sábado, 28 de fevereiro de 2026
Não é um comeback de uma banda de Sludge
David Soares, Pedro Nora e Marcos Farrajota (a fazer de troll dada a sua capsulite) a mini-exposição de originais de Mr. Burroughs na Tinta nos Nervo, após feliz lançamento do livro. Foto de Gisela Monteiro.
quarta-feira, 21 de junho de 2023
Singela Sabotagem
Faleceu, ou pelo menos foi noticiado no passado dia 15, o "Zé Maria da Sabotage". Os aspas significa isso tudo. Ninguém sabe o seu nome como deve ser, a sua data de nascimento e ao certo as suas actividades, de tão resguardada que era esta pessoa.
Da minha parte nada poderei dizer mais do que foi escrito na 'net excepto que lhe tenho em dívida uma cultura de música "Rock" quando ele tinha a sua distribuidora de discos Sabotage nos anos zero deste novo milénio. Não fosse ele nunca saberia quem eram os génios como End, sunn0))), Dälek ou Otto Von Schirach ou os géneros musicais como o Dancehall ou o Afrobeat ou editoras como a Anticon e Web of Mimicry.
Melómano e reservado, pouco mais poderei contar porque mais nada saberei, apesar de me encontrar com ele regularmente quando escrevia para a Underworld / Entulho Informativo, entre 2003 e 2006, e ia ao seu escritório-armazém, em Cascais, buscar "promos". O contacto era mínimo e sentia até um desconforto ao início porque vinha de uma revista ligada ao Metal. Aos poucos provei que conseguia escrever sobre os discos sem ter uma censura metaleira (que havia mas sempre consegui mandá-la à merda!) e com entusiasmo - pudera! dado os discões que recebia!
Lembro-me que a dada altura deixei livros da Chili Com Carne e da MMMNNNRRRG com a Sabotage - para eles venderem em feiras de discos? - e que ele e a sua companheira, Ana Paula, gostavam deles. Tanto que passados uns bons anos sem contacto - quer a revista quer a distribuidora desapareceram com o "fim" dos discos - quando decidem abrir uma sala de espetáculos com nome homónimo, contactaram-me para lhes sugerir alguém para fazer um mural no clube. A escolha recaiu sobre o João Maio Pinto, que quase passou a fazer tudo para eles. É irónico que não houvesse espaço visual para mais e sem "censura metaleira" mas a cultura visual portuguesa sempre foi sempre será limitada, pelos vistos...
Sem uma relação pessoal, a notícia da sua morte entristeceu-me e com dúvidas lá escrevi esta elegia. Ela tinha de ser escrita. Não teria a coragem de ser unDJ sem os terrores e os prazeres proporcionados pelos discos do "Zé Maria da Sabotage". Seria injusto não o recordar por mais "apagado" ele fosse. Seria ingrato senão o agradecesse publicamente, mesmo que o tenha agradecido várias vezes em privado pelas pérolas sonoras.
Obrigado, mais uma vez!
PS - E lembrei-me que foi graças ao Zá Maria que conheci outro cromo, o João Mascarenhas dos Stealing Orchestra, um dos projectos musicais portugueses mais inteligentes, com quem tive a oportunidade de trabalhar com ele na banda sonora do Futuro Primitivo. Memória, onde estás?
segunda-feira, 31 de outubro de 2022
Hero Peligro
Já dizia o REP que o sinal de envelhecimento é quando os teus heróis começam a morrer. Bem sei que é uma simplificação mas cheira-me que começa aqui o meu fim também. D.H. Peligro faleceu este fim-de-semana. Baterista dos Dead Kennedys, banda da minha vida e do Mesinha de Cabeceira já agora pois logo no número 0 gamei montes de imagens de um disco deles para fazer umas montagens "punkis".
Durante anos sem acesso aos discos deles - tal como dos Pixies - porque não tinha guita, a música aparecia em k7s gravadas de sabe-se lá quem. Uma vez apareceu uma fotografia deles numa revista brasileira de música e foi tudo um choque: o Jello Biafra estava de costas - por isso ainda demorei mais uns tempos a ver-lhe a fronha -, os gajos eram punks mas não tinham as cristas gigantes coloridas como os ingleses, os guitarristas pareciam uns "nerds" de uma escola de arte e depois havia um gajo negro. Nada melhor do que isto para dar cabo de todos os clichés estéticos, raciais e musicais. Obrigado DK! Quanto a Peligro admito que recusei-me a ir vê-lo no regresso dos Dead Kennedys sem Biafra, pareceu-me esturro e fraude. Na realidade preferi esperar alguns anos para ver o Biafra sem os DK. Desculpa lá qualquer coisinha.
Rest in Punk!
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
CRAZY!
domingo, 20 de outubro de 2019
Exposição É Só Vaidade! Colecção da Fundação Farrajota (dias 10 a 20 Outubro) @ Casa José Joaquim Santos
![]() |
| imagem: Tiago Baptista in fanzine Cleópatra (2006) |
Workshops por Patrícia Guimarães (dias 19 e 20 de Outubro)
Novidades Editoriais
Instant Gratification (Paperview) de Abdrew Kuykendall
O Colecionador de Tijolos (Chili Com Carne) de Pedro Burgos
...
Exposição É Só
Vaidade!
Colecção da Fundação Farrajota
Os Fanzines poderão ser um artesanato urbano da Era da
Informação, publicações amadoras em marginalidade bibliográfica, galerias
nómadas e precárias, reacções à tirania da História. Desde os anos 30 que
sofrem mutações e provocam dores de cabeças a todos que gostam de gavetas
bibliográficas. Nesta exposição, da colecção particular de Marcos Farrajota,
são mostradas uma série de publicações independentes deste universo, buscando
mostrar a sua riqueza de temas e formatos, tudo graças à sua livre circulação.
A selecção de títulos foi pensada em grandes temas dos
fanzines espalhados em sete mesas -
música, BD, literatura, cultura, política, arte, culinária – para além
de obras de referência e nove capas de formatos grandes que “rockam” (passe o
anacronismo)!
Fanzines de Música
Um dos grandes
géneros de fanzines, que durantes décadas divulgavam bandas e discos que a
imprensa oficial não queria (e continua a não querer) saber.
- Mouco #1 (1999?; Porto) Edu & Luís, fanzine de Indie Pop
- Garagem #1 (2000, Guimarães), Garagem, fanzine acompanhado pelo primeiro disco de drum’n’bass português
- Headless'zine #2 (Set'95; Pragal), Gonçalo Prazeres, fanzine de Metal
- Underworld / Entulho Informativo #16 (Jul'05, Lisboa) Joaquim Pedro, importante fanzine no meio português underground, sobretudo no espectro Metal, Hardcore e Punk. Capa de Fredox (França)
- Ice Cream Star#1 (Dez'94; Lisboa) Elsa Pires, fanzine de música Indie Pop, ligada à editora Beekeeper
- Anita #2 (Primavera 2014, Portugal/China?), Joana Matias, perzine e zine de viagem de Joana Matias na China, este número dedicado à música.
- Neural Therapy #7 (Primavera 1998, Reguengos de Monsaraz) Jorge Mantas, fanzine de Música Extrema
- Sanabra Enxebre (Dez'09, Porto) Latrina do Chifrudo, fanzine de Música satânica
- Maximumrocknroll #396 (Mai’16, EUA), fanzine Punk, criado em 1982 e extinto este ano
- Punk Magazine #17 (Mai'79, Nova Iorque), John Holmstrom, mítico fanzine de Punk, e que vulgarizou o termo nos EUA
Fanzines de Culinária
Vegetariana
Antes da
popularização da Internet, era normal encontrar informação alternativa em
fanzines, como é o caso do vegetarianismo. Comer também é um acto político.
