Ao que parece "estive" numa "polémica" em linha (mais uma vez) sem que houvesse realmente "discussão" (outra vez). Desta vez era sobre um fanzine de BD que é um desperdício de tempo para quem o ler. As suas editoras e outras pessoas ficaram indignadas pelo "tom" da resenha crítica mas nenhuma foi capaz de escrever uma linha a reflectir sobre a resenha ou contestá-la, pelo menos no blogue onde foi publicada, se aconteceu em redes sociais, não sei nem me interessa não participo nesse circo. Pouco dias apareceu um fanzine de música, This is the night mail, a "dar-me razão", isto é, tem de ser um fanzine de música a fazer entrevistas a artistas gráficos para que quem goste de "BD" possa ter um bocado de comida para a cérebro. Aparentemente a malta da BD não só não sabe escrever como percebe que deve dar muito trabalho transcrever entrevistas para papel ao ponto de, pura e simplesmente, não as fazerem. Ou será que está tudo na 'net para sabermos dos artistas (?) que nem vale a pena fazer entrevistas para imprimir? Ou então, não vale a pena escrever sobre outros artistas, sei lá... Ou então, a BD não inspira a ninguém a pensar de outras formas e ângulos, como acontece com a música ou dança ou teatro ou arquitectura ou...Mais visível se vê essa diferença entre a BD e as outras artes na sua incapacidade de ter mundivisão, quando apanho livros como este Looking at music. Com o aspecto "cool" e excessos de design cosmopolita (não o tivesse encontrado na excelente Matéria Prima) é um "caderno" de informação catita com meia-dúzia de ensaios sobre música e mais especificamente sobre como "vemos a música". O caso mais óbvio desta temática será a "computer music" em que um texto recuperado de 1997 de Terre Thaemlitz parece ainda estar oxigenado, tratando da resistência em irmos a um sítio ouvir música de um gajo que está provavelmente a jogar ao Solitaire do seu portátil. Mais que resistência, o facto é que se preza em excesso a execução em tempo real do que o músico faz em palco, mesmo que em alguns casos, o que podemos estar a ver possa ser só uma performance física sem intervenção sonora real - como o falecido Zé Maria me contou uma vez, que a maquinaria que o Mike Patton levava para o palco (ou em Fantomas ou em Tomahawk, já não me lembro) era só para o "espectáculo", a maior parte daquilo não fazia nada mas dava-lhe um ar de grande maluco, não só ele tem a fama mundial de animal do Rock como lhe ficará bem parecer um Doutor do Noise a manipular aparelhos electrónicos!
Como justificar a Hatsune Miku, uma voz sintetizada personificada numa personagem Anime & Idol, que enche estádios de Otakus "coolonizados" (nada contra Otakus, o fenómeno é o mesmo em qualquer espectáculo de massas, do Triunfo da Vontade da Riefenstahl ao "Benfica-Porto", do concerto de "Merdallica" aos "dois minutos de ódio" idealizados em 1984 e patrocionados pelo Instagram), ou seja, não há uma pessoa a cantar mas um "robot" lolicon, que pensar sobre isto? Um texto responde, relacionando-o ao teatro japonês e ao Anime, em que o público nipónico (e global) tem consciência dos exageros vocais dos "fantoches" e que por detrás de um fantoche está alguém - mesmo que no caso de Miku a situação seja mais complexa porque é um personagem multiuso com milhares de pessoas a participarem no seu reportório. Outro texto fala-nos do movimento (dança) que acompanha a música, fazendo uma ligação entre kuduristas, praticantes de "Air Guitar" e de "Air Djing" (opá!) está ligada à performance visual que se pode ver em filmes do género "musical" até a videos em linha para se estudar os movimentos dos executantes, tudo isto afecta(rá) o espectro musical, a começar pelo exagero que os músicos actuarão ao vivo - olha o Patton outra vez!
Tudo isto é matéria para discutir em horas de café com os amigos, coisa que nunca irá acontecer na BD. Nunca irei apanhar uma publicação que explore ideias sobre a BD que não seja as fórmulas "boa história" / "mau desenho" / "bem impresso" / "má legendagem"... ou reflexões que não sejam meta remastigado como Aquela cena do Animal Man que ele toma peyote e olha para o leitor e diz "'tou-ta ver!". Talvez por isso que a maior parte dos CoCos do Ilan Manouach rocem ainda a piadas de arte contemporânea. Talvez por isso que mesmo numa conversa em privado com um amigo, por email, sobre a dita "polémica", no final ele afunilou a discussão para a questão do dinheiro na BD - a "paca" foi também a única questão que apareceu num comentário das editoras à minha resenha. Se na música discute-se géneros e subgéneros, "aging", atonalidade, minimalismo, maximalismo, duração extrema de uma peça, performance, discos riscados impossíveis de tocar, a veracidade da gravação, biografias, política, Arte (com "a" maiúsculo mesmo!), etc, na BD é mais bolos bling bling...