terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Coolonialismo


Beatnicks: Heavy Freaks Back In Town
Xarhanga: Bota Fora
(PPP; 2008)

Portugal enlouqueceu! É oficial! Finalmente Portugal assumiu que tem uma História de Rock para conhecer no seu próprio espaço e para partilhar com o mundo. O fenómeno começou com os angolanos da Galo de Barcelos que implantaram os Nuggets em Portugal, seguído pela Groovie Records, No Smoke, Zerowork (com as recentes Raridades Punk) e agora a PPP - que significa, e por favor não se riam, Portuguese Progressive Pearls. Como se pode prever, o objectivo da editora é reeditar material de um dos géneros musicais Rock mais gozados e odiados do planeta Rock.
Sei que houve uma antologia da PPP parecida com os Nuggets mas estas duas edições dedicam-se a compilar temas de bandas. É preciso não esquecer que o formato LP não era assim tão normal nos anos 70, e daí que o vinil dos Beatnicks coleccione os seus singles e EP's, já o CD de Xarhanga inclui o LP Bota Fora e dois singles da banda. Ambas bandas partem do Hard Rock e Heavy Metal, respectivamente, sendo por isso pioneiras do género no Portugal fascista e "orgulhosamente sós", cantando em inglês mal parido, e mais tarde progredindo (joguinho de palavras parvo) para o psicadelismo e o Prog cantado nas amígdalas de Camões (jogo de palavras ainda mais parvo!).
Os Beatnicks - que começam logo com um erro de inglês acrescentando um "c" a Beatnik - é Hardrock de setentas lembrando "softmente" os Black Sabbath ou Deep Purple nos seus discos entre 1971 e 1972 tão interessantes como conhecer o primeiro coelho a pisar o solo da Austrália. Na segunda fase da vida do grupo, mudam os membros do grupo e o single Somos o mar (de 1978) ora é abrir de um lado (com o tema homónimo) ora é ambiental-ecológico com Jardim Terra, bastante bizarro e arrepiante, quase que Gótico. Curiosidade, a futura "Portuguese Pop-Star" (PPS?) Lena D'Agua participa nesta música. A reedição em vinil colorido inclui um poster e um "badge" manhosos - o poster é uma péssima amplicação de quê? De um jpeg de 72dpi's sacado da 'net? O badge é um desenho de um hippie a ser perfurado, no ventre, por uma guitarra... Arte de fã sem dúvida que pouco se percebe, pelo menos ao tamanho reproduzido...
Também "Sabbathianos" e "Purpleanos" são os Xarhanga mas muito mais agressivos e técnicos que os Beatnicks embora também sofram de um inglês marrado - a desculpa será sempre para que as letras fugissem às mãos da Censura - e um interesse musical também relativo como a primeira banda Heavy da Itália. Mas isto do inglês e do Heavy só existe enquanto gravaram dois singles em 1973. Quando gravam Bota Fora já estão em 1975, depois do 25 de Abril e no meio da confusão PREC, já podem manifestar-se em português e cantar o tema político que querem (na "fase inglesa" já lá estava a vontade anti-militarista), neste caso, todo o álbum é contra o Colonialismo português em África. Arranjaram letras de quem sabe escrever como José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho e Manuel Alegre, fingem que fazem fusão de sons africanos com música branca (Prog Rock pindérico q.b.) e prontos lixam-se porque ficam datados com as letras dedicadas à Frelimo e MPLA - não estou a gozar! Júlio Pereira fazia parte da banda e aposto que sempre que ouve este álbum deve-se arrepender da sua juventude. Quando digo que eles fingem fundir música africana é só porque só vamos encontrar alguma "batucada" no ínicio de cada música porque de resto andam atrás dos Genesis e afins - vomitem agora! O álbum até se vai ouvindo se não fossem as letras, verdadeiros fantasmas do final de uma Era.
O mais estranho, dizem rumores tão credíveis como os que dizem que quem editou os Nuggets foram angolanos, é que o responsável por estas óptimas iniciativas de recuperação histórica estão a cargo de um Punk! Prog recuperado por um Punk!? Eu não tinha avisado que Portugal tinha enlouquecido?

PS - já agora, continuando no mundo das reedições em vinil de "pérolas e pepitas" do passado, em 2008 foi feito um LP com singles e EP's de Chico Magnetic Band, que é sem sombras de dúvida o melhor que podia ter sido recuperado pelos escavadores da No Smoke. Se não tiverem com pachorra pros Beatnicks e Xarhanga - perfeitamente compreensível - investiguem esta banda francesa dos anos 70 liderado pelo louco Chico -um mulato que era um verdadeiro Karma deslocado de Jimmy Hendrix. Em 1973, Portugal era Branco & Cinzento, orgulhosamente - em França as cores eram outras. Quase foi necessário 30 anos até os Buraka Som Sistema quebrarem com essa tradição da cultura urbana/pop.
PPS - entretanto vi na casa do Camarada Seringa, o álbum original Bota Fora, e foda-se! Só um Punk para fazer merda: o álbum é creditado na capa e lombada como de Júlio Pereira e Carlos Cavalheiro e não por Xarhanga - o CD distorce os créditos quer na capa e também na lombada. Mas o pior é comparar a reprodução (redução) da capa do LP para o CD. O CD ganhou tonalidades amarelas para além do grafismo não ter sido devidamente adaptado para ser legível - se calhar é a idade que já pesa nos olhos mas ainda assim... Afinal retiro alguma parte do elogio da "óptima iniciativa". Está tudo louco!

2 comentários:

Indispensável é Amar disse...

Penso que não se informou o suficiente da banda e o seu problema com o C é capaz de ter origem freudiana!!! veja aqui http://www.urbandictionary.com/define.php?term=Beatnick Claro que é tudo a brincar... não é? - Por acaso saí dos Beatnicks antes da gravação do LP de Vinil a que se refere.... mas digo-lhe que se voçê conheçesse o material gravado em Vinil que foi editado antes.... vería que a anterior fornação podería estar em qualquer história da música ao lado dos melhores de sempre. Por acaso já ouviu o nome Rui Pipas? - e Zé Artur? também, não? paciência, isto é tudo a brincar!!!!

mmmnnnrrrg disse...

tudo é a brincar... naturalemente... e não conhecer um gajo chamado Pipas! Pipas!? Que horror!!!!