domingo, 9 de agosto de 2020

vinte vinte vinte


- Krypto : eye18 (Chili Com Carne + Lovers & Lollypops)
- Juno Mac + Molly Smith : Revolting Prostitutes : The Fight For Sex Workers' Rights (Verso, 2018)
- Beatriz Colomina + Mark Wigley : Are we humans? Notes on an archaeology of Design (Lars Müller; 2018)
- Mark Fisher : Capitalist Realism : Is there no alternative? (Zer0; 2009)
- Diana Niepce : Dueto (Dançar é a minha Revolução #2, Mercado do Tijolo; 23/02)

- Gabrielle Bell : Inappropriate (Uncivilized)
- Ernest Mandel : Cadáveres Esquisitos : uma história social do romance policial (Cotovia; 1993)
- Peter Sloterdijk : Tens de Mudar de Vida (Relógio D'Água; 2018 - orig.: 2009)
- Mario Monicelli : Un borghese piccolo piccolo / O pequeno burguês (1977)
- Thomas Bernhard : Derrubar Árvores : Uma Irritação (Assírio & Alvim; 2007 - orig.: 1984)

- Jean Meckert : Golpes (Antigona; 2015 - orig. 1942)
- Daisy May Cooper e Charlie Cooper : This Country / Este País (BBC 2017-2018)
- Fire-Toolz : Drip Mental (Hausu Montain; 2017)
- Ernesto Sabato : Relatório sobre cegos (Maldoror; 2019 - orig. 1961)
- Alan Horrox + Gavin Richards : The accidental death of an Anarchist (Thames TV; 1983)

- Ebisu Yoshikazu : The Pits of Hell (Breakdown; 2019)
- Shintaro Kago : The Princess of the Never-Ending Castle (Hollow; 2019)
- Metadevice : Studies for a Vortex (Malignant)
- Mao : UltraSaiyanJedi is streaming Tactical Arena: Apocalypse, March 11th (Twitch is like the fun side of the military-industrial-surveillance complex) (Massacre)
- Diogo Jesus : Apesar de não estar, estou muito (Galeria Municipal do Porto, 2/6 - 16/8)

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Donna Gaines : "Teenage Wasteland : suburbi'a dead end kids" (University of Chicago Press; 1998)

Eis um livro que pode ser um companheiro da "segunda parte" de The Decline of Western Civilization, sendo que Gaines tem uma missão maior que é analisar o pacto de suicídio de quatro jovens em Bergenfield (EUA, 1987). Escrita de forma jornalística, Gaines envolve-se na comunidade de jovens marginais dessa cidade e os seus "filmes" com álcool, droga, violência familiar e exclusão social. O livro revela muito bem como o sistema de educação norte-americano é segregador e eugénico, e onde até na tentativa de mudar as regras do jogo, a sociedade gringa não consegue de pensar sempre no "big buck", fazendo de todo o arsenal social uma forma de fazer guita.
Os jovens "burnouts" daquela cidade estão a curtir Metallica, Bon Jovi e Iron Maiden, enormes na altura, e também M.O.D. originais de lá. Metal e o seu "satanteenismo" são as grandes preocupações de pais que não percebem patavina dos códigos juvenis ou da sua condição miserável na sociedade dominada totalmente pelos "adultos" - ver o caso de Mike Diana. Cru na escrita, Gaines que consegui a confiança dos jovens d Bergenfield graças a gosto comum pelos Motörhead (sempre foi a banda mais unificadora de tribos urbanas!) vai a todas, faz um excelente ensaio sobre a popularidade do Hard Rock / Heavy Metal focando na mitologia do quarto LP dos Led Zeppelin, sobre a música como religião numa sociedade hiper-maniqueísta, sobre a necessidade dos jovens terem espaços auto-geridos (há referências à cultura Hardcore), sobre como as "reganomics"  destruíram o tecido social norte-americano ou ainda porque nos anos 80 não se pode falar de subculturas mas subcultos dado o enorme puzzle socio-económico (e racial) que são os EUA e da forma como as culturas se modelam nesses complicados contextos - percebe-se porque os anos 80 foram uma "idade de ouro" para tantos sub-estilos de música: Punk, Hardcore, Thrash, Speed, Death, Crossover,...
A edição original é de 1991 mas esta (re)edição inclui um posfácio que fala dos anos 90 como a vingança dessa juventude espezinhada dos anos 80. Realmente os 90 foram os anos do "alternativo" e da ascensão da cultura DIY vindas da década anterior - zines, bandas como Sonic Youth ou Butthole Surfers, causas políticas - mas Gaines aponta que nada mudou no estatuto dos jovens, se é que não piorou, estatisticamente mostra que aumentou o homicídio juvenil, o suicídio juvenil, a gravidez juvenil, etc... e simbolicamente houve as mortes do branco Kurt Cobain (1967-94) e do negro Tupac Shakur (1971-96), o primeiro suicidou-se (este livro é húmus para explicar Cobain) por apatia caucasiana, o segundo foi assassinado por gangues.

