Há obras que se seguem com as movidas musicais e esta é claramente uma delas. Se os Fabulous Freak Brothers de Gil Shelton era Rock psicadélico, se Love & Rockets dos Hernandez Bros era Punk californiano, o Peter Pank de Max sobre a movida espanhola, o Hate de Peter Bagge era sobre o Grunge, se Loverboy de Marte e João Fazenda (olha a modéstia, cabrão!) era sobre o Indie 'tuga (coisa que não existiu mas que se fingiu seja na ficção da série seja na realidade), se Psychowhip de unDJ GoldenShower e Jorge Coelho (isso é coisa pouca para te auto-citares outra vez!!!) é sobre o Rock industral, Sicotronic Records de Miguel Angel Martin é sobre Harsh Noise, ufa!...
Então, Black Metal Cómix (F.O.G. Cómix; 2012) de Magius é sobre... BLACK METAL, claro!
Trata-se de um volume auto-editado de 208 páginas A5 dos fanzines homónimos publicados entre 2001 e 2012 em que Magius em curtas BDs vai contando a história mórbida do Black Metal com um "alto-relevo" para a cena seminal norueguesa, em especial para a banda Mayhem e o seu fundador e instigador da cena Black, Euronymous (1968-1993), que é a capa do livro. Não esquecendo que Euronymous foi morto pelo Varg Vikernes (na altura auto-intitulado de Count Grishnackh, mais conhecido pelo influente projecto Burzum), estes queimaram dezenas de igrejas (a única coisa boa da cena Black Metal), Euronymous fotografou o corpo do vocalista Dead (1969-1991) após o seu suicidio com um tiro de espingarda na pouca mioleira que devia ter, usou essas fotos para um "bootleg" da banda e segundo consta, oferecia restinhos do crânio do Dead em forma de colar de pescoço às pessoas que ele achasse merecedoras do seu respeito.
Tudo isto soa "a BD" ou a desenhos animados escatológicos do tipo South Park mas não! Tudo isto foi verdade nos primórdios dos anos 90 e talvez porque a realidade ultrapassa sempre a ficção, todo o livro é feito com um "comic relief" para não entrarmos nas profundezas destes putos estúpidos noruegueses.
Por falar em South Park, a abordagem é realmente idêntica no que diz ao movimento dos corpos, uma vez que Euronymos ou o gajo de Burzum aparecem sempre como criaturas que não crescem e com os membros imobilizados (como se fossem ícones fofinhos) mesmo que estejam a fotografar - a máquina fica suspensa no ar e os braços caídos sempre imobilizados. Não se trata de uma falta de capacidade técnica do autor conseguir desenhar corpos com movimentos mas antes de gozo iconoclasta. De corrigir ainda que o autor desenha ambientes negros e góticos com bastante perícia que muitas vezes parece que são colagens ou montagens de imagens. Mas não são como o autor me chamou a atenção...
Também são interessantes as outras histórias que mesclam ficção com realidade, sobretudo quando tratam dos temas do Nacional Socialismo a que muitas das pessoas da cena Black Metal estão associadas. Estas BDs são um retrato da estupidez da cultura popular extrema, que só dá mesmo para rir! Infelizmente!
PS - entretanto o "louco" do Magius não satisfeito com o livro decidiu refazê-lo e saiu no ano passado, uma edição mesmo satânica pela Autsider Cómics (viva a Espanha com os seus "Juanitos Camiñantes" e "Pijota Harbey"), assim musculada, capa de couro e muito negra, claro!
Magius refez tudo, concentrou-se e esmiuçou ainda mais as relações entre os dois demónios, Euronymous e Vikernes. A narrativa está mais complexa e completa de detalhes mesmo que Magius tenha reforçado de os retratar como duas crianças parvas e mimadas que abriram uma caixa de Pandora para o mundo. Os aspectos do BM ligados ao Nazismo são não aparecem como ensaios como na "edição anterior" (o correcto é escrever "obra anterior") mas ainda assim tal é abordado quando Vikernes vai escavando a sua própria tumba de imbecilidade.
Um livro "pesado" - para alinhar à ideia falsa que a BD é sempre leve - de pesquisa e minúcia, uma igreja narrativa, tal aliás, como tem acontecido com os livros de Magius desde que começou a publicar pela Autsider, destacando-se o Primavera para Madrid sobre os meandros corruptos da cultura "pija" (betalhada), a banca, o governo, a família real... Impresso a dourado o livro, que parece uma barra de ouro, recebeu o Prémio Nacional de BD em Espanha, o que inclui no protocolo almoçar com os reis, que obviamente nunca leram o livro. Viva a leveza da BD!


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