terça-feira, 30 de agosto de 2016

Intermezzo


Music from Saharan Cellphones (Sahel Sounds; 2011) é um LP (originalmente editado em k7) que compila a múica mais popular que se ouvia em 2010 no deserto do Saara através da transferência de ficheiros via Bluetooh dos telemóveis... Já quando o autor Bruno Borges foi à Mauritânia (creio...) tinha-me contado que não encontrou nem k7s nem CD-Rs das músicas regionais, como se esperava para quem pensar por exemplo na Awesome Tapes of Africa. Invés disso, era preciso ter uma pen USB para os locais colocassem músicas nela. Uma sofisticação tecnológica inesperada sem dúvida. Voltando à compilação, uns gringos de Portland, andaram pelo Saara, gamaram essas músicas e fizeram a tal k7. Mais tarde depois de localizar os compositores saiu o LP, supostamente pagando os royalties aos seus autores. Alguns deles aliás que se transformaram em stars do circuito "world music" como Mdou Moctar ou repetentes para outras colectâneas da Sahel como Kaba Blon. Além do "Blues tuaregue" que já há muitos anos tem sido difundido pelos Tinariwen à escala global, encontra-se Hip Hop e Techno do Mali - a lembrar o kuduro - mostrando de quem anda de camelo no meio do deserto sabe curtir mais a vida do que os coninhas ocidentais que ouvem Arcade Fire e outras bandinhas indie da tanga.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Kebab de fusão

Os Trans-global Underground são uma instituição de como a música podia trazer a paz mundial se isso implicasse apenas fazer uma amalgama de sons de um bocado de todo o planeta. A prova é que o pouco que os TGU apanham em Londres, nas lojas de indianos ou de exilados do médio-oriente ou de África, ao qual juntam os "big beats" da música ocidental mostra que resulta e podiamos ser uma verdadeira Aldeia Global, feliz e em festa. Yes Boss Food Corner (Ark 21; 2001) é o sexto disco que mantendo o pézinho de dança de sempre não avança muito mais naquilo que eles projectaram quando começaram a sua carreira fonográfica em 1993. Falta a presença da fantástica cantora Natacha Atlas para que o disco tenha uma aura emblemática.
Desconfio que nesta altura do campeonato (seja em 2001 seja em 2016) algures na Índia ou no Egipto alguém já fez melhor do que isto. Mas como disse logo início, os TGU são tão importantes como a ONU, para o melhor e para o pior, com ou sem apoio da Coca-Cola.

E se o TGU são uma instituição, Nusrat Fateh Ali Khan (1948-97) é uma Lenda. A sua voz e música lembram banhos no mar atlântico, aquele ir e vir de ondas potentes que vão contra o corpo de um gajo, naquela luta inútil e imersa na Natureza, em que só quem se banha perde energia, o mar ganha sempre. Resta depois descansar satisfeito na toalha no meio da areia com a sensação que se foi espancado mas que soube bem! É o que sinto sempre que oiço Body and Soul (Real World; 2001) e deve ser a única vez que fico feliz com a capacidade do CD ultrapassarem o tempo do disco vinil LP. Se isto foi uma das razões porque a música tornou-se balofa nos anos 90 e seguintes com o pessoal a encher chouriços nos discos só porque podiam ir aos 80 minutos, aqui o excesso sabe bem, preenche a Alma com o sufismo e a anca com Qawwali. E por escrever sobre excessos, foi a obesidade mórbida desta voz paquistanesa que lhe causou a morte demasiado cedo. Mesmo morto ele continua a bater-nos...

Crisis (Pi; 2015) de Amir ElSaffar / Two Rivers Ensemble é um grande disco para quem não gosta de Jazz ou de música "árabe" - ou "maqams" iraquianos em especial. Os dois géneros fundem-se em perfeição total, sob as composições e improvisações deste trompetista norte-americano (de pai iraquiano e mãe americana) num formação de sexteto. Disco e temas dedicados à Primavera Árabe, tem tanto de dramático como de exaltação física, de fuga emocional como de conservador ao mesmo tempo. Quem não gosta de Jazz nem reparará que ele está lá. Quem não gosta de "world music" achará que está aqui algo diferente e que se encontra até em algumas ideias dos Secret Chiefs 3 mas muito sinceramente, quem é que não gosta de música árabe?

