segunda-feira, 23 de novembro de 2020

vinte vinte vinte



- Krypto : eye18 (Chili Com Carne + Lovers & Lollypops)
- Yuichi Yokoyama : Jardin (Matière, 2009)
- Karel Čapek : A guerra das salamandras (Caminho; 1985 - orig. 1936)
- Juno Mac + Molly Smith : Revolting Prostitutes : The Fight For Sex Workers' Rights (Verso, 2018)
- Beatriz Colomina + Mark Wigley : Are we humans? Notes on an archaeology of Design (Lars Müller; 2018)

- David Graeber : Projeto Democracia (Presença; 2013)
- Diana Niepce : Dueto (Dançar é a minha Revolução #2, Mercado do Tijolo; 23/02)
- Gabrielle Bell : Inappropriate (Uncivilized)
- Ernest Mandel : Cadáveres Esquisitos : uma história social do romance policial (Cotovia; 1993)
- Mario Monicelli : Un borghese piccolo piccolo / O pequeno burguês (1977)

- Thomas Bernhard : Derrubar Árvores : Uma Irritação (Assírio & Alvim; 2007 - orig.: 1984)
- Graham Rawle : Woman's World : a novel (Atlantic; 2005)
- Peter Sloterdijk : Tens de Mudar de Vida (Relógio D'Água; 2018 - orig.: 2009)
- Daisy May Cooper e Charlie Cooper : This Country / Este País (BBC 2017-2018)
- Fire-Toolz : Drip Mental (Hausu Montain; 2017)

- Alan Horrox + Gavin Richards : The accidental death of an Anarchist (Thames TV; 1983)
- Ebisu Yoshikazu : The Pits of Hell (Breakdown; 2019)
- Shintaro Kago : The Princess of the Never-Ending Castle (Hollow; 2019)
- Linda Medley : Castle Waiting, vol.1 (Fantagraphics; 2006)
- David Hockney & Martin Gayford : A History of Pictures (Thames & Hudson; 2016)

domingo, 1 de novembro de 2020

Os bonecos não estão incluídos






 

A ideia era mostrar o livro Bottoms Up do Rodolfo Mariano - publicado pela Chili Com Carne - a vomitar Pop bonecada, como uma ruptura inter-dimensional que a BD de Mariano invadisse a realidade... e depois ia meter aquela legenda digna de gringo "bonecos não incluídos na aquisição do livro". Infelizmente sou um fotógrafo medíocre e as fotos são uma valente merda. Enfim...

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Funeral Pop

 


Os Pop Dell Arte era uma banda que aprecio deste jovem. Passei meses quanto tinha 20 e tal anos, na primeira metade dos anos 90, a ir todos os meses à Barraca, Lisboa (um esforço suburbano de vir de Cascais prá "grande cidade") para tentar vê-los, sempre cancelados e sem explicações. Depois até surgiu o Sex Symbol (Polygram; 1995), que era fixe, vi-os no Paredes de Coura no último ano antes de se começar a pagar por festivais de Verão, e fiquei satisfeito, percebi que com o Sex Symbol a banda nunca mais seria tão extravagante como antes, com mais letras em inglês e com menos loucura sónica. Oiço o tenebroso So Godnight (Candy Factory; 2002) e cago neles, que safoda que o Contra Mundum (Presente; 2010) tenha saído - agora arrependo-me porque o ouvi no youtube o disco inteiro e até é bom. Dez anos depois aparece este Transgresio Global tão merdoso como o EP de 2002. Não dá para não usar palavrões, esta banda sempre foi feita por quem lá passou, pela sua soma e não apenas pela figura de João Peste. Basta lembrar os contributos de Rafael Toral e Sei Miguel para sabermos o que foram os hinos memoráveis da banda.