sábado, 25 de abril de 2020

Artigo 65.º (Habitação e urbanismo)











Caminhadas higiénicas por Lisboa são necessárias até porque as casas portuguesas são precárias. Nelas encontrei esta campanha de uma empresa imobiliária que obviamente está aproveitar que Lisboa é mesmo uma Capital Verde Europeia, sem aviões, carros e cruzeiros a poluir a cidade, e que já está a dar o próximo passo, ou seja, cumprir que Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Zappa & Bungle Toolz, Inc.



O Retromania diz o que diz mas não quer dizer que as coisas não andam para a frente, e senão andarem para frente andam para os lados, até pode ser que rebole. O projecto Fire-Tooz é desse casos que pega em tudo o que é música para fazer um fusão alucinada e sem respeito pelos cânones, como Frank Zappa e Mr. Bungle faziam. E vocês dizem, porra, então vou ouvir esses gajos, não preciso de sequelas. Calma, nos anos 70 ou 90 ainda não se fazia Vaporwave nem Metalcore, então?
Fire-Toolz, realmente é mutante, e os discos parecem não ter limites de estilo, tendo nuns álbuns mais recentes chegado a soar ao Prog chato. Este primeiro disco, Drip Mental (Hausu Mountain; 2017), parece ser o mais acessível, talvez pela presença de música de dança - há excertos de Footwork - no meio de berreiro misantropo queer (seria um oxímoro há alguns anos atrás, certo?), glitches e Noise a rodos - Fire, aliás, Angel Marcloid com mil e um projectos desde 2008 que faz parte da cena Noise com a sua editora Rainbow Bridge, por isso, foi sempre dada às práticas da música extrema.
Seria fácil evocar o disco Black Metal de Soft Pink Truth mas há aqui várias diferenças, logo pelo facto que Fire-Toolz não deseja provocar os metaleiros a dançarem sob os seus hinos de guerra misóginos ao ritmo de House, aqui presume-se que qualquer ser pensante no século XXI gostará de puxar pela anca e deixar-se de pose. Mais do que isso, o trabalho vincula uma personalidade da sua principal compositora e executante. Entretanto sai este mês de Maio o próximo álbum, veremos o que virá aí...

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Na Páscoa convid19... isola-te com Deus!!


A gata loura!
O outro que se foda!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

CIA info 89.3




Sugestão de leitura para esta semana, um monstro de livro/revista/zine, o segundo número do Bestiário que tem como tema o "Monstro" e nas suas 700 páginas (700! Não é erro!) há ensaios, literatura, poesia, BD, colagens e ilustrações sobre esta temática, que de certa forma faz tabula rasa sobre o tema e permite cogitar a razão de estarmos a sofrer todo este pandemónio.



Da parte que me toca participo com uma modesta BD mas destaco as participações de companheiros de luta como Ana BiscaiaAndré Coelho (com uma BD que é uma Escultura!!), António BaiãoHetamoé (capa manganona!), Joana Pires (design), Manuel João NetoRui Eduardo Paes (ensaio sobre os Placebo! WHAT!?) e Tiago Manuel.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Audimat #10 (Samuel Aubert; Dez'18)