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

FDS apokalips

Milhões de Festa? Coisa de meninos cocados de Lisboa e Porto... Barroselas? Que enfado... Querem um festival brutal? Ele chama-se Filmes do Homem : Festival Internacional de Documentários de Melgaço... Foi neste passado fim-de-semana terrível!

...Sábado de manhã era só lágrimas nos olhos a ver #myescape de Elke Sasse, filme sobre refugiados da Síria, Afeganistão e Eritreia. Se todos nós sabemos como estas pessoas têm sobrevivido para chegar a esta Europa egoísta, xenófoba e em crise de identidade, é muito mais duro ver as imagens gravadas pelos próprios durante a sua trágica aventura - que podia ter corrido mal como se sabe, sobretudo para os eritreus que são cristãos e como tal sujeitos a assassinato religioso durante a travessia pela Líbia, onde também existe tráfico de orgãos, ou seja, uma pessoa pode ser operado no deserto para lhe tirarem algo, assim mesmo como escrevo! Se há muita literatura ou até alguma BD (há pelo menos uma sobre os campos de refugiados por Joe Sacco) ver estas "imagens em movimento" gravadas com telemóveis dos próprios é deveras impressionante. Elas rasgam qualquer protecção intelectual e frieza mental que se possa ter. Há milhares de coisas que vemos e que se pensa durante a exibição deste filme, acho que nem consigo escrever um décimo nem organizar um discurso coerente.

Desde o humor que os sobreviventes inventam para serem (justamente e só isso mesmo) sobreviventes deste Novo Holocausto ao gesto narcisista da "selfie", que se torna num gesto universal de identificação entre vítimas e os espectadores e que serve também de um retrato cronológico das várias etapas dos refugiados. O telemóvel é uma arma de sobrevivência tal como as redes sociais ajudam famílias e amigos a reencontrarem-se mais tarde - ao contrário de outras catástrofes do passado, em que milhares de laços ficaram separados para sempre. Até a música arrepia, aparece como catarse dos refugiados: um grupo de eritreus perdidos no Mediterrâneo começam a cantar uma lenga-lenga e a bater palmas (a lembrar música etíope) quando aparece um barco que os irá salvar; uma "nova música popular" é criada por árabes nos comboios e autocarros a caminho da Alemanha - "Alemania, Alemania senão nos querem lá saltamos para Spania". E vemos como o fantástico Capitalismo é capaz de criar balcões "à la Western Union" nos antros dos traficantes ou como produz lixo (plásticos omnipresentes) espalhado por todo o caminho deste êxodo catastrófico. Soa a futilidade pensar em Ecologia no meio desta desgraça humana mas o retrato capitalista não estaria completo sem a poluição estar presente ao lado dos cadáveres - não os vemos neste filme mas sabemos que eles andam por ali - e dos mutantes. O caleidoscópio de informação e das sensações é tal que um gajo agarrasse a detalhes que se calhar parecem parvos, talvez para descomprimir disto tudo, afinal, num Sábado de manhã não deveríamos estar antes a ver os Desenhos animados!? Graças ao filha-da-puta do Bush Jr. já não podemos fazer isso! Temos de o agradecer por ter tirado o século XXI da sua "infância"!

Almoço à minhota (ou seja farta e ruidosa), depois uma visita ao Museu de Cinema de Melgaço Jean Loup Passek, um verdadeiro tesouro escondido dos portugueses! Este francês ofereceu o seu espólio a Melgaço e é maravilhosa a colecção que se encontra por lá. A exposição permanente é sobre o pré-cinema com as suas lanternas mágicas, zootropos e praxinoscópios - tudo isto pode ser visto também como proto-BDs não tivesse a dupla Ruppert e Mulot recuperado a tecnologia dos fenaquistiscópios nas suas BDs.