Há três anos, vi-os no Milhões de Festa e antecipava-se a seca deste álbum. Quatro pessoas vestidas de preto, num formato Rock convencional a debitarem músicas sem rasgo. Se no começo deste disco, Em Creta, a promessa de algo tão brilhante como a capa do disco nos irá ser oferecido, graças, a um House-Funk mutante, tudo descamba logo a seguir, nem quando se rapina uma letra dos Sparks. Quase nunca mais aparecem híbridos estranhos que sempre foram apanágio da banda e que lhes elevavam ao Panteão do Art Pop. O disco prolonga-se em 78 dolorosos minutos, um erro digno de 2000-e-troca -o-passo quando as bandas enchiam chouriços nos 80MB dos CDs, ainda por cima, percebendo que poderiam ter havido dois discos diferentes porque houve duas sessões de gravação, não há razão para o pesado anacronismo. Por falar nisso, se as vocalizações dramáticas e erráticas de Peste nos anos 80 ou 90 eram provocantes, nesta altura do campeonato metem constrangimento apenas, tal como as suas referências literárias e musicais nas letras como se não houvesse mais nada depois de Kahlo, Satre ou Foucault, ou - bocejo - Rotten, Marley, Bolan ou até Mick Harvey, o gajo mais novo da pandilha de heróis de Peste, credo! Estamos na web.2, meu, os putos sabem mais do que os macacos anteriores, não precisam de cartilhas. Claro, que nunca é mau relembrar, para os mais novos e amnésicos, que Portugal teve um facho como Pedro Passos Coelho ainda há poucos anos a governar-nos (que dizer do "Bosta" e a sua aplicação afasta-covid-big-brother-nazi-state) mas ouvir o tema Anonimous, composto originalmente entre 2013 e 2015 - inédito portanto - em 2020 é como sonhar que um dia o Coelho será chicoteado na praça pública depois da Revolução. Onde está a urgência Punk? Na latrina da sala de ensaios, pelos visto. Revolução essa que os Pop Dell Arte não contribuíram em nada neste disco nem que seja pelo simples facto de o editaram pela multinacional Sony com guita da máfia da SPA.

Com décadas de rumor que Peste ia morrer prá semana, pela sua conhecida toxicodependência, levando sempre a criar alguma ansiedade entre os seus fãs,... bom..., olha, já fui! Por mim, morreu aqui. Aliás, mea culpa, se escrevi o que escrevi com a morte do "Barbosa", sei que foi uma boa tentativa vir ainda aqui parar. Só que falhou...

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Feito!

Quando os KMFDM lançaram WWIII acho que escrevi algo na Underworld - Entulho Informativo que estes industrialitas eram como os Ramones (ou Mötorhead), ou seja nunca mudam de disco para disco mas sem que isso seja propriamente mau ou uma desilusão. Assim vamos lá ver se tá cá tudo neste seu 15º álbum: batidas EBM, coros singa-a-long prá Revolução, voz dramática masculina, voz feminina tipo Ídolos, guitarradas Hard Rock, sintetizadores em fúria, música com auto-referência, Dub escondido, capa do Brute!, uma malha em alemão, sensação de ser uma b.s.o. para videojogo e é isso, temos o Tohuvabohu (Metropolis; 2007). Ok, há também uma malha em latim, não entra o Pig neste disco e há uma boa versão de Los Niños del Parque dos Liaisons Dangereuses.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Puxa carroça

 Bhangra Beatz... A Naxos World collection (Naxos World; 2002) é um belo de disco para qualquer festa que se preze, com máscara ou turbante ou como viemos ao mundo. Som indiano que ganhou, nos anos 80 e 90, novo fôlego com a geração de emigrantes em Inglaterra a adaptarem técnicas de Hip Hop e Techno aos sons tradicionais, voltando prá India com essas novas roupagens e influenciando a indústria musical - ligada ao cinema. Eis uma colectânea que mexe com o corpo mas talvez um bocado com o cérebro - ao que parece "Bhangra" quer dizer cânhamo, cóf cóf cóf - como acontece com a faixa Soundz of the Des de Balbir Bittu verdadeira força musical que não deixa ninguém indiferente. Só por esta malha vale por tudo o resto. Mêne, onde se pode por som mas sem apanhar covid em 2020? Queria meter isto à prova!

Já agora, de referir que este CD foi adquirido no Bazar Esquisito, o último verdadeiro sítio do "Porto-Morto."

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Para esquecer...