Pela cor salmão-salmonela da capa não confundam este monte de merda com a Audimat até porque estamos em caminhos completamente opostos. Logo a começar pelo formatinho e design económico que lembra os almanaques Reader's Digest ou "westerns pulp fiction shit" que ainda sobreviveram em Portugal até aos anos 80. O "brand new you're retro" (Tricky) assenta como uma luva mas não me queixo.
É uma revista francesa sobre música - redigida em francês, sorry - que é um mimo para quem recentemente deixou cair a assinatura da The Wire por já não conseguir absorver tanta informação todos os meses. Os artigos dirigem-se muito para o passado com a missão de desmistificar a cultura Pop/Rock, tão dada a lendas e desinformação, como podem ver pela capa: House francês, psicadelismo, a cultura de música de dança em Nova Iorque, Techno minimal,... Se calhar sentimos mais confortáveis a ler sobre o passado ou é apenas um sentimento de estagnação e nostalgia  que sentimos até aos dias de hoje - e quando escrevo "dias de hoje" meto como baliza este novo mundo do Corona Vírus, que sem dúvida trará um abalo na cultura e arte.
Audimat reflecte o tempo parado desta década que acabou sem que isso prejudique a sua qualidade de escrita e interesse de conteúdos, muito pelo contrário, os artigos são bastante bons. E bónus, desculpem a ironia, até há um artigo prá "frentex" sobre "field recordings" e como eles podem ser instrumentos de combate ao Capitaloceno,  ideologicamente por registrar sons de mundos naturais que desaparecem e intervindo ecologicamente como o exemplo de David Dunn que conseguiu impedir uma praga de insectos de destruírem uma floresta usando som invés de poluentes pesticidas.
Já fiz assinatura, ou pensavam que ia ficar em casa a ler os suplementos culturais dos jornais portugueses? Fuck you!!!

quarta-feira, 18 de março de 2020

Bela Purga


Ah! Não se ouve os "boys" do rendimento mínimo a estoirarem o guito em bujas, não há discussões boçais e infinitas da bola, nem os turistas de merda,... vivemos um verdadeiro paraíso "ballardiano" e é uma óptima altura para cultivar o espírito e esmiuçar o que o Steve Albini queria dizer com o facto da História do Rock estar mal contada, que nada é como se diz, que se salta dos Beatles para os Sex Pistols e desses para os Nirvana - já agora, depois destes há alguma outra banda para seguir? Gulp!
Para os que estão em casa com 'net, espero que fechem as redes sociais que nada terão para contar a não ser vídeos de cães (gatos estão fora de moda, ao que parece) e de palhaços do Pop nacional a tentarem capitalizar o isolamento. Procurem os esquecidos, vencidos e dissidentes da História já que tem tempo para tal. Complicado? Uma dica, entre mil outras possíveis, oiçam por exemplo, a colectânea Sounds And Shigaku Limited Present: Beautiful Happiness (1989) com esta bela capa de Brian Bolland - desenhador inglês de BD - organizado por um jornal de música (Sounds) e uma importadora de música (Shigaku), ambos fascinados pela energia do Rock vindo dos EUA, sendo este LP uma espécie de "sample" do melhor Rock que se fazia nos "States" na altura - e Canadá por causa dos Shadowy Men on a Shadowy Planet que no panfleto do disco afirmam que fizeram a banda sonora para o documentário Comic Book Confidential (1988), um dos primeiros documentários sobre BD, bastante eclético que até os "bedófilos" gostam, saquem!
"Eclético" serve também para definir este LP, girando pelo Hardcore (e pós e futuro Grunge), Noise Rock, Indie / Lo Fi, Surf e até uma engraçada versão ragtime de Holiday in Cambodia (dos Dead Kennedys) por D.J. Lebowitz. Haverão poucas bandas aqui memoráveis - Halo of Flies, Naked Raygun, Life Skull, Iowa Beef Experience (porque um membro fará parte dos Tape-Beatles), Disappointments (porque tocaram com o GG Allin) e Drunk with Guns - apesar de serem boas mas essa não é a questão. A questão é enriquecer uma linha temporal musical, perceber como os sons evoluíram ao longo destas décadas para que NUNCA mais, NUNCA mais, NUNCA mais, sermos enganados por bandas como Blind Zero ou Paus - bandas burguesas, fraudulentas, vendidas e inúteis que poderiam ter trazido o vírus mortal do norte de Itália, sei lá, são gajos para irem a uma feira de calçado já que ninguém os quer numa "feira de música"...

Gracias Daniel Dias pela prenda de "Natalixo".

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

É preciso é ter Karma...