- Grime
+ Nourishment : A Vegan Cookbook (200_, Londres) 56a Infoshop
- Como manter um Panda Gordo (2012,
Porto) Joana Valente / O Panda Gordo
- Lo Pikante Natural (199_?, Portugal), ?, acompanhado com um panfleto anti-MacDonalds
- Comilona : Vegetais e mais (2003,
Caldas da Rainha), Filipa Pontes
- Guia de Alimentação Vegetariana (Out'97,
Lisboa), Cadernos para a Autosuficiência
Fanzines politizados
Os movimentos
libertários desde sempre usaram a “pequena imprensa” para disseminar pensamento
e crítica política. Nesta selecção há um enfoque nas publicações de BDs politizadas.
- Suburbano : Fanzine Implicativo com a Situação [s.n.] (2001?, Lisboa), ?, fanzine de recortes de imprensa, saíram dezenas de números (sem numeração ou data)
- Os Bárbaros #3 (2001?, Coimbra), Hurso
- Plain Rapper Comix #2 (1992?, Inglaterra), Pete Loveday / AK Press, número dedicado à cultura canábica
- Last Hours #17 (2008, Londres), Indy & Ink
- World War Illustrated #49 : Now it’s time of Monsters (2018, EUA), AK Press, fundada em 1980 por Peter Kuper e Seth Tobokman
- It’ Ain’t Me Babe (1970, São Francisco), Last Gasp, primeiro livro de BD produzido inteiramente por mulheres, incluindo as autoras Trina Robbins e Barbara "Willy" Mendes.
- Inguine Mah!gazine #6 (2005, Itália), Coniglio
Publicações de
Referência
Dada a efemeridade e
a falta de oficialidade dos fanzines, começaram a serem editados fanzines dedicados
aos fanzines (directórios ou “metazines”), bem como livros técnicos ou de
História desta cultura.
- Computer Arts Projects #99 (Julho 2007; Inglaterra) Future Publishing, estranha temática deste número desta revista em que explica como replicar as estéticas underground através de ferramentas digitais!!
- D.I.Y. : The Rise of
Lo-Fi Culture
(2005; Inglaterra), Amy Spencer / Maron Boyars
- Whatcha mean, what’s a zine? (2006, EUA), Mark Todd &
Esther Pearl Watson / Graphia
- Catálogo Expofanzines 2000/2001 (2001, Galiza), Colectivo
Phanzynex
- Fancatalog (2008, Almada), catálogo da IX Feira Internacional do Fanzine de Almada, um dos primeiros eventos dedicados ao tema
- Na Silu / By Force :
Submit of cheap laser graphics (2010; França / Sérvia), Turbo Comix
Fanzines e a Literatura
Os fanzines são mais
conhecidos nos meios da música ou BD mas sempre trataram de “mil” assuntos
diferentes. Desde os primeiros de Ficção Científica nos anos 30, passando por
assuntos culturais até aos diários de vários escritores com assuntos tão pessoais
que a designação “fanzine” deixou de fazer sentido (fãs de quê?). Nos países
anglo-saxónicos começou-se a usar a terminologia “zines” ou “perzines”
(personal zines / zines pessoais).
- Divided by Zero (1999; Inglaterra), Noek K. Hannan / Antkh, Fanzine de Ficção Científica
- Mondo Brutto #23 (2001, Madrid), El Viejo de la Montaña & cia, Revista espanhola dedicada ao lixo cultural
- Zundap #11 [#6] (2002?, Lisboa), José Feitor, Fanzine cultural
- Conto de Natal para Crianças (1972, Lisboa), Mário-Henrique Leiria / Forja, Edição de autor com fotomontagens
- Escavações Arbitrárias (2012, Cascais), Rafael Dionísio, Zine de poesia (ou plaquete?)
- Murder Can Be Fun #9 (1998, EUA), John Marr / Slave Labour, comic-book baseado no fanzine
- Murder Can Be Fun #20 (2007, EUA), John Marr, Fanzine dedicado a homicídios
- Safety Zone #3 (1996; Cascais), Afonso Cortez, perzine
- Laca #3 (2003; Porto), A. Afonso, F. Gingão e S. Dias, fanzine cultural, especial tecnologias
Graphzines
Fanzines gráficos são
verdadeiras galerias de arte nómadas, algumas baratas outras com requintes de
luxo com impressão em serigrafia, por exemplo. O movimento mais influente deste
tipo de zines veio de França e os colectivos Bazouka (1972), Elles sont de sortie (1976) ou Le Dernier Cri (1995). Em Portugal
de referir a enorme existência deste tipo de zines nas Caldas da Rainha a
partir dos anos 90 com a abertura da ESAD.
- Nótibó (200_?; Caldas da Rainha),
João Cabaço
- Ex-Man (2001; Porto) Miguel Carneiro
- As aventuras de qualquer coisa
(2018, Lisboa), André Ruivo / Stolen Books
- Mix Tape (2008?, Dinamarca), Allan
Haverholm
- Patau (2012, Coimbra), Manuel
Pereira / Black Blood Press
- El Temerário #8 (2012,
Valencia), Ediciones Valientes
- Hopital Brut #5/6 (2001, Marselha),
Le Dernier Cri
- Revue 1.15 # 24 (2017; França), Loïc
Largier
- Elles sont de sortie #40? (1994,
Espanha), Bruno Richard & Pascal Doury/ 10 000 Humans
Fanzines de
Banda Desenhada
Num meio débil de edição de BD em Portugal, os fanzines foram uma forma de desenvolver obra com a vantagem da sua completa liberdade formal e de conteúdos – formatos minis ou gigantes, numerações negativas, o troco já incluído, nomes jocosos, jogos de narração, paginação em acordeão, mapas, desdobráveis, enfim, o que for necessário para não ser… quadrado! Um movimento que curiosamente aparece antes do 25 de Abril de 1974.
- Herpes Labial (Out’97, Alverca),
Geral & Derradé
- Pintor & Meio #3 (1991?,
Almada?) Rodrigo Miragaia
- Não ‘tavas lá!? Especial Tremor #4 (2017, Chili Com Carne), Marcos Farrajota, BD reportagem do festival Tremor (nos Açores), um desdobrável distribuído ao público na última noite do evento.
- Aleph #2 (Mar’74; Lisboa), José Morais C. de Faria, dos primeiros fanzines portugueses, dedicada ao estudo da BD, número de cisão maoísta
- G.A.S.P. #1 (1992?, Lisboa), [Diniz Conefrey], número especial “BD no feminino”
- Besta Quadrada #3 (2008, Caldas da Rainha), André Caetano & Tiago Baptista, zine que se dá conta neste terceiro número que houve outra “Besta Quadrada” nos anos 90
- Sub #3+5 [8] (Out’99; Lisboa), Pitchu, capa em alcatifa, mais tarde o seu autor andou a promover a ideia que o próximo número teria uma capa em pele humana!
- História em que o autor apaga a própria
história (2012, Lisboa), Xavier Almeida
- The Thin Thing (2008?, Noruega), Dongery
- Que Suerte! # Petróleo [9] (2001, Madrid), Olaf Ladousse
- Sing it out (2008, Noruega), Pitchu, Bendik Kristoffer &
Flu / Dongery
- Há Festa na Selva (1994?, Lisboa), João Chambel
- Lisboa #4 (2008?, Noruega), Sindre Goksoyr & Kristoffer / Dongery, noruegueses obcecados com Lisboa!
- Bio Edificio 421 (2012, Itália), Lök, mistura de tiras de BD com várias narrações possíveis!
- Succedâneo #-29 (Mai’03, Porto), João Bragança, o mais extravagante dos títulos que alguma vez apareceu em Portugal (1996-2006) usando toda a espécie de materiais para embalar a publicação, desde carteiras do Pekemon até luvas de jardineiro. Número dedicado ao trabalho.