Admito não ter muitos critérios de gosto (melhor ainda, "de bom-gosto""!) em relação a música africana ou de origem africana, a música popular e Pop em bruto é sempre bem-vinda, no entanto não consegui engolir estes CDs não sei bem porquê. No caso dos Gaita'L Funana e o seu Funaná É Sabi (AfriKana; 1999) é sobretudo a voz feminina que parece-me forçada e que se sobrepõe ao resto, não chega a ser histérico mas acaba por ser irritante. Já Guents dy Rincon (2010) também é a voz o elemento dissuasor, desta vez é masculina e muito carregada, algo se perde com os excessos de esforços. 

Os discos podem ser mauzinhos mas como foram comprados aos sem-abrigo do Largo de S. Domingos sempre serviram para qualquer coisa.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Pat Gilbert: "Passion is fashion : The Real Story of The Clash" (Aurum; 2009)

 Tudo que possa escrever aqui será um chavão. O maior de todos é dizer que a imprensa britânica é uma máquina de triturar Pop/Rock. Seja um radialista ou banda tudo que mexa no pântano musical naquela ilha de porcos tem direito a bibliografia. Esta "estória verdadeira" é só mais um livro sobre os Príncipes do Punk. Em teoria escava melhor as biografias dos seus membros e os que rodeavam. Mostra que tal como os Sex Pistols foram montados por um empresário para serem mais do que uma banda de Rock - sendo a questão de controlo ou fora de controlo a verdadeira parte sumarenta destas narrativas.
 
Em vários jogos de conflitos internos, algo nos Clash transcende a performance Sex Pistols, para se transformarem em músicos curiosos com o mundo fora do cânone Rock - não quer dizer que o Rotten / Lydon não se tenha transformado também num músico importante se pensarmos nos P.I.L. Os Clash tornaram-se em diplomatas dos sons negros de Londres, Jamaica e Nova Iorque para todo um mundinho de Pop branquinho, limpinho, decadente e sem graça. E se para quase toda gente são os temas a abrir como Should I Stay or Should I go? ou White Riot ou London Calling que são o suprassumo da banda, para mim o "dubificado" Guns of Brixton continua a ser a melhor faixa deles, foi essa que me abriu olhos para sons mais... dimensionais. Suponho que para mim como para muita mais gente pelo mundo ocidental fora.

Como livro desmonta ideias preconcebidas que os Punks profissionais de serviço possam ter desta banda, afinal eles nunca tiveram uma ideologia, e muito menos homogénea, do que estavam a criar. Tal como os Sex e outros contemporâneos o que havia era apenas caos e vontade de romper com os limites da altura. Parece-me que, como tudo naquela ilha, as grandes questões são sempre as de classe social em que eles se inseriam. Os Clash eram uns gajos de classes médias, ou apenas desenrascadas, que por serem boémios acederam a várias formas de estar na vida e assistiram a injustiças como o racismo a acontecer bem à sua frente. Fizeram o que músicos pode fazer, e não se pode pedir muito mais: escreveram sobre isso, expondo na cara da sociedade o que se tenta(va) não ver ou fazendo "benefits" para veteranos de guerra ou mineiros em greve. Pouco mais haverá para romantizar até porque parece-me que eles só não fizeram o seu "lucro sujo" de reunião porque Joe Strummer faleceu, prematuramente aos 50 anos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Disco de Verão (ainda vai a tempo até dia 21)

 


Não sei o que tanta gente tem contra o Ska, desde de pseudo-críticos felinos até às altas instâncias intelectuais. Uma conspiração contra a vida? Siiiiiiiiiiim, se congeminarem esta teoria a fumar ganzas... A verdade é que as drogas explicam tudo e as novas gerações foram dopadas legalmente com tudo o que havia à mão. Por isso, ouvir música feliz? Errado! Ouvir música cheia de energia? Errado! Viva o Trap e a sua Codeína e Anti-Depressivos num país que sempre preferiu à merda da melancolia do que à "Fiesta" - excepto nos anos 90 porque havia bueda guita. 

Isto para dizer que Chubby Dubby (Jahnotion; 2001) é um belo de um disco de Verão, mesmo terem passados dezanove por ele. A banda era os Three and a Quarter, "power-trio" de estranjas ricos estacionados na linha de Cascais e segunda divisão do campeonato Primitive Reason - tanto é verdade que não só editam na editora deles como até o artwork consegue ser tão merdoso como são os dos Primitive. Por raios prestei atenção a isto agora? Nos anos 90 quando apareceram nunca liguei a estes putos... A cena é que tinha uma k7 com o tema Noise In que é das melhores faixas de Rock em "Portugal" e lembrei-me de checar o resto do disco depois de ouvir a k7 há algumas semanas. 

