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sábado, 30 de abril de 2005

Entulho de Marte (in Underworld #15; Abr'05)

«You’re so near to Russia
So far from Japan (…)
You’re so sadly neglected
And often ignored (…)
Finland, Finland, Finland
Finland has it all»
- Michael Palin, Monty Python

Pelas gelos da Finlândia o que tenho descoberto! Uma inacreditável criatividade artística! Sobretudo, nas minhas áreas de preferência: música e bd – em relação a esta última, aconselho a visita ao Salão Lisboa 2005, a realizar entre 19 de Maio e 5 de Junho na Estufa Fria, em que a Finlândia será o país convidado. Sobre a música, a Finlândia, parece-me ser o país mais estranho que já conheci em relação à produção musical, se calhar tanto ou mais que o Japão!
Antes de entrar em pormenores, vamos a uma curiosidade histórica: em 1913 apareceram os primeiros tangos na Finlândia, música como sabemos mais dada aos suores sul-americanos do que às friezas nórdicas. Em 1930 começam as primeiras gravações de Tango finlandês (!) género tão popular e tão aceite como esquiar ou como ir à sauna! Imaginem, se em Portugal de repente o Cajun passasse a ser parte do nosso folclore. Eis um ponto de partida para não se estranhar que haja uma banda finlandesa como os Força Macabra (1) que cantam em português (sem saberem falar a língua!) porque são fãs das bandas Hardcore brasileiras dos anos 80! Ou isto para dizer que qualquer género ou subgénero é absorvido pelos finlandeses, sendo depois recriado, transformado, reciclado e cuspido como algo novo e fresco, ao contrário da produção anglo-saxónica dos últimos anos, perfeitamente insípida e decadente.
E directamente da História, dois CD’s que mostram que há muito que os finlandeses são “gajos estranhos”: Arktinen hysteria - Suomi-avantgarden esipuutarhureita (Love Records; 2001), ou se preferirem, “Histeria Árctica, primórdios da vanguarda finlandesa” uma colectânea que recolhe 13 faixas de música experimental entre 1961 e 1970, que começa com gravações de arrotos, passa pelo Noise/Electrónico já bastante sofisticado, Free-Jazz marxista (!), Pop-Blues casado com Prog, proto-Industrial, música improvisada/concreta, e conceptual warholiana (uma faixa repete ao nome do carismático presidente Kekkonen durante 6 saturantes minutos, a voz é de um senhor de uma mesa de voto que vai lendo os resultados nas eleições de 1962). Talvez não seja o melhor CD para qualquer pessoa começar a ouvir música finlandesa (ou seja o que for) mas a edição explica porque duas gerações de “noisers” como os conhecidos terroristas Pan Sonic tocaram em 2002 no Centro Cultural Kiasma (Helsínquia) com os velhos Tommi Parko e Erkki Kurenniemi, que nos anos 60 inventaram máquinas/instrumentos novos, como o “sexofone”.

Passions of Läsä Äijälä (Badvugum/BV2; 2004) é uma retrospectiva musical do trabalho de Läjä, músico que criou o Hardcore finlandês com os Terveet Kädet (trad.: Mãos Saudáveis) ainda hoje considerada como uma das melhores bandas de Hardcore pela Maximum Rock’n’Roll. Mas o homem teve e ainda tem uma actividade em Aavikon Kone ja Moottori (trad.: Maquinaria e Motores do Deserto) - um projecto industrial -, Billy Boy e Kolmas (Psychobilly-Noise? As ligações que faltavam entre Suicide e Pan Sonic?), Death Trip (drone-punk), Sultans (Blues?) e Leo Bugariloves (Pop bizarro). O CD juntou todos esse projectos cronologicamente em 78 minutos deste criador ímpar.
Se calhar, é por isso é que ainda hoje a experiência e vontade de brincar é uma característica dos músicos finlandeses. Por exemplo: Pylon Rocks and Whips (Boing Being, 2000) é música experimental por 2 criativos que se afundam em guitarras desafinadas criadoras de "landscapes", num violino malcriado e numa precursão disfuncional. O que permite sonoridades electro-acústicas estridentes que são coladas com alguma electrónica gerada por um antigo Commodore 64.
Estranho tudo isto? Excêntrico? Claro, que um país nórdico é rico. Afirmação grosseira, eu sei. Outra: como sabemos o dinheiro permite qualquer um ser excêntrico. Mas se não houver alguma espécie de vitalidade, mesmo num ambiente abastado, não serve de nada ser excêntrico - basta ver os países vizinhos que são modestos em criação artística... Não é o que acontece na Finlândia como já devem ter percebido, e a provar é que sejam editoras caseiras, “indies” ou comerciais, todas editam música nacional que além de terem uma produção sofisticada – competitiva com qualquer banda anglo-saxónica – ainda tem ideias a rodos, sem que com isso sejam “inacessíveis” ou “intelectuais” – palavras que preocupam os senhores desta revista! O compromisso é saudável e lembram-nos quando a música não passava exclusivamente por uma investida de Marketing como nos dias de hoje. Diz Jälä: “Na Arte e Música podes fazer o que te apetecer. Nada na vida é compulsivo, excepto morrer, infelizmente.”