Hop! Sessão da tarde com três filmes! O primeiro era uma ode à Mãe, Histoire Maternelles da Anouk Dominguez-Dezen, filme bonito usando o arquivo áudio-visual da família desta realizadora suiça-brasileira. Se é como alguém diz que todos os alemães são nazis até prova contrária, The Guardians de Benjamin Rost prova bem isso ao mostrar uma escola de seguranças, onde vemos um bas fond alemão a aprender a ser segurança profissional. Terror! As ligações à extrema direita não são aprofundadas mas com dois pingos de testa (coisa que falta nos seus protagonistas) percebe-se o que aquela gente é ou gostaria de ser. E se as "louras-burras" (com rottweilers) chumbam aos exames da escola, ainda tem 20 tentativas para conseguirem o seu diploma de Segurança. Vinte são as vezes que a activista palestiniana Sheerin of Al-Walaja foi presa pelos "nazisraelitas". Vemos uma das vezes no filme de Daz Chandler tal como a vemos a usar a palavra e a não-agressão contra uzis e soldados, é uma inspiração telúrica para Humanidade.

Claro que um gajo sai arrasado de mais uma sessão... Nem quer ver um galego deprimente (é o que os galegos e portugueses têm em comum além da península ibérica e língua) a emigrar prá deprimente Suécia. Que se lixe o cliché "fui para longe para me encontrar no ponto de partida", por favor...

Noite... O Inferno começa a libertar as chamas na Terra. My Enemy My brother de Ann Shin é daquelas histórias de meter o Paul Auster num canto. Um iraniano e um iraquiano que estiverem frente a frente no Conflito Irão-Iraque (entre 1980 e 1988), encontram-se 25 anos mais tarde no Canadá. Ambos ajudaram-se, uma vez um deles não matou o outro no meio de Khorramshahr, mais tarde o que não levou uma bala salva o "atacante" de se suicidar. Não há ditadores que aniquilem totalmente o espírito humano, já as máquinas... Behemoth de Zhao Liang ganhou o prémio de melhor filme deste festival e é merecido. O filme cita a Divina Comédia mas ele próprio já é um Inferno. Mostra imagens de minas monstruosas e os seus trabalhadores, a saúde e morte dos mineiros, o desastre ecológico, a destruição de habitats naturais de populações e o desperdício final - depois de tanto desumano esforço, o resultado é a criação de aço para a construção de centenas de cidades-fantasmas que existem na China. Cidades horríveis de prédios enormes todos abandonados mas com funcionários da limpeza nas ruas. O absurdo chega ao limite especialmente porque as imagens gravadas parecem que estamos algures num planeta de insectos. Um gajo sai da sessão e quer é ir dormir. Já reza para que lhe dêem descanso no Domingo...

MNRG people em Melgaço...

Não termos nem Paraíso nem Inferno é ficarmos intoleravelmente despojados e sós num mundo sem espessura. Dos dois reinos perdidos, verificou-se que era o Inferno o mais fácil de recriar. - George Steiner in No Castelo do Barba Azul (Relógio D'Água; 1992 - orig. 1971)

Domingo foi mais "soft" e esquecemos por uns tempos esse Inferno. De manhã no belo parque de Lamas de Mouro viu-se Os olhos de André de António Borges Correia, um "doc-drama" usando actores não-profissionais e que interpretam os acontecimentos que lhes aconteceu, com um pózinho de ficção aqui e acolá. Um drama abala uma família de Arcos de Valdevez mas a persistência do pai consegue vencer as dificuldades da vida. É outro humano inspirador, o senhor António Morais, em que pelo menos contamos com um "final feliz" e um encontro seu com o público - incluindo os seus sete filhos! Foi um evento meio-anarca...

