sábado, 31 de dezembro de 2016

1666


1. Histórias Com Tempo e Lugar : Prosa de Autores Austríacos (1900-1938) (Europa-América; 1980?)
2. Ho99o9 (Milhoes de Festa 2016) {foto}
3. Amir El-Saffar : Crisis (Pi; 2015)
4. Frantz Fanon : Os condenados da terra (Letra Livre; 2015)
5. Umberto Eco : O Pêndulo de Foucault (Difer; 1989)
6. Heta-Uma / Mangaro (Le Dernier Cri + MIAM; 2015)
7. Clipping : CLPPNG (Sub Pop; 2014)
8. Franky et Nicole, vol. 3 (Les Requins Marteaux; 2015)
9. Zeal and Ardor : Devil is fine (Reflections)
10. Jonathan Lethem : The ecstasy of influence : a plagiarism mosaic in Sound Unbound de Paul D. Miller (MIT; 2008)
11. Balani Show Super Hits - Electronic Street Parties From Mali (Sahel Sounds; 2014)
12. David Collier : Chimo (Conundrum; 2011)
13. Posy Simmonds : Gemma Bovary (Pantheon; 1999)
14. DJ Balli (Damas + Disgraça; 10-11 Março) + Apocalypso Disco (Agenzia X; 2013) + Frankenstein Goes to Holocaust (Agenzia X)
15. Timothy Leary : Chaos & Cyberculture (Ronin; 1994)
16. Edgar PêraO Espectador Espantado (Bando à Parte)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Negative Born Killers na Stress FM


Eis o podcast da "gracinha" transmitida por rádio em linha Stress FM - e "à antiga" na linha de Cascais através da sede da SMUP (Parede) em o 88.3 - no passado dia 5 de Dezembro.

Voltei a fazer a graçinha que fiz no dia 4 Maio no Republica Caffe Bar em Viana do Castelo, ou seja recriar a banda sonora de Negative Born Killers! Livrinho de BD inserido na colecção O Filme da Minha Vida da Associação Ao Norte que lança o repto a autores portugueses de BD para criarem um mini-álbum inspirado num filme que tenha deixado marcas nas suas vidas.

Como sabem, a minha escolha recaiu sobre o Natural Born Killers de Oliver Stone, não pelo filme mas pela banda sonora criada por Trent Reznor (dos Nine Inch Nails). Assim sendo fiz um set a tentar invocar a narrativa sonora criada por Reznor mas sem as mesmas músicas. Porquê? Porque não tenho os mesmos discos nem os diálogos do filme. Nesta caótica sessão houve música de Nusrat Fateh Ali Khan, Diamanda Galas, Human League, Scott Walker, Soul Warrior Lard e muitos outros... convence?

domingo, 25 de dezembro de 2016

Kim Gordon : "A miúda da banda" (Bertrand; 2016)

Gordon é uma ex-libris de uma geração "alternativa" graças a fundação dos Sonic Youth, banda que partilhava com o seu ex-marido Thurston Moore. Juntos eram vistos como um casal de sonho ou modelo para quem acharia impossível nos séculos XX e XXI ter dois artistas íntegros a fazerem as caretices como casar e ter filhos (só tiveram uma criança, calma) mas mantendo uma banda de Rock que era "do contra". O divórcio de ambos foi uma pedra no charco para muitos, quase tão chocante como o tiro na cabeça de Kurt Cobain em 1994.

O livro apesar de ser muito abrangente devido à vida rica de experiências de Gordon, acaba ter algo de ressabiado e de lavagem de roupa suja mesmo que Gordon escreva com elegância e energia suficiente para não estarmos a ler um romance de cordel ou livro de escândalos dos famosos mas é verdade que Moore aparece mesmo como um teenager idiota no que diz à crise e final da sua relação com Gordon. Para uma banda de cinquentões a chamarem-se ainda de "Youth" ele deveria levar isso muito a sério, pelos vistos...