Seguindo essa máxima eis alguns exemplos de bandas/discos que tive acesso:
Aavikko: Derek! (Humppa; 1999) é uma bateria e dois órgãos rascas que fazem a festa perfeita para amantes do Ska que não queiram ficar anacrónicos, ou, a única banda sonora perdoável nos carrinhos de choque da feira.
Cleaning Women: Pulsator (BV2; 2001) pode ser definido como “Post Novelty Noise Rock Funk Sci-fi Samba Metal Disco Hardcore Folk Industrial Zounds” e mesmo assim não sei se me esqueci de algo. Três pseudo-travestis pegaram em restos de material de limpeza doméstica (estendal da roupa, tambor da máquina de lavar, baldes, parafusos,…) e continuaram o trabalho que os broncos dos Therapy? deixaram a meio com o tema “Teethgrinder” - lembram-se? Por alto, lembram coisas soltas, independentemente da qualidade, de Rudimentary Peni, Einstürzende Neubauten, Filter, Secret Chiefs 3 ou Skeleton Key. Obcecados por limpeza, os CW são os responsáveis por este artigo – ao descobri-los, a vontade conhecer mais sobre a banda levou a este “micro-dossier”! Se vi o futuro do Rock? Sim! Um Rock transgénico com dramatismo da música tradicional e riqueza rítmica do Industrial. O novo CD Aelita (BV2; 2004) será criticado no próximo número!
Kometa: Like a light bulb (Badvugum/BV2; 2005) não é um sucedâneo manhoso quando se cruza o inimaginável: por um lado o peso “Black-Sabbathiano”, a barulheira, o arranca-e-para dos Melvins, de outro a sensibilidade Pop Beatliana, o nonsense, os metais e mudanças estilísticas dos They Might Be Giants. Pujante e inteligente, como qualquer banda que seja boa, sabe sintetizar os 50 anos do Pop/Rock com personalidade. 2/3 dos Cleaning Women estão cá metidos. Isso explica a coisa?
Stalwart: Torment nonplus (Badvugum/BV2; 2004) fica entre os Rapeman (do mestre Steve Albini) e o “Daydream Nation” dos Sonic Youth. Rock Sónico potente e seguro de si, quase todo instrumental nos seus 25 minutos. Obriga ao “replay”.
No metal, além de uma enorme produção industrial possível de encontrar nas resenhas desta revista, queria aqui só referir o EP Trollhammaren (Spikefarm; 2004) dos Finntroll, como exemplo da imaginação non-stop finlandesa mesmo no meio conservador do Metal. Mescla de Metal com Humppa (um tipo de Polka), resulta num som que faz lembrar os ajudantes do Pai Natal buéda cocados a trabalharem numa fábrica de prendas às 5 da tarde do dia 24 de Dezembro. Stressados, à mil à hora, ridículos. Os Finntroll usam o Black Metal para sodomisar o “Ska”. Cantam em sueco, a segunda língua “oficial” da Finlândia. Estúpido mas engenhoso, há momentos realmente giros.
Claro, que nem tudo o que vem de lá é bom, basta ouvir os recentes Voice of wilderness (Napalm Records/Recital) dos Korpiklaanis (uma imitação rasca do filão descoberto pelos Finntroll mas mais perto dos Mata-Ratos ou Sitiados) ou The monster show (Mayan/Megamúsica) dos Lordi (“White Zombie meets Gwar” mas mesmo mau!), ou ainda Kimmo Pohjonen (dizem que é um virtuoso do acordeão mas ao vivo não toca um peido) e para não falar dos execráveis HIM e Rasmus entre outros, mas temos de admitir que admirável que um país com metade da nossa população consiga criar tanto, em qualidade e quantidade, sem medo de comprometer o passado (o tradicional, a convenção) com o futuro (a tecnologia, a experiência).
Mais informações sobre música finlandesa em http://www.fimic.fi/

(1) Libe dos Subcaos já lhes escreveu umas letras e houve um split de ambas bandas que nunca chegou a sair.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Invisual 7.2 || RÁDIO ZERO

Esta Quarta, às 20h vai para o "ar-virtual", cortesia da famosa Rádio Zero, a sétima emissão da "segunda temporada" do Invisual, um programa que pretende divulgar as promíscuas relações entre a banda desenhada e a música.
Produzido por
Marcos Farrajota, este programa terá como convidado especial José Feitor, ilustrador, organizador de eventos e editor da Imprensa Canalha. O programa deverá se reger pelas habituais pérolas e novidades ligadas à bd e à música, a continuação do "dossier Finlândia" e o ciclo de músicas dedicadas ao sub-anormal do Super-Homem com o tema Tails of the Unexpected retirado do álbum Music Frå Hybridene (Kirkelig Kulturverksted; 1997) dos Farmers Market.
...
É repetido no Sábado, às 13h. Playlist: Mindflayer, Country Teasers, Cleaning Women, Mekons, Bob Sakuma, Pontos Negros, Modern Lovers e Camper Van Beethoven.
Podcast aqui depois da emissão.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Finland non-stop

Com o risco de repetir o que o camarada Marte escreveu no ano passado no Entulho Informativo #15 sobre a música finlandesa eis mais uns apontamentos que contribuem para a sua divulgação neste nosso país virado de costas prá Europa.

