terça-feira, 27 de maio de 2008

Os nossos políticos nunca foram pretos com SIDA

As tiras de In DJ GoldenShower record collection vão fazer uma pausa. entretanto, estes decidi fazer uma página de bd para o jornal Mundo Universitário, sobre Jorge Ferraz: África mecânica de metal (Zounds; 2008) e Mão Morta: Maldoror (Cobra; 2008). O título acima era do "post" que iria fazer sobre os discos antes de surgir a oportunidade de o fazer em bd - acabou por não ser usado, infelizmente.



[o original + versão publicada]



Entretanto cometi o erro de comprar o disco Muad'Dib Off Distortion: A revolução não será uma explosão (Música Alternativa; 1998), um dos projectos de Jorge Ferraz, com Mário Gil (More República Masónica) e Jorge Gil, entre 1997 e 1999. Esperava de algo interessante e tudo o que apanhei é uma Pop avariada com um nostálgico gosto de MMP (aposto que já ninguém se lembra o que significa isto: Música Moderna Portuguesa, ou seja a música urbana portuguesa que começou a ser feita nos anos 80), e seria injusto dizer que falta qualidade nas letras (muito antes pelo contrário, um lirismo urbano-depressivo sobre a fragmentação da vida, do amor e de tudo mais) ou na parte instrumental (paisagens sónicas construídas com inteligência, programações omnipresentes vindas de filmes de FC). O (duplamente) constrangedor é a voz de Ferraz, constragedor para ele (duvido que gostasse do que estivesse a fazer) e para quem o ouve. O que é uma pena porque poderia ser um excelente álbum Pop caso tivesse um outro vocalista ou se o trabalho de voz tivesse sido feito de outra forma. A evitar, portanto...

5 comentários:

Jorge disse...

Meu caro mmmnnnrrrg, uma coisa apetece-me agradecer-lhe: independentemente das considerações comparativas que faz na sua BD parece-me que olha para o meu trabalho (no que diz sobre este meu último disco e sobre Muad’Dib), para além dos pré-conceitos, pré-juízos e estereótipos (tanto negativos como positivos) que costumam saltar "ortodoxamente" logo à frente quando se trata de falar de um disco meu. Aliás, se há coisa que, mesmo sem o querer, ainda acaba por ser mais inócua, alienante, dogmática e repressiva, do que a ortodoxia estética, moral e política do mainstream é a ortodoxia bem "normalizada" e "naturalizada" dos alternativos - e por isso eu tenho pagado bem caro muitas das minhas opções.

A ortodoxia alternativa por se julgar imune ao dogma e convencida da sua superioridade moral e intelectual, naturaliza classificações de gosto e valor, recusa o que nelas não encaixa, procura explicações sempre a partir do seu ponto de vista indiscutível, e fica assim tão sujeita à alienação e ao obscurantismo de que acusa o mainstream. Se eu, à ortodoxia mainstream não pertenço naturalmente, da outra silenciosa e terroristamente sempre assumi um exílio estético e político mas, também moral, emocional e sentimental, apesar de com ela partilhar muitos gostos e opções.

Quanto à voz: há gente que eu conheço que igualmente não gosta da minha voz e diz que não ajuda as músicas; outros há que até nem desgostam. Ninguém diz, é verdade, que é uma boa voz. Tem razão, não gosto nada de cantar. Mas, daí a pedir que se evite o disco dos Muad'Dib off Distortion – que diabo, só se for para me proteger, num gesto de simpatia sua.

Ou então, faça-se o seguinte: se me arranjarem equipamento de alta gama especializado em tratamento espectral das frequências e descodificadores MS associados, pode ser que se consiga retirar grande parte da minha voz da gravação estéreo e gravar outra voz por cima.

Saudações. Ah, gosto do blog, e, embora osama seja um sujeito que eu nunca convidaria para minha casa nem caucionaria, acho que os seus “amantes secretos amantes” serão certamente personagens fascinantes com segredos mágicos.

mmmnnnrrrg disse...

se pudesse tirava mesmo a voz do CD mas sei lá... não quero parecer um dogmático fascista do alternativo, repressor ortodoxo contra a liberdade criativa, blá blá blá - a mim, infelizmente, a curiosidade custou-me 5€ na Carbono (CD em segunda mão), podia ter sido pior...
é engraçado como os músicos portugueses deixam sempre comentários sobre os seus discos (a gaja dos Cinemuerte, o Kubik, o Benejamin dos Mechanosphere), e sempre a queixarem-se das críticas: o quanto os críticos são são radicais e que metem a música em caixinhas, etc... o W.S. Burroughs não pensou que o "vírus da linguagem" daria para isto, ou pensou?

Jorge disse...

Houve aqui alguém que não percebeu nada ou enfiou um barrete errado. Ou eu, ou você. Não seu quem foi, não sei mesmo. E, já agora, só falta essa da música "falar por si". Nenhuma linguagem é completa porque se assim fosse ninguém podia opiniar - inclusivé os não músicos. É claro que os críticos e opinidares metem tudo em caixas (as taxinomias são o princípio da ordenação, da classificação e da avaliação). Tal como os músicos - também tenho algumas. Do que se trata é saber de que caixa estamos a falar e então aí dizer se os objectos aí estão bem arrumados ou não e se se gosta ou não, etc. E já agora, quando me queixei foi de ideias pré-definidas (e frisei que nelas havia umas negativas e e outras até bem positivas). Um segredo de polichinelo que certamente conhece: o Burroughs era um grande escritor mas tresleu os pressupostos do que é e significa a linguagem mas, essa frase fica sempre bem e também eu gosto dela. Saudações.

Traficador disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Traficador disse...

posso dizer que considero as musicas deste cd muito boas a vários nivéis e mesmo o desleixo da voz e tom cru e forçado dão uma ar surreal, sincero e honesto bastante interessante, adorei do principio ao fim parabéns aos artistas...