O livro é bem melhor do que parece depois disto dito, é uma biografia que vai desde a infância até aos dias pós-divórcio e final da banda, tendo Gordon tiradas certeiras sobre uma série de temas como o casamento, maternidade, espectáculo e arte no mundo do Rock ou ainda da história ou evolução da música Rock. Algumas vezes cândida outras vezes agressiva (mas sem ser bruta nem burra), a escrita de Gordon parece-se as oscilações e texturas da música dos Sonic Youth, o que se calhar mostra que a banda era mais dela do que dos outros...

sábado, 17 de dezembro de 2016

Okupa Montijo


A noite no Montijo é tão excitante que até num bar semi-vazio há cadeiras no chão - sem razão para tal e sem ninguém em preocupar-se em levantá-las! Dois produtores culturais comemoram esse acontecimento com esta fotografia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

André Costa : "As aventuras subjetivas de Björk" (ed. autor; 2014)


Não há artista Pop que mais fascine que a Björk - só mesmo os Die Antwoord para competir com ela - dado ao seu estatuto de estrela mundial sem que exponha a bundinha por tudo e por nada como as porcas das Madonnas & Britney Spears. Mais que uma cantora ou música, ela é uma artista mutante e com conteúdo. É natural que apareçam leituras sobre ela, como o caso deste livro brasileiro que faz uma actualização à dissertação de mestrado As aventuras subjetivas de Björk: da emergência de novas subjetividades no universo pop contemporâneo defendida em 2003 na Faculdade de Comunicação da Universidade do Brasil.

Feita uma actualização dos 10 anos de carreira da artista não contemplados pelo trabalho original de André Costa, este deve ter tido gozo em colaborar com a artista visual Adriana Peliano e o projecto gráfico de Maurício Chades para construir um livro manipulável com surpresas inesperadas, fazendo jus à carreira da islandesa. À primeira vista o livro é sem dúvida uma pérola, como se tivesse descido num pedaço de gelo lá da ilha com a bença da Santa B. Uma capa recortada, imagens-postais inseridas entre folhas, vários tipos de papeis e um texto paginado de forma pouco canónica - lê-se primeiro as primeiras páginas, salta-se lá mais para a frente do livro e como um "split-book" continua-se a leitura virando o livro. Sem dúvida a melhor forma de homenagear a sofisticação de Björk.

No entanto, o que temos é mais um texto académico a brincar com o fascínio pelo mundo Pop. Não é o pior texto que já li do género, dá até bastantes referências filosóficas e pensamentos sobre o ambiente da música para quem for curioso mas é aquela escrita que baralha e volta a baralhar em discurso circular para que o leitor comum não se sinta à vontade ou aprenda ideias de forma clara. Constata-se o óbvio, na Academia não há ideias só constatações do óbvio. O livro não é uma biografia da artistas mas uma análise sobre o seu trabalho. Interessante mas péssimo para ler na cama...

As fotografias que ao principio dá-nos estímulo para comprar o livro revelam-se tão monótonas como a tese, sempre imagens de uma boneca cheia de ambiente bling bling infantil e onírico, tornando-se um cliché na terceira foto desvendada. Pior que isso é que imagética imposta recusa a hipótese de ter uma visão análoga de Björk para além de uma bonequinha vintage no País das Maravilhas quando a tese afirma que ela é muito mais do que isso (como bem sabemos): teen punk islandesa emigrada, inocente cosmopolita, princezinha regressada, mulher artista exploratória, mãe colaborativa, divorciada politizada, pedagoga vanguardista, fora todos os avatares que vai criando ou irá criar ainda. Aqui ficamos com a sensação que ela sempre será uma boneca islandesa, pior, um objecto e não uma pessoa. Preguiça intelectual paga-se com preguiça estética.

Por fim, o design do livro é uma boa experiência com "o que um livro pode" para além de ter uma arranjo gráfico super-legível - convenhamos que o texto também não é assim tão grande, o que facilita o design. Faltam mais imagens dos materiais björkianos (capas dos discos, frames dos vídeos, fotos promocionais) para ilustrar melhor o texto, senão temos de estar com o computador aberto para ir acompanhando o que o texto analisa.

Não sendo um seguidor desta artista, sabia que estava a adquirir, um livro giro para ter ideias para futuras edições que venha a fazer. Obrigado, nesse caso.