Mais uma vez é referido desde início o famoso Tango finlandês, que em 2004 (numa primeira visita ao país) tinha-me passado ao lado. Na visita deste ano consegui comprar uma compilação bastante elucidativa deste transgénico musical, trata-se do primeiro volume de “Finnischer Tango / Tule Tanssimaan” (Trikont; 1998) lançado por uma editora alemã bastante interessante e merecedora de mais investigações para quem tiver curiosidades noutros quadrantes geo-musicais. É um CD digipack acompanhado por um livrinho bilingue (em alemão e inglês) que explica este fenómeno bem como a razão da selecção das 24 faixas da rodela. Selecção essa que engloba um período enorme entre 1915 e 1998, ou seja, entre a primeira gravação de tango finlandês e o ano de lançamento da antologia. Assim temos uma visão abrangente deste estilo musical que engloba o galã da cena que caiu em desgraça (ou o Frank Sinatra da Finlândia ou o Elvis do Tango finlandês… ou se gostarem também desta: a Amália do Tango finlandês) Olavi Virta (1915-1972), o enfant terrible que tantos escândalos artísticos produziu nos anos 60 M.A. Numminen que aqui canta um Tango em alemão (WAS!?) satirizando o parlamento e os jovens estudantes de 68 que para se mostrarem prás garinas fingiam saber ler Karl Marx na língua original (oh-oh-oh), ou ainda Brita Koivunen que misturava Tango com Pop (Twist/Yé-yé) em 1966, num período de decadência do género. Foi aliás, esta mistura de Pop/Rock (música urbana e sofisticada do sul da Finlândia - a capital, Helsínquia fica no sul...) com o Tango (música rural e tradicional, popular sobretudo no Norte) que revivesceu o Tango finlandês até chegar aos dias de hoje como a coisa mais natural naquele país nórdico, ao lado da Sauna & do Ski. Há dezenas de figuras para comentar (poetas que morreram bêbados, artistas populares a mugirem o País das Fadas, bandas rock a amplificarem os instrumentos) mas creio que os três artistas atrás referidos já servem de referência para se perceber a riqueza desta música, e sobretudo para se perceber que este Tango nórdico não é apenas uma brincadeira ou mera bizarria musical sem consequência. [4,5; para ouvir nos dias quentes do Inverno e nos frios do Verão]

Avançando no tempo e na estética Pop temos “Softwood Music / Under slow pillars” (Poko; 1989) o último álbum dos Sielun Veljet que é uma freaknhice… foi pela capa do peruano Pablo Amaringo que peguei no CD e foi por ser em segunda mão e barato que o comprei - a mistura fatal de um coleccionador de música. Pelo que percebi das páginas que consultei – 99% delas nessa língua acessível a 5 milhões de pessoas no mundo - a banda existiu entre 1983 e 1992 e deveria soar aos Red Hot Chili Peppers mas mais xamãnicos (mas menos xamãnicos que o Amaringo de certeza!) como nos diz este link. Para mim isto soa antes aos Crash Test Dummies depois de terem tomado mucho ácido, man. Não querendo ser mauzinho porque o raio do disco não é mau também, é com agrado que vamos encontrar violinos amargos, djambés de THC, guitarra acústica (claro) e também guitarra com um feedback bem esgalhado, letras relevantes do "misticismo de cevada" dos seus criadores cantadas em inglês - creio que terá sido o único álbum cantado em inglês por estes “Irmãos da Alma”. Por fim, diria que até soa aos Akron/Family e ao neo-folk psicadélico que tanto está na moda nos dias de hoje. [3,9; quem sabe um dia vá parar às Trocas de Discos]

E já que há Sinatras da Finlândia então a Bad Vugum (e a sua continuação BV2) é a Ipecac da Finlândia! Podem achar exagerada a comparação mas se considerarmos que este país tem metade da nossa população ou que a Ipecac age a nível global (até tem andado a namorar os nórdicos como o noruegês Kaada ou os islandeses Ghostigital) então é mesmo impressionante assistir ao facto que esta editora - a mais importante "indie" da Finlândia - lança a melhor música do seu país, capaz de competir com a melhor música do mundo por aí a fora. Dos divertidos Aavikko a Läjä Äijälä (o criador do Hardcore finlandês) até aos Rockers pós-modernos Cleaning Women, o único defeito a apontar à BV2 (e se insistir numa comparação directa à Ipecac) será do design, que apesar de não ser mau não é tão ambicioso como a música dos projectos editados. Das minhas recentes adquisições "bad-vugumescas" eis:

Chainsmoker tem "Stations" (2003) como o segundo álbum (desconheço o primeiro) e tocam uma electrónica orgánica com cheiros de Rock, Jazz, House, Funk, Dub a trilhar os caminhos já trilhados pelos Sofa Surfers ou os New Order - ou até dos Stone Roses na última música, Leave Tunis now - mas não chega a ser "um mero sucedâneo". [4; porreiro para passar num bar]

Kontackto (DJ de uns tais Kaucas) com "Kasperi Laine & Kummitusorkesteri" (2004) é a outra face da "electrónica orgánica" dos Chainsmoker, ou seja, carrega mais nas facetas Jazz e Dub e afasta o pézinho de dança para ambientes negros, quase psicadélicos e fantasmagóricos (kummitu significa fantasma), estando mais próximo de um TripHop-Glitch que liberta sons fragmentados ao longo das composições. Também lembra os sufocos dos Sofa Surfers sem envergonhar. [4; idem]