E é disco bem fixolas de se ouvir, tem temas fraquinhos de "so in love with you girl" e quejandos mas não chega a irritar. Ora tem temas Rock apanhacalhado como Ska festivo como Reggae com voz de branquela - Sublime poderá ser a referência aqui - , isto numa metade do disco, a outra metade é um gigantesco tema Dub de 26 minutos instrumentais, longe de ser genial sabem bem depois da ressaca da grande festa. Em 2020 não há festas bem sei, ou pelo menos com mais de 10 pessoas, eis um CD que iria resultar nessa festinha

PS - Curiosamente o tema Noise In refere-se ao Prozac. Visionário...

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Quem não tem cão, caça como gato


«Ó Farrajota, qual é a tua banda favorita?»... Fácil, fácil de responder: Butthole Surfers! Ficaria bem sem ouvir mais nada do espectro Rock com a discografia completa desta cambada de lunáticos. E claro, nunca terei a satisfação de os ver ao vivo porque toda a música em Portugal é controlada por companhias de telemóveis. E sim, quem me dera ter estado AQUI apanhar com balas da caçadeira do Gibby! Há dez anos que acabaram, tal como aconteceu com o Rock e o Pop (para o fim eles estavam mais electrónicos e Hiphop). Sim, cago de alto para tudo antes e depois deles, incluindo Beatles e Nirvana.

Resta descobrir aos poucos os projectos paralelos dos seus elementos. E mesmo que se não soubesse que The History of Dogs (Rough Trade; 1991) fosse do guitarrista Paul Leary como não resistir a uma capa com uma cachorrinha loura? Leary toca tudo, canta tudo, etc... apoia-se no passado da banda como projecta caminhos que iriam trilhar mais tarde. De Punk Rock ao Cabaret, à Pop nocturna à à balada soalheira. Não é tão extravagante como possa parecer porque a comparação com os Butthole, meterá sempre alguns pontos mais abaixo. E eu que nem curto cães... lá me vou levando com o disco que tem apenas 33 minutos.

Em 1995 houve os P - sim só isso: "P" - com um álbum homónimo, pela Capitol. A banda é o encontro improvável de Gibby Haynes (vocalista dos Butt), Bill Carter (um gajo do Country), Johnny Depp e Sal Jenco - ambos actores e "teen idols" na série televisiva 21 Jump Street. Um álbum ecléctico que vai do Cow Punk ao Dub mas não deixa de ser "normie" comparando com os Butt, é mais limpo e bem tocado, pode-se assim dizer. Apesar de ser uma espécie de sucedâneo, não deixa de ter momentos bem altos como as versões de Daniel Johnson e ABBA (I save cigarette butts e Dancing Queen, respectivamente), o "hit" Michael Stipe (será baseado no passatempo dos Butthole perseguiam os elementos dos R.E.M. nos anos 80?), Jon Glenn (Megamix) que são 9 minutos do melhor Dub alguma vez feito, e o último tema que parece um auto-epitáfio, The Deal. O grafismo do disco é do Gibby e é apenas lindo!

Belos CDs adquiridos na Glam-O-Rama. Quero mais!!!


Como descobrir discos nas lojas em Portugal, um gajo vai ao Discogs também para arranjar o CD de Gibby Haynes and His Problems (Surfdog / Latino Bugger Veil; 2004) que parece ser um álbum de Butthole sem o nome deles, logo a começar pelo "artwork" de caras distorcidas no photoshop ou o raio que o parta. E claro, a voz de Haynes está cá no seu esplendor mais o psicadelismo country e também as electrónicas & batidas Hip Hop da última fase da banda que termina em 2001. Mais acessível - mais Pop como as bolhas da capa - ainda não é um álbum para desiludir ninguém, ou pelo, menos para matar saudades.