Para os fãs portugueses assanhados, o livro foi comprado durante o super-porreiro evento Zinefest Pt mas creio que podem pedir à Montra Graphics.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Maximum Rock'n'Roll

A MRR é um dos fanzines punk mais emblemáticos e resistentes (existe desde 1982!!) vindos dos EUA. No entanto por vir da terra dos porcos imperialistas não significa que registe a cena nacional apenas, muito antes pelo contrário o que não faltam são artigos desde o México à Dinamarca, de Espanha ao Brasil.
A parte dos discos será a que menos me interessa porque já recebo as minhas doses homeopáticas de Rock. Embora a MRR passe muito pela música (música que tenha bateria e voz senão não entra!) também tem muitas colunas de opinião em que se discute política, prostituição, queercore, vivências, livros, filmes e arte. E até BD! Sobre o caso Mike Diana, os ataques de extrema-direita ao Le Dernier Cri, sobre Nathan Ward, Ben Passmore ou a editora Silver Procket. Os números recentes que adquiri eram números especiais, um sobre fanzines (o que eles tem a dizer depois do mundo web 0.2) e sobre "arte punk" - o que é isso?
Zeus! Mexer neste zine faz-me pensar o que aconteceu à imprensa portuguesa que deixou de existir - se isto for indício de velhice, admito que sim, meu, não era mesmo fixe pegar três em três meses um novo número da Mondo Bizarre e mais ainda da Underworld / Entulho Informativo!? De resto, o que temos de imprensa musical? Nada, só blogues feios e redacções homofóbicas como as da revista Blitz, Diário de Notícias, Expresso, Público e I - digo isto porque todas receberam exemplares do livro do Queercore e ignoraram-no, o Público que sempre escreveu sobre os livros do Rui Eduardo Paes, desta vez fechou-se nas suas copas... Pelos vistos, tem de ser como "no antigamente" (antes dos anos 90), é preciso comprar publicações estrangeiros para matar o marasmo editorial!

A hamburgeria vegetariana / discoteca Black Mamba (do Porto) distribui este fanzine em Portugal. É ir lá comer um "punkburger" e comprar o último número da MRR... é uma boa desculpa para ir ao Porto-cada-vez-mais-parecido-com-Lisboa-que-nojo! [à parte, numa recente visita ao Porto vi um grafito pintado a azul que dizia "Lisboa" apenas...] 

Greñudos locos del Porto! Brujeria te va joder tu ojo del culito!


Ontem houve Brujeria em Lisboa e hoje há no Porto... Aconselha-se ir ver, é um bom show!!! Vi-os há 10 anos em Madrid e se por um lado estão mais "cartoonescos" por outro a presença do vocalista loco Pinche Peach torna tudo mais energético. Pocho Aztlan (Nuclear Blast; 2016), novo álbum 16 anos depois do último de originais, quase nem é tocado porque eles sabem que é azeite artificial... A banda tende para ser uma espécie de "Ramones do Grind narco-satânico", mais caricatura de si mesma do que exploradora da estética zapatista que os tipificou e mitificou quando apareceram - nesse mundo sem web 0.2.
Em Lisboa, como há malta fixe ao contrário do que se pensa, até apareceu pelo concerto o número 5 do fanzine de BD Olho do Cu que tem uma capa fabulosa... bom, é apenas um olho do cu realmente mas está impresso com umas cores impecáveis. Fuerza Sandro!

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Farrajota, narração gráfica off-the-road; uma conversa


Conversa entre Marcos Farrajota, André Pereira, Gonçalo Pena e quem aparecer sobre o todo-o-terreno das publicações gráficas alternativas. A inscrita para além da escrita.
No BAR IRREAL, às 21h30

sábado, 26 de novembro de 2016

Jon Savage & Stuart Baker: "Punk 45: The Singles Cover Art of Punk 1976-80" (Souljazz; 2013)

Livro de mesa de café (ou será de chá uma vez que é britânico?) que compila uma selecção de capas de singles e EPs de 7" do Punk entre 1976 e 1980. Quem o faz e escreve sabe do que fala e como tal uma série de peças raras são aqui reunidas para deleite de todos. A restrição a discos do formato 7" deve-se ao facto de haver uma numerologia cripo-esotérica ao Punk. 1977 foi o ano do Punk, não a sua criação mas o seu auge, e os discos de 7" eram o médium favorito para quem aprendeu "os três acordes e agora faz uma banda" (e grava um disco). O livro lavra o que é preciso saber sobre o punk e as suas origens.

