceto tenta perspectivar, seja pela tal programa de reedição dos discos antigos como descobrindo linguagens quer contemporâneas quer etnógrafas. Mas ele não é o único apaixonado pelos sons daquela terra, há outros tipos como estes holandeses The Ex, completamente enfeitiçados pelo país, onde alguns dos seus membros viajaram nos meados dos anos 90.
Nos meados nos anos zero deste milénio começaram a tocar pela Etiópia, a organizar eventos e workshops e em 2004 começaram a editar discos de artistas etíopes, na sua sub-label Terp Records. Os The Ex, tal como os Fugazi com a sua Dischord ou Jello Biafra e a Alternative Tentacles, são punks que controlam os seus meios de produção, no melhor esprírito DIY, e usam o nome da banda para a sua editora, The Ex Records. A Terp é uma “subsidiária” para discos de música improvisada em que os seus membros participam ou para os artistas africanos que desejam dar a conhecer, colaborando ou não com eles. Daí que tenham editado Ililta! New Ethiopian Dance Music (2009) que é seguimento cronológico de Tètchawèt! onde se intercepta o cantor cego Mohammed “Jimmy” Mohammed (?-2006) nas duas colectâneas. Nesta última escolheram uma nova geração de músicos que pegam em temas tradicionais etíopes com novas roupagens dançáveis mas sem ser a produção plástica Pop. Nada de sintetizadores e “drum machines” foleiros nem a prática “dance mix” tal como a conhecemos no Pimba, Turbo-Folk e outras variedades. A selecção que nos é mostrada é sobretudo uma atitude acústica que remete para uma transformação da música etíope sem entrar nos esquemas cosmopolitas e imundos da Aldeia Global. Já agora, aconselho vivamente o single Gue / Selame, que lançaram dois anos depois da colectânea, em que dois músicos dos The Ex intervêm conjurando duas “trips” etno-cósmicas que fazem mexer as ancas em tremeliques, especialmente o primeiro tema, com a voz feminina de Tirudel Zenebe que revela ser um inesperado docinho saltitão.
Ao comemorar os seus 25 anos de existência, The Ex organizaram um festival em Amsterdão em 2004, com convidados de vários estilos musicais onde trouxeram também Getatchew Mekuria, de 71 anos a actuar pela primeira vez na Europa. Assim chegamos a Moa Anbessa (2006), primeiro registo de Mekuria com The Ex e com convidados – um combo de metais – num disco explosivo que consegue mesclar todo o saber de um saxofonista “sénior” com os “punkers” pouco-ortodoxos. Temas como Ethiopia Hagere ou Che Belew Shellela acrescentam algo de novo no mundo musical, contrariando os cínicos de “já se fez de tudo”. É um disco ingenuamente eclético em os temas de guerra são revistos à percussão do Punk ou com recitais de panfletismo anarca. Ainda pelo meio há temas mais puros do Jazz Etíope dos anos 70, mesclas desses temas com as guitarras sub-reptícias dos The Ex e um solo ao vivo de Mekuria. Um disco de música pura, que estaleja o cérebro e o pontapeia o corpo relembrando-os quando a música nos fazia sentir algo inesperado.
Entretanto os músicos viajaram pela Europa, Etiópia e Norte da América com o disco na mão, entrelaçando o seu companheirismo e sintonias musicais e lançam Y’Anbessaw Tezeta (2012), duplo CD que cheira infelizmente a epitáfio e a documentário. No primeiro CD é feita mais uma colaboração entre estes amigos e o segundo CD é o registo de várias participações de Mekuria ao vivo. Apesar de ambos os discos de 2006 e 2012 terem partido do saxofonista a convidar os The Ex como “sua banda de estúdio”, existem algumas diferenças nas condições - como a saída da banda do vocalista dos The Ex - e nos resultados pois de alguma forma o primeiro disco (de 2006) é nitidamente uma “parceria” (por mais eurocentristas que possamos ser) enquanto o de 2012 soa realmente a “convite”. Em 2012 temos um saxofonista com 76 anos que acha que este será o seu último disco após uma vida cheia, especialmente nos últimos anos em digressão mundial cheia de histórias hilariantes – que o livrinho do CD conta – e parece que os The Ex tomam uma posição submissa.