Se os Nirvana fizeram porque não pode fazer o Allen Halloween!? Unplugueto (SóHipHop; 2019) não é o fácil proveito económico de um formato comercial que vende a mesma música ainda por cima sem ruído eléctrico. Claro, que fazer uma versão do Sérgio Godinho parece mesmo aquele golpezinho sujo publicitário que qualquer bardamerdas da música portuguesa seria capaz de fazer para render a sua carreira miserável.
Se houve uma figura no música portuguesa neste milénio foi o Allen Halloween - se calhar a única -, tão figura que nunca fez parte da cena triste do Hip Hop nem de qualquer outra coisa, felizmente o Rui Miguel Abreu nunca lhe meteu os dentes em cima nem nunca o veremos na Eurovisão, ou se aparecer será a fazer um kizomba kristão que poderemos ignorar. Isto porque se há uma nota negativa é que este CD é o registo fonográfico de epitáfio de Allen, que passou pró Dark Side, ou seja para Deus, o anormal do caralho!
Allen foi o único gajo cujas músicas chegaram a todo o tipo de espectros, dos punks recauchutados à borregada dos metaleiros, do mitra da rua ao intelectual no seu palácio. Ouve-se este disco e está aqui a razão do seu sucesso e transversalidade. O recital melancólico de experiências violentas nas grandes cidades são tão bem colocadas na língua portuguesa que é impossível não sentirmos-nos identificados com a alienação e revolta mesmo que alguns (ou muitos) dos seus ouvintes sejam branquelas, e como tal, não sejam sejas vítimas do insidioso racismo português - lembro-me do Allen a ser expulso no Musicbox, quando ele ia tocar nessa mesma noite - ou que não tenham vivido em bairros degradados. A sua experiência de vida contada com a poesia dos dias vividos não cai em ridículo ou ignorância - como o Valete - daí que a nostalgia da vida loca da juventude, os amores e desencontros, a deriva no álcool dos bares e bairros, a morte de Deus (no caso de Allen é o contrário) e o vazio existencial, as dores de crescimento e o fenómeno de "Peter Pan" sejam temas que ressoam pelo ouvinte mesmo que as vivências rapadas de Allen sejam extremas da "thug life" e respectivos "G's", pitbulls e o Jah-jah.
Em Portugal, o seu rival impossível será o António Variações. Impossível porque além de estar morto, é um ícone que já teve direito a um "biopic" e tudo. Allen morreu também, em 2047 haverá um filme de certeza intitulado de "Bandido Velho : a vida de Halloween" a elevar o estatuto deste belo perdedor. Como qualquer perdedor, nunca será esquecido!

Gracias Camarada Fom Fom!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Atropelä Merdinaa


Chiptune finlandês de uma banda que pelos visto dá o seu melhor a julgar pelo título da k7 The Very Best of 8 Bits High (Samsara Exit; 2019). É um trio de Commodores Punks provavelmente alinhados à demo scene que tocam música fixe para conduzir o carro pela Almirante Reis afora - enquanto o Merdina deixar - relembrando quando o Rudolfo era o Rudolfo. Há também um momento meio Mark Stuart and the Maffia no meio do som videojogos. Só é dispensável é um tema com ritmo Drum'n'Bass, que toda agente sabe é o género musical mais aborrecido à face da Terra! Se calhar na Finlândia curtem...
Kiitos Tommi!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Fusão é um erro



A editora australiana Extreme é mais conhecida pela famosa Merzbox que juntava em 2000 a produção discográfica do mestre japanoise Merzbow em 50 CDs. No entanto há mais do que isto no seu catálogo e apanhei recentemente Ancestor's Halo (1997) de Ed Pias, um disco freak tão bem produzido que parece que o gajo está mesmo ao teu lado a tocar para ti. A viagem passa ao lado dos extremos orientes com perspectivas ocidentais, topas? Um Quarto Mundo centrado em percussões de instrumentos "exóticos" (para os ouvidos ocidentais, claro) que nem parece que estamos perante um académico! Há um ambiente sonoro de tensão Dark que vai enfraquecendo sorrateiramente a uma paz qualquer traduzida em hipnagogia - ganza deve ajudar... Belo disco e sem chulé.
O homónimo Land (1995) é difícil de definir, talvez seja uma espécie de Mr. Bungle para intelectuais, que tanto pode ser Miles Davis como banda sonora de Twin Peaks, como a seguir pode ser Earth neste novo milénio ou ainda qualquer coisa que o Brian Eno "ambientou". Disco dinâmico - sem ser "esquizo" como Mr. Bungle, não vos querendo induzir em erro - permite várias audições-descobertas e deixar o mistério a desvendar de quem era esta malta, o que queriam fazer com este disco, zeus!, o que se passa aqui?