- Reencontre Fortuite (1997, França), Carole Toulose & Sébastien Détreq / Des Gribouillis, duas BDs que se cruzam a meio do fanzine
- Petit Paresseux (Jan’19, Angoulême), Thy-Lane Monnet / Trés
Trés Bien
- ? (201_?, China), Nhozigna
- Totentanz (2012, França), Marcel Ruijters / Garage L, impresso em serigrafia, paginado em acordeão
- Boswash (2000, EUA), Nick Betozzi / Lux, desdobrável
- Brilliant Inc. (2003, Finlândia), Mikko Väyrynen, desdobrável
Paula Ferreira (Portugal) – Leitmotiv #1 (1980)
Rigo 23 (Portugal) – Ganmse (1986)
André Ruivo (Portugal) – Retratos (MMMNNNRRRG + The Inspector Cheese Adventures; 2017)
Hetamoé (Portugal) – QCDA #2000 (Chili Com Carne; 2014)
Harukawa Namio (Japão) – Callipyge (United Dead Artists; 2008)
Tommi Musturi (Finlândia) – Specter (Kuti Kuti; 2012)
Amanda Vähämäki (Finlândia) – Cani Selvaggi (Canicola; 2013)
Pauliina Mäkelä (Finlândia) – Mystic Sessions, vol. I (Kuti Kuti; 2006)
Mat Brinkman (EUA) – Multiforce (Picture Box; 2009)
terça-feira, 4 de junho de 2019
Especialista em Shoegaze
domingo, 2 de julho de 2017
sábado, 8 de abril de 2017
Já não fazia isto há muito tempo
| Fotos de Vera Marmelo |
Zine do Tremor aqui
sábado, 17 de dezembro de 2016
Okupa Montijo
A noite no Montijo é tão excitante que até num bar semi-vazio há cadeiras no chão - sem razão para tal e sem ninguém em preocupar-se em levantá-las! Dois produtores culturais comemoram esse acontecimento com esta fotografia.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Zombie Porcalhota Blues
De repente, esteve neste fim-de-semana o Miguel Angel Martin, uma autor espanhol que já trabalhei no passado... Ninguém sabia que ele vinha. Por mero acaso conheci o inglês Savage Pencil que foi ao stand a Chili Com Carne, se ele não disse-se quem era nunca teria adivinhado - a sua acreditação tinha o seu nome real e não o pseudónimo por o qual é conhecido!
Sem NINGUÉM saber estiveram cá dois ícones do underground da intersecção da BD e música. Dois artistas já fizeram trabalhos gráficos para Dälek, Whitehouse, sunn0))), Big Black - iá, as melhores bandas do mundo, meu! Ao contrário do CD em repeat da Rádio Comercial. Uma coisa é ser "comercial", outra coisa é ser "puta"!!! E é esse tipo de música que passa o dia inteiro no Festival (e pelos vistos nas ondas radiofónicas do país)... Eu que não tenho TV nem escuto rádio (tirando a Antena 2 e RTP África) há 14 anos fiquei a saber de chofre que existem uma avalanche de merda portuguesa chamada Azeitonas, Dama e não sei o quê mais... Menos uma razão para visitar o festival, certo?
![]() |
| fotos de Joana Pires |
![]() |
| desenhos a tapar os nulos por Marcos Farrajota |
Mais ridículo da minha parte mas teve de ser para que o velhote não ficar ali a apanhar mais secas com os cromos da BD nas sessões de autógrafos, foi no Domingo em que lhe fui pedir para autografar o que tinha dele (não peço autógrafos há mais de 10 anos) e ironicamente, foi a BD de duas páginas da revista The Wire dedicadas à morte de Lou Reed e uma capa de um CD dos Jazkamer intitulado... Metal Music Machine. Get it!?
Esta semana o Kannemeyer estará presente e teremos um novo livro do Nunsky... A não ser que haja mais surpresas, o resto é prá treta!
PS - Ok! Lembrei-me, na tal expo dobre BD e Espaço ou lá o que é, há dois originais que rendem: um da Krazy Kat e outro de Kim Deitch... E claro há a exposição do Marco Mendes mas que parece que já vi dezenas de vezes, erro profissional.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
FDS apokalips
...Sábado de manhã era só lágrimas nos olhos a ver #myescape de Elke Sasse, filme sobre refugiados da Síria, Afeganistão e Eritreia. Se todos nós sabemos como estas pessoas têm sobrevivido para chegar a esta Europa egoísta, xenófoba e em crise de identidade, é muito mais duro ver as imagens gravadas pelos próprios durante a sua trágica aventura - que podia ter corrido mal como se sabe, sobretudo para os eritreus que são cristãos e como tal sujeitos a assassinato religioso durante a travessia pela Líbia, onde também existe tráfico de orgãos, ou seja, uma pessoa pode ser operado no deserto para lhe tirarem algo, assim mesmo como escrevo! Se há muita literatura ou até alguma BD (há pelo menos uma sobre os campos de refugiados por Joe Sacco) ver estas "imagens em movimento" gravadas com telemóveis dos próprios é deveras impressionante. Elas rasgam qualquer protecção intelectual e frieza mental que se possa ter. Há milhares de coisas que vemos e que se pensa durante a exibição deste filme, acho que nem consigo escrever um décimo nem organizar um discurso coerente.
Desde o humor que os sobreviventes inventam para serem (justamente e só isso mesmo) sobreviventes deste Novo Holocausto ao gesto narcisista da "selfie", que se torna num gesto universal de identificação entre vítimas e os espectadores e que serve também de um retrato cronológico das várias etapas dos refugiados. O telemóvel é uma arma de sobrevivência tal como as redes sociais ajudam famílias e amigos a reencontrarem-se mais tarde - ao contrário de outras catástrofes do passado, em que milhares de laços ficaram separados para sempre. Até a música arrepia, aparece como catarse dos refugiados: um grupo de eritreus perdidos no Mediterrâneo começam a cantar uma lenga-lenga e a bater palmas (a lembrar música etíope) quando aparece um barco que os irá salvar; uma "nova música popular" é criada por árabes nos comboios e autocarros a caminho da Alemanha - "Alemania, Alemania senão nos querem lá saltamos para Spania". E vemos como o fantástico Capitalismo é capaz de criar balcões "à la Western Union" nos antros dos traficantes ou como produz lixo (plásticos omnipresentes) espalhado por todo o caminho deste êxodo catastrófico. Soa a futilidade pensar em Ecologia no meio desta desgraça humana mas o retrato capitalista não estaria completo sem a poluição estar presente ao lado dos cadáveres - não os vemos neste filme mas sabemos que eles andam por ali - e dos mutantes. O caleidoscópio de informação e das sensações é tal que um gajo agarrasse a detalhes que se calhar parecem parvos, talvez para descomprimir disto tudo, afinal, num Sábado de manhã não deveríamos estar antes a ver os Desenhos animados!? Graças ao filha-da-puta do Bush Jr. já não podemos fazer isso! Temos de o agradecer por ter tirado o século XXI da sua "infância"!
Almoço à minhota (ou seja farta e ruidosa), depois uma visita ao Museu de Cinema de Melgaço Jean Loup Passek, um verdadeiro tesouro escondido dos portugueses! Este francês ofereceu o seu espólio a Melgaço e é maravilhosa a colecção que se encontra por lá. A exposição permanente é sobre o pré-cinema com as suas lanternas mágicas, zootropos e praxinoscópios - tudo isto pode ser visto também como proto-BDs não tivesse a dupla Ruppert e Mulot recuperado a tecnologia dos fenaquistiscópios nas suas BDs.
Hop! Sessão da tarde com três filmes! O primeiro era uma ode à Mãe, Histoire Maternelles da Anouk Dominguez-Dezen, filme bonito usando o arquivo áudio-visual da família desta realizadora suiça-brasileira. Se é como alguém diz que todos os alemães são nazis até prova contrária, The Guardians de Benjamin Rost prova bem isso ao mostrar uma escola de seguranças, onde vemos um bas fond alemão a aprender a ser segurança profissional. Terror! As ligações à extrema direita não são aprofundadas mas com dois pingos de testa (coisa que falta nos seus protagonistas) percebe-se o que aquela gente é ou gostaria de ser. E se as "louras-burras" (com rottweilers) chumbam aos exames da escola, ainda tem 20 tentativas para conseguirem o seu diploma de Segurança. Vinte são as vezes que a activista palestiniana Sheerin of Al-Walaja foi presa pelos "nazisraelitas". Vemos uma das vezes no filme de Daz Chandler tal como a vemos a usar a palavra e a não-agressão contra uzis e soldados, é uma inspiração telúrica para Humanidade.
