sábado, 25 de abril de 2015

#26


Edição MMMNNNRRRG. Capa de Dr. Uránio. BDs de Marcos Farrajota. Design: Joana Pires
...
Este novo Mesinha de Cabeceira faz uma conclusão com este ciclo de números (o 24 e 25) que publicam BDs autobiográficas realizadas na Saari Residence, na Finlândia. É o terceiro capítulo de Desobediência é um artigo de colecção, um romance gráfico que fica aqui concluído ou não - não sabe / não responde.
...
Edição limitada de 333 exemplares. Lançado na Feira Morta (25 de Abril 2015)
...
28p. A5 p/b, capa a cores
PVP: 3€ à venda EXCLUSIVAMENTE na Chili Com Carne, sendo que dia 2 de Maio está disponível na Mundo Fantasma
...
Em digital e grátis é ver aqui.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Lovefool

É incrível o que os suecos fazem para nos agradar! Ninguém sabe porque o fazem, talvez porque ninguém lhes liga peva mas a verdade é que este país desenvolveu os ABBA, a pornografia popular, os Europe, móveis simpáticos prá malta, Ace of Base, uma sociedade quase igualitária, Dr. Alban, Roxette, o som de Gotemburgo (ou Death Metal melódico), The Hives, a editora Cold Meat Industry (pffff), I'm From Barcelona, Melanie is Demented (um génio Pop este puto!) e os Cardigans. Este últimos até fizeram uma das melhores versões de Sabbath Bloody Sabbath e não é de admirar que nesta linhagem tenham aparecido os Ghost, banda mariquinhas de Metal que conquistou o mundo inteiro de um dia para o outro, fazendo já "escola" - ou se preferirem, bandas a quererem explorar o filão aberto, como os "nossos" A Tree of Signs.
Ouvir Opus Eponymous (Rise Above; 2010) é um miminho que saca com muito bom gosto e pica o que se fez nos anos 70 no Hard Rock e Heavy Psych bem como nas bandas sonoras de filmes italianos de Terror (Goblin) mas com um sentido Pop extremamente apurado que se deve aos Beatles, ou será antes ao Pop sueco? É neste ambiente que vão desfilando temas satânicos e negros - como o da nossa querida Erzsébet Bathory - tornando-os em docinhos e de tão orelhudos que até qualquer mãe poderá gostar de os ouvir. Sem sabermos estamos a cantarolar que venha praí o Grande Bode e/ou o Anti-Cristo enquanto se aspira a casa, que curtimos Bruxas e orgias de sangue enquanto se lava a loiça ou fazemos um inconsciente alegre chamamento 666 enquanto se muda a areia dos gatos. Os Ghost são uma verdadeira subversão que deve ter deixado a Igreja de boca aberta, e por isso muito mais eficiente que as discografias de Marilyn Manson e de Immortal todas juntas. Talvez por isso que eles guardem as suas identidades de forma secreta como os Residents. Ou isso ou então é porque tem vergonha de ter feito uma versão dos ABBA. Pouco importa, no fundo no fundo, são uns luteranos "kiduxos" como todos os suecos. Amén!

EGOtripping tio!

Marcos Farrajota es una de las personalidades más interesantes en el panorama independiente de edición gráfica a nivel europeo (...) además de ser autor prolífico, sarcástico e inquieto. (...) su artículo “Comix Remix”, en el que da un repaso por algunas obras y autores que trabajan (o han trabajado) en los límites de la narración gráfica a partir del collage, el ensamblaje, el found footage entre otras técnicas. En tiempos ya bien entrados en una era digital y sociedades sumergidas en la información instantánea, el artículo de Farrajota nos pone en perspectiva, primero trazando un paralelismo con la música (cómo no hablar del remix sin empezar por el sampleo), y nos plantea cómo dentro de la creación, surge también la idea de edición. Después de todo, de eso se trata mezclar. Caracoles! Muchas gracias Martin!!! (30/07/13)

Und... depois deste elogio o artigo continua a seguir por aí! Tradução para alemão às mijinhas no Drei Mal Alles dirigido por Christian Maiwald e em Agosto será em sueco numa nova revista sobre BD...


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Vanity Blues


Ir à Feira da Ladra de Lisboa já pouco adianta, tudo está inflacionado para sacar mais Euros aos turistas, as colecções de discos, BD e livros dos portugueses são pouco interesantes (devido à pobreza do país e às décadas de isolamento imposto pelo beato Salazar) e como todos os portugueses apesar de pobretanas todos têm smartphones e acesso à 'net em banda larga para saberem o valor real das coisas que estão a vender... Ou seja, a hipótese de ir à Ladra à procura de aventuras culturais já acabou mas... uma vez ou outra até de apanham coisas curiosas por tuta e meia como um livro de Edogawa Rampo, uma edição portuguesa ilustrada da Afrodite do Masoch ou um disco de Blues como este Bluescene USA, Vol. 1: Rhythm & Blues of Chicago (Storyville; 1975). Edição luso-espanhola de 1982 além de trazer para casa um género pouco ouvido, tem uma boa selecção de temas e uma contra-capa com um texto crítico que desmistifica os clichés do Blues (em inglês!). Do som à capa tudo é vintage no objecto, custou um Euro e é este o preço que as velharias deveriam custar. Afinal ainda há esperança prá Ladra e amanhã é dia dela...

sábado, 18 de abril de 2015

King for a Day, Fool for a Lifetime

Os Faith No More vão voltar, e parece que vai ser mais um "cash-in comeback"... Duvido que consigam voltar ao génio de 1992, ano em que a banda acabou sem eles saberem disso.
Fizeram a Obra Prima Angel Dust (Slash) e tudo o que fizeram depois é derivativo e sem pica. Em parte talvez porque deixaram de ter o seu guitarrista white trash Jim Martin e digo "white trash" porque esta era a imagem que transmitia, para além de que depois deste álbum passou a cultivar abóboras - Wikipedia dixit.
Disse ele que saiu da banda porque neste álbum as composições deram mais destaque à voz (de Mike Patton) do que às guitarras - como deveria ser em The Real Thing. Parece uma declaração da treta porque ambos discos referidos tem trabalhos de guitarras de excelência, Patton neste disco parou de ser um clone do primeiro vocalista que gravou com a banda (Chuck Mosley) e o resto da banda acompanhada por uma samplagem alucinante conseguiu fazer uma massa sonora única - os sons samplados, já agora, eram de gente grande como Z'EV, Kronos Quartet, passando ainda por Simon e Garfunkel (!) à Diamanda Galás...
E claro, tal como Martin os metaleiros não perceberam a Obra Prima, tudo bem, muito mais pessoas alinharam no disco demonsrado pelo sucesso nos Tops e tournês mundiais. Não é um disco que se possa meter num saco do género "funk metal" que se inventou na altura ou de "nu metal" que ainda não existia e não faz sentido referir. É um dos (poucos) discos pós-modernos dentro do Heavy Metal ou da "música pesada" - no ano seguinte iria sair outro ao mesmo nível: Bloody Kisses dos Type O Negative - e "pós-moderno" no Metal não deveria significar as modorras do pós-metal daquelas bandas que fazem Neurosis ad nauseaum.
Depois deste disco, os FNM passaram a soar a mil bandinhas de Rock MTV que na realidade eram imitações "softcore" deles mesmos - como os betos dos Incubus. Como dizia Jules Renard: Se tens talento, Corvo, imitam-te. Se te imitam, estás na moda. Se estás na moda, passas de moda...

sábado, 11 de abril de 2015

Je suis Charlie



Mussolini Headkick : Themes For Violent Retribution (World Domination; 1989)