sábado, 5 de setembro de 2020

Dança narrativa



Falar em narração em Techno fará muita gente rir. Os Metaleiros ou os Progues habituados a histórias da treta de naves espaciais, piratas furries e afins nos seus álbuns conceptuais dirão que não é possível. Talvez até dirão que a música de dança não tem mensagem. A questão da mensagem daria para outro "post", por isso em relação à primeira questão: se toda actividade artística ou intelectual começa com um lápis numa folha de papel, como não julgar que tudo é "BD"? Tudo é texto e imagem - esquece BD, infografia será mais correcto, não? Antes de ser um edifício (arquitectura), um livro (prosa ou BD), uma cadeira (design), uma prótese dentária (medicina), uma escultura ou um quadro (Arte) e... uma música, tudo passa pelo desenho, e do desenho à narração - progressão de imagens ou conceitos - o passo é mínimo, basta pensar nas partituras de composições ou os monitores de programas de música que parecem electrocardiogramas de alienígenas. Desenhando um objecto ou um conceito, imediatamente temos narração.

Johnny Violence ou Ultraviolence deve ser dos poucos "stars" da cena Gabber / Techno a nível internacional, aposto que deve haver dezenas de "stars" holandeses enormes (na Holanda e por lá ficam e ainda bem). Curiosamente foi contratado pela a que era uma das editoras mais perigosas de Metal, a Earache - casa de Napalm Death e Godflesh. Martelinhos fodidos no catálogo de referência do Grindcore? Tempos estranhos nos anos 90 que pelo menos a editora pensou que ia haver uma união entre a drum-machine e a guitarra suja - nada de impressionante se pensarmos nos universos contestários anti-sistema das Raves e dos Metalpunks, e a velocidade e volume sonoro também de ambos. Enfim, escolheu-se a timeline errada para nós habitantes da Terra-616 e cada um dos gêneros correu o seu caminho descendente. Mas voltando ao bicho inglês, em Psycho Drama (Earache, 1995) ele cria uma ópera-gabber! Um "Romeu e Julieta" desta era do abuso sexual e drogas sintéticas, um Natural Born Killers de pacotilha, acompanhado por um libreto (o booklet do CD), que permite acompanhar a história desenvolvida neste álbum... conceptual. Sobretudo é um disco instrumental como qualquer disco de dança em que aparecem alguns excertos - "falas" ou "versos" numa veia vocal devedora ao House - que vão criando uma narrativa desde as nascença dos dois personagens principais, uma Pop Star agarrada e um Assassino profissional com coração de Adamantium, até ao seu encontro e "final feliz". Mais não conto, nada de spoilers ó caralho!

Um ano depois, Shocker (Earache), é um álbum normal, isto é, uma colecção de músicas como são todos os álbuns. No meio da violência da martelada Hardcore, mais uma vez o livrinho do CD revela narração, neste caso de faixa a faixa. Cada uma além de revelar os BPMs envolvidos tem uma nota explicativa do assunto, por exemplo a faixa The Hardest Gabba o assunto é sobre "Nada. Isto não é Techno inteligente. Que se foda o Techno Inteligente". Sei que é o pior exemplo para dar mas não resisti, vá, há faixas sobre suicidas, guerras, Wagner e fazer anos. Por fim, duas curiosidades, a primeira faixa, 2 kicks for yes, Violent é entrevistada por uma sensual fã de Gabber e responde com dois "kicks" para sim e um para "não", afinal os martelos também podem comunicar; e, Burn out entre um record mundial de 20 000 000 BPMs cria o Extratone sem o saber...

Este texto foi patrocinado pela iminência da chegada a Portugal do próximo livro do DJ Balli sobre o Gabber & Futurismo. Estejam atentos, gabbas!



segunda-feira, 4 de maio de 2020

Donna Gaines : "Teenage Wasteland : suburbia's dead end kids" (University of Chicago Press; 1998)