Claro que um gajo sai arrasado de mais uma sessão... Nem quer ver um galego deprimente (é o que os galegos e portugueses têm em comum além da península ibérica e língua) a emigrar prá deprimente Suécia. Que se lixe o cliché "fui para longe para me encontrar no ponto de partida", por favor...
Noite... O Inferno começa a libertar as chamas na Terra. My Enemy My brother de Ann Shin é daquelas histórias de meter o Paul Auster num canto. Um iraniano e um iraquiano que estiverem frente a frente no Conflito Irão-Iraque (entre 1980 e 1988), encontram-se 25 anos mais tarde no Canadá. Ambos ajudaram-se, uma vez um deles não matou o outro no meio de Khorramshahr, mais tarde o que não levou uma bala salva o "atacante" de se suicidar. Não há ditadores que aniquilem totalmente o espírito humano, já as máquinas... Behemoth de Zhao Liang ganhou o prémio de melhor filme deste festival e é merecido. O filme cita a Divina Comédia mas ele próprio já é um Inferno. Mostra imagens de minas monstruosas e os seus trabalhadores, a saúde e morte dos mineiros, o desastre ecológico, a destruição de habitats naturais de populações e o desperdício final - depois de tanto desumano esforço, o resultado é a criação de aço para a construção de centenas de cidades-fantasmas que existem na China. Cidades horríveis de prédios enormes todos abandonados mas com funcionários da limpeza nas ruas. O absurdo chega ao limite especialmente porque as imagens gravadas parecem que estamos algures num planeta de insectos. Um gajo sai da sessão e quer é ir dormir. Já reza para que lhe dêem descanso no Domingo...
![]() |
| MNRG people em Melgaço... |
Não termos nem Paraíso nem Inferno é ficarmos intoleravelmente despojados e sós num mundo sem espessura. Dos dois reinos perdidos, verificou-se que era o Inferno o mais fácil de recriar. - George Steiner in No Castelo do Barba Azul (Relógio D'Água; 1992 - orig. 1971)
Domingo foi mais "soft" e esquecemos por uns tempos esse Inferno. De manhã no belo parque de Lamas de Mouro viu-se Os olhos de André de António Borges Correia, um "doc-drama" usando actores não-profissionais e que interpretam os acontecimentos que lhes aconteceu, com um pózinho de ficção aqui e acolá. Um drama abala uma família de Arcos de Valdevez mas a persistência do pai consegue vencer as dificuldades da vida. É outro humano inspirador, o senhor António Morais, em que pelo menos contamos com um "final feliz" e um encontro seu com o público - incluindo os seus sete filhos! Foi um evento meio-anarca...
Depois do almoço, decidimos (eu e a minha mulher) de regressar a Lisboa, pensava eu que seria uma viagem quente mas calma para lutar com as mais de cinco horas de viagem de carro entre Melgaço e a capital... O que aconteceu foi revoltante em sintonia com o Inferno que transformá-mos a Terra, foi presenciar incêndios pelo Minho inteiro e depois, perto de Antuã, ficar parado na auto-estrada durante três horas! Sim demoramos mais de oito horas, três delas no meio de centenas de carros e camionetas sem sabermos o que fazer. Rádio? Nada serve, só para manter as pessoas alienadas com futebol e música de merda, notícias sobre o que se passava? Tanto como quando foram os atentados em Paris - nessa noite íamos para o Porto e as notícias que saíam sobre Paris eram às mijinhas. Programas evangélicos em compensação havia a pontapé!
Por fim, quando acontece algo assim, pergunta-se porque raios existem auto-estradas nesta lógica que esta tem de ser pagas e como tal com acessos muito reduzidos. Se o incêndio tivesse pegado nos carros teríamos um Matanças maior que o Andanças... Mas como ainda somos humanos, até houve um casal que ofereceu água sem fazer um tostão. Onde estava a bófia ou o Estado para tal? Para que servem os 21 euros e tal de portagem? E as estações de serviço com os preços acima da média? Que pulhas! Era bom que as chamas fossem até às vossas casas destruir tudo... É o mínimo que vos desejo!
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Homenagem a Terminal Tower
O Terminal Tower saiu em 2014 e nesse mesmo ano subi o Douro passando por estas construções que evocam a estranheza do livro...
domingo, 24 de abril de 2016
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Marcos na Fátima da BD!
![]() |
| foto de Jucifer / Julho 2007 |
Como Surgiu na tua vida, a ligação à
Banda Desenhada? Quem foram as tuas grandes influências e como te caracterizas
em termos de leitor de BD?
Desde muito cedo que os meus pais
compraram-me BDs, talvez com 4 anos (?), primeiro com revistas Disney ou o Fungagá
da Bicharada, depois álbuns do Astérix e tal... Sempre fui acompanhando a
BD pela adolescência e juventude ao ponto de querer fazê-la, editá-la, etc...
mas a grande mudança deu-se com a revista Animal e com os zines dos anos
90 que publicavam BD que tinha relação com a vida e promoviam contracultura.
Felizmente não me fiquei pela BD de fantasia e de escapismo, como acontece
nessas idades... Receio que se não tivesse descoberto outro tipo de BD teria
feito como muitos jovens fazem que é deixar de ler BD porque não encontram
“textos” que tenham relação com eles.
Não me defino como “leitor de BD”, sou
apenas leitor, obrigado! Raramente leio “BD trash” da mesma forma como não vejo
filmes de Hollywood, o que não impede de vez enquanto ter alguns “guitly
pleasures”… Mas em geral, se não há BD interessante para ler, há outras coisas
para ler como ensaio ou romance ou ouvir música – já agora aconselho o Voltaire's
Bastards: The Dictatorship of Reason in the West (Free Press; 1992) de John
Ralston Saul, que curiosamente tem um capítulo dedicado à BD!
Influências talvez deva referir Fábio
Zimbres, Harvey Pekar, Daniel Clowes, Peter Bagge, Joe Sacco,... mas a maior
parte das influências passaram mais pela música Punk e Industrial.
És provavelmente a personalidade mais polémica no seio da BD portuguesa. Quer em entrevistas tuas, quer em opiniões que emites, quer ainda em comentários sobre ti em diversos meios ligados à BD, as críticas e por vezes até em linguagem mais acesa, acabam por vir sempre ao de cima. Como reages a isto e o que pensas sobre esta constante guerra que travas com os mais diversos protagonistas dentro do panorama da BD nacional?
Não penso porque nem os leio – sei que se
tem escrito umas coisas porque alguns amigos e conhecidos me tem avisado disso
mas não vou ler porque polémicas em blogues lidos por 30 pessoas não me parece
que sejam polémicas e mesmo que fossem 100 ou 200 continua a ser um número
baixo! Nem acho que haja polémica porque isso teria de incluir “uma discussão”
e não houve nenhuma discussão comigo, nem poderia aliás porque grande parte do
meio da BD é muito pobre intelectualmente ou culturalmente, fixado numa subcultura
mercantilista que se auto-devora e que não consegue pensar fora da caixa -
neste caso seria “quadradinho”!? Para mim, a BD tem tanta ou mais importância
que a música ou o teatro, só o facto de se aceitar em usar o termo “nona arte”
mostra que se quer ser hierarquizado e humilhado – bem por baixo, pelos vistos,
porque fica em nono lugar!
Não travo nenhuma guerra pessoal com
ninguém, vivemos numa democracia que cada um pode emitir as suas opiniões
publicamente. É o que eu faço bem como outras pessoas, a diferença em relação à
BD é que o meu objectivo é rejeitar os seus clichés e torna-la acessível a quem
não a lê, as outras pessoas que divulgam BD preferem manter esses clichés para
garantir a sobrevivência do seu “clube secreto de rapazes”, da sua subcultura
canina, do status quo da “nerdice” e da eterna juventude… O Tempo será
cruel para estas pessoas.