Com a Suástica não se brinca... nem com os judeus... e agora nem com os muçulmanos... Meu, 2015... que seca! Mas nos anos 80 ainda se podia ter nomes bizarros e ter estas capas sugestivas ou de mau-gosto, se preferirem. É claro que os Mussolini Headkick não são nazis nem fachos, aliás, o nome deve-se ao facto de quando a besta do Mussolini foi abatida no final de Abril de 1945, com a derrota total aparente, tentou fugir para a Suíça, porém, foi rapidamente capturado e sumariamente executado próximo ao Lago de Como por guerrilheiros italianos. Seu corpo foi então trazido para Milão onde foi pendurado de cabeça para baixo em uma estação petrolífera para exibição pública e a confirmação de sua morte. E ao que parece levou com pontapés na cabeça após execução ou quando o cadáver estava exposto publicamente. Para tanta fotografia gloriosa que o seu regime de propaganda criou nos anos 30 é mesmo um final um coche triste, não? E por este final moralista que esta banda inglesa usa este nome? Claro que a explicação mais rápida será que sacaram o nome ao tema dos Cabaret Voltaire já para não falar dos DAF... Não muito mais para escrever, o álbum é de um Synthpop / EBM / Industrial na linha do primeiro disco de Nine Inch Nails - ou dos primórdios Front 242 para os mais velhos - com temas para paramilitares dançarem, e outros que parecem interlúdios para a malta cortar os pulsos (actividade lúdica dos anos 80) ou pegar numas uzis e dar uns tiritos na escola (actividade lúdica dos anos 90 para cima).

domingo, 5 de abril de 2015

Sepul culture


Os mortos não descansam no mundo do "anarquivismo" da web.2. Se é fácil ressuscitar Elvis para mais um passo de dança-mash-up, lançar campanhas publicitárias de refrigerantes da nossa infância, descobrir toda a produção fonográfica High Life do Gana e mais algo que me escape ao meu cinismo cultural. Faltava a má-onda em ressuscitar a própria Morte, ou melhor os seus registos excluindo o circo colorido do Pop. O English Heretic soa a um cruzamento gótico de Negativland com Pink Floyd ou Death in June geneticamente transformado em Trip Hop, ou ainda This Mortal Coil a transmitir um "podcast" com o registo perturbado electro-magnético do Ian Curtis (RIP). É verdade, o disco The Underworld Service (2014) soa a isso tudo... e também a ingleses a molharem "scones" no chá, enquanto lêem uma biografia sobre o alquimista Fulcanelli [quem? não sabe / não (deve) responder] enquanto bomba na TV uma "soap-opera" merdosa da BBC. É de incluir ainda Monges do Vietname, Zombies, Hiroshima, Polanski, mausoléus, catacumbas, ossadas (a lembrar Infiltrate Assimilate Propagate Disseminate de Nomex) e toda uma reinterpretação de factos culturais mórbidos, ficcionais ou reais, num caldeirão sonoro e literário - pode-se comprar o disco com um livro mas este último objecto é tão hermético que não se consegue ler sem pensar que estamos a perder tempo... para a Morte. A música no entanto é bastante agradável... tanto como morrer afogado pelo que se diz.

Vendendo Cabo Verde ao quilo


Incrível o que o dinheiro faz... E obrigado ao Camarada Fom Fom por ir contra a maré. Há menos de 5 anos atrás, comprar Bonga ou um disco de Afropop lusófono significava duas coisas: 1) comprava-se essa magnífica música a menos de 5 euros por LP / vinilo e 2) não se encontraria quase nenhuma informação sobre o disco ou banda ou editora ou seja o que for...

Mas como África está na moda e Lisboa cheia de franceses e outros bifes que seja como for sempre tiveram mais cuidado na preservação da Cultura - seja ela qual for - do que os toinos lusitanos, os discos das Áfricas aumentaram de preço. Se o Camarada Fom Fom não me tivesse oferecido este Pepé Lopi (ed. de autor; 1976) eu nunca iria saber como eram os Tubarões antes de entrarem naquele binómio do resto da carreira discográfica deles: uma música para bailar, seguida por um "slow", e repete! É o primeiro disco, gravado na Holanda (o que faz sentido com a diáspora caboverdeana para este país), com conteúdo politizado e músicas mais focadas nas raízes mas também aberta para o mundo -oiçam o orgão de Strela Negra. O disco parece mais significativo que outros que ouvi no passado.

Agora que já sei quais são os outros discos deles porque a Carbono ou outros privados já colocaram entradas no Discogs da discografia [(re)conhecida] da banda para poderem vender as suas cópias, fico a saber que pedem por qualquer álbum dos anos 70 e 80 uns 25 euros para cima! Já para não falar dos que pedem 100 euros... Enfim, é África, a eterna explorada pelos europeus.

E agora que se começa a ter uma ideia destas discografias, falta realmente escrever algo crítico sobre o que foi a História da música Pop da África PALOP... mas isso será mais díficil porque não dá guita, né?

quarta-feira, 25 de março de 2015

Black Taiga / Melanie is Demented



Está pronta a nossa primeira edição fonográfica!!! É uma split-tape com Melanie Is Demented (da Suécia) e Black Taiga (Congo / Portugal / Irlanda)!!! Sim, é uma cassete - ou k7 para os amigos - que é o formato áudio favorito pela MMMNNNRRRG e que assim usa esta edição para começar a celebração dos 15 anos desta editora "só para gente bruta"!



No primeiro projecto, é um "best of" de temas (entre 2008 e 2014) seleccionado por unDJ MMMNNNRRRG, com uma capa desenhada pelo André Lemos + Silvestre. Inclui os seguintes temas:
1. Allting rimmar på dör
2. Sverige är äntligen rasistiskt (ambos de Melanie är demented)
3. God Loves us all (de How to succed in the musicbusiness without really dyuing)
4. The party is over get out (de How to succeed in the waste management business without really dying)
5. Meat (and that's where babies come from) (de How to die institutionalized without any chance of surviving)
6. Congratulations Bob! (de Fuck you and thanks for nothing)
7. Language (de Blind)
8. Ode to simulacra (de MXLXNXXXSDXMXNXTD)

No segundo projecto são só temas inéditos, ou seja, é um novo EP intitulado Festa Privada na Selva:
1. S. Tomé e Príncipe (das Trevas)
2. Marduka
3. Fomos minadas
4. Berço de Sujidade

A capa foi encontrada em Badajoz e a autoria é de Cisco Bellabestia (o ilustrador do regime na Aristas Martinez). A edição é limitada a 66 cópias, cuja a impressão é em risografia pela Duo DesignMundo Fantasma e embalado pela Joana Pires.

À venda na loja em linha da Chili Com Carne.

ATENÇÃO: em Maio Melanie is Demented irá fazer uma mini-tournê por Portugal e Espanha para promover esta k7 e comemorar em (milhões!) de Festas os nossos 15 anos! Vai ser pesado!

sexta-feira, 20 de março de 2015

Luís Jerónimo e Tiago Carvalho : "Escritos de Fernando Magalhães : Volume 1 - 1988/1991" (Lulu; 2014?)

Fernando Magalhães (1955-2005) era um crítico de música que passou pelo Blitz e Público mas mais do que isso deixou (boas) memórias a muito melómanos. Qualquer morte é trágica, no seu caso com apenas 50 anos percebe-se que a injustiça - a Morte é a entidade mais democrática de sempre mas também a mais injusta porque só leva os bons mais cedo que os sacanas! Esta injustiça trás a vontade de todos os que realmente sofrem com a Morte (nós, os vivos) tenham vontade de combater o esquecimento de quem partiu. Mas não deixar que se perda a memória não quer dizer que se faça desta forma, num dos piores "livros" algumas vez feito no mundo! O objecto é um caderno A4 que até poderia lembrar as boas e velhas antologias Re/Search caso não fosse tudo do pior! Aliás, qual livro? Isto parece um trabalhinho da Secundária: com sumário, sem ficha técnica, espaçamentos horríveis, capas de discos com o pixel a rir-se de nós, tamanho de letra exagerada, etc, etc... uma lista de horrores editoriais e gráficos que até parece que quem fez isto nunca viu um livro na vida.
Que Magalhães fosse um melómano dos bons, acredito, pelas referências que aparecem nas suas críticas a discos - da Diamanda Galas ao John Zorn, de Magma a Negativland - pois acompanhava o que realmente interessava no momento em que viveu. Mas é preciso fazer livros que juntem todas as resenhas críticas que ele escreveu? Mesmo os discos de merda como os dos Talk Talk ou Garth Brooks - aqueles que era obrigado a escrever na redacção do jornal para pagar a renda e a comida? Aqueles discos que humilham qualquer um porque têm mesmo de se escrever porque senão o Editor do jornal despede-te? Mesmo que o crítico bata neles com alguma violência ou mordacidade são discos que não passam o teste do tempo e são inúteis - até para relembrar quem não gostava deles!
Uma selecção de textos não seria mais honesto? Não teria preferido isso o crítico ausente? Ou separar as águas, um livro dedicado à música que realmente Magalhães admirava e que gostava que chegasse a mais público e um outro livro do tipo humorístico? um do tipo "A Merda Pop dos Anos 80/90" para pisar a mediocridade com o seu humor crítico? Ou será que é mesmo possível conciliar os dois extremos num livro? Até pode ser que sim mas neste desastre editorial  de "boas intenções está o Inferno cheio" temos um livro (que pode ser impresso a pedido pela plataforma em linha lulu.com, creio eu) que é completamente amador e triste... E com tanto designer por aí a precisar de trabalho!
Assim mancha mais a memória do falecido... Convenhamos, alguns textos dele eram para encher-chouriços que nem passados 27 anos fazem sentido relembrar. Tudo isto lembra a expressão "deve estar a dar voltas no caixão" mas por questão de respeito, não vou escrever essa expressão... ops! Acabei por o fazer! Pois... E basicamente é esta a sensação que se tem do "livro"!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Paulo Lemos : "Vida Suburbana" (Burra de Milho; 2014)



