terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

26


- Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo, vol. 1 (Bertrand; 1975 - orig. 1949)

- Adam Curtis : Shifty (BBC; 2025)

- Shintaro Kago : Parasitic City #0.1, 0.2, 3 (Hollow Press; 2025)

- Joe Sacco : The Once and Future Riot (Jonathan Cape / Vintage / Penguin Random House; 2025)

- Ammar 808 : Maghreb United (Glitterbeat; 2018)

- Jazmín Varela : Campeón (Sigilo; 2025)

- Silvio Lorusso : Entreprecariat : Everyone is an entrepreneur. nobody is safe (Onomatopee 170; 2019)

- Guy Colwell : Inner City Romance #1-2 (Last Gasp; 1972)

- Jim Donaghey, Will Boisseau & Caroline Kaltefleiter [ed.] : DIY or Die! : Do-it-yourself, Do-it-together & Anarchism (Active; 2024)

- Pedro Baptista : Whisky & Chips (TBA; 15.02)

- L'ego + Hi$t : Biologia (SPH; 2025 - orig. 1989)

- Holy Burger : in comics we trust (Forum Ljubljana; 2024)

- Nettwerk Sound Sampler vol.04 : Possessed (Nettwerk; 1992)

- Tânia M. Guerreiro (curadoria), Mohammad Abbasi, Ana Borralho & João Galante [et al]: Self-Uncensored [uncoding] (TBA; 25.01)  

- Prado (Vortex; 31.01)

- Catherine Ribeiro + Alpes : (Libertés ?) (Fontana; 1975)

- Crawling Chaos : The Gas Chair (Factory Benelux; 1981)

- Marga Alfeirão : Lounge (TBA; 09.01)

- Yutaka Aso : Children of the city (?;? - orig. 1947)

- Luís Moreira Gonçalves + Felipe Parucci : Dormindo entre Cadáveres (Zigurate; 2025)

- Deben Van Ham : Putain (2025)

- Kleber Mendonça Filho : O Agente secreto (2025)

- Richard Linklater : Nouvelle Vague (2025)

- Stripburger #85-86 (Forum Ljubljana; 2025)

- Artistas Unidos : O Piloto Americano de David Greig (Teatro Variedades; 4.02)

- Derek Pell : Doktor Bey's Bedside Bug Book (A Harvest / HBJ Book; 1978)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Flexi-comics para todos os gostos! (embora só o do Panter é que vale a pena!)

Não deve haver formato mais xunga que o "flexi-disc". Para quem não sabe trata-se de geralmente de um formato "single"/ 7 polegadas tão fininho que parece uma folha de papel. E no entanto cabe lá música - e até software antes das k7s substituírem este formato nos tempos do ZX Spectrum. Servia sobretudo como uma prenda ou objecto de promoção que era metido em revistas e livros de qualquer assunto - até BD! - tanto que acho que curto bués do tema Dead Embrionic Cells dos Sepultura à pala de um flexi que ouvi numa revista qualquer de Rock... Mais recentemente no número comemorativo dos 30 anos da revista italiana Neural (e 20 da Crónica) vinha com um flexi com30 projectos de música a mandarem 9 segundos de som, entre eles Philippe Petit, Francisco López, Clock DVA, Alva Noto, Scanner, @c,... Formato morto com alguma ou outra ressurreição mas sem a loucura vaidosa do vinil, o "street-cred" da K7 e o retorno do CD para breve, uma vez que os outros formatos estão caros e demorados de produzir...

Mais tarde apanhei ainda nos anos 90 o livro Invasion of the Elvis Zombies do Gary Panter, que parece que teve edição nos EUA (Raw Books; 1984), França (?) e na Espanha (Arrebato; 1985) - sempre à frente, Espanha e Valência em especial, cá ainda só deve haver dez pessoas que sabem que é este artista! 

BD iconoclasta de filmes de série B, tem um flexi do próprio Panter com uma música, Precambrian Bath, que lembra algo entre um funk branco e a estranheza de uns Big Stick. A música é tão bizarra como o trabalho gráfico-narrativo. 

É curioso assistir esta coerência artística usando media tão diferentes mas faz sentido quando se tem mesmo uma visão clara da Arte que se ambiciona. Um verdadeiro artista é assim, aliás, em Portugal podemos pensar no mesmo de André Coelho (com as suas bandas Sektor 304 e Metadevice, por exemplo), André Lemos (com o projecto Blunt Instrument) e Rudolfo da Silva seja em zine, CD-R, livro ou "escultura"...

Recentemente encontrei mais umas maluquices de BDs com flexis incluídos. 

O número 3 de Nexus (Capital Comics; 1982) de Mike Baron (a) e Steve Rude (d). Série de BD que é uma Space-opera com um gajo de fato de super-herói, uma treta que vale mais pelos desenhos de Rude, antecipando uma década o grafismo "retro" na indústria dos "comics". O flexi é ainda mais parvo pois adapta em som a BD que se está a ler. O que é incrível é a quantidade tempo que o flexi consegue aguentar (neste caso ouve-se dos dois lados)

Recebe o estatuto de "primeiro flexi-comic" do mundo (LOL), completamente inútil a não ser que se ignore a BD e oiça-se como uma dramatização radiofónica. Intermedia cómica dos anos "dourados" da BD independente norte-americana.