Lembro-me do anúncio de uma apresentação que tiveste na Biblioteca de S. Domingos de Rana em 2014, sobre a evolução da BD independente em que só o próprio anúncio gerou logo polémica, quando se referia aos "tontos dos bedófilos". Quem são os bedófilos (tontos)? Que significado tem esta afirmação e em que contexto? Isto era mesmo com o intuito de insultar e/ou é a tua maneira corrosiva de colocar as questões?
Outra vez isso da “polémica”??? Acho que
não houve nenhuma polémica – saiu no Expresso? Ou no P3? Não me
lembro… Acho que foi só um pateta que enfiou a carapuça! Se se sentiu ofendido
é porque a carapuça lhe serve, coitadinho… Pelos vistos, como sempre, aquilo
que começa como uma piada parece tornar-se sério e até razoável. “Bedófilos”
foi um gozo inventado há alguns anos por três pessoas num jantar e que tenho
usado (e outras pessoas entretanto) de forma provocatória para definir pessoas
adultas que lêem BDs para crianças ou jovens… e sem querer, a expressão acusa
os fanáticos da BD (que só consomem o que é produto industrial) de ajudarem a
propagarem a BD como algo infantil e juvenil.
Os exemplos nos dias de hoje são claros e
piores do que nunca, aliás nos anos 90 nenhuma secção de BD de um jornal fazia
isto de misturar “patinhas” com livros interessantes como o Logicomix,
por exemplo. Há hoje dezenas de blogues a bombarem notícias sobre
patos/super-heróis/michel vaillants e raramente as (poucas) BDs adultas que são
editadas num país como nosso, que tem um mercado editorial fraquíssimo de BD em
geral. Seriam essas BDs que deveriam ter um foco maior de divulgação e até de
discussão para atrair pessoas que não lêem BD mas que se poderiam interessar
por ela através dos temas: ciências, História, assuntos africanos ou do
Médio-Oriente, sexualidade, sociedade, etc… Pergunto que credibilidade tem um
sítio em linha ou blogue que divulga de igual para igual a BD infanto-juvenil e
a adulta? É como colocar livros ilustrados da infância ao lado da pornografia -
que aliás é o que acontece nas livrarias: Manara ao lado do Stilton e do
Maus só porque tudo é BD! De outra forma, seria como ter notícias de
música Pimba num sítio de música Clássica ou de Jazz ou de Rock. Se ao menos
assumissem uma secção infanto-juvenil para separar estes tipos de informação
mas não… A BD é um meio com várias vertentes, tal como na literatura, na música
ou no cinema, e se pegares numa revista de literatura ou de cinema, as secções
estão bem definidas na publicação.
Desde sempre que reparo que quem divulga
BD não tem critério nem pensamento crítico e escuda-se com “sou apenas um
divulgador”, que parece ser uma desculpa de uma criança sem educação e
irresponsável. Mesmo só sendo “divulgador” tem de haver critério da mesma forma
quando entras num restaurante não pedes pratos que não gostas, certo? O que
pensará uma pessoa que nunca se interessou por BD e que vá parar a um blogue
desses? Acho que a resposta é fácil... Acho estranho que os “bedófilos” não
sabem distinguir as coisas, o que dá pena porque percebe-se de quem diz gostar
de BD é o seu pior inimigo. No fundo, estamos a falar com pessoas com sérios
problemas emocionais que não conseguem deixar a infância onde ela deveria
estar… Lá para trás!
Não achas essa análise algo radical?
Se há blogues generalistas sobre BD, não será natural que tentem incorporar um
pouco de tudo e para todos os gostos? Uns falarão mais de umas coisas que de
outras com certeza, mas tu próprio admites que começas-te por ler revistas
Disney por exemplo. Não será essa divulgação também importante para trazer
novos leitores para a BD?
Radical em quê, Rui? O que não percebes
aqui? Ainda estamos no patamar de que “tudo é BD”, é isso? Acho que exprimi bem
o pensamento do que acho desse “generalismo”… e também acho que que uma criança
de 9 anos não visita o Central Comics (por exemplo) para ver se já saiu mais um
número do “Patinhas” nesta semana… Tal como nenhuma jovem fã das bandas do
Morangos com Açucar consulte o Blitz ou a The Wire para saber do
último “single” dessas bandas! O que te faz confusão aqui? Se bem me lembro,
uma criança tem um universo próprio e sabe procurar o que quer NEM quer saber
de outras BDs para nada… até um dia! E nesse dia que quiser outras coisas
também encontra porque a ‘net é infinita em informação… mas justamente se um
jovem de 13 ou 16 anos começar a querer ler sobre o mundo onde vive vai ter
mais dificuldades em descobrir o Palestina do Joe Sacco do que afinal o
“volverini” não morreu e vai voltar já daqui uma semanita…
As revistas não mensais? Não sabem ir a
uma banca ver o que saiu? O que não é preciso (pelo menos eu não preciso) é
visitar sítios de BD e apanhar com isso todo o tempo – e isso, inclui os Texs,
Simpsons, Tartarugas Ninjas, Turma da Mônica, Marvel e DC, todas essas coisas
para jovens – ou pelo menos sem distinguir os conteúdos. Acho que são segmentos
de mercado diferentes. Claro que podes encontrar coisas boas mesmo na lixeira
comercial – o Carl Barks será o maior exemplo disso – mas para tal é preciso sentido
crítico, coisa que não há nessa “divulgação”! É por isso que não acompanho os
blogues portugueses (excepto os críticos como os do Pedro Moura, Sara
Figueiredo Costa e Domingos Isabelinho) porque são chatos, dirigidos para
crianças e jovens (tenho 41 anos e mesmo que tivesse ainda agora 17 anos não
iria visitá-los, acredita!) e devem fazer “polémicas” para se entreterem dado a
modorra de não fazerem nada de criativo – já nem digo intelectual… Mas tudo
isto ainda é mais perverso! Se uma empresa desse tipo de BD não tem um sítio
próprio para divulgar o seu material e para fidelizar os seus clientes é porque
não sabe usar a ‘net… mas se pensarmos bem, nem precisam, têm montes de patetas
a trabalharem por eles, não é? Já é mau “as Finanças” porem todos nos,
cidadãos, a trabalhar de graça quando preenchemos em linha os nossos IRS mas
pronto, é o Estado, somos obrigados a cumprir essas tarefas, nada a fazer, é a
Lei! Agora, patetas a trabalharem para companhias ultra-capitalistas de graça é
que não acho normal!!! Nem pateta será,…
Eu acho que estamos aqui também a falar de gostos, tu preferes ver
mais certos tipos de conteúdos e do que outros e preferes consultar sites que
te dêem esses conteúdos de preferência com critica. Muito bem, eu respeito, mas
no meu caso a minha intenção é ter uma variedade razoável, obviamente dentro
dos meus gostos mais pessoais, visto ser eu que os escolho. isto em termos de
critica, mas também optei por ter outro tipo de artigos, como a divulgação
pura, notícias, eventos, entrevistas e com uma amplitude que abarque desde os
mais novos aos mais velhos visitantes. Como digo, no meu caso optei por esse
estilo, mas claro que não se agrada a todos e tu és um bom exemplo disso
(risos).
Quanto à questão da divulgação de borla, é verdade, mas ter sites
especializados traz algumas vantagens, desde logo o alcance, chega a muito mais
pessoas. Eu pelo menos prefiro ir a um site onde encontro várias coisas sobre
um tema que me interessa, do que ir a 20 sites ver o que cada um tem de novo.
Um site angariador, gera mais interesse e é muito mais dinâmico, conseguindo
angariar mais visitantes e logo acaba por ser mais vantajoso que esse tipo de
site faça uma boa divulgação. Mesmo isto sendo assim, ainda há quem ache,
dentro de algumas editoras, que dar só a este ou aquele é que é bom, mas isso
são outros quinhentos.
Nada contra “sites angariadores” como
dizes mas creio que poderiam ter mais cuidado como apresentam a informação… e
pelos vistos não te consigo mudar de opinião que existe BD para vários públicos
e que não há vantagens em juntar alhos com bugalhos, muito antes pelo contrário.