A melhor cena do livro é quando acaba e é citado o nosso querido Rui Eduardo Paes (in Diário de Lisboa, edição de final de ano de 1984!): Vem aí o século XXI e o terceiro milénio, e lembrem-se: se há punks é porque a rapaziada não é feliz. Parece-me uma frase assertiva para explicar porque a cultura Punk apesar da sua auto-destruição logo à nascença insiste em existir, ora na sua faceta conservadora ora nas suas "n" mutações evolutivas. Passados 40 anos em que a fórmula original está bem morta, esta cultura na sua forma "cristalizada" já não incomoda os conservadores, por isso aparecem os cânones e as oficializações para desinfectar e neutralizar o que o Punk foi, a começar pelos estudos académicos tal como o projecto KISMIF ou este livro de Paulo Lemos que é a sua tese de Mestrado.
Da Academia nada se espera de bom, com os seus processos lentos e de auto-referência e este é mais um exemplo disso. Um livro vindo desse meio consegue sempre a proeza de não aquecer nem arrefecer. E talvez porque o autor tem uma banda Hardcore chamada Resposta Simples felizmente até conseguiu fazer um livro... simples!
A favor é que não entrou no esquema da lista completista para cromos baterem punhetas com as suas colecções discográficas e memorabilia mercantilista, nem mata ninguém de tédio. Porquê? Porque o seu academismo é... simples!
Com uma ponta de pretensiosismo saudável queria ser o primeiro livro sobre o Punk português, tudo bem formalmente conseguiu fazer isso mas como não conta nada de novo, ou de interessante ou de picaresco (em relação a outros escritos espalhados em livros, revistas e jornais) é apenas uma vitória "formal".
Este livro é bom resumo ou um "1-0-1" sobre o que é o Punk, o Punk português e a banda Mata-Ratos. Até o título está deslocado do conteúdo: Vida Suburbana? Aonde? Não há biografias nem estudos sobre essa "vida suburbana" e como isso afecta a cultura Punk - ao contrário deste zine que parece contar na realidade tudo o que se precisa mesmo saber do Punk em Portugal nos anos 90. Parece que foi uma forma (simples) do autor não meter um título "à la" Universidade como Punk Português para Principiantes, seguido de Estudo do Agrupamento Mata-Ratos, que seria um título mais honesto dada à sua completa falta de risco intelectual. Não deixa de ser uma reportagem bem feita que poderia estar publicada num semanário mas até no jornalismo seco dos dias de hoje seria preciso despertar a curiosidade ao leitor ou analisar o "fenómeno" de uma forma inédita e/ou cativante. No fundo este trabalho vai a favor da maré das milhares de teses da treta que se produzem todos os anos na Universidade, até em Coimbra, essa "Cidade do Conhecimento" (pfff!) onde foi redigida a tese.
E invés dela ter ficado no Arquivo Morto da Universidade ao menos foi publicada para qualquer um a poder ler, sem envergonhar ninguém porque é coerente no seu restrito espaço de investigação e não se espalha como os outros livros de Pop/Rock feitos por coleccionadores e crominhos.
O Design é... é... é simples! O tamanho da letra é demasiado minúscula para que os Punks velhos não possam ler o livro e resmungar - é uma forma de os desarmar? O preço é "true" Punk: 7,57€ (mas não é simples!); o que é de salutar dada ao exagero dos preços do mercado livreiro. Tal como o livro do Dico foi uma "oportunidade perdida" este também sofre disso. Mais sobre estes temas (o Underground, o Metal, o Punk, o Industrial, o Noise, o Indie, bla bla bla) irão aparecer no futuro, até com melhores resultados, sendo que estes documentos (simples) irão servir de base... de copos.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Loverboys há muitos, seu palerma!


Obrigado M. Morais pela descoberta!

terça-feira, 10 de março de 2015

Algaraviada do papagaio

No Monstre andava por lá à procura de um WC (não, não do livro mas realmente de uma casa-de-banho) quando a porta que me parecia com as instalações sanitárias era afinal uma discoteca (não, não uma "dancetaria" mas onde se vendem discos, sabem?). Um sítio que já é mítico pelos vistos, a Urgence Disk que era um sonho de sítio para quem gosta de Industrial e afins. Os tipos da loja foram impecáveis e ficaram logo com três cópias do vinilo dos Çuta Kebab & Party para espalhar por lá! Conversa puxa conversa e foi parar ao catálogo da Barraka El Farnatshi, editora suiça de "arabtronics".
Trouxe o terceiro disco dos Ahlam (sonho), Les Riam (1997) que significa "miúdas" e talvez por isso que eles tenham abandonado os temas sociais que caracterizavam os primeiros discos. Para mim, dá igual sem domínio da linguagem marroquina, restam as linguagens musicais alinhadas ao Techno / Hip Hop / Dub - com algumas passagens pelo Reggae - sem nenhuma inspiração especial. Soa bem mas falta sair do artifício. A capa diz tudo porque roça o mau gosto ácido-digital misturado com universos New Age, ainda assim o que falta mesmo é o ácido na música. A editora é de pesquisar por mais discos de outros projectos, sem dúvida!

Já tinha avisado aqui do meu interesse pelo Maurice Louca, um egípcio que faz manipulação electrónica sobre música árabe mas ao contrário de Çuta Kebab & Party e outros projectos electrónicos do tipo, Louca tem uma série de músicos a quem recebe peças originais para trabalhar. Salute the Parrot (Nawa; 2014) é um álbum simples que nem chega aos 40 minutos mas é viciante de se colocar em "loop" eterno a qualquer hora do dia. A lógica de "remix" está incrustado nos beats e na mesa de mistura que vão alterando, adicionando ou retirando elementos sonoros e que devido aos padrões melódicos e rítmicos da música árabe (o maqam), facilmente consegue-se efeitos psicadélicos e de beleza narcotizante. Técnicas nada novas se pensarmos em My life in the bush of ghost de Eno e Byrne, passando ainda pelo poderoso tema industrial Hizbollah dos Ministry ou as centenas de músicas de Muslimgauze. Não sei se em relação ao último isso acontecia mas nos primeiros os músicos usaram cantares muçulmanos sem pensar (ou saber?) o que estavam a usar (?), talvez por isso que a edição de My life (...) tem temas retirados após a pressão de associações muçulmanas que acharam mal usar textos "divinos" do Corão para fazer música pueril - vulgo "Pop". Com Louca e o seu "papagaio" ou também os Ahlam (ou já agora os Checkpoint 303!) isso não deverá ser um problema porque usam também instrumentos e vocalizações originais, embora claro que não percebemos peva, talvez até haja "esquerda" nestas letras dado às "primaveras orientais" mas não sei! Só sei que com Corão ou com Esquerda Unida Jamais Será Vencida soa sempre bem todos estes arabescos!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Laurence Yadi & Nicolas Cantillon : "Multi Styles FuittFuitt" (Bulbooks; 2014)