Depois do almoço, decidimos (eu e a minha mulher) de regressar a Lisboa, pensava eu que seria uma viagem quente mas calma para lutar com as mais de cinco horas de viagem de carro entre Melgaço e a capital... O que aconteceu foi revoltante em sintonia com o Inferno que transformá-mos a Terra, foi presenciar incêndios pelo Minho inteiro e depois, perto de Antuã, ficar parado na auto-estrada durante três horas! Sim demoramos mais de oito horas, três delas no meio de centenas de carros e camionetas sem sabermos o que fazer. Rádio? Nada serve, só para manter as pessoas alienadas com futebol e música de merda, notícias sobre o que se passava? Tanto como quando foram os atentados em Paris - nessa noite íamos para o Porto e as notícias que saíam sobre Paris eram às mijinhas. Programas evangélicos em compensação havia a pontapé!

Por fim, quando acontece algo assim, pergunta-se porque raios existem auto-estradas nesta lógica que esta tem de ser pagas e como tal com acessos muito reduzidos. Se o incêndio tivesse pegado nos carros teríamos um Matanças maior que o Andanças... Mas como ainda somos humanos, até houve um casal que ofereceu água sem fazer um tostão. Onde estava a bófia ou o Estado para tal? Para que servem os 21 euros e tal de portagem? E as estações de serviço com os preços acima da média? Que pulhas! Era bom que as chamas fossem até às vossas casas destruir tudo... É o mínimo que vos desejo!

Agradecimento Ao Norte pelo convite por esta estadia no Inferno. Felizmente que o festival não foi na Madeira...

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Loverbowie

O Jorge Coelho fez esta brincadeira em 2007 para quem sofrer de dupla nostalgia...
E quando o Bowie foi-se nem me lembrei dela...
entretanto a ilustra foi parar ao livro Loverboy na Feira das Vanessas

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Homenagem a Terminal Tower






Terminal Tower saiu em 2014 e nesse mesmo ano subi o Douro passando por estas construções que evocam a estranheza do livro...

terça-feira, 19 de julho de 2016

Soul Jazz à 'tuga!


A k7 voltou! Ou melhor regressou de vez porque se foi sempre existindo como um formato de oposição  à voracidade dos meios digitais ("googlar", descarregar, ouvir, despejar) para uma música que se pretende melhor e que requer atenção, não se esperava que também fosse usada para reedição de "música antiga" - mas porquê o espanto? Quando a k7 apareceu, não disseram que ia dar cabo da indústria fonográfica porque era um meio fácil de piratear?
O Instituto Fonográfico Tropical é o R.S., um gajo omnipresente em todas as festas e sítios populares (pós-lumpen não hipster, atenção!) e pelos vistos é um coleccionador de música perdida em singles e EPs que já ninguém quer saber. Faz de DJ (ou será unDJ?) por onde o Império Romano passou - ou seja, de Roma a Évora - com estas pérolas "afrosulamericanas". Não está a fazer um trabalho de pesquisa como a Soul Jazz, Soundway ou Awesome Tapes of Africa porque não há materiais de contextualização (fotografias, ensaios, fichas técnicas, etc...). São apenas umas compilações para a malta curtir no auto-rádio - 77,8% dos ouvintes de k7s afirmam ouvir exclusivamente no carro - como naqueles tempos em que se parava numa estação de serviço à cata de uma cena fixe para se ouvir para a viagem.
Ainda só ouvi a de Cumbia e de Coladera, na primeira k7 parte-se a loiça todo com os orgãos ácidos e ritmo de engate barato - destaque para La Chichara de Hugo Blanco! - e na outra curte-se como um doido graças ao Bana, Tubarões e cia - mesmo com o som sujo do vinil que o IFT gamou a malha. Nice!


sábado, 9 de julho de 2016

REVISÃO : Bandas Desenhadas dos anos 70 - lançamento na Feira Morta 9 JULHO Bedeteca de Lisboa, às 16h

Capa de Isabel Lobinho e títulos por João Maio Pinto

2016 marca 40 anos do fim da icónica Visão, uma revista improvável num país com graves problemas económicos mas que se apresentava nas bancas com ar luxuoso, cores ácidas e brilhantes, temáticas políticas e libertárias.