Os Phuzy estreiam-se com "Sightseeing" (2003), um mini-CD só de 17m e 5 músicas mas nervoso e energético. Desde do início os Soul Coughing serão a referência desta banda - pela voz e pelos ritmos quebrados - e essa marca ficará presa nos próximos temas mesmo quando eles exploram para outras coordenadas como Reggae e Ska, sempre fundidas com uma boa dose de "ruído branco". Também poderemos encontrar outras equivalências à banda como por exemplo, Urban Dance Squad, Primitive Reason ou Pitchshifter. Bom som! [4; para festinhas serve bem]

Os Ronskibiitti é a primeira aposta em HipHop pela BV2, o que nos deixa logo de "pé-atrás" - que monstro sairá daqui? Mas "Eipä Kestä" (2006) como bem indica é Hip Hop em finlandês, o que não seria um problema se o Rap não fosse em finlandês. Por isso não percebo nada do que dizem - a não ser que soa a italiano (!) e que poderá ser uma cena divertida. Que rimem com as longas palavras finlandesas como «Jossullonjotainsanottavaa» que para nós é nos igual. A produção (instrumental) não é má mas também não é muito original. Na realidade o que se percebe deste disco é que o HipHop/Rap é, actualmente, a grande arma da música moderna contra a Globalização porque, doa a quem doer, a língua materna é recuperada para o circo Pop. A França é prova viva disso há muitos anos. Portugal, Espanha, Cuba, Angola são mais exemplos e agora também podem por o Suomi na lista... [3,5?; Trocää dii Diisqui]

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

all gone from A to E

A minha colaboração com o Underworld / Entulho Informativo foi-se... e antes que eles tirem as minhas críticas do site deles (nunca se sabe) vim alojá-las aqui mesmo assim ao molho, só por ordem alfabrútica! As reviews têm pontuação à boa maneira de revista pro e os nomes das bandas estão em caixa alta sabe-se lá porque razão idiota...

ADVANTAGE The Elf-intitled CD 2005 · 5RC / Sabotage
Vivemos num mundo em ruínas, uma Roma cercada de bárbaros à espera de ser saqueada... Bem... ‘bora divertir-nos antes do massacre e do fim da nossa existência! Bute ouvir estes californianos que juraram gravar todas as músicas da Nintendo até morrerem! Tarefa essa que continua neste segundo álbum: as músicas de 8 bits dos clássicos Double Dragon III, Castlevania, Wizards & Warriors são transformados para o formato “guitarra, baixo e bateria”, em estruturas muito bem conseguidas de Rock-Jazz-pseudo-electrónico, que podem lembrar um pouco os Trans Am. Merecem a pontuação em linguagem binária: 0011,0101

ANABELA DUARTE DIGITAL QUARTET Blank Melodies CD 2005 · Zounds / Sabotage
Polaroids: Anabela e a Björk fazem compras em Londres; Anabela e a Laurie Anderson tomam um cappuccino em Nova Iorque; Anabela ao lado do “Fernando Pessoa” na Brasileira, a comer um pastel de nata... Quem é esta gaja ao lado da Björk? Anabela Duarte é uma figura injustamente esquecida da Pop nacional porque, à excepção do trabalho com os Mler Ife Dada, a carreira dela nunca foi mediatizada. A solo, fez dois discos: “Lisbunah” (Polygram; 1987), no qual já trabalhava uma revisão do Fado (muito antes desta moda salazarenta) e “Delito” (Ananana; 1999), com gravações de espectáculos de 1991 no Instituto Franco-Português, e onde o tradicional e a cibernética apertavam muito bem as mãos. Apesar da gravação ser fraca, “Delito” mostrava que Anabela sempre esteve uns passos à frente de quase toda a gente em Portugal. E tão à frente está ela que fez um terceiro disco – finalmente com uma boa produção, como é apanágio da Zounds – tão sofisticado que “Ela-ela” perdeu a Alma. Não é à toa que a Björk ou a Anderson aparecem logo no início deste texto – as comparações são inevitáveis, os maneirismos deixam-nos desapaixonados. Anabela canta pela primeira vez tudo em inglês, um fascismo linguístico, quando antes usava o português e enxertava inglês, francês, alemão, arménio e “Dada”. O som Microwave até nos entusiasma, sobretudo em “There Will Be Evil”. As doze músicas que compõem o CD são bonitas mas a beleza é de um Design artificial. O título “Blank Melodies” assenta como uma luva: melodias vazias. “Alfama” ficou lá bem para trás. 3,3

ANDRÉ ROBILLARD Sait-on jamais la vie CD/DVD 2002 · Le Dernier Cri
A editora francesa Le Dernier Cri é a ovelha negra das independentes francesas. É uma editora que se dedica a lançar os desenhos, ilustrações e banda desenhada em livros (geralmente serigrafados com mestria) mais agressivos do planeta. Mas também lançam discos Punk Noise... entre eles encontramos este de André Robillard um demente cujo o trabalho é procurado / cobiçado pelos coleccionadores de Art Brut. É conhecido pelas suas armas Lazer feitos de lixo encontrado na rua. Mas o bicho também canta. E toca acordéon (até lhe dá!) para além de executar uma estranha percussão com um balde e cartuchos vazios nos dedos... Irritante ao ponto de se quer me dar ao trabalho de perceber o que homem diz, eis um objecto que serve de registo aúdio de um artista louco e dos periquitos na gaiola que vivem com ele. 3