Acho que foi a única que trouxe da Monstre - ou melhor, a única coisa que quis mesmo trazer... Trata-se de um guia prático para dançar FuittFuitt, uma dança contemporânea desenvolvida pela Compagnie 7273 - que ainda no mês passado actuou em Portugal. O livro foi desenhado, editado e publicado pelo suiço Nicolas Robel - quem é que se lembra da exposição na CHILI! em 2009?
Esta dança é uma espécie de "punkice" na cena, liberta de formalismos e dogmatismos desta área performativa, conseguindo fazer um ponto de encontro de ideias tão díspares como citar Bruce Lee ou referir a Mohamed Matar mas é sobretudo no "Tarab" em que se focam. Esse êxtase árabe que não há palavra ocidental para a traduzir e que permite uma liberdade de movimentos e de conceitos que não se deve encontrar em mais lado nenhum... Robel fez um excelente trabalho, daqueles que merecem ser copiados por outros de tão exemplar que é, em que mistura fotografia, desenho, infografia, (a técnica de) flipbook e texto num livrinho de simples consulta que até vai ao requinte de fazer padrões árabes no corte dianteiro (o lado oposto da lombada, ou seja todas as folhas do miolo que fazem também uma "lombada") para surpresa dos seus utilizadores. Duvido que olhe para este livro para começar a dançar, mas para roubar boas ideias editoriais é quase certo que voltarei a ele...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Free James Brown so he can run me down!

Como é que esta merda me veio parar? É curioso, na realidade comprei a um tipo português no Discogs  um CD do Maurice Louca (em breve deverei escrever sobre ele) e no envelope vinha esta colectânea de Northern Soul pela Sony em 2007. "Fixe!" pensei eu, porque não é todos os dias que um gajo recebe prendas embora nessa semana um restaurante "fast-food" deu-me 10 euros a mais de troco e aconteceu-me mais uma borla porreira noutra situação que não me lembra... e "fixe!" porque pensava que poderia gostar disto já que curto Motowns e afins. Mas falar de Motown na Northern é um grande "no no!", quem gosta deste tipo de som rejeita Motown porque esta era muito "comercial".
O termo apareceu numa forma de fixar nas lojas de discos ingleses um tipo de "Black Music" que já não era contemporânea (dos finais dos anos 60) para uma classe operária britânica que nada queria saber das evoluções do Soul para o Funk. Toda esta subcultura foi sustentada na ideia da raridade do disco de Soul que ninguém queria e mesmo a raridade desses discos era falsificada porque assim que algum tipo colocava as mãos num disco desconhecido ia reproduzi-lo com cópias piratas. O valor da música era e é puramente fetichista porque não é a qualidade da música que vale mas sim pela descoberta de single 7" esquecido e sem sucesso. Com isso toda a História do Northern Soul é uma salganhada de pretensões e reanimações forçadas, que Simon Reynold no Retromania ao explicar estes tristes escreveu e simplificou bem este movimento, para ele a Northern Soul is pop history rewritten by losers. E é verdade, a música é bimba suficiente, o som é cru e xunga, uma verdadeira segunda divisão que não morreu porque, meu querido Allah, bimbos no Ocidente é o que não falta...  Quem quiser comprar este disco que me avise, não terei saudades desta palhaçada!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Marcos na Fátima da BD!

foto de Jucifer / Julho 2007
O blogue Universo BD entrevistou-me... a fotografia foi tirada na "Disneylândia dos Católicos" da primeira vez que fui lá - cruz-credo e talvez a última espero - e que achei adequada para esta entrevista em que sentia que tinha a Inquisição em cima!

Site foi à vida mas encontrei um .doc com a entrevista:


Como Surgiu na tua vida, a ligação à Banda Desenhada? Quem foram as tuas grandes influências e como te caracterizas em termos de leitor de BD?

Desde muito cedo que os meus pais compraram-me BDs, talvez com 4 anos (?), primeiro com revistas Disney ou o Fungagá da Bicharada, depois álbuns do Astérix e tal... Sempre fui acompanhando a BD pela adolescência e juventude ao ponto de querer fazê-la, editá-la, etc... mas a grande mudança deu-se com a revista Animal e com os zines dos anos 90 que publicavam BD que tinha relação com a vida e promoviam contracultura. Felizmente não me fiquei pela BD de fantasia e de escapismo, como acontece nessas idades... Receio que se não tivesse descoberto outro tipo de BD teria feito como muitos jovens fazem que é deixar de ler BD porque não encontram “textos” que tenham relação com eles.

Não me defino como “leitor de BD”, sou apenas leitor, obrigado! Raramente leio “BD trash” da mesma forma como não vejo filmes de Hollywood, o que não impede de vez enquanto ter alguns “guitly pleasures”… Mas em geral, se não há BD interessante para ler, há outras coisas para ler como ensaio ou romance ou ouvir música – já agora aconselho o Voltaire's Bastards: The Dictatorship of Reason in the West (Free Press; 1992) de John Ralston Saul, que curiosamente tem um capítulo dedicado à BD!

Influências talvez deva referir Fábio Zimbres, Harvey Pekar, Daniel Clowes, Peter Bagge, Joe Sacco,... mas a maior parte das influências passaram mais pela música Punk e Industrial.

 

És provavelmente a personalidade mais polémica no seio da BD portuguesa. Quer em entrevistas tuas, quer em opiniões que emites, quer ainda em comentários sobre ti em diversos meios ligados à BD, as críticas e por vezes até em linguagem mais acesa, acabam por vir sempre ao de cima. Como reages a isto e o que pensas sobre esta constante guerra que travas com os mais diversos protagonistas dentro do panorama da BD nacional?

Não penso porque nem os leio – sei que se tem escrito umas coisas porque alguns amigos e conhecidos me tem avisado disso mas não vou ler porque polémicas em blogues lidos por 30 pessoas não me parece que sejam polémicas e mesmo que fossem 100 ou 200 continua a ser um número baixo! Nem acho que haja polémica porque isso teria de incluir “uma discussão” e não houve nenhuma discussão comigo, nem poderia aliás porque grande parte do meio da BD é muito pobre intelectualmente ou culturalmente, fixado numa subcultura mercantilista que se auto-devora e que não consegue pensar fora da caixa - neste caso seria “quadradinho”!? Para mim, a BD tem tanta ou mais importância que a música ou o teatro, só o facto de se aceitar em usar o termo “nona arte” mostra que se quer ser hierarquizado e humilhado – bem por baixo, pelos vistos, porque fica em nono lugar!

Não travo nenhuma guerra pessoal com ninguém, vivemos numa democracia que cada um pode emitir as suas opiniões publicamente. É o que eu faço bem como outras pessoas, a diferença em relação à BD é que o meu objectivo é rejeitar os seus clichés e torna-la acessível a quem não a lê, as outras pessoas que divulgam BD preferem manter esses clichés para garantir a sobrevivência do seu “clube secreto de rapazes”, da sua subcultura canina, do status quo da “nerdice” e da eterna juventude… O Tempo será cruel para estas pessoas.  


Lembro-me do anúncio de uma apresentação que tiveste na Biblioteca de S. Domingos de Rana em 2014, sobre a evolução da BD independente em que só o próprio anúncio gerou logo polémica, quando se referia aos "tontos dos bedófilos". Quem são os bedófilos (tontos)? Que significado tem esta afirmação e em que contexto? Isto era mesmo com o intuito de insultar e/ou é a tua maneira corrosiva de colocar as questões?

Outra vez isso da “polémica”??? Acho que não houve nenhuma polémica – saiu no Expresso? Ou no P3? Não me lembro… Acho que foi só um pateta que enfiou a carapuça! Se se sentiu ofendido é porque a carapuça lhe serve, coitadinho… Pelos vistos, como sempre, aquilo que começa como uma piada parece tornar-se sério e até razoável. “Bedófilos” foi um gozo inventado há alguns anos por três pessoas num jantar e que tenho usado (e outras pessoas entretanto) de forma provocatória para definir pessoas adultas que lêem BDs para crianças ou jovens… e sem querer, a expressão acusa os fanáticos da BD (que só consomem o que é produto industrial) de ajudarem a propagarem a BD como algo infantil e juvenil.