Eis um livro que pode ser um companheiro da "segunda parte" de The Decline of Western Civilization, sendo que Gaines tem uma missão maior que é analisar o pacto de suicídio de quatro jovens em Bergenfield (EUA, 1987). Escrita de forma jornalística, Gaines envolve-se na comunidade de jovens marginais dessa cidade e os seus "filmes" com álcool, droga, violência familiar e exclusão social. O livro revela muito bem como o sistema de educação norte-americano é segregador e eugénico, e onde até na tentativa de mudar as regras do jogo, a sociedade gringa não consegue de pensar sempre no "big buck", fazendo de todo o arsenal social uma forma de fazer guita.
Os jovens "burnouts" daquela cidade estão a curtir Metallica, Bon Jovi e Iron Maiden, enormes na altura, e também M.O.D. originais de lá. Metal e o seu "satanteenismo" são as grandes preocupações de pais que não percebem patavina dos códigos juvenis ou da sua condição miserável na sociedade dominada totalmente pelos "adultos" - ver o caso de Mike Diana. Cru na escrita, Gaines que consegui a confiança dos jovens d Bergenfield graças a gosto comum pelos Motörhead (sempre foi a banda mais unificadora de tribos urbanas!) vai a todas, faz um excelente ensaio sobre a popularidade do Hard Rock / Heavy Metal focando na mitologia do quarto LP dos Led Zeppelin, sobre a música como religião numa sociedade hiper-maniqueísta, sobre a necessidade dos jovens terem espaços auto-geridos (há referências à cultura Hardcore), sobre como as "reganomics"  destruíram o tecido social norte-americano ou ainda porque nos anos 80 não se pode falar de subculturas mas subcultos dado o enorme puzzle socio-económico (e racial) que são os EUA e da forma como as culturas se modelam nesses complicados contextos - percebe-se porque os anos 80 foram uma "idade de ouro" para tantos sub-estilos de música: Punk, Hardcore, Thrash, Speed, Death, Crossover,...
A edição original é de 1991 mas esta (re)edição inclui um posfácio que fala dos anos 90 como a vingança dessa juventude espezinhada dos anos 80. Realmente os 90 foram os anos do "alternativo" e da ascensão da cultura DIY vindas da década anterior - zines, bandas como Sonic Youth ou Butthole Surfers, causas políticas - mas Gaines aponta que nada mudou no estatuto dos jovens, se é que não piorou, estatisticamente mostra que aumentou o homicídio juvenil, o suicídio juvenil, a gravidez juvenil, etc... e simbolicamente houve as mortes do branco Kurt Cobain (1967-94) e do negro Tupac Shakur (1971-96), o primeiro suicidou-se (este livro é húmus para explicar Cobain) por apatia caucasiana, o segundo foi assassinado por gangues.

sábado, 25 de abril de 2020

Artigo 65.º (Habitação e urbanismo)











Caminhadas higiénicas por Lisboa são necessárias até porque as casas portuguesas são precárias. Nelas encontrei esta campanha de uma empresa imobiliária que obviamente está aproveitar que Lisboa é mesmo uma Capital Verde Europeia, sem aviões, carros e cruzeiros a poluir a cidade, e que já está a dar o próximo passo, ou seja, cumprir que Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Zappa & Bungle Toolz, Inc.



O Retromania diz o que diz mas não quer dizer que as coisas não andam para a frente, e senão andarem para frente andam para os lados, até pode ser que rebole. O projecto Fire-Tooz é desse casos que pega em tudo o que é música para fazer um fusão alucinada e sem respeito pelos cânones, como Frank Zappa e Mr. Bungle faziam. E vocês dizem, porra, então vou ouvir esses gajos, não preciso de sequelas. Calma, nos anos 70 ou 90 ainda não se fazia Vaporwave nem Metalcore, então?
Fire-Toolz, realmente é mutante, e os discos parecem não ter limites de estilo, tendo nuns álbuns mais recentes chegado a soar ao Prog chato. Este primeiro disco, Drip Mental (Hausu Mountain; 2017), parece ser o mais acessível, talvez pela presença de música de dança - há excertos de Footwork - no meio de berreiro misantropo queer (seria um oxímoro há alguns anos atrás, certo?), glitches e Noise a rodos - Fire, aliás, Angel Marcloid com mil e um projectos desde 2008 que faz parte da cena Noise com a sua editora Rainbow Bridge, por isso, foi sempre dada às práticas da música extrema.
Seria fácil evocar o disco Black Metal de Soft Pink Truth mas há aqui várias diferenças, logo pelo facto que Fire-Toolz não deseja provocar os metaleiros a dançarem sob os seus hinos de guerra misóginos ao ritmo de House, aqui presume-se que qualquer ser pensante no século XXI gostará de puxar pela anca e deixar-se de pose. Mais do que isso, o trabalho vincula uma personalidade da sua principal compositora e executante. Entretanto sai este mês de Maio o próximo álbum, veremos o que virá aí...