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Melhor disco rock portugal 2020 sai HOJE em Lisboa!



𝗘𝘆𝗲𝟭𝟴 é o álbum de estreia de 𝕂𝕣𝕪𝕡𝕥𝕠, o trio de destruição que junta Gon (Zen, Plus Ultra) a Chaka e Martelo (Greengo). Co-editado com a Lovers & Lollypops, o disco FISICAMENTE no dia 16 de Janeiro e faz-se acompanhar de uma BD da autoria de Rui Moura

Anotem aí: 16 e 17 deste mês é apresentado, respectivamente, no Porto (Maus Hábitos) e em Lisboa (Musicbox), na abertura de Petbrick.





Sabe mais o diabo por ser velho do que por ser diabo e os Krypto, na estreia Eye18, mostram que sabem desta poda como ninguém. Oito malhas que nos recordam um tempo que já não volta, que piscam o olho ao passado sem nunca soarem saudosistas e que aproveitam para resgatar todo aquele balanço que a música de e com peso parece, por vezes, ter esquecido.

Não sabemos quem teve esta ideia, mas por nós mereceria uma medalha. Juntar aquele que é, sem dúvida alguma, o melhor e mais alucinado vocalista que este país viu nascer (um título que, por mérito próprio, exibe desde meados da década de noventa com os Zen e recentemente renovado na insanidade dos Plus Ultra) aos Greengo, provavelmente a maior força propulsora que a Invicta viu nascer por entre baforadas carregadas de intenção e acidez. Gon encontra no baixo de Martelo e na bateria de Chaka as carruagens de fogo ideais para se lançar numa infindável lista de diatribes sobre isolação, alienação, corrupção, o vazio consumista deslumbrado com a tecnologia ou a cultura empresarial.

É brutalista o som que nos despejam em cima e, apesar de um ou outro laivo psicadélico, impossível de acorrentar, numa viagem que se refugia na atitude primitiva, natural e pura de quem tem o dom de nos deixar num estado cataléptico. Música que exige ressonância e espaço para ser sentida, que cresce em urgência no espírito carbonário com que nos obriga a uma reflexão sobre a vida sem regras e responsabilidades hipócritas.

Rejeitemos a ideia de que temos de nos tornar num ideal, um camarada devoto do pensamento único, distante de sermos um indivíduo e não apenas parte de uma tribo. If we moved in next door to you, your lawn would die, palavras de Lemmy que se aplicam na perfeição a este Eye18, disco em trepidação constante pelo vazio insaciável, com sede de sobreviver e uma vontade que nos deixa atordoados, encanecidos, amortalhados, mas também num alerta constante e eufórico provocado pela privação de sono e sonho que a música dos Krypto teima em nos inflingir ao longo dos seus 23 minutos.

 O disco transforma-se numa banda desenhada da autoria de Rui Moura e inspirada no som bruto e psicadélico dos Krypto, bem como nas suas letras, a banda desenhada complementa e explora um universo ácido e atemporal. Guiado entre rituais e o oculto, transportando a psique por labirintos infinitos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Dear 2019

foto: Simão Simões.
Marcos Farrajota curte Freaker Unltd#6 após visita a excelente exposição Sunshowers.
Sem tretas, ao contrário do Pinóquio-Led que está a engrupir a dama num jantar nada romântico na merda da Lx Factory