Os exemplos nos dias de hoje são claros e piores do que nunca, aliás nos anos 90 nenhuma secção de BD de um jornal fazia isto de misturar “patinhas” com livros interessantes como o Logicomix, por exemplo. Há hoje dezenas de blogues a bombarem notícias sobre patos/super-heróis/michel vaillants e raramente as (poucas) BDs adultas que são editadas num país como nosso, que tem um mercado editorial fraquíssimo de BD em geral. Seriam essas BDs que deveriam ter um foco maior de divulgação e até de discussão para atrair pessoas que não lêem BD mas que se poderiam interessar por ela através dos temas: ciências, História, assuntos africanos ou do Médio-Oriente, sexualidade, sociedade, etc… Pergunto que credibilidade tem um sítio em linha ou blogue que divulga de igual para igual a BD infanto-juvenil e a adulta? É como colocar livros ilustrados da infância ao lado da pornografia - que aliás é o que acontece nas livrarias: Manara ao lado do Stilton e do Maus só porque tudo é BD! De outra forma, seria como ter notícias de música Pimba num sítio de música Clássica ou de Jazz ou de Rock. Se ao menos assumissem uma secção infanto-juvenil para separar estes tipos de informação mas não… A BD é um meio com várias vertentes, tal como na literatura, na música ou no cinema, e se pegares numa revista de literatura ou de cinema, as secções estão bem definidas na publicação.

Desde sempre que reparo que quem divulga BD não tem critério nem pensamento crítico e escuda-se com “sou apenas um divulgador”, que parece ser uma desculpa de uma criança sem educação e irresponsável. Mesmo só sendo “divulgador” tem de haver critério da mesma forma quando entras num restaurante não pedes pratos que não gostas, certo? O que pensará uma pessoa que nunca se interessou por BD e que vá parar a um blogue desses? Acho que a resposta é fácil... Acho estranho que os “bedófilos” não sabem distinguir as coisas, o que dá pena porque percebe-se de quem diz gostar de BD é o seu pior inimigo. No fundo, estamos a falar com pessoas com sérios problemas emocionais que não conseguem deixar a infância onde ela deveria estar… Lá para trás!

Não achas essa análise algo radical? Se há blogues generalistas sobre BD, não será natural que tentem incorporar um pouco de tudo e para todos os gostos? Uns falarão mais de umas coisas que de outras com certeza, mas tu próprio admites que começas-te por ler revistas Disney por exemplo. Não será essa divulgação também importante para trazer novos leitores para a BD?

Radical em quê, Rui? O que não percebes aqui? Ainda estamos no patamar de que “tudo é BD”, é isso? Acho que exprimi bem o pensamento do que acho desse “generalismo”… e também acho que que uma criança de 9 anos não visita o Central Comics (por exemplo) para ver se já saiu mais um número do “Patinhas” nesta semana… Tal como nenhuma jovem fã das bandas do Morangos com Açucar consulte o Blitz ou a The Wire para saber do último “single” dessas bandas! O que te faz confusão aqui? Se bem me lembro, uma criança tem um universo próprio e sabe procurar o que quer NEM quer saber de outras BDs para nada… até um dia! E nesse dia que quiser outras coisas também encontra porque a ‘net é infinita em informação… mas justamente se um jovem de 13 ou 16 anos começar a querer ler sobre o mundo onde vive vai ter mais dificuldades em descobrir o Palestina do Joe Sacco do que afinal o “volverini” não morreu e vai voltar já daqui uma semanita…

As revistas não mensais? Não sabem ir a uma banca ver o que saiu? O que não é preciso (pelo menos eu não preciso) é visitar sítios de BD e apanhar com isso todo o tempo – e isso, inclui os Texs, Simpsons, Tartarugas Ninjas, Turma da Mônica, Marvel e DC, todas essas coisas para jovens – ou pelo menos sem distinguir os conteúdos. Acho que são segmentos de mercado diferentes. Claro que podes encontrar coisas boas mesmo na lixeira comercial – o Carl Barks será o maior exemplo disso – mas para tal é preciso sentido crítico, coisa que não há nessa “divulgação”! É por isso que não acompanho os blogues portugueses (excepto os críticos como os do Pedro Moura, Sara Figueiredo Costa e Domingos Isabelinho) porque são chatos, dirigidos para crianças e jovens (tenho 41 anos e mesmo que tivesse ainda agora 17 anos não iria visitá-los, acredita!) e devem fazer “polémicas” para se entreterem dado a modorra de não fazerem nada de criativo – já nem digo intelectual… Mas tudo isto ainda é mais perverso! Se uma empresa desse tipo de BD não tem um sítio próprio para divulgar o seu material e para fidelizar os seus clientes é porque não sabe usar a ‘net… mas se pensarmos bem, nem precisam, têm montes de patetas a trabalharem por eles, não é? Já é mau “as Finanças” porem todos nos, cidadãos, a trabalhar de graça quando preenchemos em linha os nossos IRS mas pronto, é o Estado, somos obrigados a cumprir essas tarefas, nada a fazer, é a Lei! Agora, patetas a trabalharem para companhias ultra-capitalistas de graça é que não acho normal!!! Nem pateta será,…

Eu acho que estamos aqui também a falar de gostos, tu preferes ver mais certos tipos de conteúdos e do que outros e preferes consultar sites que te dêem esses conteúdos de preferência com critica. Muito bem, eu respeito, mas no meu caso a minha intenção é ter uma variedade razoável, obviamente dentro dos meus gostos mais pessoais, visto ser eu que os escolho. isto em termos de critica, mas também optei por ter outro tipo de artigos, como a divulgação pura, notícias, eventos, entrevistas e com uma amplitude que abarque desde os mais novos aos mais velhos visitantes. Como digo, no meu caso optei por esse estilo, mas claro que não se agrada a todos e tu és um bom exemplo disso (risos).

Quanto à questão da divulgação de borla, é verdade, mas ter sites especializados traz algumas vantagens, desde logo o alcance, chega a muito mais pessoas. Eu pelo menos prefiro ir a um site onde encontro várias coisas sobre um tema que me interessa, do que ir a 20 sites ver o que cada um tem de novo. Um site angariador, gera mais interesse e é muito mais dinâmico, conseguindo angariar mais visitantes e logo acaba por ser mais vantajoso que esse tipo de site faça uma boa divulgação. Mesmo isto sendo assim, ainda há quem ache, dentro de algumas editoras, que dar só a este ou aquele é que é bom, mas isso são outros quinhentos.

Nada contra “sites angariadores” como dizes mas creio que poderiam ter mais cuidado como apresentam a informação… e pelos vistos não te consigo mudar de opinião que existe BD para vários públicos e que não há vantagens em juntar alhos com bugalhos, muito antes pelo contrário. Se ainda tens pancadas para ler patos e super-heróis, o problema é teu e não meu, tens a vantagem de poderes consultar esse monte de blogues. Eu não… boa sorte!

 Outra das grandes críticas que te fazem, tem a ver com o facto da associação que geres, a Chili Com Carne, receber quotas e incentivos do estado para produzir BD. Afirma-se que isso torna as coisas mais fáceis, pois tens verbas que as outras editoras no mercado não têm, o que faz com que publiques o que te dá na cabeça e edições de qualidade duvidosa, sem grandes preocupações orçamentais. Como reages a estas criticas?

Nunca fui acusado disso, pelo menos nunca li isso mas acaba por ser muito engraçado saber disto porque quem escreveu nunca teve contacto comigo – aliás, connosco, porque a Associação não é dirigida exclusivamente por mim, existe uma Direcção eleita e um grupo de consulta editorial de 11 pessoas. Tomando como verdade a tua pergunta então temos 11 pessoas “ irresponsáveis e de qualidade duvidosa”, pelos vistos, pouco importa que algumas delas sejam Designers de sucesso ou académicos de referência!!! Quem escreveu isso só pode ser um covarde porque não só escreve coisas que não conhece mas o pior é nem coragem de perguntar o quer que seja e vomita tretas como aqueles senhores no café a falarem da futebol ou política – quem os ouve até pensa que são profissionais...

Fico muito confuso que alguém ache que os nossos livros não têm qualidade mas como disse o Tempo é um senhor cruel, e vai fazendo “vítimas”: havia um crítico que dizia que as “minhas” edições eram um desperdício de dinheiro em 2005… Hoje só diz maravilhas delas! Há quem diga que o que se edita no mundo, 99% dele é lixo... Só concordo que digam que os nossos livros sejam lixo se aceitarem o que a Devir, Leya, Polvo, G-Floy, Mundo Fantasma, Plana Press, Kingpin e El Pep também sejam lixo! O 1% de boa edição irá para a MMMNNNRRRG, claro!