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Na Páscoa convid19... isola-te com Deus!!


A gata loura!
O outro que se foda!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

CIA info 89.3




Sugestão de leitura para esta semana, um monstro de livro/revista/zine, o segundo número do Bestiário que tem como tema o "Monstro" e nas suas 700 páginas (700! Não é erro!) há ensaios, literatura, poesia, BD, colagens e ilustrações sobre esta temática, que de certa forma faz tabula rasa sobre o tema e permite cogitar a razão de estarmos a sofrer todo este pandemónio.



Da parte que me toca participo com uma modesta BD mas destaco as participações de companheiros de luta como Ana BiscaiaAndré Coelho (com uma BD que é uma Escultura!!), António BaiãoHetamoé (capa manganona!), Joana Pires (design), Manuel João NetoRui Eduardo Paes (ensaio sobre os Placebo! WHAT!?) e Tiago Manuel.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Audimat #10 (Samuel Aubert; Dez'18)

Pela cor salmão-salmonela da capa não confundam este monte de merda com a Audimat até porque estamos em caminhos completamente opostos. Logo a começar pelo formatinho e design económico que lembra os almanaques Reader's Digest ou "westerns pulp fiction shit" que ainda sobreviveram em Portugal até aos anos 80. O "brand new you're retro" (Tricky) assenta como uma luva mas não me queixo.
É uma revista francesa sobre música - redigida em francês, sorry - que é um mimo para quem recentemente deixou cair a assinatura da The Wire por já não conseguir absorver tanta informação todos os meses. Os artigos dirigem-se muito para o passado com a missão de desmistificar a cultura Pop/Rock, tão dada a lendas e desinformação, como podem ver pela capa: House francês, psicadelismo, a cultura de música de dança em Nova Iorque, Techno minimal,... Se calhar sentimos mais confortáveis a ler sobre o passado ou é apenas um sentimento de estagnação e nostalgia  que sentimos até aos dias de hoje - e quando escrevo "dias de hoje" meto como baliza este novo mundo do Corona Vírus, que sem dúvida trará um abalo na cultura e arte.
Audimat reflecte o tempo parado desta década que acabou sem que isso prejudique a sua qualidade de escrita e interesse de conteúdos, muito pelo contrário, os artigos são bastante bons. E bónus, desculpem a ironia, até há um artigo prá "frentex" sobre "field recordings" e como eles podem ser instrumentos de combate ao Capitaloceno,  ideologicamente por registrar sons de mundos naturais que desaparecem e intervindo ecologicamente como o exemplo de David Dunn que conseguiu impedir uma praga de insectos de destruírem uma floresta usando som invés de poluentes pesticidas.
Já fiz assinatura, ou pensavam que ia ficar em casa a ler os suplementos culturais dos jornais portugueses? Fuck you!!!

