Madrid Neva
2021
Fundado por Pedro Brito e Marcos Farrajota em 1992, este zine de BD é um projecto mutante que começou em fotocópia, passou pelo "perzine" (com as autobiografias de Farrajota), monografias (Nunsky, Isabel Carvalho, Mike Diana, André Lemos, João Maio Pinto) e edições colectivas. Desde 2021 que voltámos às bases, publicando monográficos de novos talentos, projectando-os prá praça pública.
Na Glam-O-Rama é preciso falar com o "boss" para que ele deite cá para fora as "pérolas a porcos". E não sei como lá consegui sacar este CD, Real Estate : New Music From New York (Ear-Rational; 1990), uma colectânea de música experimental a lembrar que a cidade norte-americana sempre se quis armar em vanguardista. O que é seriamente duvidoso uma vez que a editora é alemã e o artwork foi gamado ao Frans Masereel (1889-1972), o verdadeiro pai das "graphic novels". Compilado por Elliott Sharp os nomes mais conhecidos serão os da harpista Zeena Parkins e os másculos-industrialitas Cop Shoot Cop (melhor nome de sempre!)... o resto não conheço e não parece que tenham tido grandes carreira até porque esta colectânea não é tão emblemática como a No New York (Antilles; 1978) ou as "Mutant Discos" da ZE Recrods.
Nesta segunda divisão, não deixa de ser um álbum que se ouve bem, o "experimental" não é pica-miolos, chega a ser mais música de câmara - até algumas vezes com laivos foleiros como os Soldier String Quartet - e Pop teatralizada (Shelley Hirsch com David Weinstein, Chunk, David Fulton) mas alguma dronaria antes de estar na moda. Talvez seja um disco No Wave com 10 anos de atraso? O que é constante são "samplers" de gajos a falarem do ramo imobiliário assim fora de contexto, talvez fosse um alerta de que o fim estava próximo para artistas viverem na cidade a ser gentrificada. Who knows?
A ideia era mostrar o livro Bottoms Up do Rodolfo Mariano - publicado pela Chili Com Carne - a vomitar Pop bonecada, como uma ruptura inter-dimensional que a BD de Mariano invadisse a realidade... e depois ia meter aquela legenda digna de gringo "bonecos não incluídos na aquisição do livro". Infelizmente sou um fotógrafo medíocre e as fotos são uma valente merda. Enfim...
Os Pop Dell Arte era uma banda que apreciava deste jovem. Passei meses quanto tinha 20 e tal anos, na primeira metade dos anos 90, a ir todos os meses à Barraca, Lisboa (um esforço suburbano de vir de Cascais prá "grande cidade") para tentar vê-los, sempre cancelados e sem explicações. Depois até surgiu o Sex Symbol (Polygram; 1995) que era fixe, e talvez por terem sido apostados por uma grande editora foram obrigados a irem para a estrada e vi-os, finalmente, no Paredes de Coura no seu último ano antes de se começar a pagar por festivais de Verão. Fiquei satisfeito, percebi que com o Sex Symbol a banda nunca mais seria tão extravagante como antes, com mais letras em inglês e com menos loucura sónica. Tudo bem...
Oiço anos mais tarde o tenebroso So Godnight (Candy Factory; 2002) e cago neles, que safoda que o Contra Mundum (Presente; 2010) tenha saído - agora arrependo-me porque o ouvi no Youtube e achei-o bom. Dez anos depois aparece este Transgresio Global tão merdoso como o EP de 2002. Não dá para não usar palavrões nesta resenha, desculpem. Há três anos, vi-os no Milhões de Festa e antecipava-se a seca deste álbum. Quatro pessoas vestidas de preto, num formato Rock convencional a debitarem músicas sem rasgo.
Esta banda sempre foi feita por quem lá passou, pela sua soma e não apenas pela figura de João Peste. Basta lembrar os contributos de Rafael Toral e Sei Miguel para sabermos o que foram os hinos memoráveis da banda. Se no começo deste disco, Em Creta, a promessa de algo tão brilhante como a capa do disco nos irá ser oferecido, graças, a um House-Funk mutante, tudo descamba logo a seguir, nem quando se rapina uma letra dos Sparks. Quase nunca mais aparecem híbridos estranhos que sempre foram apanágio da banda e que lhes elevavam ao Panteão do Art Pop.
O disco prolonga-se em 78 dolorosos minutos, um erro digno de 2000-e-troca -o-passo quando as bandas enchiam chouriços nos 80MB dos CDs, ainda por cima, percebendo que poderiam ter havido dois discos diferentes porque houve duas sessões de gravação, não há razão para o pesado anacronismo. Por falar nisso, se as vocalizações dramáticas e erráticas de Peste nos anos 80 ou 90 eram provocantes, nesta altura do campeonato metem constrangimento apenas, tal como as suas referências literárias e musicais nas letras como se não houvesse mais nada depois de Kahlo, Satre ou Foucault, ou - bocejo - Rotten, Marley, Bolan ou até Mick Harvey - o único gajo vivo da pandilha de heróis de Peste, credo! Estamos na web.2, meu, os putos sabem mais do que os macacos anteriores, não precisam de cartilhas. Claro, que nunca é mau relembrar, para os mais novos e amnésicos, que Portugal teve um facho como Pedro Passos Coelho ainda há poucos anos a governar-nos (que dizer do "Bosta" de hoje e a sua aplicação afasta-covid-big-brother-nazi-state) mas ouvir o tema Anonimous, composto originalmente entre 2013 e 2015 - inédito portanto - em 2020 é como sonhar que um dia o Coelho será chicoteado na praça pública depois da Revolução. Onde está a urgência Punk? Na latrina da sala de ensaios, pelos visto. Revolução essa que os Pop Dell Arte não contribuíram em nada nem que seja pelo simples facto deste disco ter saído pela multinacional Sony com guita da máfia da SPA.