A CCC faz livros por gosto, dedicação e com sacrifícios pessoais. O que faz confusão a muitos é pensar que com livros tão baratos e com descontos conseguem ainda fazer lucro para reinvestir... Mas é possível porque não temos gastos de estrutura como uma empresa. Faço questão do “bold”: Todo o nosso trabalho é voluntário

Os “incentivos do Estado” (faço aspas porque parece pomposo, para além de irónico porque o Estado não ajuda quase em nada na criação de BD! Quem escreveu é porque não sabe de nada mesmo!) são valores bastante baixos, cobrem 30% de custos de impressão e/ou custos correntes da associação. Novamente a “bold”: Ninguém é remunerado pelo seu trabalho: autor, editor, designer, vendedor, revisor de texto, tradudor, etc... Não sei se a Devir ou a Polvo pagam bem ou mal aos seus tradutores e designers nem me interessa MAS pagam! A Devir tem escritório e um armazém, etc, etc,… ou seja mais custos! Nós o que temos para sermos uma “editora” são computadores pessoais e armazenamos livros em nossas casas… e é isto! Todo o dinheiro que geramos é exclusivamente para pagar gráficas e transportes/correios. Os “incentivos do Estado” não ultrapassam os 2000 euros por ano – se cada livro a imprimir em média custa 1200 euros e se fazemos mais de cinco livros por ano (mais custos de CTT e transporte que podem ir a mais de 1000 euros anuais) é só fazer as contas para pensar como esses “incentivos do Estado” valem no seio das contas da Associação.

Quanto às quotas dos sócios, elas servem para descontos nas nossas edições e noutras edições nacionais e estrangeiras – a CCC é uma associação sem fins lucrativos, por isso, o dinheiro que gera não é para distribuir pelos corpos dirigentes como numa empresa mas sim para reinvestir sempre em novos projectos com os seus sócios. Mas desde o ano passado que o dinheiro das quotas serve para dar ao vencedor do concurso dos “Toma lá 500 paus e faz uma BD!”, que achamos muito mais interessante canalizar esse dinheiro dos sócios para apoiar uma obra / autor do que servir apenas para “consumir”!

Se há patetas que acham que se pode trabalhar voluntariamente sem receber, só mostra como são escravos do sistema. A nossa satisfação ou ganho pessoal é saber que fazemos bons livros, que tem reconhecimento, que cria comunidades de criativos e que promove a leitura! Quem nos acusa de termos facilidades nunca fizeram nada na vida para saber como se faz ou quanto custa fazer. Se fizerem contas, é verdade que as quotas e subsídios ajudam a manter a saúde financeira mas se fossemos uma empresa privada esses valores seriam mínimos e nunca cobririam o trabalho voluntariado dos associados e membros da Direcção. Mais, o facto de recebermos “incentivos do Estado”, eticamente fazemos preços de capa mais baratos possíveis porque a CCC não é uma empresa de mercado para estar a fazer concorrência com ninguém. Somos promotores culturais e não nos verás a concorrer com a Bertrand para editarmos o Persépolis… Editamos justamente o que “ninguém” quer: autores novos, trabalhos com temas mais ou menos ousados, que no seu tempo não encontram editores com coragem nem inteligência para os editar! Temos pouco dinheiro mas sabemos geri-lo bem, e talvez por isso que nos tenhamos aguentado com 20 anos de actividade, com um catálogo respeitado por muitos e com capacidade em fazer imensas parcerias (Thisco, Wormgod, El Pep, Faca Monstro, The Inspector Cheese Adventures, Ruru Comix, You Are Not Stealing Records, SWR, jazz.pt, Milhões de Festa, Festival Crack), por isso acho, mais uma vez irónico, perguntares se “ando à bulha” com todos, quando pelos vistos conseguimos fazer bastantes sinergias a vários níveis: sócios, autores, criativos multidisciplinares, instituições, privados, entidades internacionais, etc...

Precisamente por querer saber um pouco mais sobre esses meandros, tenho insistido nestes pontos, porque na verdade, também pouca informação encontrei parecida com o que nos tens explicado e por isso me pareceu pertinente este confronto, mas passemos à próxima pergunta ...

 

 Quantos sócios tem a associação? Tendo em conta que a quota inicial é de 15 euros e as Renovações de 10 euros anuais, se tivermos em conta que os sócios tem logo à cabeça um desconto de 50% nas edições, não me parece que as receitas das quotas possam servir como grande financiamento. Estou a pensar bem ou nem por isso?

Vamos ter 150 sócios em breve... mas nem metade paga as quotas anualmente, há pessoas que desistem, outras que voltam mais tarde, etc... é um caos de movimentações como noutra associação qualquer. As quotas ajudam como uma muleta MAS não uma prótese de tecnologia de ponta! Seja como for, para esses taradinhos da “livre concorrência” e neoliberalismo, olhem só a grande surpresa do dia: são as vendas das edições que realmente fazem a Associação continuar a editar! Porquê? Porque há mesmo pessoas que gastam dinheiro nos nossos livros “de qualidade duvidosa”!

Seja como for nada temos a esconder na CCC, tanto que sempre que alguém nos pede ajuda disponibilizamos informações sobre gráficas, lojas, como fazer, etc… mas acho estranho se há pessoas a dizer isso de nós, como se fossemos os únicos… Não pensaram se noutras editoras? Que eu me lembre a Polvo sempre teve “incentivos de Estado” ou a Âncora ou outras em projectos como o livro do Quim & Manecas da Tinta da China ou a co-edição do catálogo do Alan Moore pela Devir e CNBDI… E até indirectamente podes falar em “incentivos de Estado” para os livros do José Carlos Fernandes, Diniz Conefrey e Miguel Rocha, cujos trabalhos antes de serem editados foram frutos das Bolsas de Criação Literária, sem elas os autores não teriam feitos a Pior Banda do Mundo, Livro dos Dias e Beterraba que mais tarde foram editadas pela Devir (portuguesa, espanhola e brasileira) - bem como o David Soares que também teve Bolsa com A Grande Sala de Cinema publicada na sua editora Círculo de Abuso… Cada um ao seu peso e medida mas isto para dizer que não percebo essa perseguição à CCC, no fundo deve ser uma atracção sexual por nós que não sabe explicar nem consegue exprimir. Espero que saiam desse “armário-quadradinho”...

 

Qual a relação ente a associação Chili Com Carne e o selo mmmnnnrrrg?

A CCC promove e distribui a MNRG – tal como o fez no passado com outros projectos editoriais dos nossos sócios como a Opuntia Books, Imprensa Canalha, El Pep, Plana Press, zines, discos, etc...; geralmente andam juntas em alguns eventos porque sou um dos elementos em comum entre os dois projectos mas ficamos por aqui. A MNRG é um projecto meu criado em 2000 e desde 2010 que é partilhado com a Joana Pires...

 

Como são feitas de um modo geral, as escolhas de editar algo pela CCC ou pela mmmnnnrrrg?

Acho que seria bom leres os livros antes de fazeres uma pergunta destas, não está na cara? Num B-A-BA diria apenas que a CCC é mais virada para edições colectivas e nacionais, a MNRG são livros a solo e internacionais... Pegando nos conteúdos de uma e de outra, acho que dá para ver as diferenças! Tu que no teu sítio dissecas tanto as BDs é que devias escrever sobre as diferenças, não?

 

Por acaso não concordo que faça aqui uma grande dissecação das obras. Tento até nem o fazer muito e deixar os leitores explorarem por eles, salvo algumas excepções quando realmente gostei bastante do livro, ou algo mais cuidado quando se trata de edições portuguesas. Mesmo assim foi só a partir de certa altura, ainda tenho coisas revistas que não escrevi uma palavra e que adoro. Pode parecer um contra censo, mas apesar de ter este sitio, o meu forte não é a escrita, é a leitura e por isso faço muito pouca análise e não me aventuro muito, e também por isso aceito a crítica (risos)

Pois acho que deverias arriscar mais em seres mais analítico… de vez em quando vou ao teu blogue e não sei por onde me virar, devo estar a perder alguma série com qualidade no “mainstream” que divulgas - tipo “o próximo Grant Morrison” - mas como não os realças, a mim parece-me tudo igual… Naturalmente devo estar enganado mas ainda assim, pergunto-te, para quem tu dedicas tanto tempo o blogue, para quem tu escreves ou quem te lê?