O maior choque é só agora aperceber-me que o Punk sempre teve um fetichismo pelo coleccionismo, algo que pensava que só teria acontecido mais tarde após uma geração aburguesada... mas não, desde do inicio que se falam de edições limitadas, de vinis coloridos e outros exercícios mercantis manhosos que repudio. Não admira que se diga que o Punk salvou a indústria fonográfica da crise, essa mesmo que queriam destruir...

Visualmente mostra duas ou três coisas, uma é sem dúvida o visual das capas dos discos que é empobrecido pelos orçamentos DIY mas que em compensação acabam por ser mais ricas em força gráfica. Basta dois exemplos tão díspares como a capa dos Offs que trazem a violência para este mundo puro e virginal dos vinis ou uma dos The Special A.K.A. a mostrarem a sua audiência 8uma troca de papeis interessante), para se perceber as novas potencialidades de comunicação que as capas trouxeram. No entanto, pela fragilidade destes objectos tão simples é também imediato perceber-se quem queria ser "boys band" do rock mantendo capas de fotografias da banda e quem queria fazer manifesto e agitação com capas com outro tipo de mensagens - e daí os Sex Pistols (inconscientemente) e os Crass (conscientemente) terem sido os mestres do complicado triângulo música-grafismo-politica.

Por fim, é sempre de referir os quatro singles que davam instruções de como era fácil fazer um disco: a estreia dos The Desperate Bicycles (1977) a gravar os dois temas e acabar por dizerem "it was easy, it was cheap - go and do it!",  no segundo single tem um dos melhores títulos de sempre, The Medium was Tedium e cantam em Don't Back the Front: "cut it, press it, distribute it / Xerox music's here at last". A seguir temos o single Being boiled (1978) dos Human League a admitirem o custo de 2,50 libras para gravar o disco (o valor da k7 para onde gravaram?) e por fim o icónico (ou deveria ser) Work In Progress 2nd Peel Session (de 1978) dos Scritti Politti com um orçamento mais exacto de como editar um single... Com estes gestos começa todo um novo mundo, se calhar este livro é o "Génesis" da Bíblia Punk, não?

sábado, 19 de novembro de 2016

CIA info 86.5


Nova BD minha, para o número 6 do fanzine Preto no Branco, a sair este a 19 de Novembro no Terraço da ZDB, a partir das 22h,..

Apareçam também para um drink, uma dança, uma conversa, uma fatia de bolo (classic)! A música vai estar a cargo da dupla de Disk Jockeys mais disfuncionais da cidade: unDJ MMMNNNRRRG e DJ Watteau. Os artistas que aceitaram gentilmente participar neste fanzine são: Ana Braga, Andreia César, Bruno Silva, Catarina Domingues, Catarina Figueiredo Cardoso, Conxita Herrero, Francisco Domingues, Isabel Baraona, Márcio Matos, Marcos Farrajota, Maria Condado, Marta Castelo, Marta Moreria, Mattia Denisse, Sílvia Prudêncio, Sofia Gomes e Tiago Baptista.

domingo, 13 de novembro de 2016

Outros tempos...

Lolita Storm: Girls Fucking Shit Up (DHR; 2000)

Se há coisa fantástica nos Atari Teenage Riot é que passados estes anos todos, pode-se ver neles uma importância extra-musical tão importante como a dos Crass. Mais do que música e contestação política, significaram acção em várias frentes. Uma delas e talvez uma das mais importantes terá sido impulsionar mulheres a fazerem Digital Hardcore, género punk na cultura Rave, ou seja, não ter limites da abordagem sonora e sobretudo ter uma posição anarco e anti-sistema.

No meio de meia-dúzia de projectos editados pelos Atari nos seus tempos dourados (anos 90) encontra-se este/a/s Lolita Storm, três gajas e um gajo da ilha britânica, que soam a Ramones tocado em Drum'n'Bass. Faixas que nunca ultrapassam os 2 minutos são básicas, auto-repetitivas e previsiveis após ouvirmos três músicas. Parece também um coro de "cheerleaders" que snifaram buéda coca no balneário. Passado 16 anos chega a roçar o rídiculo mas acredito que era feito com graça e fé.