 Quisemos comemorar esta publicação que fez uma ruptura com a BD tradicional portuguesa mas sobretudo recuperar um conjunto de BDs esquecidas dos anos 70 cheias de frescura, rebeldia e prazer criativo, vindas de outras experiências editoriais como Evaristo, O Estripador ou &etc.

Contem com António Pilar, Bruno Scoriels, Carlos BarradasCarlos "Zíngaro", Fernando Relvas, Gracinda, Isabel Lobinho, J.L. Duarte, João Manuel BarrosoNuno Amorim, Paralta & Zé Baganha, Pedro Massano, Pedro Potier, Tito, Zé Paulo (1937-2008), Zepe e ainda António Pinho, Carlos Soares, Jorge Lima Barreto (1949-2011) e Mário-Henrique Leiria (1923-1980) para muita BD psicadélica, urbana, cósmica, mórbida, erótica, pessimista, ácida, crítica, tão ying & yang tal como foi a década de 70 neste país periférico.

Nova paginação! 
Vintage Free! 
Completista!
Uma delícia!!!

«o»

9º volume da colecção Mercantologia 
editado por Marcos Farrajota 
arranjo gráfico de Joana Pires
184 páginas a cores 23,5x34cm
Capa com uma bandana

Após uma apresentação deste livro no Festival de BD de Beja (29 de Maio), 
o livro será lançado dia 9 de Julho, às 16h na Feira Morta 
a decorrer na Bedeteca de Lisboa (Biblioteca dos Olivais).

O lançamento conta com a presença de Marcos Farrajota (editor) e António Pilar, Carlos BarradasCarlos "Zíngaro", Fernando Relvas, J.L. Duarte, Pedro Potier, Zepe (autores) e Ágata Simões (filha do autor já falecido Zé Paulo) no auditório da Biblioteca dos Olivais.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

CIA info 84.1


Novo trabalho que deve sair em Abril num guetho 'tuga de Nova Iorque... Que no fanzine do Gato Mariano afirmou que afinal sai em Julho... Vamos ver se é verdade!

Play a Phil Collins song at me while I'm grocery shopping? Pay me twenty dollars. Def Leppard? Make it a hundred. Miley Cyrus? They don't print money big enough.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

quinta-feira, 16 de junho de 2016

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sobre o Negative Born Killers


O Filme da Minha Vida é o título genérico de uma colecção de banda desenhada que a Associação Ao Norte lançou, em maio de 2008, nos VIII Encontros de Viana – Cinema e Vídeo. Esta colecção é o resultado de um desafio lançado aos autores nacionais de banda desenhada, e consiste em criar uma obra a partir de um filme que tenha deixado memória. A Associação Ao Norte tem registado um depoimento de cada um dos artistas que participam neste projecto.
Vídeo sobre este livro... AQUI.

sábado, 28 de maio de 2016

Bons velhos novos tempos!



(...) 150 estivadores a frente do parlamento, disparando very lights, petardos, a bombar Xutos (a tal música censurada), gritando: "Sócrates escuta, és um filho da puta, vai pá puta que te pariu" de cara tapada e tronco nu, ou só de colete reflector dizendo nas costas "DON'T FUCK WITH THE STIVADORS!" (Junho 2010)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Joder! Es mas bueno que pensava!



Von Magnet : El Sexo Sur-realista (Dancetaria; 1987), El grito (auto-edição; 2007; orig. 1994), Electroflamenco (auto-edição; 2004)

O historiador Friedrich Heer no livro Mundo Medieval: A Europa de 1100 a 1350 diz que nesses tempos e neste continente as pessoas viajavam mais e havia mais intercâmbio de culturas do que no século XX. Ao que parece se houve realmente uma Europa tolerante foi no século XI e XII onde as religiões e nacionalidades não tinham o peso que começou a surgir no final dessa Era até aos dias de hoje, com a criação de pátrias e nações arrumadinhas a jeito e os cismas que vieram daí. Esta evocação de um mundo que era mais mestiço é-me sugerido pelos Von Magnet, grupo de artistas (músicos, visuais, bailarinos, multimedia) com uma cotação mítica e de culto. São nómadas como muitos europeus deveriam ser em 1100, acho que são franceses mas estiveram por Londres até aos anos 90 e depois vadiaram por aí como ciganos cyberpunks que são.