BERNARDO DEVLIN Circa 1999 [9 implosões] CD 2003 · ExtremOcidente / Sabotage
- Então Marte, o que tens feito?
- Olha, ando a escrever para um zine de música...
- E é fixe?
- Sim, escrevo sobre bd e alguns Cêdês de música estranha...
- Música estranha?
- O que não é Metal, Punk e Hardcore [risos] ... sei lá... sobre Industrial ou Pop... coisas inclassificáveis como o Bernardo Devlin...
- Devil!?
- Não é Devil Metal! É mesmo nome de beto, Bernardo Deve-line. Fez a banda sonora d' A Suspeita...
- Aquele filme de animação muita-bom?
- Yá!
- E é fixe?
- Algumas pessoas gostam, a parte instrumental é do melhor que já se fez em Portugal mas a voz dele estraga tudo... o que eu gosto mesmo é do nome da editora, Extremo Ocidente, tudo pegado!!!
- Masé-fixe?
- São 9 composições bufas & oníricas de música contemporânea... não é Clássica, não é Jazz mas usa elementos de ambos...
- Masé-fixe?
- Ele já fez parte dos Osso Exótico, lembras-te?
- Sim, sim, masé-fixe?
- Lembras-te mesmo de Osso Exótico!?
- Bardamerda, para a próxima não falo contigo, adeus!
- ...
3,5

BY-PASS Psychoactive CD 2000 · ITMM
I. O autor sérvio de bd Aleksandar Zograf veio a Portugal e passou-me o disco de estreia dos seus vizinhos By-pass. Ambos vivem na cidade de Pancevo, cidade essa que foi bombardeada pelas Forças da Liberdade da NATO em 1999... pois. Dada a estas "convulções de libertação" (para não dizer outra coisa) devem imaginar que não deve ter sido fácil gravar e editar o album.
II. Poucos meios, grande imaginação. A jeito de brincadeira, hoje ao almoço, dizia para a minha colega de trabalho que Portugal também devia ser bombardeado ou sofrer uma guerra civil para a arte portuguesa deixar de ser uma punheta chata.
III. Os By-pass podem ser facilmente rotulados como um Rock Neo-Grunge que suplica a Soundgarden e Tool, e apesar de a dada altura perderem a pica nas últimas faixas, também sabem apresentar um Rock poderoso com identidade. E isto porque sabem Criar. E só se cria quando se tem à vontade para ser lúdico. E esta banda "psioactiva" sabe fugir fugazmente aos seus moldes fazendo experiências laterais - usando electrónica ou até elementos étnicos - que até soam a algo de novo mesmo quando sabemos que isso não é verdade.
IV. By-pass não é a melhor banda de sempre, é só mais uma banda de garagem perdida no mundo mas serve de exemplo para as bandas de garagem de Portugal. Se em Portugal o pessoal fosse menos coninhas e parasse de fingir que é muito sério e/ou profissional - o que até hoje não deu em nada no que diz respeito a fama & fortuna tirando os Moonspell diga-se de passagem - e já agora se cantassem na sua língua-mãe - estes By-pass cantam em sérvio = não percebo um peido... mas garanto que soa bem! - talvez a música portuguesa fosse mais excitante e sincera. Estamos balofos ou mimados (escolham)...
V. O humor está mais que presente a julgar por um separador em que o David Lee Roth é parodiado... só por isso já vale a a pena! «I'm just a gigolo!» 3,4

CLEANING WOMEN Aelita CD 2004 · Badvugum/ BV2
Se o tivesse ouvido em 2004 seria o meu álbum do ano! Apesar de ser um CD encontro-lhe um feeling de LP/vinil, isto porque a partir da faixa sete – que no grafismo do CD inicia a segunda coluna de títulos das músicas – o ambiente muda completamente. Bem, do que falamos? Copy+paste sobre o primeiro CD criticado no texto do Under’ #15: “os CW são “Post Novelty Noise Rock Funk Sci-fi Samba Metal Disco Hardcore Folk Industrial Zounds” / Três pseudo-travestis pegam em restos de material de limpeza doméstica (estendal da roupa, tambor da máquina de lavar, baldes, parafusos, …) / Obcecados por limpeza / Rock transgénico com dramatismo da música tradicional e riqueza rítmica do Industrial.” Neste segundo disco, começam com uma “banda sonora” de seis minutos para o filme de Iakov Protazanov, “Aelita” (1924), que é o primeiro soviético de Ficção Científica – a acção passa-se em Marte, prestes a explodir numa Revolução Operária, e tem cenários/roupa esteticamente devedoras ao Futurismo e ao Construtivismo [o filme é remontado num videoclip de dez minutos e incluído no CD]. A tal banda sonora recria o ambiente cinematográfico e nostálgico na perfeição, com um toque épico de meter inveja a muita banda de Gothic Metal. Uma homenagem e uma obra-prima ao mesmo tempo? Possivelmente! Até à quinta faixa há um tom sério com Hip-Hop Industrial, Country meio tonto, Hardcore desmembrado, etc... Chega ao lado B (a faixa 7) e o tom muda para algo divertido: funky, musical de Broadway (“Entertaining Musical Hall”), Metal Étnico/Oriental (lembra Secret Chiefs 3), jingle para vídeo promocional de um hotel de Verão... Logo vêem. E sempre com um som “CW”. É pouco? É! Só tem 42 minutos! Quero mais!! 5