Resta saber o que foi feitas desta malta, aposto que uma vende aspiradores para limpar ácaros, outra é directora de recursos humanos da Starbucks e assim por adiante... vai uma aposta?

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

#28 : Espero chegar em breve



Novo número do Mesinha de Cabeceira outra vez com o Nunsky!!!

Já está no stand da BD Amadora, na nossa loja em linha e na BdMania e Tasca Mastai...

Nunsky (1972) é um criador nortenho que só participou no Mesinha de Cabeceira. Assinou o número treze com 88 considerada única no panorama português da altura (1997) mas também nos dias de hoje, pela temática psycho-goth e uma qualidade gráfica a lembrar os Love & Rockets ou Charles Burns. O autor desde então esteve desaparecido da BD, preferindo tornar-se vocalista da banda The ID's cujo o destino é desconhecido. Nunsky foi um cometa na BD portuguesa e como sabemos alguns cometas costumam regressar passado muito tempo...

Desde 2014 que este autor regressou à BD e com toda a força: primeiro com Erzsébet sobre a infame condessa húngara que assassinou centenas de jovens na demanda da eterna juventude, e em 2015 com Nadja - Ninfeta Virgem do Inferno, verdadeiro deboche gráfico entre o Hair Metal de L.A. dos 80 e a distopia do RanXerox.

Este ano apresenta este um belo trabalho sobre um homem que recupera consciência do seu sono criogénico a bordo de uma nave especial. A Inteligência Artificial não consegue reparar o problema e Kemmings vê-se obrigado a manter-se acordado mas fisicamente paralisado durante dez anos da travessia sideral. Como a maior parte da obra de Philip K. Dick (1928-82), este conto questiona o que é ser humano e o que é a realidade. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Zombie Porcalhota Blues

Deve ter sido o ano mais desorganizado de sempre do Festival de BD da Amadora. O que é cagativo porque geralmente só há exposições e programação de merda. Este ano, a excepção é - não, não vou escrever "desculpem a modéstia" - a do Anton Kannemeyer. A do "melhor desenhador de 2015", o nosso querido amigo Nunsky, enfim... é pequena! Esta frase acho que já mostra como o melhor desenho foi tratado - já o "melhor argumento" era bem maior de espaço. Talvez estão a tentar justificar o injustificável que é ao colocar a banda desenhada no modelo fordiano de produção ou tem medo de mostrar o terror gráfico que é Erzsebet. Mas achar isto é achar que "A Amadora" pensa! Não não há intelectualização por aquelas bandas como mostra a exposição do tempo-espaço ou da arquitectura, em que não se percebe nada porque vale tudo... Enfim, diria que se não fosse a exposição do Anton mais valia não ir lá - ainda estou para ver a exposição do Underground comix patente na Bedeteca da Amadora, tudo indica que está muito boa, só que eu só acredito vendo com os próprios olhos!

De repente, esteve neste fim-de-semana o Miguel Angel Martin, uma autor espanhol que já trabalhei no passado... Ninguém sabia que ele vinha. Por mero acaso conheci o inglês Savage Pencil que foi ao stand a Chili Com Carne, se ele não disse-se quem era nunca teria adivinhado - a sua acreditação tinha o seu nome real e não o pseudónimo por o qual é conhecido!

Sem NINGUÉM saber estiveram cá dois ícones do underground da intersecção da BD e música. Dois artistas já fizeram trabalhos gráficos para Dälek, Whitehouse, sunn0))), Big Black - iá, as melhores bandas do mundo, meu! Ao contrário do CD em repeat da Rádio Comercial. Uma coisa é ser "comercial", outra coisa é ser "puta"!!! E é esse tipo de música que passa o dia inteiro no Festival (e pelos vistos nas ondas radiofónicas do país)... Eu que não tenho TV nem escuto rádio (tirando a Antena 2 e RTP África) há 14 anos fiquei a saber de chofre que existem uma avalanche de merda portuguesa chamada Azeitonas, Dama e não sei o quê mais... Menos uma razão para visitar o festival, certo?

fotos de Joana Pires

Sim, não resisti armar-me em "fanboy" e pedir uma fotografia com o Savage Pencil, que andava para lá a arrastar-se a pensar "Que caralho faço aqui!?" Ao nosso lado está o Filipe Abranches...

desenhos a tapar os nulos por Marcos Farrajota

Mais ridículo da minha parte mas teve de ser para que o velhote não ficar ali a apanhar mais secas com os cromos da BD nas sessões de autógrafos, foi no Domingo em que lhe fui pedir para autografar o que tinha dele (não peço autógrafos há mais de 10 anos) e ironicamente, foi a BD de duas páginas da revista The Wire dedicadas à morte de Lou Reed e uma capa de um CD dos Jazkamer intitulado... Metal Music MachineGet it!?