- Ian F. Svenonius : Censorship now!! (Akashic; 2015)
- Charlotte Salomon : Vida? Ou Teatro? Charlotte Salomon. Berlim, 1917 – Auschwitz, 1943 (Museu Colecção Berardo) + Life? Or Theatre? (Taschen; 2017)
- Halfdan Pisket : Dansker (Presque Lune; 2018)
- Pietro Citati :  Israel e o Islão : As Centelhas de Deus (Cotovia; 2005)
- Ian F. Svenonius : Supernatural Strategies for Making a Rock 'n' Roll Group (Akashic; 2013)
- Zen : The Privilege Of Making The Wrong Choice (Rastilho; 2018 - orig. 1998)
- Olivier Schrauwen: Vies Parallèles (L'an 2 / Act Sud; 2018)
- Jafar Panahi : Dayereh / O Círculo (2000)
- Bill Griffith : Zippy Quarterly #1-18 (Fantagraphics; 1993-98)
- Mark Beyer : Agony (NYRC, 2016 - orig. 1987)
- Ema Gaspar (curadoria) : Sunshowers (5 Jan - 3 Fev; galeria da Ler Devagar)
- Beherit : Electric Doom Synthesis (KVLT; 2017 - orig. 1996)
- Mark Greif : Against Everything (Verso; 2017)
- Seth : Clyde Fans (Drawn & Quarterly)
- Enda Walsh : Ballyturk (Artistas Unidos; 16/04)
- Rafael Álvarez, "El Brujo" : Ésquilo, nascimento e morte da tragédia (Festival de Teatro de Almada)
- Marcel Schmitz e Thierry Van Hasselt : Vivre à / Living in FranDisco (Frémok; 2018)
- Amedeo Bertolo : Anarquistas e orgulhosos de o ser (Barricada de Livros; 2018)
- Ethel Grodzins Romm : The Open Conspiracy: What America’s Angry Generation is Saying (Avon; 1971)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Tal como na BD...


Onde quer que um gajo pare, há sempre malta cheia de boas intenções. Olhem na BD portuguesa cheia de tótós a quererem a expandir o medium mas completamente ignorantes da sua história ou do mundo. No Rock idem idem aspas aspas. Em 1997 nem dei por este CD duplo Biografia Pop/ Rock pela Movieplay. Talvez não teria sido tão entusiasta das colectâneas Portuguese Nuggets há mais de 10 anos atrás se soubesse que já havia esta reedição de bandas rocks portuguesas dos anos 60 e 70 - e 80! 
A selecção é quase aleatória, tanto entra "garagice" dos anos 60, como "Progrissice" dos 70 e depois o "Rock Português" dos anos 80 sem nenhum percurso cronológico, tudo embalado em cores flúor de música Rave - porquê? Para apanhar a nova geração da altura? E é dado também um toque de modernidade com um remix Hip Hop no final do segundo CD com o tema dos Pop Five Music Incorporated que abre o primeiro CD. Smart! Assim temos UHF entre slows de amor dos 60, psicadelia dos Psico com uma versão do Bailinho da Madeira (vomitante) e até Skasada (Rock & Várius) e New Wave (Corpo Diplomático) tudo no meio dos Twists e Hully Gullys dos 60. Uma caldeirada à portuguesa!
É quase insuportável ouvir qualquer um dos CDs de tal confusão de temas, cronologias e estilos - não que não aprecie salganhada, muito antes pelo contrário - mas numa colectânea com a importância de prestar serviço público (a História do Rock português) não corre nada bem... E daí, o que interessa mesmo? As letras são lamechas, pueris ou ridículas, afinal de contas estamos no mundo do Pop descartável em que tudo é húmus para servir de repetições insípidas no futuro - basta ouvir esta selecção que "engrandece" a música portuguesa...

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Xenotopia


De tudo de excelente que se pode dizer de Musique de France (Crammed; 2016), álbum de estreia dos Acid Arab, o melhor ainda é o próprio título. Estes dois produtores electrónicos que assinam o trabalho são franceses (um até é luso-descendente), são branquinhos, são europeus e usam músicas orientais com música electrónica de dança ocidental para melhorar ambas. O título não deixa margens para acusações de apropriação cultural pós-colonial.
O fascínio pelo lado arabesco por europeus não é novo, relembro os nossos Çuta Kebab & Party ou o confuso Muslimgauze, ou ainda indo aos pioneiros Byrne & Eno. Da mesma forma que se encontra o inverso como Ahlam ou Maurice Louca... O que vale é que aqui estamos no "state of the art" deste "género", acho que nunca se ouviu de forma tão nítida e bem produzida este híbrido, que faz todo o sentido se misturar.
Em parte percebe-se que há também uma comunidade de músicos do médio-oriente a ajudá-los como Rizan Said (ligado ao Omar Souleyman!) ou Rachid Taha. Entretanto saiu o novo disco deles com mais participações "genuínas" para os que se preocupam tanto com a pureza das coisas...

sábado, 14 de dezembro de 2019

E Justiça para todos...