"Vadio" é um termo que lhes fica bem porque o seu "electroflamenco" não se compromete nem com categorias rígidas da música "world" nem da "electrónica". A fusão é total e perfeita, de tal forma que confunde os sentidos e funções das tais categorias originais. Estes discos deles não servem propriamente para dançar apesar do "electro" e do "flamengo", mostrando que a modernização de géneros tradicionais não passa por aberrações populares como os Gotan Project [falo neles por ser o mais mediático, em Portugal] que simplesmente metem umas batidas hip hop por cima do som tradicional e já está.

Aqui há Electrónica mas também há Amor. Se houver baile então ele será novo e diferente dos antigos bailaricos, um novo ritual cosmogónico, o que até faz sentido visto que o colectivo veio das cinzas da cultura Industrial que se ouve em algumas partes dos discos. Em 1987 já há IDM com Pop dramalhão, até uma pitada de Free Jazz, cinematografia, sangue na arena, chamas no bordel, palmas e castalholas a 98 bpm's, tusa e sapateado. Olé!

PS - para quem nunca tomou conta deles, bom é porque é surdo, a Thisco fartou-se de os editar por cá e até está o Phil Von (mentor da coisa) num Antibothis.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

CIA info 83.9


Meti-me numa alhada e só 3 anos depois é que consegui resolvê-la... mas está feito! O novo livrinho é lançado no 13 de Maio de 2016 (bem sei, é a data das porcas beatas...) nos Encontros de Cinema de Viana do CasteloEra para se intitular É "a banda sonora da minha vida"! Ha ha ha ha (a sério!) mas não vai dar e mudou para Negative Born KillersÉ para a colecção O Filme da Minha Vida da Associação Ao Norte que lança o repto a autores portugueses de BD para criarem um mini-álbum inspirado num filme que tenha deixado marcas nas suas vidas. 

12 Maio / 14h30 - Auditório Carolino Ramos / Escola Secundária de Monserrate: exibição do filme Assassinos Natos de Oliver Stone (EUA, 1994, 119m)
13 Maio / 15h - Sede da Associação Ao Norte: inauguração da exposição Negative Born Killers, de Marcos Farrajota + lançamento do livro + encontro com o autor. 
A exposição estará patente até dia 8 de Julho.
14 Maio / 00h30 - Republica Caffe Bar (Praça da Erva): festa com o unDJ MMMNNNRRRG a tentar invocar a narrativa sonora criada por Trent Reznor para o Natural Born Killer mas sem as mesmas músicas. Porquê? Porque não tem os mesmos discos nem os diálogos do filme... Nesta divertida sessão haverá música de Nusrat Fateh Ali Khan, Diamanda Galas e Lard, será suficiente?

entretanto fica aqui o texto de apresentação de Pedro Moura para o livro: Music to kill by.

Em que medida é que é possível re-ouver um filme? Se o idiomatismo peculiar de José Duarte pode ser recuperado em novas ocasiões, a velha cassete que Marcos Farrajota tem no carro é o mecanismo que permite, apenas através da banda sonora do filme Natural Born Killers (real. Oliver Stone, 1994), revisitar o filme, sem ter de passar sequer pela trilha visual real. A banda sonora, como é explicada no livro, é feita das mais díspares canções, montadas numa frenética colagem pelo músico e produtor Trent Reznor, com troços dos diálogos e sons do próprio filme, criando assim uma textura caótica que permite essa revisitação, ou reminiscência, se bem que não seja cumprida da forma mais normalizada. Não há aqui nenhuma adaptação.