Os discos que Mekuria gravou tem sempre duas facetas, uma telúrica “militar” vinda da tradição de bandas militares onde todos os músicos modernos etíopes ensaiavam e tocavam, e outra faceta, melancólica com sabores orientais num Jazz mais tipificado mas que não corresponde ao “template” do Jazz norte-americano até porque os músicos etíopes não tiveram, ou por questões económicas ou por censura estatal acesso aos discos estrangeiros. O caso de Mekuria é sintomático, agora que foi descoberto no Ocidente, os críticos musicais tentaram compará-lo a Ornette Coleman, o que o senhor respondeu que nada sabe, não o conhece… e que só toca música etíope!
Y’Anbessaw Tezeta é mais cristalizado, mais calmo, uma espécie de testemunho musical que Mekuria quis deixar do seu estilo, do teu talento e da qualidade musical da Etiópia, que até está mais patente no segundo CD deste novo álbum onde encontramos vários registos ao vivo de Mekuria: com o grupo holandês e mutante de música improvisada ICP no clube Paradiso (onde se comemorou o tal festival dos 25 anos dos The Ex), gravações de Mekuria e The Ex em tournê de promoção do seu primeiro disco em conjunto e dois temas do saxofonista com a Orquestra de Polícia Fukera e Orquestra do Teatro Haile Selassie 1 durante os anos 60 gravados numa k7 qualquer encontrada pelos The Ex.
Para quem tiver com orçamento apertado Y’Anbessaw Tezeta é uma salganhada tão agradável, diga-se, que permite ter um bocadinho de tudo que se escreveu até aqui. E já agora, este CD duplo custa só 15 euros (portes incluídos) pedindo directamente à Terp. É DIY puro e duro!
Artigo escrito em Setembro de 2012 para a Infektion Magazine, hoje recuperado porque soube do falecimento de Mekuria a 4 de Abril, com 81 anos.
Se calhar deve-se afirmar logo que os The Ex não são os típicos “punk biesta” fechados no 4/4 e gritos básicos de ódio ao sistema. No auge do movimento Punk, é verdade, que começaram com singles a chamarem de estúpidos aos americanos e tudo mais mas ao longo da carreira foram progredindo sob várias formas musicais que merece o respeito de qualquer melómano – famosas são as suas colaborações com membros de Sonic Youth (outros que se podem nivelar num patamar de Rockeiros de mente aberta), o violoncelista Tom Cora (1953-1998), os provocadores e recém-extintos Chumbawamba,…Não é de admirar que em 2011 tocaram no festival lisboeta Jazz em Agosto com dois conhecidos improvisadores do Jazz: Paal Nilssen-Love e Ken Vandermark.
Depois, há toda a Música da Etiópia, impossível de sintetizar num texto como este mas quem tiver curiosidade pode ser ouvida (e lida em francês e em inglês) nos 27 discos da série Éthiopiques pela editora francesa de “world music” Buda Musique. Focada essencialmente na “época de ouro” da música etíope – ou seja, o seu Jazz registado entre 1969 e 1975 – esta série de discos também faz desvios para documentos étnicos como o volume 12, Kirba Afaa Xonso (2001), dedicado à música do povo Konso; ou o segundo volume, Tètchawèt! : Urban Azmaris of the 90’s (de 1997) dedicada à música urbana dos anos 90 depois da queda do “Derg”.
O “Derg” foi um regime militar de inspiração "comunista" que desde os anos 70 governou o país com recolheres obrigatórios, censura e propaganda, levando a músicos à prisão ou ao exílio, destruindo a rica cultura da Etiópia e, em triste apoteose, às epidemias de fome nos anos 80 – que levou à famosa manifestação musical Live Aid, em 1985, talvez um dos primeiros fenómenos mediáticos da Aldeia Global ou «a maior operação de braqueamento de dinheiro do tráfico de cocaína» segundo o Frank Zappa. Seja como for, o lado negativo do Live Aid é hoje ainda evidente, pois transformou a imagem de um país de forte personalidade - ao contrário dos outros países africanos, a Etiópia nunca foi colonizado pelos europeus, tirando a curta estadia dos italianos (1936-41) - em algo ultrajante como um país desértico e miserável.