quarta-feira, 18 de março de 2020

Bela Purga


Ah! Não se ouve os "boys" do rendimento mínimo a estoirarem o guito em bujas, não há discussões boçais e infinitas da bola, nem os turistas de merda,... vivemos um verdadeiro paraíso "ballardiano" e é uma óptima altura para cultivar o espírito e esmiuçar o que o Steve Albini queria dizer com o facto da História do Rock estar mal contada, que nada é como se diz, que se salta dos Beatles para os Sex Pistols e desses para os Nirvana - já agora, depois destes há alguma outra banda para seguir? Gulp!
Para os que estão em casa com 'net, espero que fechem as redes sociais que nada terão para contar a não ser vídeos de cães (gatos estão fora de moda, ao que parece) e de palhaços do Pop nacional a tentarem capitalizar o isolamento. Procurem os esquecidos, vencidos e dissidentes da História já que tem tempo para tal. Complicado? Uma dica, entre mil outras possíveis, oiçam por exemplo, a colectânea Sounds And Shigaku Limited Present: Beautiful Happiness (1989) com esta bela capa de Brian Bolland - desenhador inglês de BD - organizado por um jornal de música (Sounds) e uma importadora de música (Shigaku), ambos fascinados pela energia do Rock vindo dos EUA, sendo este LP uma espécie de "sample" do melhor Rock que se fazia nos "States" na altura - e Canadá por causa dos Shadowy Men on a Shadowy Planet que no panfleto do disco afirmam que fizeram a banda sonora para o documentário Comic Book Confidential (1988), um dos primeiros documentários sobre BD, bastante eclético que até os "bedófilos" gostam, saquem!
"Eclético" serve também para definir este LP, girando pelo Hardcore (e pós e futuro Grunge), Noise Rock, Indie / Lo Fi, Surf e até uma engraçada versão ragtime de Holiday in Cambodia (dos Dead Kennedys) por D.J. Lebowitz. Haverão poucas bandas aqui memoráveis - Halo of Flies, Naked Raygun, Life Skull, Iowa Beef Experience (porque um membro fará parte dos Tape-Beatles), Disappointments (porque tocaram com o GG Allin) e Drunk with Guns - apesar de serem boas mas essa não é a questão. A questão é enriquecer uma linha temporal musical, perceber como os sons evoluíram ao longo destas décadas para que NUNCA mais, NUNCA mais, NUNCA mais, sermos enganados por bandas como Blind Zero ou Paus - bandas burguesas, fraudulentas, vendidas e inúteis que poderiam ter trazido o vírus mortal do norte de Itália, sei lá, são gajos para irem a uma feira de calçado já que ninguém os quer numa "feira de música"...

Gracias Daniel Dias pela prenda de "Natalixo".

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

É preciso é ter Karma...


Se os Nirvana fizeram porque não pode fazer o Allen Halloween!? Unplugueto (SóHipHop; 2019) não é o fácil proveito económico de um formato comercial que vende a mesma música ainda por cima sem ruído eléctrico. Claro, que fazer uma versão do Sérgio Godinho parece mesmo aquele golpezinho sujo publicitário que qualquer bardamerdas da música portuguesa seria capaz de fazer para render a sua carreira miserável.
Se houve uma figura no música portuguesa neste milénio foi o Allen Halloween - se calhar a única -, tão figura que nunca fez parte da cena triste do Hip Hop nem de qualquer outra coisa, felizmente o Rui Miguel Abreu nunca lhe meteu os dentes em cima nem nunca o veremos na Eurovisão, ou se aparecer será a fazer um kizomba kristão que poderemos ignorar. Isto porque se há uma nota negativa é que este CD é o registo fonográfico de epitáfio de Allen, que passou pró Dark Side, ou seja para Deus, o anormal do caralho!
Allen foi o único gajo cujas músicas chegaram a todo o tipo de espectros, dos punks recauchutados à borregada dos metaleiros, do mitra da rua ao intelectual no seu palácio. Ouve-se este disco e está aqui a razão do seu sucesso e transversalidade. O recital melancólico de experiências violentas nas grandes cidades são tão bem colocadas na língua portuguesa que é impossível não sentirmos-nos identificados com a alienação e revolta mesmo que alguns (ou muitos) dos seus ouvintes sejam branquelas, e como tal, não sejam sejas vítimas do insidioso racismo português - lembro-me do Allen a ser expulso no Musicbox, quando ele ia tocar nessa mesma noite - ou que não tenham vivido em bairros degradados. A sua experiência de vida contada com a poesia dos dias vividos não cai em ridículo ou ignorância - como o Valete - daí que a nostalgia da vida loca da juventude, os amores e desencontros, a deriva no álcool dos bares e bairros, a morte de Deus (no caso de Allen é o contrário) e o vazio existencial, as dores de crescimento e o fenómeno de "Peter Pan" sejam temas que ressoam pelo ouvinte mesmo que as vivências rapadas de Allen sejam extremas da "thug life" e respectivos "G's", pitbulls e o Jah-jah.
Em Portugal, o seu rival impossível será o António Variações. Impossível porque além de estar morto, é um ícone que já teve direito a um "biopic" e tudo. Allen morreu também, em 2047 haverá um filme de certeza intitulado de "Bandido Velho : a vida de Halloween" a elevar o estatuto deste belo perdedor. Como qualquer perdedor, nunca será esquecido!

Gracias Camarada Fom Fom!