Esta semana o Kannemeyer estará presente e teremos um novo livro do Nunsky... A não ser que haja mais surpresas, o resto é prá treta!

PS - Ok! Lembrei-me, na tal expo dobre BD e Espaço ou lá o que é, há dois originais que rendem: um da Krazy Kat e outro de Kim Deitch... E claro há a exposição do Marco Mendes mas que parece que já vi dezenas de vezes, erro profissional.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Frans De Waard : "This is supposed to be a record label" (Timeless; 2016)

 Se este não for o melhor título de sempre para um livro sobre uma editora (de música) então que me caia um raio na cabeça! Livro sobre a mítica Staalplaat, editora e loja de música experimental situada em Amsterdão e mais tarde em Berlim - onde ainda sobrevive mas já sob uma outra identidade, a Le Petit Mignon. Aliás, o que melhor mostra o livro é que a Staalplaat era uma espécie de empresa quase sem hierarquia, em qualquer um que estivesse por lá fazia o que lhe apetecia - é exagerado o que afirmo mas algumas das histórias reveladas e olhando para o catálogo da editora, sobretudo nas "sub-labels" percebe-se que reinava uma feliz anarquia. No entanto, o que seria de esperar quando se trata de Arte ou de Vanguarda (ou as duas neste caso)? Senão houver uma criatividade louca e uma vontade de fazer piças ao dinheiro e valores, como fazer algo diferente e que rompa com tudo? Apesar de ser mais rock, pode-se sentir paralelos em algumas partes sobre a editora Sub Pop no livro sobre os Nirvana que escrevi aqui. Muitas distâncias à parte, o rock vende, o "toing toing" é mais complicado de comercializar mas até se consegue com alguma cabeça. Talvez o espírito mitra de holandês - assim intercalado entre os estereótipos do Judeu e do Protestante - tenha mantido a casa desde os anos 80 até hoje. Como se sabe, noutros exemplos do passado, pouco a pouco todas as casas editoriais e lojas foram fechando. Aliás, hoje, com os centros gentrificados e turistificados, já se sabe que tudo que é "alternativo" tem fechado, seja em Londres seja em Lisboa.
A editora diz que o livro não é sobre os "anos 80 ou 90" mas é impossível não pensar que os testemunhos de De Waard sobre a sua estadia na Staalplaat não deixa de se cercar de uma época com balizas bem precisas: antes da 'net, antes do 11 Setembro, antes da imaterialidade da cultura, antes da web.02, antes dos Fachos no poder, antes da crise, antes do lowcost e do bnb... É uma divertida leitura para quem sabe ainda o que é uma discoteca - uma loja de discos, man! - que goste de música ou de "comércio cultural"... De resto, é de salutar todo a edição exemplar de uma editora exemplar, a Timeless.
Obrigado ao Camarada Thisco pelo empréstimo!

sábado, 24 de setembro de 2016

Brad Morrell : "Nirvana & O som de Seattle" (Relógio D'Água; 1999)