Se ainda tens pancadas para ler patos e super-heróis, o problema é teu e não
meu, tens a vantagem de poderes consultar esse monte de blogues. Eu não… boa
sorte!
Outra das grandes críticas que te fazem, tem a ver com o facto da associação que geres, a Chili Com Carne, receber quotas e incentivos do estado para produzir BD. Afirma-se que isso torna as coisas mais fáceis, pois tens verbas que as outras editoras no mercado não têm, o que faz com que publiques o que te dá na cabeça e edições de qualidade duvidosa, sem grandes preocupações orçamentais. Como reages a estas criticas?
Nunca fui acusado disso, pelo menos nunca
li isso mas acaba por ser muito engraçado saber disto porque quem escreveu
nunca teve contacto comigo – aliás, connosco, porque a Associação não é
dirigida exclusivamente por mim, existe uma Direcção eleita e um grupo de
consulta editorial de 11 pessoas. Tomando como verdade a tua pergunta então
temos 11 pessoas “ irresponsáveis e de qualidade duvidosa”, pelos vistos, pouco
importa que algumas delas sejam Designers de sucesso ou académicos de
referência!!! Quem escreveu isso só pode ser um covarde porque não só escreve
coisas que não conhece mas o pior é nem coragem de perguntar o quer que seja e
vomita tretas como aqueles senhores no café a falarem da futebol ou política –
quem os ouve até pensa que são profissionais...
Fico muito confuso que alguém ache que os
nossos livros não têm qualidade mas como disse o Tempo é um senhor cruel, e vai
fazendo “vítimas”: havia um crítico que dizia que as “minhas” edições eram um
desperdício de dinheiro em 2005… Hoje só diz maravilhas delas! Há quem diga que
o que se edita no mundo, 99% dele é lixo... Só concordo que digam que os nossos
livros sejam lixo se aceitarem o que a Devir, Leya, Polvo, G-Floy, Mundo
Fantasma, Plana Press, Kingpin e El Pep também sejam lixo! O 1% de boa edição irá
para a MMMNNNRRRG, claro!
A CCC faz livros por gosto, dedicação e
com sacrifícios pessoais. O que faz confusão a muitos é pensar que com livros
tão baratos e com descontos conseguem ainda fazer lucro para reinvestir... Mas
é possível porque não temos gastos de estrutura como uma empresa. Faço questão
do “bold”: Todo o nosso trabalho é voluntário!
Os “incentivos do Estado” (faço aspas
porque parece pomposo, para além de irónico porque o Estado não ajuda quase em
nada na criação de BD! Quem escreveu é porque não sabe de nada mesmo!) são
valores bastante baixos, cobrem 30% de custos de impressão e/ou custos
correntes da associação. Novamente a “bold”: Ninguém é remunerado pelo seu
trabalho: autor, editor, designer, vendedor, revisor de texto, tradudor, etc...
Não sei se a Devir ou a Polvo pagam bem ou mal aos seus tradutores e designers
nem me interessa MAS pagam! A Devir tem escritório e um armazém, etc, etc,… ou
seja mais custos! Nós o que temos para sermos uma “editora” são computadores
pessoais e armazenamos livros em nossas casas… e é isto! Todo o dinheiro que
geramos é exclusivamente para pagar gráficas e transportes/correios. Os
“incentivos do Estado” não ultrapassam os 2000 euros por ano – se cada livro a
imprimir em média custa 1200 euros e se fazemos mais de cinco livros por ano
(mais custos de CTT e transporte que podem ir a mais de 1000 euros anuais) é só
fazer as contas para pensar como esses “incentivos do Estado” valem no seio das
contas da Associação.
Quanto às quotas dos sócios, elas servem
para descontos nas nossas edições e noutras edições nacionais e estrangeiras –
a CCC é uma associação sem fins lucrativos, por isso, o dinheiro que gera não é
para distribuir pelos corpos dirigentes como numa empresa mas sim para
reinvestir sempre em novos projectos com os seus sócios. Mas desde o ano
passado que o dinheiro das quotas serve para dar ao vencedor do concurso dos
“Toma lá 500 paus e faz uma BD!”, que achamos muito mais interessante canalizar
esse dinheiro dos sócios para apoiar uma obra / autor do que servir apenas para
“consumir”!
Se há patetas que acham que se pode
trabalhar voluntariamente sem receber, só mostra como são escravos do sistema.
A nossa satisfação ou ganho pessoal é saber que fazemos bons livros, que tem
reconhecimento, que cria comunidades de criativos e que promove a leitura! Quem
nos acusa de termos facilidades nunca fizeram nada na vida para saber como se
faz ou quanto custa fazer. Se fizerem contas, é verdade que as quotas e
subsídios ajudam a manter a saúde financeira mas se fossemos uma empresa
privada esses valores seriam mínimos e nunca cobririam o trabalho voluntariado
dos associados e membros da Direcção. Mais, o facto de recebermos “incentivos
do Estado”, eticamente fazemos preços de capa mais baratos possíveis porque a
CCC não é uma empresa de mercado para estar a fazer concorrência com ninguém.
Somos promotores culturais e não nos verás a concorrer com a Bertrand para
editarmos o Persépolis… Editamos justamente o que “ninguém” quer:
autores novos, trabalhos com temas mais ou menos ousados, que no seu tempo não
encontram editores com coragem nem inteligência para os editar! Temos pouco
dinheiro mas sabemos geri-lo bem, e talvez por isso que nos tenhamos aguentado
com 20 anos de actividade, com um catálogo respeitado por muitos e com
capacidade em fazer imensas parcerias (Thisco, Wormgod, El Pep, Faca Monstro,
The Inspector Cheese Adventures, Ruru Comix, You Are Not Stealing Records, SWR,
jazz.pt, Milhões de Festa, Festival Crack), por isso acho, mais uma vez
irónico, perguntares se “ando à bulha” com todos, quando pelos vistos
conseguimos fazer bastantes sinergias a vários níveis: sócios, autores,
criativos multidisciplinares, instituições, privados, entidades internacionais,
etc...
Precisamente por querer saber um pouco
mais sobre esses meandros, tenho insistido nestes pontos, porque na verdade,
também pouca informação encontrei parecida com o que nos tens explicado e por
isso me pareceu pertinente este confronto, mas passemos à próxima pergunta ...
Quantos sócios tem a associação?
Tendo em conta que a quota inicial é de 15 euros e as Renovações de 10 euros
anuais, se tivermos em conta que os sócios tem logo à cabeça um desconto de 50%
nas edições, não me parece que as receitas das quotas possam servir como grande
financiamento. Estou a pensar bem ou nem por isso?
Vamos ter 150 sócios em breve... mas nem
metade paga as quotas anualmente, há pessoas que desistem, outras que voltam
mais tarde, etc... é um caos de movimentações como noutra associação qualquer.
As quotas ajudam como uma muleta MAS não uma prótese de tecnologia de ponta!
Seja como for, para esses taradinhos da “livre concorrência” e neoliberalismo,
olhem só a grande surpresa do dia: são as vendas das edições que realmente
fazem a Associação continuar a editar! Porquê? Porque há mesmo pessoas que
gastam dinheiro nos nossos livros “de qualidade duvidosa”!
Seja como for nada temos a esconder na
CCC, tanto que sempre que alguém nos pede ajuda disponibilizamos informações
sobre gráficas, lojas, como fazer, etc… mas acho estranho se há pessoas a dizer
isso de nós, como se fossemos os únicos… Não pensaram se noutras editoras? Que
eu me lembre a Polvo sempre teve “incentivos de Estado” ou a Âncora ou outras
em projectos como o livro do Quim & Manecas da Tinta da China ou a
co-edição do catálogo do Alan Moore pela Devir e CNBDI… E até indirectamente
podes falar em “incentivos de Estado” para os livros do José Carlos Fernandes,
Diniz Conefrey e Miguel Rocha, cujos trabalhos antes de serem editados foram
frutos das Bolsas de Criação Literária, sem elas os autores não teriam feitos a
Pior Banda do Mundo, Livro dos Dias e Beterraba que mais tarde
foram editadas pela Devir (portuguesa, espanhola e brasileira) - bem como o
David Soares que também teve Bolsa com A Grande Sala de Cinema publicada
na sua editora Círculo de Abuso… Cada um ao seu peso e medida mas isto para
dizer que não percebo essa perseguição à CCC, no fundo deve ser uma atracção
sexual por nós que não sabe explicar nem consegue exprimir. Espero que saiam
desse “armário-quadradinho”...