O road movie transforma-se assim numa oportunidade para o autor, no interior da sua própria e menor road trip, tecer comentários sobre a música que compõe a banda sonora do filme. Repórter em banda desenhada, e com uma atenção particular para com um mundo da música que as mais das vezes anda arreigado dos meios de comunicação social, quase exclusivamente focados num tom jubilatório da cultura de massas mais empedernida e/ou suportada por grandes interesses mediático-capitalistas, Marcos Farrajota acaba por criar pequenos mapas alternativos da cultura no nosso burgo. Esta é então uma oportunidade para criar um discurso totalmente livre de forma ou de organização programática para nos devolver os próprios processos do pensamento, da memória e do trabalho a que se entrega.

O autor, de facto, também partilha connosco de forma explícita os obstáculos que atravessa no burilar da sua história quer a nível dos instrumentos expressivos quer nos da memória. As confissões (do erro sobre o rosto de um actor, da utilização de um CD novo), o semi-arrependimento a meio do percurso, enfim, a “alhada” em que se mete, não é mais do que o grande sinal de que estamos num território que não pretende de forma alguma assumir-se como definitivo. Há em todo esse percurso que abraça a deselegância de forma directa um posicionamento claro na estética pós-punk, em que é a expressão a rainha. Formalmente, a presença dos traços materiais do papel usado para desenhar, as colagens de material das cassetes, fotos, e a própria composição – entre o regrada e bem-comportada e a concatenação ou empilhamento de materiais -, são apenas confirmações disso.

Com a distância que as décadas permitem, podemos olhar para Natural Born Killers em enquadramentos mais alargados. Se numa primeira instância conseguimos perceber onde estão as assinaturas de Oliver Stone, olhando para o filme como uma reflexão sobre a América e certas das suas obsessões menos saudáveis, ou os estranhos paradoxos da civilização ocidental, também é possível compreender quais são os sinais que se mantiveram de Quentin Tarantino (que escrevera a primeira versão do argumento): uma certa glorificação da violência e a manipulação das emoções em torno delas, através de diálogos banais nos momentos mais dramáticos, numa sólida história de amor invencível no meio das maiores tempestades morais em torno. Até certo ponto, o filme tem aspectos algo datados, como a estrutura pluri-material dos média visitados, e que a banda sonora escolhida como objecto de análise de Farrajota tão bem espelha. É provável que este último verbo talvez não seja apropriado já que tudo se estilhaça…

Mas esse frenesim é expectável, em que géneros e estilos aparentemente contraditórios, não-reconciliáveis, se encontram no mesmo palco (no mesmo guarda-luvas)… De novo, o signo da colagem está aí presente. E esta não deseja de forma alguma providenciar com uma lisura que explicasse tudo ou resumisse e subsumisse as coisas a uma “razão de ser”. Bem pelo contrário, quer mesmo que as contradições sejam visíveis, e a falta de suavidade sentida ao longo da leitura. Mortífero ou em final feliz, Farrajota terá chegado ao seu destino.


FEEDBACK:

li o livro. o texto do Pedro Moura é uma merda. funciona(ria) bem como review/post, mas não presta para prefácio (ou lá o que é) do livro. a incluir um texto, deveria ser algo a rasgar a sério e não algo previsível e auto-explicativo, com pérolas do género: posicionamento claro na estética pós-punk, em que é a expressão a rainha; idiomatismo peculiar de José Duarte recuperado...!!! Foda-se, quem se lembra de escrever isto para uma cena do Farrajota??! O que tinha valido a pena, era ter aproveitado as páginas iniciais (e já agora, também a página da sinopse curricular) - e ter dado mais amplitude ao livro/ filme. Ficávamos todos a ganhar. A.Silva (via e-mail)
Já me fartei de rir a ler o teu livro. Desde cenas em que eu podia visualizar com perfeição que se passava no filme, a momentos de "a merda desta música, não me lembro do que se passa aqui" muito fixe ;) A.Rechena (via e-mail)