CREWCIAL Ombuto (A semente) CD 2005 · Matarroa / SóHipHop
Com as edições de Conjunto Ngonguenha, Verbal e agora estes Crewcial, a editora nortenha Matarroa tornou-se na embaixada de hiphop angolana em Portugal. O que per se já é uma boa notícia obstante que os discos de Crewcial e Verbal - ao contrário dos Conj. Ngonguenha - deixam um bocado a desejar. O Hip Hop é o fenómeno (musical e não só) urbano mais importante dos últimos anos não só em Portugal e na comunidade portuguesa, no entanto o que tem faltado é loucura e genialidade nos grupos/discos. Não que a qualidade de gravação, produção, da música e "literária" sejam más - aliás isso já não existe neste milênio graças ao acesso tecnológico - mas justamente neste caso podia haver aquela metáfora que entre Angola e Portugal há uma distância enorme mas ouvindo "Ombuto" não damos conta disso... as raízes africanos devem ter caído do Boeing 747, os tripulantes ouviram demasiada R'n'B foleira nos auscultadores do avião e por fim foram assimilados pelo cinzentismo português quando chegaram ao aeroporto. E já agora, por falar em qualidades de produção, parabéns ao Chemega, provavelmente o designer de embalagens de cédés mais original do mundo! Quem duvidar que veja o que ele fez com a estreia de Verbal e agora com este disco: chemega.com - é que este é o segundo disco (o outro é do Verbal) que só está lá em casa por causa da embalagem! 3,1

DEATH FROM ABOVE 1979 You're a woman, I'm a machine Duplo CD 2005 · Last Gang / 679 / Farol
Parece que anda na moda bandas de 2 elementos e realmente para quê ter uma banda de 7 gajos para fazer estardalhaço? Numa pespectiva KISS (keep it simple, stupid) acredito que deve criar uma sinergia mais intimista e menos distraída com apenas 2 pessoas. E os resultados estão à vista, neste caso, estes canadianos transbordam energia e imaginação Rock e Funk trashalhado (a referência antiga dos Gang of Four não poderia estar de fora como aliás tem acontecido com maior parte das bandas dos últimos 2 anos) chupado nas veias revisitadas da New Wave. É natural a comparação dos DFA1979 a Liars, Yeah Yeah Yeahs e The Rapture. Com bateria, voz e sem guitarra (incrivelmente emulada pelo baixo e sintetizadores) convencem-nos a dar um pezinho de dança e a beber mais um copo... e mais outro e... a desgraça acontece... uma bebedeira daquelas que dá para dançar histericamente a provar a quantidade temas "single" que podem ser sacados de um álbum com pouco mais de 35 minutos, que é diversificado e certeiro como deve ser um bom álbum de estreia. A presente edição inglesa presenteia-nos com um disco extra com 2 vídeo-clips, um tema ao vivo, dois extra e 3 remisturas a dar para o "Electro", tudo isto material sacado da discografia "extra-álbum" da banda que completam mais uns vinte e tal minutos de prazer. 4

DINOSAUR Jr. 3 CêDês 2005 · Sweet Nothing / Ananana
Dinosaur [1985] Era o álbum homónimo da banda antes da banda ter de acrescentar o “Jr. “ por já haver outros Dinosaur na praça. Já cá está tudo o que viria a tornar os Dino Jr. em algo único nos anos 80: barulheira sónica, energia crua ressacada do Hardcore, solos de guitarra Heavy, sentimentalismo Folk e letras lamentosas cantadas por uma voz mastigada de J Macis.
Extras: O primeiro single “Does it Float” ao vivo, o que permite comparar o tema em estúdio e o inferno sónico live. 3,7
You’re Living All Over Me [1987] É o desenvolvimento natural e aperfeiçoamento da fórmula descoberta. Gravado na editora da altura, casa dos Sonic Youth ou dos Husker Du, o baixista Lou Barlow tem direito à composição de dois temas neste disco cheio de energia Pop/Rock com trago metalizado.
Extras: A versão bem porreira de “Just Like Heaven” (The Cure) e dois vídeos. 4,2
Bug [1988] Primeiro álbum já com a denominação “Jr.” e o último da formação original. Macis torna-se o único compositor e tirano da banda. O som está tão solidificado que mais do que nunca apresenta as suas características dualistas: acessível /complexo, épico/melancólico. Mas o que é mesmo fixe neste disco é que não todos os dias que se mete um tipo da banda a gritar durante 4 minutos “porquê é que vocês não gostam de mim?”. Barlow saiu depois deste álbum para criar os Sebadoh, Folk Implosion, …
Extras: Dois videoclips. 4,1
Conclusão: Com estas três reedições fica feita a primeira parte da história dos Dino Jr. Em 1988 sai também pela SST, o primeiro dos Soundgarden, um ano depois aparecia “Bleach” e em 1991 “Nevermind”, ambos dos Nirvana. O plano Grunge estava em curso! Os Dino Jr. iriam ter a sua quota-parte da fama nos anos 90 até à sua dissolução em 1997 – e respectivo recente retorno que até deu direito a uma visita ao Sudoeste deste ano.