Qual a relação ente a associação
Chili Com Carne e o selo mmmnnnrrrg?
A CCC promove e distribui a MNRG – tal
como o fez no passado com outros projectos editoriais dos nossos sócios como a
Opuntia Books, Imprensa Canalha, El Pep, Plana Press, zines, discos, etc...;
geralmente andam juntas em alguns eventos porque sou um dos elementos em comum
entre os dois projectos mas ficamos por aqui. A MNRG é um projecto meu criado
em 2000 e desde 2010 que é partilhado com a Joana Pires...
Como são feitas de um modo geral, as
escolhas de editar algo pela CCC ou pela mmmnnnrrrg?
Acho que seria bom leres os livros antes
de fazeres uma pergunta destas, não está na cara? Num B-A-BA diria apenas que a
CCC é mais virada para edições colectivas e nacionais, a MNRG são livros a solo
e internacionais... Pegando nos conteúdos de uma e de outra, acho que dá para
ver as diferenças! Tu que no teu sítio dissecas tanto as BDs é que devias
escrever sobre as diferenças, não?
Por acaso não concordo que faça aqui uma
grande dissecação das obras. Tento até nem o fazer muito e deixar os leitores
explorarem por eles, salvo algumas excepções quando realmente gostei bastante
do livro, ou algo mais cuidado quando se trata de edições portuguesas. Mesmo
assim foi só a partir de certa altura, ainda tenho coisas revistas que não
escrevi uma palavra e que adoro. Pode parecer um contra censo, mas apesar de
ter este sitio, o meu forte não é a escrita, é a leitura e por isso faço muito
pouca análise e não me aventuro muito, e também por isso aceito a crítica
(risos)
Pois acho que deverias arriscar mais em
seres mais analítico… de vez em quando vou ao teu blogue e não sei por onde me
virar, devo estar a perder alguma série com qualidade no “mainstream” que
divulgas - tipo “o próximo Grant Morrison” - mas como não os realças, a mim
parece-me tudo igual… Naturalmente devo estar enganado mas ainda assim,
pergunto-te, para quem tu dedicas tanto tempo o blogue, para quem tu escreves
ou quem te lê?
Faço por gosto, tal como voçês na
associação o fazem com certeza por gosto, por querer que o mercado de BD
cresça, tentar divulgar o máximo para pelo menos não ser por ai que a BD não
cresce em Portugal, por me dar imenso gozo fazer entrevistas, como esta e dar
notícias de muitos dos nosso autores a trabalhar lá fora para grandes mercados.
Este tipo de coisa é essencialmente o que me move, mas o entrevistado aqui é tu
e não eu (risos).
A última parte não te sei responder, mas
posso dizer-te que o blogue com pouco mais de um ano teve uma adesão bastante
razoável. Nesse tempo teve perto de 200.000 visualizações de artigos, mesmo
contando que haja uma percentagem de acesso spam e outros, para mim é uma
excelente marca. A classificação da audiência não te sei dizer qual é. Quem
são? Idades? Esse tipo de info não consigo obter, mas a esmagadora maioria são
acessos de Portugal, como seria de esperar e um pouco de todo o pais.
Com certeza que encontras alguma coisa
que te interesse aqui e a visualização até acho bastante fácil, nem precisas de
ver os artigos na sua totalidade, se te interessar carregas no artigo e voilá,
caso contrário, se as gordas não te interessarem, voltas no dia seguinte para
ver as novidades (risos). Mas também isso é uma questão de gosto, uns gostam do
visual e funcionalidade, outros nem tanto. Outros gostam da variedade e outros
nem tanto.
Mas eu adoro variedade!!! Só não misturo Ídolos
com Noberto Lobo, “Casados de Fresco 7” com David Lynch, Turminha da Mônica com
Corto Maltese, desculpa… o que não me impede de ler G0dland ou Preacher “just
for fun” e depois o Yuichi Yokoyama ou Rupert & Mullot – actuais vanguardas
da BD. Desculpa não conseguir ler o Disney especial “Brincadeiras” com 41 anos…
E o que podemos esperar em 2015 em termos editoriais da CCC e também da mmmnnnrrrg?
Mais livros de “qualidade duvidosa”!!! Os
corpos degenerados dos “bedófilos” vão se contorcer de demorada volúpia! O
terrível QCDA vai voltar com mais quatro autores horrorosos! Haverá um Zona
de Desconforto 2 com autores estrangeiros pavorosos! O Bestiário
Ilustríssimo 2 é já em Fevereiro mas isso não é BD logo não interessa! É só
mais outro caso de decadência intelectual – olha mas que fala de BD uma vez ou
outra no meio de tanta música! Da MMMNNNRRRG nem se fala! Os exemplos são do
pior e até tenho vergonha de os divulgar!!!
Fora de brincadeiras, os livros que
fazemos são muito orgânicos, surgem porque os artistas precisam de espaço para
editarem ou serem desafiados. Olha o Nunsky que desde 1997 não fazia nada, ou o
Francisco Sousa Lobo também sem livros de BD desde 2003… Estes dois autores de
repente produziram mais livros do que podemos editar… Pode ser que saiam também
em 2015 mas tudo é imprevisível nem nos regulamos pelas regras do comércio – se
elas existirem! Sai quando tem de sair! É isso que torna as coisas excitantes para
todos!
Há pouco tempo e em relação ao prémio
de melhor livro para "Zona de Desconforto" no festival Amadora BD
2014, não te mostraste particularmente entusiasmado com o facto. Na prática se
isso se traduzir em mais vendas óptimo, caso contrário não vale grande coisa. O
director do festival parece até ter afirmado que lhe tinhas garantido que irias
estar presente para receber o prémio. O que aconteceu para não teres estado
afinal presente? Independentemente de concordares ou não com o modelo de selecção/eleição
dos prémios, não ficaste nem um pouco orgulhoso com a distinção?
Não mas a minha mãe achou piada aos
Pacóvios cunhados na placa de metal! Não senti nem sinto nada pelo que
aconteceu porque a Amadora sempre premiou sem critério, por isso, a mim
parece-me roleta-russa: hoje somos nós os atingidos pela bala, amanhã é outro
qualquer, tanto faz... Não fui porque tinha um jantar marcado com amigos e isso
é mais sagrado que ir ver “bedófilos” cheios de raiva por termos ganho um
prémio qualquer – podia até ter piada mas os amigos estão sempre em primeiro!
Realmente o Nelson Dona ligou-me para ir
à cerimónia mas pensei quem iria ganhar alguma coisa da CCC seria o Francisco
Sousa Lobo como O Desenhador Defunto e não o Zona de Desconforto.
Sabia que o pai dele ia à cerimónia por isso achei que estava tudo bem.
Paciência… fica prá próxima!
Normalmente vemos a participação da
CCC em eventos mais alternativos, tirando as presenças em Beja, normalmente
passa quase tudo por pequenas feiras/eventos ou exposições. Há também muitas
parcerias com algumas entidades lá fora. Para além destas que mencionei não
gostarias de alargar os horizontes e ter uma divulgação mais abrangente em
eventos de maior porte? Em principio no próximo Amadora BD os vencedores da
edição anterior têm um lugar de destaque, com exposições e outras
participações. Como vai ser a participação da CCC no próximo Amadora BD?