Com décadas de rumor em que Peste iria morrer prá semana, pela sua conhecida toxicodependência, levando sempre a criar alguma ansiedade entre os seus fãs,... bom..., olha, já fui! Por mim, ele morreu aqui. Aliás, mea culpa, se escrevi o que escrevi com a morte do "Barbosa", sei que foi uma boa tentativa vir aos Pop Dell'Arte à procura de um "sonho Pop" mas foi um erro.
Quando os KMFDM lançaram WWIII acho que escrevi algo na Underworld - Entulho Informativo que estes industrialitas eram como os Ramones (ou Mötorhead), ou seja nunca mudam de disco para disco mas sem que isso seja propriamente mau ou uma desilusão. Assim vamos lá ver se tá cá tudo neste seu 15º álbum: batidas EBM, coros singa-a-long prá Revolução, voz dramática masculina, voz feminina tipo Ídolos, guitarradas Hard Rock, sintetizadores em fúria, música com auto-referência, Dub escondido, capa do Brute!, uma malha em alemão, sensação de ser uma b.s.o. para videojogo e é isso, temos o Tohuvabohu (Metropolis; 2007). Ok, há também uma malha em latim, não entra o Pig neste disco e há uma boa versão de Los Niños del Parque dos Liaisons Dangereuses.
Bhangra Beatz... A Naxos World collection (Naxos World; 2002) é um belo de disco para qualquer festa que se preze, com máscara ou turbante ou como viemos ao mundo. Som indiano que ganhou, nos anos 80 e 90, novo fôlego com a geração de emigrantes em Inglaterra a adaptarem técnicas de Hip Hop e Techno aos sons tradicionais, voltando prá India com essas novas roupagens e influenciando a indústria musical - ligada ao cinema. Eis uma colectânea que mexe com o corpo mas talvez um bocado com o cérebro - ao que parece "Bhangra" quer dizer cânhamo, cóf cóf cóf - como acontece com a faixa Soundz of the Des de Balbir Bittu verdadeira força musical que não deixa ninguém indiferente. Só por esta malha vale por tudo o resto. Mêne, onde se pode por som mas sem apanhar covid em 2020? Queria meter isto à prova!
Já agora, de referir que este CD foi adquirido no Bazar Esquisito, o último verdadeiro sítio do "Porto-Morto."


Tudo que possa escrever aqui será um chavão. O maior de todos é dizer que a imprensa britânica é uma máquina de triturar Pop/Rock. Seja um radialista ou banda tudo que mexa no pântano musical naquela ilha de porcos tem direito a bibliografia. Esta "estória verdadeira" é só mais um livro sobre os Príncipes do Punk. Em teoria escava melhor as biografias dos seus membros e os que rodeavam. Mostra que tal como os Sex Pistols foram montados por um empresário para serem mais do que uma banda de Rock - sendo a questão de controlo ou fora de controlo a verdadeira parte sumarenta destas narrativas.
Não sei o que tanta gente tem contra o Ska, desde de pseudo-críticos felinos até às altas instâncias intelectuais. Uma conspiração contra a vida? Siiiiiiiiiiim, se congeminarem esta teoria a fumar ganzas... A verdade é que as drogas explicam tudo e as novas gerações foram dopadas legalmente com tudo o que havia à mão. Por isso, ouvir música feliz? Errado! Ouvir música cheia de energia? Errado! Viva o Trap e a sua Codeína e Anti-Depressivos num país que sempre preferiu à merda da melancolia do que à "Fiesta" - excepto nos anos 90 porque havia bueda guita.
Isto para dizer que Chubby Dubby (Jahnotion; 2001) é um belo de um disco de Verão, mesmo terem passados dezanove por ele. A banda era os Three and a Quarter, "power-trio" de estranjas ricos estacionados na linha de Cascais e segunda divisão do campeonato Primitive Reason - tanto é verdade que não só editam na editora deles como até o artwork consegue ser tão merdoso como são os dos Primitive. Por raios prestei atenção a isto agora? Nos anos 90 quando apareceram nunca liguei a estes putos... A cena é que tinha uma k7 com o tema Noise In que é das melhores faixas de Rock em "Portugal" e lembrei-me de checar o resto do disco depois de ouvir a k7 há algumas semanas.
E é disco bem fixolas de se ouvir, tem temas fraquinhos de "so in love with you girl" e quejandos mas não chega a irritar. Ora tem temas Rock apanhacalhado como Ska festivo como Reggae com voz de branquela - Sublime poderá ser a referência aqui - , isto numa metade do disco, a outra metade é um gigantesco tema Dub de 26 minutos instrumentais, longe de ser genial sabem bem depois da ressaca da grande festa. Em 2020 não há festas bem sei, ou pelo menos com mais de 10 pessoas, eis um CD que iria resultar nessa festinha
PS - Curiosamente o tema Noise In refere-se ao Prozac. Visionário...


Eis um livro que pode ser um companheiro da "segunda parte" de The Decline of Western Civilization, sendo que Gaines tem uma missão maior que é analisar o pacto de suicídio de quatro jovens em Bergenfield (EUA, 1987). Escrita de forma jornalística, Gaines envolve-se na comunidade de jovens marginais dessa cidade e os seus "filmes" com álcool, droga, violência familiar e exclusão social. O livro revela muito bem como o sistema de educação norte-americano é segregador e eugénico, e onde até na tentativa de mudar as regras do jogo, a sociedade gringa não consegue de pensar sempre no "big buck", fazendo de todo o arsenal social uma forma de fazer guita.