DISCO DOOM Binary stars CD 2003 · Defer / Architecture
Começa com Dinosaur Jr., depois parece Melvins com Pavement, há terceira música já vamos para Blues Explosion com Sebadoh, mais tarde Sonic Youth e outros "indíos"... não que seja mau o disco destes suiços mas para quem é já batido nestas andanças já sabe que mais vale ficar pelos originais de que uns "local heroes". Por acaso o disco até é bem esgalhado e bem trabalhado fugindo muitas das vezes para caminhos menos óbvios da mediania do "indie" como para o Stoner ou Space Rock mas ficamos sempre com aquela sensação de desconforto de que já ouvimos aquilo noutro sítio qualquer. Mais curioso é o ritmo do álbum que começa com temas mais agressivos e depois vai caindo para paisagens marcianas calmas e intrigantes... isto em 34 minutos. Nada maus para estreia. 3,5

DOWN RIVER NATION Pulse CD 1999 · Chaosphere Recordings
Alguns cromos de bandas mais ou menos conhecidas como The Whores of Babylon (Goth-Metal electrónico), English Dogs (Punk UK anos 80), Prodigy (Techno, pseudo Punk-electrónico) juntaram-se e fizeram uma brincadeira: tocar Rock pesado... Desde já digo que é um álbum bem produzido - até demais para uma brincadeira - mas há aquela máxima: "Basicamente, os ingleses não sabem rockar!!!" Buenos... tem bons riffs, boa bateria, etc... mas no fim, a coisa não pega, nem é Rock doce (sim porque os ingleses sabem fazer pop deliciosa!) nem é Rock amargo. Não que seja mau, não que não tenha até alguma originalidade, não que não seja bem tocado. Não bate, porque será? Simples: "Basicamente, os ingleses não sabem rockar!!!" Estranhamente este disco foi só editado cá em Portugal, considerando as personalidades envolvidas é caso para dizer que temos aqui uma peça de colecção. 3

DSM666 CDr 2006 · useLESS POORductions
DSM666 é alter-ego do K.U.T. (Kero um tiro – Gabba, Digital Hardcore, Teknoise), ou vise-versa - e é ainda Eye.8.soccer (Perestrelo Noise) e quem sabe outros mil projectos secretos. Neste projecto dedicado ao Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM, manual publicado pela Associação Psiquiátrica Americana que serve para identificar as várias doenças mentais) é aplicado a fórmula Drone industrializante, que presta vassalagem ao Black e Doom Metal para criar o efeito de ambiente negro e psicótico q.b. – agora que Portugal tem finalmente "serial-killers" poderemos apreciar este tipo de obra com algum orgulho nacional e pesar dramático, ié! Esta “Burzum Black Mayonnaise Mass” (perdoem-me os anglicismos) está materializada num CD-R de edição limitadíssima (existem 10 exemplares empacotados em cartão de pastas de arquivo) que traz três faixas de cerca de 17 minutos no total, e ainda bem que passado a coisa começa a irritar os tímpanos. De resto, quem tiver curiosidade basta ir ouvir no MySpace do projecto e se quiserem o objecto peçam ao Dr.Gama. 3,5

D’EVIL LEECH PROJECT Bleed Your Mind CD 2004 · Raging Planet
Não posso ficar calada quando vejo injustiças! A sério que não! Não percebo porque um dos melhores projectos de Metal – de Extreme metal, o único em Portugal? – é completamente esquecido pelo fandom português, pela imprensa especializada e tudo que rasteje nesta pátria lusa que use cabelo longo para headbanging. Nenhum álbum de estreia (embora este já seja o segundo do colectivo, uma vez que antes intitulavam-se de Devileech e gravaram Leechtron pela CD7 em 1997) foi tão ignorado - em relação directa à qualidade da banda e da sua música. Não percebo como tanta trampa que anda por ai recebe mais atenção e carinho que eles. Talvez porque incluam excertos electrónicos e o pessoal da pesada não curta? Porque pareciam uma pandilha de gays (“Tom of Finland a desenhar os Flinstones”) no vídeo-clip “M0du5 0p3r4nd1”? Porque são da margem sul? Porque usam caixa de ritmos? Mas a voz à Cannibal Corpse não convence ninguém? Nem a dualidade brutalidade e sofisticação de uns Zyklon? Nem os milhentos riffs imaginativos que escutamos nos 54 minutos do CD? Nem o Industrial Death Metal a rodos? Nem as letras sujas de Gore? Parece que ninguém se apercebeu que os D’evil tem imaginação para todos que se atravessarem no seu caminho. Por exemplo, o tema “Into Slackness” é surpreendente pela facilidade como começam com um riff minimal devedor aos My Dying Bride e algum Heavy Metal clássico (Psicadélico!), transmutando-se em Death, regressando ao riff psicadélico e acabando numa Electrónica quase ambiental na linha dos projectos mais “funcionais” da Thisco… e quando nos damos conta do que aconteceu já estamos no próximo tema, “Achromatic Impetus”. Toda a obra que se encontra registado neste este disco é uma viagem cyber-porno-serial-killer que nos deixa em estado de ansiedade tal, que se o animal de estimação arrastar a bola de ténis pelo chão e fizer um “barulho suspeito” o mais certo é apanharmos um susto valente – iá! o violador louco do bairro entrou em casa! E se de valentia escrevo, então estes 4 tipos são isso e muito mais porque até a “Dave-Mckeanada” está bem feita, ou seja, o artwork do CD está melhor que qualquer outra banda do género neste canto europeu e acreditem sendo eu uma metalhead já há alguns anos sei do que falo! O que eu quero dizer é que mesmo quando os D’evil caiem no cliché da cena, conseguem fazer melhor que a média. Isso já é muito nos dias que correm!
PS – há rumores de um regresso para este ano… amigos do underground: atentos e dêem o vosso apoio a UMA banda lusa realmente BOA! assinado como Axima Bruta 4,5