Não sei, a Amadora que diga o que quer
fazer, como quer fazer e se está aberta a sugestões... até porque fazemos 20
anos de existência e deveríamos fazer algo de institucional para comemorar – ou
talvez não! A razão porque participamos mais vezes em eventos “ pequenos” é
porque achamos que os grandes eventos de BD são autofágicos e não estão
alinhados à cultura que respeitamos. E se o “porte” importa, então as nossas
idas a Angoulême são o quê? E a exposição no Festival de Helsínquia em 2011 ou
no ano passado em Treviso? Ou o Crack? Quem não viaja a estes eventos se calhar
não percebe o “porte” deles… E “alternativo” não significa não ter público ou
ser “pequeno”, aliás, a última Feira Laica registou 900 pessoas em dois dias de
evento – contando que não se fazia publicidade quase nenhuma, o evento era
quase sempre ignorado pela imprensa, o sítio que recebeu a Laica era pouco
conhecido, etc, etc… é incrível que 900 almas tenham lá ido, não?
Porque achas que num mercado tão
pequeno como o português existem tantas pequenas guerrilhas à volta da BD? Não
digo tanto entre editoras, mas no geral, há muita crítica em várias direcções,
muitas picardias e pequenos poderes que se atropelam em vez de remarem todos no
mesmo sentido. A que se deve isto na tua opinião?
Mas se calhar é impossível remar com
pessoas do Pimba, não? E não te sabia fascista!? Remar todos para o mesmo
lado!? Significaria que o Janus ou o André Coelho não mereciam ser editados!?
Que isso quer dizer? Cada um dá o rumo que quer, era o que faltava alguém impor
uma vontade única.
Eu e a CCC estamos bem com as outras
pessoas que até nem são da “mesma onda” como o Jorge Coelho que desenha para a
Marvel mas até já publicou em várias edições nossas… Não temos inimigos que eu
saiba a não ser um pateta! Já agora, quer a CCC quer a El Pep, Polvo e Kingpin
somos distribuídos pela mesma empresa. Se isso significasse alguma coisa até se
podia dizer que estamos a remar no mesmo sentido!
E o que queres dizer com “pequenos
poderes”? Aonde? Os únicos poderes na BD que existem são os festivais
camarários da Amadora e Beja que até são bastante eclécticos e conciliadores –
até a Amadora gosta da CCC! Não vejo guerrilhas em nenhum lado! Se calhar
referes-te ao meio virtual mas olha que a vida real é que é! O “Second Life” da
‘net é apenas ilusão para os impotentes produzirem a sua mitomania que será
colhida pelo ruído da ‘net...
Eu não me revejo em nenhuma conotação
política, rego-me pelo bom senso e pouco mais. Mas talvez tenhas razão quanto à
interpretação que possa ter dado, na verdade, e isso admito, vivo muito no
mundo virtual...
“Fascista” era uma provocação como é
óbvio… É que não percebo mesmo o que é isso de “remar no mesmo sentido”…
O que destacarias de mais positivo e
mais negativo no mercado Bedéfilo em Portugal?
É o que é, um espaço em aberto que tem de
ser alimentado com boas edições para captar novos públicos. Mas a tua pergunta
nunca será nada se não pensares mais em mercado livreiro do que “bedéfilo”
porque não estás em Espanha ou França com aquele enorme circuito especializado
em BD. Cá em Portugal a BD sempre foi distribuído em livrarias normais e isso é
muito bom porque a BD não fica (em teoria) num “guetho” cultural – não quer
dizer que na prática isso não aconteça com a salganhada das secções de BD que
vemos nas livrarias. Atenção, que não tenho nada contra as lojas especializadas
(tal como não tenho nada contra uma loja especializada em Poesia ou Fotografia)
o quero dizer é que é bom que a BD em Portugal encontra-se em qualquer
livraria, ao contrário de certos países em que isso não acontecia, tinhas de ir
a lojas só com putos borbulhentos a comprarem “comics” com gajas nuas e com
metralhadoras. Infelizmente essa vantagem cá sempre foi mal aproveitada (pelos
editores e pelos próprios livreiros) enquanto noutros países tiveram de lutar
muito para a BD entrar numa livraria normal…
Outro facto curioso: cada vez que uma
grande editora de BD como a Meribérica/Liber ou Asa/Leya deixa de editar há
logo espaço para “outra BD” no mercado! Se calhar é coincidência mas o ano
passado houve boas (ou melhores) edições da Devir, Polvo, El Pep, Kingpin,
etc... e que estiveram mais visíveis nas livrarias! Se estas estivessem
cobertas de séries franco-belgas não havia espaço para venda dos “outros”. Quem
escolhe nas livrarias é também uma pessoa conservadora mas se o “franco-belga”
parar uns tempos pelos vistos tem de aceitar estas “propostas estranhas” até
que se prova que afinal até vendem! Ou até vendem mais do que algumas
“franco-belgices”… Posso não gostar da maioria dos livros editados no ano
passado mas acho que é mais do que positivo ver que houve um bocadinho de
“bibliodiversidade” e de coragem ao editar o Habibi do Craig Thompson,
mais umas divertidas séries da Image Comics prá jovens ou o Petzi prás
crianças...
Que leituras de Banda Desenhada
podes sugerir aos nosso leitores?
Os livros mais interessantes que li em
2014 foram: Doctors do Dash Shaw (Fantagraphics), os dois da Judith
Forest (5éme Couche; 2009-10), Visiter tous les pays (NA) de Pina Chang,
978 (5éme Couche; 2013) de Pascal Matthey. Nacionais: o Zombie do
Marco Mendes e Abolition of Work, vol. 2 de Bruno Borges mas sobretudo
os zines do Clube do Inferno, Moxilla e O Panda Gordo.
Mesmo para terminar, como vez o
digital na BD? Achas que será o Futuro? Já têm pensado nisso nos projectos onde
estás envolvido? E já agora que estamos em cima do acontecimento, como viste os
acontecimentos em França no Charlie Hebdo?
Não vejo
digital na BD porque prefiro destruir os meus olhos em papel… Mas nada contra.
Não tenho encontrado nada de jeito – mas também não procuro – no digital. É
outro mundo e terá o seu futuro sem que substitua o “anterior” tal como o mp3
não substituiu o vinil ou a k7. O mundo digital é perfeito para a cultura
“trash” em que lês/ouves/vês coisas e esqueces delas passado um dia ou até uma
hora… É perfeito para quem não quer se chatear. Quem gosta mesmo de Arte sempre
preferirá ter um quadro invés de um “printscreen”, um livro invés de um PDF, um
vinil invés de uma pasta no computador,… E claro, o digital é óptimo para
procurares coisas que já não acessíveis ou esgotadas - não podes te desculpar
que não tens acesso à cultura…
O que aconteceu com o Charlie é uma tragédia para a Europa, é o nosso “11 de Setembro”, incluído a piada foleira de que para ser um “9/11” nos EUA são precisas explosões espectaculares à Hollywood enquanto que na velha Europa “bastou” um massacre a uma redacção de desenhadores! É tudo lamentável e triste: a destruição da nossa civilização, as vítimas, os agressores abatidos a tiro (mereciam viver para não serem mártires e sofrerem pelos seus actos), a perseguição aos árabes que nada tem haver com extremistas, e nós que ficamos cá vivos e que teremos de conviver com a demente Extrema-Direita que irá usar tudo isto em seu favor… até porque parece que já nos esquecemos que Anders Breivik era branco, europeu, de extrema-direita e que matou muito mais pessoas na Noruega! Achei nojenta aquela marcha de Domingo porque apareceram todos aqueles fascistas: a Merkel (que quer expulsar os gregos da EU), o Sarkozy (que em 2011 deixou passar uma lei em que a polícia pode-te abater a tiro a uma enorme distância), o Rajoy (e a sua Lei da Mordaça – ele devia ser preso na marcha já que não quer que os outros espanhóis se possam manifestar na rua) e o Netanyahu (que promove massacres na Palestina). Se houvesse Céu, é certo que o Wolliski e o Cabu estariam agora mesmo a arranjar uma forma de mijar para cima destes tiranos mas não existe tal coisa como Céu, só no Dragonball…


