Faz hoje 25 anos que foi editado (e explodido) o Nevermind (DGC; 1991) dos Nirvana e foi há 17 anos que se publicou a versão portuguesa deste livro. Nem sabia que existia, foi daquelas compras a 5 paus na Feira do Livro de Lisboa, no stand daquela que será a maior editora portuguesa independente (no termo que não faz parte dos cabrões das Leyas e afins...).
É assim tão bizarro ter um livro sobre Rock em Portugal? Sim é muito raro editar-se sobre o tema ao ponto que os poucos livros que existem, pelos vistos, nem são bem divulgados - olhem para o Blitz que não divulga os livros do Rui Eduardo Paes como exemplo... Sim, os portugueses não gostam de ler, povinho ignorante, e ainda menos de ler sobre música. Mas lá está... temos esta pequena pérola, um livro sobre Rock escrito à americana ou à escrita Rock canalha sem papas na língua sem deixar de ser bem documentado e de bom gosto sobre o que foi a carreira desta banda tão importante - sim, ainda gosto deste trio improvável - incluindo as polémicas em volta das vidas privadas de Kurt Cobain e Courtney Love. O livro conta também porque existe o outro lado da mesma moeda sonora - os "parolo geme" - na mesma cidade que trouxe pela última vez Barulheira para as tabelas de venda.
Já agora, é de apontar que nos últimos anos houve edição portuguesa de mais "rockers" como Patty Smith (biografia e poesia) e Kim Gordon, A Miúda da Banda... Quem diria que isto é editado por cá? Ainda por cima, de "gaijas" rockers! Afinal há Esperança para este país! Para comemorar tantas razões de ânimo vamos lá pôr as colunas no máximo a bombar o Nevermind, sobretudo a faixa Endless, Nameless!

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AfroTechno

Os Buraka Som Sistema quando afirmaram no disco de estreia que o seu primeiro disco era "From Buraca to the world", eles tinham mais razão do que imaginaram há 10 anos atrás... Como projecto criativo morreu logo no segundo registo mas fizeram o impensável, abriram o Techno africano para o mundo. Agora fala-se em Gqom de África do Sul ou em "batida" dos subúrbios de Lisboa. Seja qual a designação que apareça trata-se de uma renovação da música Techno à escala global.

Em relação à "batida", ela é feita por jovens africanos em Portugal metidos em guetos à procura de uma identidade que foi perdida pela diáspora dos seus pais e negada pelas instituições portuguesas ao não se esforçarem em integrar uma massa enorme de gente. Felizmente para eles existe um "Príncipe encantado" que tem explorado (o termo parece neo-colonialista, bem sei) de forma ética (ah bom!) os DJs "foxes" que andam pelos bairros "fodidos" de Lisboa. E melhor tem conseguido projectá-los pelo mundo fora, como se bem sabe pelo sucesso internacional do Marfox. Nessa senda deu-se também uma edição de três mini-LPs pela grande editora britânica Warp numa série intitulada de Cargaa em 2015. Comprei o último que prometia, segundo uma crítica da revista The Wire, mas não fiquei muito surpreendido. Quer dizer, se o som tem algo de novo e fresco, serão os doidos da dance music que o poderão dizer, por mim, leigo na matéria passa-me ao lado e até acho a música bastante fria. Pode-se dizer o mesmo do drum'n'bass, EBM ou outras correntes dançantes mas talvez o meu principal embirranço seja justamente ao ouvir estes "ecos de África" não oiça vozes humanas. Essa falta de vocalizações dá a entender que a identidade destes descendentes africanos foi apagada, criando um desconforto pouco estimulante para quem não é DJ ou oiça música de dança de forma quotidiana. Percebo a euforia em volta desta música pelo seu ingénuo "afrofuturismo" cujas texturas são tão sintéticas como um cromado de um carro quitado "lá do bairro" e que isso seja um ponto positivo para muitos.

Muito mais entusiasmante achei a colectânea Balani Show Super Hits: Electronic Street Parties From Mali (Sahel Sounds; 2014) porque os gajos que fazem de MC estão presentes. Ouvem-se vozes! Até podem estar a dizer as maiores barbaridades, nunca saberei porque apesar da língua oficial ser o francês, é óbvio que quem grava música popular caga bem de alto na língua do opressor. Festa assumida porque o "Balani Show" é uma festa de rua, eis um LP para mexer o rabo (mesmo o dos caucasianos chatos) em que o kuduro aparece como caminho principal, tendo como paralelas instrumentos locais e o Hip Hop.

Mais agressivo, rápido e estimulante são os Supreme Talent Show também do Mali - a Sahel lançou uma k7 homónima em 2015. Inserem-se numa corrente musical chamada de "Ambience" que incorpora o Balani mas com mais Rap, o uso de sintetizadores e suponho eu letras socialmente interventivas. Ao que parece o género Ambience (atenção que de Ambiental não tem nada!) trata-se de um som underground no Mali por isso apreciem quando os descobrirem... Bring tha noize!