EAGLES OF DEATH METAL Peace Love Death Metal C D 2004 · AntAcidAudio / Sabotage
Na banda sonora de "Kill Bill vol.1" há uma música horrível mas que acaba por ser fixe. Correcção, mesmo muita fixe... é aquela versão Tex-Mex-Disco-de-tias dos Animals de uns tais Santa Esmeralda! Nos anos 90, o "kitsch" tornou-se um estandarte de muita arte e a ironia, a arma de arremesso. A vergonha de gostar de algo que é francamente mau tornou-se "cool". É o que acontece com esta banda, que começando logo pelo nome que é apropriado à banda autora do infra-satânico tema "Hotel California". E depois de Death Metal não tem nada, claro, afinal são os Eagles do Death Metal! Como se pode escrever uma resenha séria a uma banda cuja capa do primeiro disco se apresenta de cor-de-rosa e azul bébé? E quando a música só nos faz lembrar em gritar «let's boogie!»? [Que nojo: «let's boogie!»] Mas os EDM soam bem, sim, é verdade, o que se pode fazer? Afinal seria impossível mais uma banda da família dos Queens of Stone Age (Josh Homme é aqui baterista) soar mal, não? Só que invés de Rock pesado e desértico o passeio dos EDM é pela Pop manhoso e Rock sulista dos anos 70 (fazem uma versão de "Stuck in the Middle with You" dos Stealers Wheel, lembram-se da banda sonora dos "Cães Danados" também do Tarantino?), pelo Blues/Garage à Jon Spencer, pelo "Arena Rock" dos Kiss, pelo Glam de ir ao cuzinho, pelo "Funk-Falseto" à Prince, etc... uma paneleirice pegada que há muito não se via! Que este será o disco de verão para muita boa gente isso será... eu gostei... e pelos vistos tenho mau gosto! 4,1

EARTH Hex; Or Printing In The Infernal Method CD 2005 · Southern Lord / Sabotage
O regresso de uma banda lendária dos anos 90 que estimulou o famoso Drone Metal que tanto se fala nos dias de hoje. Um regresso cinematográfico em que o Doom da banda é abandonado para o “Gótico Americano” – o quadro de Grant Wood (1891-1942) – ou se preferirem para o “Dead Man” de Jim Jarmush - um dos filmes mais bonitos de sempre, se me permitirem o aparte. Aliás, o que temos aqui é a continuação do que Neil Young fez na banda sonora do filme: Drone-Country. Por isso fãs de (Dark) Americana eis aqui um bom disco, mórbido e desértico como é regra. Metaleiros pouco encontrarão algo que vos interesse. Gajos que pensam que os Dead Combo são fixes podem encontrar aqui algo melhor. Fãs de Earth antigo talvez venham a gostar da mudança. Quem gostar da ideia de um mash-up entre Ry Cooder e primórdios de Black Sabbath este é o disco. 4

EXPERIENCE Positive karaoke with a gun / Negative karaoke with a smile CD + DVD 2005 · Boxson / Green UFOs / Ananana
O que é pior que uma banda Rock espanhola? Fácil... uma banda Rock francesa! Os Experience além de serem uma continuação evoluída dos Noir Desir (para falar da linhagem francófona apenas) acrescentam à violência sónica alguma voz rapada e electrónica (samplers). Vão no terceiro registo constituído pelo "Positive (...)", um CD de versões, e o "Negative (...)", DVD típico de banda ao vivo, na estrada e outras vulgaridades, coisa para fã sem critério. O CD é que me provoca (alguma) confusão tal é o ecletismo e bom gosto de bandas/músicas escolhidas, que atravessam estilos tão díspares como HipHop (Public Enemy), Rock sónico (Pussy Galore), Emocore (Q and not U), Alt.Country (Bonnie Prince Billy), ou gente inclassificável como P.I.L. e Soul Coughing, ou esquecida como Moonshake - uma banda Indie inglesa dos 90! É preciso ser cromo para juntar isto tudo! Só que bom gosto nunca foi sinónimo de Arte e estes zombies são pretensiosos e pouco calorosos (o típico francês?). Se havia dúvidas o DVD ranhoso tira-as. Tanto faz que sejam malucos q.b. para escolher Gil Scott Heron e Shellac, uma Almita nunca chegará aparecer! E porque nos dias de hoje é normal comprar DVD e CD na mesma embalagem: [2(DVD)+3,3(CD)]:2= 2,65