Como afirma Andy Moor (guitarrista dos The Ex) no artigo da The Wire 337 (Mar’12), na Etiópia come-se e bebe-se bem, e a hospitalidade é de uma refinação ancestral. E claro, há o tal Jazz Etíope que será de agrado de qualquer pessoa que embirre com os saxofones do Jazz ocidental. É uma música bastante peculiar que nas suas origens dos anos 60 procurava a modernidade ocidental em sintonia com o espírito rebelde que acontecia em todos os países no mundo dessa altura, e que os músicos desenvolveram um estilo de som de sopros metálicos que nos embalam numa perspectiva mais “soft” e exótica, misturando raízes próprias com o Jazz e o Blues norte-americanos. As bandas etíopes vinham de grupos de fanfarras da polícia ou bandas do exército e que, pouco a pouco, tornaram-se independentes tocando em sessões para clientes de hotéis e mais tarde em outros circuitos privados. Aconselho ouvir, por exemplo, Alèmayèhu Esthèté, que é dado destaque no volume 22 (de 2007) das Éthiopiques.
Com o regime do Coronel Mengistu perdeu-se uma geração musical entre 1975 e 1991, e pior, criou-se uma geração que não conhece o seu próprio passado, situação essa que o coordenador das Éthiopiques, Francis Falceto tenta perspectivar, seja pela tal programa de reedição dos discos antigos como descobrindo linguagens quer contemporâneas quer etnógrafas. Mas ele não é o único apaixonado pelos sons daquela terra, há outros tipos como estes holandeses The Ex, completamente enfeitiçados pelo país, onde alguns dos seus membros viajaram nos meados dos anos 90.
Nos meados nos anos zero deste milénio começaram a tocar pela Etiópia, a organizar eventos e workshops e em 2004 começaram a editar discos de artistas etíopes, na sua sub-label Terp Records. Os The Ex, tal como os Fugazi com a sua Dischord ou Jello Biafra e a Alternative Tentacles, são punks que controlam os seus meios de produção, no melhor esprírito DIY, e usam o nome da banda para a sua editora, The Ex Records. A Terp é uma “subsidiária” para discos de música improvisada em que os seus membros participam ou para os artistas africanos que desejam dar a conhecer, colaborando ou não com eles. Daí que tenham editado Ililta! New Ethiopian Dance Music (2009) que é seguimento cronológico de Tètchawèt! onde se intercepta o cantor cego Mohammed “Jimmy” Mohammed (?-2006) nas duas colectâneas. Nesta última escolheram uma nova geração de músicos que pegam em temas tradicionais etíopes com novas roupagens dançáveis mas sem ser a produção plástica Pop. Nada de sintetizadores e “drum machines” foleiros nem a prática “dance mix” tal como a conhecemos no Pimba, Turbo-Folk e outras variedades. A selecção que nos é mostrada é sobretudo uma atitude acústica que remete para uma transformação da música etíope sem entrar nos esquemas cosmopolitas e imundos da Aldeia Global. Já agora, aconselho vivamente o single Gue / Selame, que lançaram dois anos depois da colectânea, em que dois músicos dos The Ex intervêm conjurando duas “trips” etno-cósmicas que fazem mexer as ancas em tremeliques, especialmente o primeiro tema, com a voz feminina de Tirudel Zenebe que revela ser um inesperado docinho saltitão.
Ao comemorar os seus 25 anos de existência, The Ex organizaram um festival em Amsterdão em 2004, com convidados de vários estilos musicais onde trouxeram também Getatchew Mekuria, de 71 anos a actuar pela primeira vez na Europa. Assim chegamos a Moa Anbessa (2006), primeiro registo de Mekuria com The Ex e com convidados – um combo de metais – num disco explosivo que consegue mesclar todo o saber de um saxofonista “sénior” com os “punkers” pouco-ortodoxos. Temas como Ethiopia Hagere ou Che Belew Shellela acrescentam algo de novo no mundo musical, contrariando os cínicos de “já se fez de tudo”. É um disco ingenuamente eclético em os temas de guerra são revistos à percussão do Punk ou com recitais de panfletismo anarca. Ainda pelo meio há temas mais puros do Jazz Etíope dos anos 70, mesclas desses temas com as guitarras sub-reptícias dos The Ex e um solo ao vivo de Mekuria. Um disco de música pura, que estaleja o cérebro e o pontapeia o corpo relembrando-os quando a música nos fazia sentir algo inesperado.