Faço por gosto, tal como voçês na associação o fazem com certeza por gosto, por querer que o mercado de BD cresça, tentar divulgar o máximo para pelo menos não ser por ai que a BD não cresce em Portugal, por me dar imenso gozo fazer entrevistas, como esta e dar notícias de muitos dos nosso autores a trabalhar lá fora para grandes mercados. Este tipo de coisa é essencialmente o que me move, mas o entrevistado aqui é tu e não eu (risos).

A última parte não te sei responder, mas posso dizer-te que o blogue com pouco mais de um ano teve uma adesão bastante razoável. Nesse tempo teve perto de 200.000 visualizações de artigos, mesmo contando que haja uma percentagem de acesso spam e outros, para mim é uma excelente marca. A classificação da audiência não te sei dizer qual é. Quem são? Idades? Esse tipo de info não consigo obter, mas a esmagadora maioria são acessos de Portugal, como seria de esperar e um pouco de todo o pais.

Com certeza que encontras alguma coisa que te interesse aqui e a visualização até acho bastante fácil, nem precisas de ver os artigos na sua totalidade, se te interessar carregas no artigo e voilá, caso contrário, se as gordas não te interessarem, voltas no dia seguinte para ver as novidades (risos). Mas também isso é uma questão de gosto, uns gostam do visual e funcionalidade, outros nem tanto. Outros gostam da variedade e outros nem tanto.

Mas eu adoro variedade!!! Só não misturo Ídolos com Noberto Lobo, “Casados de Fresco 7” com David Lynch, Turminha da Mônica com Corto Maltese, desculpa… o que não me impede de ler G0dland ou Preacher “just for fun” e depois o Yuichi Yokoyama ou Rupert & Mullot – actuais vanguardas da BD. Desculpa não conseguir ler o Disney especial “Brincadeiras” com 41 anos…

 

E o que podemos esperar em 2015 em termos editoriais da CCC e também da mmmnnnrrrg?

Mais livros de “qualidade duvidosa”!!! Os corpos degenerados dos “bedófilos” vão se contorcer de demorada volúpia! O terrível QCDA vai voltar com mais quatro autores horrorosos! Haverá um Zona de Desconforto 2 com autores estrangeiros pavorosos! O Bestiário Ilustríssimo 2 é já em Fevereiro mas isso não é BD logo não interessa! É só mais outro caso de decadência intelectual – olha mas que fala de BD uma vez ou outra no meio de tanta música! Da MMMNNNRRRG nem se fala! Os exemplos são do pior e até tenho vergonha de os divulgar!!!

Fora de brincadeiras, os livros que fazemos são muito orgânicos, surgem porque os artistas precisam de espaço para editarem ou serem desafiados. Olha o Nunsky que desde 1997 não fazia nada, ou o Francisco Sousa Lobo também sem livros de BD desde 2003… Estes dois autores de repente produziram mais livros do que podemos editar… Pode ser que saiam também em 2015 mas tudo é imprevisível nem nos regulamos pelas regras do comércio – se elas existirem! Sai quando tem de sair! É isso que torna as coisas excitantes para todos! 

 

Há pouco tempo e em relação ao prémio de melhor livro para "Zona de Desconforto" no festival Amadora BD 2014, não te mostraste particularmente entusiasmado com o facto. Na prática se isso se traduzir em mais vendas óptimo, caso contrário não vale grande coisa. O director do festival parece até ter afirmado que lhe tinhas garantido que irias estar presente para receber o prémio. O que aconteceu para não teres estado afinal presente? Independentemente de concordares ou não com o modelo de selecção/eleição dos prémios, não ficaste nem um pouco orgulhoso com a distinção?

Não mas a minha mãe achou piada aos Pacóvios cunhados na placa de metal! Não senti nem sinto nada pelo que aconteceu porque a Amadora sempre premiou sem critério, por isso, a mim parece-me roleta-russa: hoje somos nós os atingidos pela bala, amanhã é outro qualquer, tanto faz... Não fui porque tinha um jantar marcado com amigos e isso é mais sagrado que ir ver “bedófilos” cheios de raiva por termos ganho um prémio qualquer – podia até ter piada mas os amigos estão sempre em primeiro!

Realmente o Nelson Dona ligou-me para ir à cerimónia mas pensei quem iria ganhar alguma coisa da CCC seria o Francisco Sousa Lobo como O Desenhador Defunto e não o Zona de Desconforto. Sabia que o pai dele ia à cerimónia por isso achei que estava tudo bem. Paciência… fica prá próxima! 

 

Normalmente vemos a participação da CCC em eventos mais alternativos, tirando as presenças em Beja, normalmente passa quase tudo por pequenas feiras/eventos ou exposições. Há também muitas parcerias com algumas entidades lá fora. Para além destas que mencionei não gostarias de alargar os horizontes e ter uma divulgação mais abrangente em eventos de maior porte? Em principio no próximo Amadora BD os vencedores da edição anterior têm um lugar de destaque, com exposições e outras participações. Como vai ser a participação da CCC no próximo Amadora BD?

Não sei, a Amadora que diga o que quer fazer, como quer fazer e se está aberta a sugestões... até porque fazemos 20 anos de existência e deveríamos fazer algo de institucional para comemorar – ou talvez não! A razão porque participamos mais vezes em eventos “ pequenos” é porque achamos que os grandes eventos de BD são autofágicos e não estão alinhados à cultura que respeitamos. E se o “porte” importa, então as nossas idas a Angoulême são o quê? E a exposição no Festival de Helsínquia em 2011 ou no ano passado em Treviso? Ou o Crack? Quem não viaja a estes eventos se calhar não percebe o “porte” deles… E “alternativo” não significa não ter público ou ser “pequeno”, aliás, a última Feira Laica registou 900 pessoas em dois dias de evento – contando que não se fazia publicidade quase nenhuma, o evento era quase sempre ignorado pela imprensa, o sítio que recebeu a Laica era pouco conhecido, etc, etc… é incrível que 900 almas tenham lá ido, não?

 

Porque achas que num mercado tão pequeno como o português existem tantas pequenas guerrilhas à volta da BD? Não digo tanto entre editoras, mas no geral, há muita crítica em várias direcções, muitas picardias e pequenos poderes que se atropelam em vez de remarem todos no mesmo sentido. A que se deve isto na tua opinião?

Mas se calhar é impossível remar com pessoas do Pimba, não? E não te sabia fascista!? Remar todos para o mesmo lado!? Significaria que o Janus ou o André Coelho não mereciam ser editados!? Que isso quer dizer? Cada um dá o rumo que quer, era o que faltava alguém impor uma vontade única.

Eu e a CCC estamos bem com as outras pessoas que até nem são da “mesma onda” como o Jorge Coelho que desenha para a Marvel mas até já publicou em várias edições nossas… Não temos inimigos que eu saiba a não ser um pateta! Já agora, quer a CCC quer a El Pep, Polvo e Kingpin somos distribuídos pela mesma empresa. Se isso significasse alguma coisa até se podia dizer que estamos a remar no mesmo sentido!

E o que queres dizer com “pequenos poderes”? Aonde? Os únicos poderes na BD que existem são os festivais camarários da Amadora e Beja que até são bastante eclécticos e conciliadores – até a Amadora gosta da CCC! Não vejo guerrilhas em nenhum lado! Se calhar referes-te ao meio virtual mas olha que a vida real é que é! O “Second Life” da ‘net é apenas ilusão para os impotentes produzirem a sua mitomania que será colhida pelo ruído da ‘net...

Eu não me revejo em nenhuma conotação política, rego-me pelo bom senso e pouco mais. Mas talvez tenhas razão quanto à interpretação que possa ter dado, na verdade, e isso admito, vivo muito no mundo virtual...

“Fascista” era uma provocação como é óbvio… É que não percebo mesmo o que é isso de “remar no mesmo sentido”…

 

O que destacarias de mais positivo e mais negativo no mercado Bedéfilo em Portugal?