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Intermezzo


Music from Saharan Cellphones (Sahel Sounds; 2011) é um LP (originalmente editado em k7) que compila a múica mais popular que se ouvia em 2010 no deserto do Saara através da transferência de ficheiros via Bluetooh dos telemóveis... Já quando o autor Bruno Borges foi à Mauritânia (creio...) tinha-me contado que não encontrou nem k7s nem CD-Rs das músicas regionais, como se esperava para quem pensar por exemplo na Awesome Tapes of Africa. Invés disso, era preciso ter uma pen USB para os locais colocassem músicas nela. Uma sofisticação tecnológica inesperada sem dúvida. Voltando à compilação, uns gringos de Portland, andaram pelo Saara, gamaram essas músicas e fizeram a tal k7. Mais tarde depois de localizar os compositores saiu o LP, supostamente pagando os royalties aos seus autores. Alguns deles aliás que se transformaram em stars do circuito "world music" como Mdou Moctar ou repetentes para outras colectâneas da Sahel como Kaba Blon. Além do "Blues tuaregue" que já há muitos anos tem sido difundido pelos Tinariwen à escala global, encontra-se Hip Hop e Techno do Mali - a lembrar o kuduro - mostrando de quem anda de camelo no meio do deserto sabe curtir mais a vida do que os coninhas ocidentais que ouvem Arcade Fire e outras bandinhas indie da tanga.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Kebab de fusão

Os Trans-global Underground são uma instituição de como a música podia trazer a paz mundial se isso implicasse apenas fazer uma amalgama de sons de um bocado de todo o planeta. A prova é que o pouco que os TGU apanham em Londres, nas lojas de indianos ou de exilados do médio-oriente ou de África, ao qual juntam os "big beats" da música ocidental mostra que resulta e podiamos ser uma verdadeira Aldeia Global, feliz e em festa. Yes Boss Food Corner (Ark 21; 2001) é o sexto disco que mantendo o pézinho de dança de sempre não avança muito mais naquilo que eles projectaram quando começaram a sua carreira fonográfica em 1993. Falta a presença da fantástica cantora Natacha Atlas para que o disco tenha uma aura emblemática.
Desconfio que nesta altura do campeonato (seja em 2001 seja em 2016) algures na Índia ou no Egipto alguém já fez melhor do que isto. Mas como disse logo início, os TGU são tão importantes como a ONU, para o melhor e para o pior, com ou sem apoio da Coca-Cola.

E se o TGU são uma instituição, Nusrat Fateh Ali Khan (1948-97) é uma Lenda. A sua voz e música lembram banhos no mar atlântico, aquele ir e vir de ondas potentes que vão contra o corpo de um gajo, naquela luta inútil e imersa na Natureza, em que só quem se banha perde energia, o mar ganha sempre. Resta depois descansar satisfeito na toalha no meio da areia com a sensação que se foi espancado mas que soube bem! É o que sinto sempre que oiço Body and Soul (Real World; 2001) e deve ser a única vez que fico feliz com a capacidade do CD ultrapassarem o tempo do disco vinil LP. Se isto foi uma das razões porque a música tornou-se balofa nos anos 90 e seguintes com o pessoal a encher chouriços nos discos só porque podiam ir aos 80 minutos, aqui o excesso sabe bem, preenche a Alma com o sufismo e a anca com Qawwali. E por escrever sobre excessos, foi a obesidade mórbida desta voz paquistanesa que lhe causou a morte demasiado cedo. Mesmo morto ele continua a bater-nos...

Crisis (Pi; 2015) de Amir ElSaffar / Two Rivers Ensemble é um grande disco para quem não gosta de Jazz ou de música "árabe" - ou "maqams" iraquianos em especial. Os dois géneros fundem-se em perfeição total, sob as composições e improvisações deste trompetista norte-americano (de pai iraquiano e mãe americana) num formação de sexteto. Disco e temas dedicados à Primavera Árabe, tem tanto de dramático como de exaltação física, de fuga emocional como de conservador ao mesmo tempo. Quem não gosta de Jazz nem reparará que ele está lá. Quem não gosta de "world music" achará que está aqui algo diferente e que se encontra até em algumas ideias dos Secret Chiefs 3 mas muito sinceramente, quem é que não gosta de música árabe?