Entretanto os músicos viajaram pela Europa, Etiópia e Norte da América com o disco na mão, entrelaçando o seu companheirismo e sintonias musicais e lançam Y’Anbessaw Tezeta (2012), duplo CD que cheira infelizmente a epitáfio e a documentário. No primeiro CD é feita mais uma colaboração entre estes amigos e o segundo CD é o registo de várias participações de Mekuria ao vivo. Apesar de ambos os discos de 2006 e 2012 terem partido do saxofonista a convidar os The Ex como “sua banda de estúdio”, existem algumas diferenças nas condições - como a saída da banda do vocalista dos The Ex - e nos resultados pois de alguma forma o primeiro disco (de 2006) é nitidamente uma “parceria” (por mais eurocentristas que possamos ser) enquanto o de 2012 soa realmente a “convite”. Em 2012 temos um saxofonista com 76 anos que acha que este será o seu último disco após uma vida cheia, especialmente nos últimos anos em digressão mundial cheia de histórias hilariantes – que o livrinho do CD conta – e parece que os The Ex tomam uma posição submissa.
Os discos que Mekuria gravou tem sempre duas facetas, uma telúrica “militar” vinda da tradição de bandas militares onde todos os músicos modernos etíopes ensaiavam e tocavam, e outra faceta, melancólica com sabores orientais num Jazz mais tipificado mas que não corresponde ao “template” do Jazz norte-americano até porque os músicos etíopes não tiveram, ou por questões económicas ou por censura estatal acesso aos discos estrangeiros. O caso de Mekuria é sintomático, agora que foi descoberto no Ocidente, os críticos musicais tentaram compará-lo a Ornette Coleman, o que o senhor respondeu que nada sabe, não o conhece… e que só toca música etíope!
Y’Anbessaw Tezeta é mais cristalizado, mais calmo, uma espécie de testemunho musical que Mekuria quis deixar do seu estilo, do teu talento e da qualidade musical da Etiópia, que até está mais patente no segundo CD deste novo álbum onde encontramos vários registos ao vivo de Mekuria: com o grupo holandês e mutante de música improvisada ICP no clube Paradiso (onde se comemorou o tal festival dos 25 anos dos The Ex), gravações de Mekuria e The Ex em tournê de promoção do seu primeiro disco em conjunto e dois temas do saxofonista com a Orquestra de Polícia Fukera e Orquestra do Teatro Haile Selassie 1 durante os anos 60 gravados numa k7 qualquer encontrada pelos The Ex.
Para quem tiver com orçamento apertado Y’Anbessaw Tezeta é uma salganhada tão agradável, diga-se, que permite ter um bocadinho de tudo que se escreveu até aqui. E já agora, este CD duplo custa só 15 euros (portes incluídos) pedindo directamente à Terp. É DIY puro e duro!
Artigo escrito em Setembro de 2012 para a Infektion Magazine, hoje recuperado porque soube do falecimento de Mekuria a 4 de Abril, com 81 anos.
terça-feira, 12 de abril de 2016
Que se lixe!
Skrew : Shadow of Doubt (Metalblade; 1996)
Devem meter ácido na água do Texas tal é a quantidade de bandas estranhas que aparecem por lá. Os Skrew nem são assim tão marados como uns Butthole Surfers mas estão bem para um universo Industrial Metal, ou seja um crossover de géneros para quem gosta de Ministry e My Life With The Thrill Kill Kult. Todo o disco é bem 90s: pesado, agressivo, sujo mas pronto para o disco-headbanging de forma a render a quem não acredita em pureza sonora. É o terceiro disco da banda, lembro-me que os primeiros disocs eram melhores ou mais pesados. Acabaram em 1998 e voltaram à pouco tempo mais metaleiros que electrónicos ao que parece. Em 2016 ninguém quer saber deles por isso bem vale 1 euro comprado num metal-feirante de Barroselas...
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Ubik para todos
Telectu : Ctu Telectu (iPlay; 2008)
Caramba, 'tá difícil escrever práqui, é muitos discos e livros para consumir, pouco tempo e dedos cansados com a recente colaboração de resenhas críticas para o sítio da Mundo Fantasma. Como este disco tem muita relação com a BD, aqui vai: este é o primeiro disco dos Telectu, duo de música experimental que marcaram os anos 80 em Portugal fazendo parte Jorge Lima Barreto (1949-2011) e Vítor Rua. Segundo, uma conversa recente com o músico e autor de BD Carlos "Zíngaro" por causa de um projecto da Chili Com Carne para reeditar BD's dos anos 70, este autor disse-me que quer na área da BD "alternativa" quer na da música improvisada/ experimental/ vanguarda, os anos 80 foi a pior década.