É o que é, um espaço em aberto que tem de ser alimentado com boas edições para captar novos públicos. Mas a tua pergunta nunca será nada se não pensares mais em mercado livreiro do que “bedéfilo” porque não estás em Espanha ou França com aquele enorme circuito especializado em BD. Cá em Portugal a BD sempre foi distribuído em livrarias normais e isso é muito bom porque a BD não fica (em teoria) num “guetho” cultural – não quer dizer que na prática isso não aconteça com a salganhada das secções de BD que vemos nas livrarias. Atenção, que não tenho nada contra as lojas especializadas (tal como não tenho nada contra uma loja especializada em Poesia ou Fotografia) o quero dizer é que é bom que a BD em Portugal encontra-se em qualquer livraria, ao contrário de certos países em que isso não acontecia, tinhas de ir a lojas só com putos borbulhentos a comprarem “comics” com gajas nuas e com metralhadoras. Infelizmente essa vantagem cá sempre foi mal aproveitada (pelos editores e pelos próprios livreiros) enquanto noutros países tiveram de lutar muito para a BD entrar numa livraria normal…

Outro facto curioso: cada vez que uma grande editora de BD como a Meribérica/Liber ou Asa/Leya deixa de editar há logo espaço para “outra BD” no mercado! Se calhar é coincidência mas o ano passado houve boas (ou melhores) edições da Devir, Polvo, El Pep, Kingpin, etc... e que estiveram mais visíveis nas livrarias! Se estas estivessem cobertas de séries franco-belgas não havia espaço para venda dos “outros”. Quem escolhe nas livrarias é também uma pessoa conservadora mas se o “franco-belga” parar uns tempos pelos vistos tem de aceitar estas “propostas estranhas” até que se prova que afinal até vendem! Ou até vendem mais do que algumas “franco-belgices”… Posso não gostar da maioria dos livros editados no ano passado mas acho que é mais do que positivo ver que houve um bocadinho de “bibliodiversidade” e de coragem ao editar o Habibi do Craig Thompson, mais umas divertidas séries da Image Comics prá jovens ou o Petzi prás crianças...

 

Que leituras de Banda Desenhada podes sugerir aos nosso leitores?

Os livros mais interessantes que li em 2014 foram: Doctors do Dash Shaw (Fantagraphics), os dois da Judith Forest (5éme Couche; 2009-10), Visiter tous les pays (NA) de Pina Chang, 978 (5éme Couche; 2013) de Pascal Matthey. Nacionais: o Zombie do Marco Mendes e Abolition of Work, vol. 2 de Bruno Borges mas sobretudo os zines do Clube do Inferno, Moxilla e O Panda Gordo.

 

Mesmo para terminar, como vez o digital na BD? Achas que será o Futuro? Já têm pensado nisso nos projectos onde estás envolvido? E já agora que estamos em cima do acontecimento, como viste os acontecimentos em França no Charlie Hebdo?

Não vejo digital na BD porque prefiro destruir os meus olhos em papel… Mas nada contra. Não tenho encontrado nada de jeito – mas também não procuro – no digital. É outro mundo e terá o seu futuro sem que substitua o “anterior” tal como o mp3 não substituiu o vinil ou a k7. O mundo digital é perfeito para a cultura “trash” em que lês/ouves/vês coisas e esqueces delas passado um dia ou até uma hora… É perfeito para quem não quer se chatear. Quem gosta mesmo de Arte sempre preferirá ter um quadro invés de um “printscreen”, um livro invés de um PDF, um vinil invés de uma pasta no computador,… E claro, o digital é óptimo para procurares coisas que já não acessíveis ou esgotadas - não podes te desculpar que não tens acesso à cultura…

O que aconteceu com o Charlie é uma tragédia para a Europa, é o nosso “11 de Setembro”, incluído a piada foleira de que para ser um “9/11” nos EUA são precisas explosões espectaculares à Hollywood enquanto que na velha Europa “bastou” um massacre a uma redacção de desenhadores! É tudo lamentável e triste: a destruição da nossa civilização, as vítimas, os agressores abatidos a tiro (mereciam viver para não serem mártires e sofrerem pelos seus actos), a perseguição aos árabes que nada tem haver com extremistas, e nós que ficamos cá vivos e que teremos de conviver com a demente Extrema-Direita que irá usar tudo isto em seu favor… até porque parece que já nos esquecemos que Anders Breivik era branco, europeu, de extrema-direita e que matou muito mais pessoas na Noruega! Achei nojenta aquela marcha de Domingo porque apareceram todos aqueles fascistas: a Merkel (que quer expulsar os gregos da EU), o Sarkozy (que em 2011 deixou passar uma lei em que a polícia pode-te abater a tiro a uma enorme distância), o Rajoy (e a sua Lei da Mordaça – ele devia ser preso na marcha já que não quer que os outros espanhóis se possam manifestar na rua) e o Netanyahu (que promove massacres na Palestina). Se houvesse Céu, é certo que o Wolliski e o Cabu estariam agora mesmo a arranjar uma forma de mijar para cima destes tiranos mas não existe tal coisa como Céu, só no Dragonball…

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

E perguntam vocês: "porque é que The Bug não 'tá nos melhores de 2014?"


Sempre a defender The Bug como um dos músicos do milénio, o gajo lança o LP Angels & Devils (Ninja Tune; 2014) e não aparece nestas listas parvas? Como se explica isto pá?
Poisé! Mas é possível quando se sai desiludido de algo... mas isto não são arrufos de namorados... ou talvez até seja. É assim, acho que é um álbum burguês... invés de o gajo ter ido buscar aqueles MCs todos ganzados dos Narcóticos Anónimos como nos discos anteriores, foi buscar a nata da música actual: o gajo dos terroristas Death Grips, a sobrevalorizada Grouper, o camarada Justin (Godflesh / Jesu) que juntos fizeram God, Ice, Techno Animal e Curse of The Golden Vampire (ou seja, só coisas boas!), o fantasmagórico sonsinho do Gonjasufi, etc... e na realidade parece um colectênea com faixas de Death Grips (embora estes já estejam muito mais à frente do que The Bug fez com o vocalista!), de Jesu ou Godflesh "remisturado", de Grouper, de Gonjasufi, etc...
E isso é mau?
Não caralho! Mas o que queria era um álbum de The Bug! Outra coisa irritante é ouvir este álbum na versão LP, em vinil - na realidade um desperdício industrial e atentado ecológico para quem parece estar tão preocupado com a destruição irracional do mundo! O álbum tem cerca de 48 minutos e talvez seja verdade que se fosse só uma rodela de vinilo a coisa poderia ter menos qualidade sonora com a compressão / impressão do disco. Resultado, o álbum foi separado em dois discos 12".
O gajo devia ter tirado um minuto ou dois nas músicas para caber tudo num disco vinilo, é isso?
Tentem ouvir em casa um disco em que de 7 em 7 minutos temos de ir mudar de lado... A mim parece-me insensato fazer isto quando desde o Punk que os músicos podem definir com liberdade a sua música e o formato onde ela irá ser editada. Num mundo imaterial que é esta nossa cultura digital, fazer álbuns com 3 faixas ou 33 parece ser o mesmo porque a circulação de ficheiros será sempre caótica - como alguém afirmou, voltamos aos tempos do "single" porque as pessoas num álbum podem escolher só ouvir uma música / faixa que gostem. Mas se The Bug queria fazer disto um vinilo então deveria ter pensado um bocado, não? Já que pensou em grafismo tão "state of the art" prá capa... É que parece que caiu neste fenómeno que poderia-lhe chamar de "vanity vinyl press" que à três ou quatro anos para cá, trouxe a ideia que para a música ser boa é preciso que ela esteja editada em vinilo - der por onde der...
Mas o álbum é mau?
Não, como poderia ser? É THE BUG!!! (mais ou menos) E é verdade que ouvir Angels & Devils em vinilo sai de lá muito mais bujarda do que em digital! O gajo é um dos masters da música Bass, Dub, Dubstep,... - mas deixou o Dancehall para trás, e isso não dá para perdoar! Isso ainda é piro que pensar que afinal estou a ouvir o Gonjasufi a lacrimejar...