Cupid in Reverse (Plastic Head; 1990) é o segundo LP dos The Justice League of America e está classificado no Discogs como Gótico e Post-Punk. Qualquer pesquisa que realize sobre estes gajos ou dá, claro, desenhos animados de super-heróis ou o disco à venda em qualquer lado. Eis a 'net em 2019, a minha pesquisa já deve estar viciada ou por ser uma banda obscura q.b., não se pode encontrar nada mais. Também há sempre a probabilidade de a banda ser medíocre e ter tido uma carreira pouco ou nada interessante que alguém se tenha dado ao trabalho de escrever sobre ela. O disco não é mau de todo, pedaços de Rock Industrial, Indie e sim Gótico... assim todo distribuído sem nunca alcançar um momento alto. Assim como a Internet...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Perkele!



Festa de lançamento esta Quarta-Feira na  Sarjakuvakeskus (Porthaninkatu 9, Helsinquia, Finlândia) do THE THICK BOOK OF KUTI que comemora os 50 primeiros números do jornal / revista de BD Kuti.

Editado por Tuomas Tiainen e Heikki Rönkkö, participo com o artigo "Comix Remix" (ler aqui e aqui) em inglês, neste tijolo de 480 páginas sou com o André Lemos, os únicos portugueses publicados entre gente como Sami Aho, Max Baitinger, Zven Balslev, Benjamin Bergman, Pakito Bolino, Lilli Carré, Anna Deflorian, Terhi Ekebom, Roope Eronen, Frédéric Fleury, Aisha Franz, Matti Hagelberg, Anna Haifisch, Jyrki Heikkinen, Alejandro Jodorowsky, Bendik Kaltenborn, Kapreles, David Kerr, Marlene Krause, Jarno Latva-Nikkola, Tiina Lehikoinen, Lilli Loge, Gunnar Lundkvist, Moolinex, Søren Mosdal, Jérôme Mulot, Tommi Musturi, Pauliina Mäkelä, Jyrki Nissinen, Pentti Otsamo, Ville Ranta, Aapo Rapi, Kati Rapia, Helge Reumann, Sam Rictus, Florent Ruppert, Anna Sailamaa, Olivier Schrauwen, Tiitu Takalo, Rui Tenreiro, Alessandro Tota, Katja Tukiainen, Marko Turunen, Brecht Vandenbroucke, Amanda Vähämäki, Mikko Väyrynen, Emelie Östergren... ufa... e ainda há muito mais!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Renda barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais n'A Batalha



...

livro co-editado pela Chili Com Carne e o jornal de expressão anarquista A Batalha - no âmbito do seu centenário.

Quando o nome de Stuart Carvalhais (1887-1961) é referido pela segunda vez no diário A Batalha, a 22 de Fevereiro de 1921, dificilmente se poderia augurar um futuro radiante para o cartoonista nas publicações periódicas ligadas à Confederação Geral do Trabalho. Nessa data, o jornalista Mário Domingues escrevia as seguintes linhas: “O sr. Stuart de Carvalhais, colega de Jorge Barradas, sujeito como este a ser amanhã vilmente caluniado por aqueles que ora o afagam, não se envergonhou de aceitar apressadamente o cargo de director do ABC a rir, sabendo como foi injustamente tratado o que o antecedeu. O sr. Stuart Carvalhais julga os seus actos como entende, bem sei; procede a seu bel-prazer. É possível que considere correcta a sua acção. Eu, porém, classifico-a simplesmente de traição”. (...) Apenas dois dias depois, Domingues retratar-se-ia deste duro julgamento. Alegadamente, o Barradinhas teria mesmo merecido ser despedido, mas isso não impediu o jornalista de sublinhar que “no lugar do sr. Stuart, não [aceitaria] esse lugar, não porque isso acarretasse para [si] rebaixamento moral, mas porque esse acto poderia fazer crer ao público, desconhecedor dos bastidores da questão, que não tinha sido leal a sua forma de proceder”. 

