quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Emma Petit et al. (ed.): "Old Rare New : The Independent Record Shop" (Black Dog; 2008)

Os anglo-saxónicos editam grandes livros. A Black Dog edita grandes livros. E o problema de alguns "grandes livros" é que muitas vezes podem ser apenas bonitos de ser ver e folhear mas ao espremer a coisa, pouco sumo deitam cá para fora. Ao contrário de um disco vinil em que podemos mudar as rotações e acelerar a música de forma que ela (ainda) fique divertida, não se pode fazer um livro à pressa. Muita gente fala mal da indústria fonográfica e os seus fenómenos Pop nojentos mas esquecem-se que um livro também pode ser tão artificial como o 50 Cent – talvez pelo excesso de respeito pelo “Livro”, esse clássico da cultura, que os discos nunca conseguirão ter um IVA similar. Os Henry Potter podiam ser vendidos com um IVA de 20% mas as pessoas têm pudor em deitar o “Karl Marx era Satânico” (a não ser que se goste de bizarrias culturais) para o lixo ou queimar o “Como obter Felicidade na Vida” (qual deles?) ou o “SCUM” da louca da Valerie Solanas. Ei! Relaxem, alguns livros merecem destinos tão baixos como certos discos de músicas de Natal ou de EBM.
Não será bem o caso deste livro embora o luxo gráfico seja desnecessário para tão pouco conteúdo. Acompanhado com boas fotografias de lojas e proprietários e de reproduções de capas de discos (ora bizarros ora de culto mas sem qualquer catalogação ou referência intrínseca aos textos), o Design é bastante atraente e limpo para querermos levar o livro para casa mas infelizmente pouco serve de referência enquanto livro sobre música - o objectivo não é esse mas sinto que os volumes da Re/Search sempre estarão à frente de muita coisa que se edite. Old Rare New É na realidade um guia "deluxe" e burguês para quem quiser ir às melhores lojas dos EUA e de Inglaterra e que prega para os “convertidos”. Apesar das colaborações, em forma de crónica ou de entrevista, de James Dean Bradfield (dos Manic Street Preachers), Steve Krakow (o MEGA-cromo do zine Galactic Zoo Dossier), Devendra Banhart, Stuart Baker (da Soul Jazz), Billy Childish, Bob Stanley (dos Saint Etienne), Bonnie 'Prince' Billy entre outros, pouco sabem dizer mais do que lugares-comuns de quem colecciona coisas - neste caso, música disseminada em discos em vinil e em vinil apenas...
Lugares-comuns? Então são "as belas capas que só um vinil pode estar associado", "a tactilidade e ritualidade implícita do objecto", "o gozo em encontrar raridades enigmáticas", "as disputas entre coleccionadores", "as lojas excêntricas e caóticas repletas de discos ao ponto dos clientes terem dificuldade em encontrar o quer que seja a não ser que perguntem aos donos", "as histórias da génese pelo amor pela música (ou pelos discos)"… Enfim, talvez pelo formato “chapa 5” das entrevistas algo falha neste livro, transformando-o numa Grande Ode à Loja de Discos em Vinil pelos Nostálgicos Pós-Trintões. Pegar neste livro poderá ser uma descoberta para o jovem da geração mp3/download que nem sabe o que é um CD (que horror!) mas ainda assim ele poderá ter dificuldades em pegar nele porque também não sabe o que é um livro graças à TV, vídeo-jogos, áudio-livros ou livros digitais – e no fim de contas, é isto que satura neste livro é que os coleccionadores de discos esquecem-se que o gosto pela cultura é acima de tudo elitista - sempre foi e sempre será. Podemos ter um Bilião de GB de música no PC mas isso não fará da pessoa um melómano ou culta nem trará uma tragédia a toda a indústria fonográfica (editoras, bandas, lojas). Quem gosta música ou de cultura, no inicio pode começar a acedê-la pelos meios mais baratos (pobres ou democráticos como quiserem chamar) e mais tarde com a idade e rendimento adequado é que se procura meios mais nobres – por exemplo eu tive centenas de k7’s porque não tinha dinheiro para comprar discos. Se hoje fosse um jovem estudante faria o mesmo, tentaria conservar a música que fosse interessante e que eu prezasse ao ponto de querê-la ter num formato material como um vinil ou CD antes que o PC pifasse de vez. O resto, ou seja, as milhares de gravações e downloads ilegais de trampa Pop poderão desaparecer que até é uma bênção. O facto dos “putos de hoje não saberem nada” é um chavão de trintões ressabiados em perfeito conflito geracional não-assumido (os últimos pensam que são melhores porque já foram Punks ou uma merda pseudo-iluminada assim do género) mas quem gosta de Madonna tanto faz ter em mp3 ilegal ou o mesmo tema em vinil amarelo limitado a 500 exemplares, aliás, o mp3 é sempre mais barato e felizmente mais descartável - quem sabe quando a Humanidade desaparecer, a raça alienígena que visitar os restos mortais do planeta não encontrará tantos artefactos pirosos que nos façam diminuir culturalmente perante as outras raças do Universo.
O futuro dos discos e das lojas dos discos é várias vezes referido no livro pelos entrevistados, a maior vezes como uma calamidade de quem não sabe que há coisas mais importantes no planeta Terra. O alarme é estranho e deslocado, tal como na pintura ou outras artes, a música vive tempos de ruptura e de crise com fenómenos estranhos: desde de alguns músicos serem convidados a fazerem "curadoria" como se fosse galeristas - Festival All Tomorrow Parties - ou o mais estranho, e creio que noutras artes não houve nada assim, que se o Rock foi uma música rebelde, então o que se faz com uma geração baby-boomer de artistas rebeldes que nunca mais morre? Entre os Rolling Stones e o Ozzy, ainda faltam dois Beattles e uns três Bee-Gees... o resto anda cá tudo! Felizmente só os Punks Rockers tiveram mais dignidade em morrer mais cedo para não assistir ao coleccionismo e ao fetichismo dos rebeldes.

3 comentários:

leote disse...

ora cá esta um livro que gostava de ler

mmmnnnrrrg disse...

não te posso emprestar - mas faria-o com todo o gosto... - porque preciso dele para servir de modelo para uma bomba a sair em 2009...

leote disse...

thnxs man, depois da bomba se nos lembrar-mos (o que é uma bomba cara...ças?)