Não quer dizer com isto que não pudessem aparecer OVNIs como este disco de 1982, editado pela Valentim de Carvalho (sabe-se lá porquê). Ctu Telectu soa a um primitivo Art Rock nas suas improvisações - o vocalista que aparece neste disco recita de forma aleatória textos de BDs inglesas e italianas (!) - enquanto bate num No Wave qualquer. Soa a dimensões alternativas não fossem todos os títulos das músicas dedicados/roubados ao escritor PK Dick, falecido nesse mesmo ano.
É bem provável que o álbum tenha sido ignorado na altura e tenha batido a quem recebe raios lazer divinos cor-de-rosa. Se Ctu Telectu foi um OVNI em 82, passados sete anos aconteceria o mesmo com os Santa Maria, Gasoolina em teu ventre! É importante que se recupere a discografia dos Telectu, dado aos seus preços proibitivos da segunda mão e a importância do projecto.
Ah! Na reedição deste disco (sabe-se lá porquê, estranhamente numa editora de Pimba, Fado e Pop) estão dois "Ruis amigos", o grande Rui Eduardo Paes escreve as notas sobre o disco e o Rui Garrido (designer da terceira série da revista Quadrado e que entra num sonho meu no MdC #24) que fez a adaptação gráfica de LP para CD. Zoing!
quinta-feira, 7 de abril de 2016
O Velho Anarquista
O Rafael Dionísio tem um novo livro... e é uma colecção de contos! Um deles é dedicado a mim, snif snif... Sempre é melhor ter um título como este que "O Lenine fodia-te todas as Sextas" ou algo do tipo.
O livro é O Fantasma de Creta e outros contos, co-edição Bicicleta e Chili Com Carne, capa é do João Chambel e sai oficialmente HOJE na Leituria. 'Tá fixe o livro!
E já está à venda pelo sítio da Chili...
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Cagufa da Revolução
The Last Poets (Celluloid; 1984 - orig. Douglas, 1970)
Recentemente escrevia sobre uma antologia de BD de um autor queer e dizia que o que gostava no trabalho desse autor era que ele não tinha um discurso só para a sua comunidade diferenciada e que alguns sentimentos das suas BDs seriam universais para qualquer ser humano. Os oprimidos podem ter a cor de pele ou outra coisa qualquer que os faz serem reprimidos pelo "Velho Branco Europeu" mas é bom que o discurso do reprimido seja entendido por outros reprimidos.
Estes vovôs do Hip Hop tinham A Fúria contra a miséria que o negro era submetido nos EUA. The Last Poets com três vozes e uns batuques fazem mais barulho contestário que qualquer banda de Grindcore.
Stop! Escrevi "era submetido"?
Sim "era"... desde os anos 70 que passou a haver uma classe média de população negra norte-americana, até mais do que isso, passou haver ricos e até elegeu-se um Presidente inútil duas vezes. Pelo caminho continuam haver milhares de miseráveis. Negros. Ameríndios. Brancos (o racismo do capitalismo: o "white trash"). Outras etnias.
Ouvir em 2016 os The Last Poets por mais que se dirigam a uma comunidade negra nos finais dos anos 60 fazem ainda todo o sentido ouví-los mesmo sendo eu branco, português e hetereossexual (o típico repressor!). O que eles gritavam em 1970 tem ainda A Força. A Mensagem deles pode ser absorvida/adaptada para qualquer outra situação de quem vive vítima sobre a marcha incontrolada do Capitalismo brutal (todos nós, quer queiramos quer não). Dizem eles nos seus recitais que os "niggers" gostam de anúncios de publicidade ou que "niggers" tem medo da revolução, substituam "branquela" invés de "niggers" e o significado é o mesmo. Os brancos daqui da esquina embrigados por futebol, roupa e Kuduro? Uma miséria idêntica a de 50 anos no Harlem, a diferença é que os poetas 'tugas são todos uns meninos.
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