Por esta altura, o percurso de Stuart estava ainda afastado do periodismo libertário (...) tinha já colaborado proficuamente no Século Cómico, O Zé, Gil Blas, A Lanterna ou na Ilustração Portuguesa. Em 1914, contribui para o monárquico O Papagaio Real, sob a direcção artística de Almada Negreiros. No ano seguinte, regressa ao Século Cómico, onde inicia a série «Aventuras do Quim e Manecas», e em 1920 junta-se a Barradas em O Riso da Vitória. Depois de se tornar director do ABC a rir, colaborará no ABC e no ABCzinho. Até que se chega a 1923, mais precisamente a 30 de Novembro, e logo na primeira página do n.º 1539 de A Batalha pode ler-se: “Inicia hoje a sua colaboração em A Batalha o conhecido caricaturista e nosso prezado amigo Stuart Carvalhais, cujo lápis exímio e irreverente irá dar aos nossos leitores monumentos de incomparável prazer. Stuart Carvalhais, cujo mérito está acima dos nossos elogios, principia a sua colaboração no nosso jornal com uma série de desenhos, plenos de graça, de comentário ao caso da falsificação dos bilhetes de Tesouro, que tanto tem dado que falar”. 

Os diferendos entre Stuart e a redacção do jornal estariam, agora, plenamente sanados, iniciando-se uma colaboração de três anos com a Secção Editorial de A Batalha. Durante este período, não houve periódicos que tenham recebido mais contributos de Stuart do que o diário, o Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha e a Renovação. Significa isto que Stuart se teria convertido à Ideia anarquista? Ou que teria passado por uma fase monárquica, por ter colaborado em O Papagaio Real e na Ideia Nacional, de Homem Cristo Filho? Provavelmente o mais sensato será rejeitar qualquer uma destas conclusões apressadas. Talvez Osvaldo de Sousa não esteja muito longe da verdade quando afirma que “Stuart era um céptico na política, um anarquista na destruição ideológica e um político-desenhador na expressão do sofrimento, miséria e vida do povo”. 

(...) Ao viver de avenças, de uma produção de uma “média de 15 desenhos por semana”, certamente que não se pode afirmar que Stuart foi, pelo menos nesta década de 1920, “um homem livre” (...) Stuart foi um fura-vidas, que provavelmente viu nas publicações de A Batalha uma forma de se sustentar a si e à sua família e também um conjunto de jornais e revistas que seriam a casa natural para receber o seu golpe de vista impressionista sobre a desigualdade, a exploração infantil, o desemprego, a fome, a crise da habitação, a mendicidade, a prostituição e a questão feminina. 

(...) Apesar de a colaboração de Stuart se iniciar no diário A Batalha, no qual publicou 23 cartoons até à edição de 25 de Dezembro de 1925, é no Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha, fundado em Dezembro de 1923, que se podem encontrar mais trabalhos gráficos da sua autoria. Ao todo são 66, entre cartoons e ilustrações. 

(...) Stuart não mais regressaria aos periódicos de A Batalha, que passavam por uma situação interna complexa: além da instauração da ditadura militar (...), a direcção da secção editorial estava sob fogo do jornal O Anarquista, que acusava os colaboradores do Suplemento, do diário e da Renovação de serem jornalistas profissionais, sem ligação ao meio operário. (...) Não será displicente considerar-se que esta também foi uma das razões para que Stuart não mais emprestasse a sua caneta a A Batalha e que aqui terminasse a sua aventura libertária: à sua espera estava agora a redacção do Sempre Fixe, que o acolheu até à sua morte em 1961. 

 As várias monografias acerca da vida e obra de Stuart (...), pecam todas pela quase total omissão da sua passagem pelos periódicos libertários. Se estas falhas são voluntárias ou mero desleixo pouco interessa aqui, mas certo é que as breves e raras menções a esse período se resumem a um punhado de reproduções gráficas, a considerações genéricas sobre o seu “anarquismo de rua”(?), tudo enquanto se aflora en passant que o autor também fez uns bonecos para as publicações libertárias. 

(...) Sirva então este modesto livro para dar melhor conta, a um tempo, da riqueza múltipla do trabalho de Stuart, sem no entanto cair numa ardilosa hagiografia do seu papel autoral, nem reivindicar uma actualidade que cabe apenas a cada leitor avaliar. E, por outro lado, para mostrar como Stuart foi, entre muitos, um importante contribuidor para a feitura da obra colectiva e centenária de A Batalha. - António Baião no prefácio do livro