Algumas semanas atrás o 40 Ladrões deu-me um álbum de BD medíocre q.b. Paris Skouille-T-il? (Les Humanoides Associes; 1981) de Dodo (a) e Ben Hardi (d) que entra numa linha de paródia ao Rock que bateu nos finais dos anos 70 na revista Métal Hurlant - com outros autores da altura como Jano, Tramber, Frank Margerin, Yves Chalant, Serge Clerc... Ou seja, uma "linha clara" ao serviço do Rock que faria mais sentido do que aplicar a aventuras parvas à Tintin, embora os negros são ainda representados com aquela boca de salsicha, terrível! O que só reforça que ao contrário dos exemplos anteriores, neste aqui haja menos talento, piada ou interesse. Ah! A banda que existe na BD e que grava música oferecida no álbum chama-se Les Closh - que significa sinos ou idiotas - paródia dos... ehm... Clash!

Aliás, reflete-se também na música que o flexi do álbum, duas músicas que soam a Grace Jones ou The Selecter sem brilho. Nunca chega a ser Ska mas um Pop / Funk com letras parvas - que estão reproduzidas ao longo das páginas do álbum, uma linha / frase é reproduzida debaixo da página da BD / álbum, ideia interessante mas também impossível de resultar em alguma coisa entre a BD e a música, não se consegue absorver os dois mediuns ao mesmo tempo. Sem piada como aliás muita da produção francesa dos anos 80, adormecida pelos confortos de Jack Lang na Cultura. Bobo!

PS - Mais tarde em 1990 a "banda" volta com um single, Toutes ces filles, que nem comento... Putain! Quel bobozada!!!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Mr. B entesado!


Chegou o livro mais atrasado de sempre mas está entesado o "Mr. B." Diriamos que é até o nosso primeiro "Álbum"! 

Dia 28 de Fevereiro faremos a apresentação oficial na Tinta nos Nervos, às 16h, com as presenças dos autores David Soares e Pedro Nora e o editor Marcos Farrajota "para falarmos do passado" afinal este livro comemora 25 (26) anos da sua edição original em 2000. 

Curse go back teria dito o verdadeiro Burroughs!!... entretanto o livro já se encontra na loja em linha da Chili Com Carne


.................................................................
 
23º volume da Mercantologia, colecção dedicada à recuperação de material perdido do mundo dos fanzines e edição independente.

Publicada originalmente em Novembro de 2000 pela Círculo de Abuso, passado três anos seria publicado pela belga Fréon (futura Frémok) em francês, algo inédito na BD portuguesa na altura - o que revela a maturidade da obra e da cena portuguesa naquela época, ou seja nos meados dos anos 90 até os meados dos anos 00.

A nova edição é maior que a original - passou para 21x28 cm -, tem 56 páginas a preto e branco e uma capa em cartolina rosa. Foram emendados pequenas gralhas e dado algum tratamento sobre as páginas originais. É acrescentado um posfácio de Marcos Farrajota para contextualizar este livro nesses tempos eufóricos da BD portuguesa.

...

sinopse:

Este Mr. Burroughs não é  William Burroughs, mas é como se fosse; é um sócia alternativo do romancista norte-americano, que se confronta com uma crise de criatividade.

Assombrado pelo fantasma de sua irrepreensível carreira, e ousando desafiar a vida para conhecer os seus limites, Mr Burroughs vai enfrentar a verdade sobre si mesmo para descobrir porque é que tudo aquilo que toca se transforma nele próprio.

..............................................................................

FEEDBBACK (da primeira edição e a a edição belga)

Minimalista nos meios, preto e branco rigoroso, (...) narração surrealista mas fluída (...) uma homenagem estranha, surpreendente e entusiasmante. 

Les Inrockuptibles

Obra que se livrou de todos os ornamentos da lenda sulfurosa, concentra-se inteiramente no processo de criação.  

Bang

(...) obra mais poética que narrativa , mais evocativa que descritiva. (...) A estilização do desenho de Pedro Nora privilegia a angulação expressionista, (...) o traço que fere como um bisturi e tudo inunda de borrões de tinta, como golfadas de sangue. 

Domingos Isabelinho in Quadrado


.......................................


sobre os autores

David Soares (Lisboa; 1976) é escritor, historiador, mestre em História Moderna, investigador integrado do CHAM-Centro de Humanidades (NOVA FCSH). A sua obra diversifica-se pelo romance, a banda desenhada, o ensaio e o spoken word. Como autor de banda desenhada, foi premiado com quatro troféus para Melhor Argumentista Nacional e uma Bolsa de Criação Literária, atribuída pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas  (2002). A sua obra historiográfica O Bobo e o Alquimista: Deformidade Física e Moral na Corte de D. João III (Verbi Gratia, 2024) foi distinguida com o Prémio Fundação Calouste Gulbenkian - História Moderna e Contemporânea de Portugal, atribuído pela Academia Portuguesa da História (2024).

Pedro Nora (Vila Nova de Gaia; 1977) é um designer gráfico licenciado pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Desde 2001 que desenvolve trabalho na área cultural, tendo-se especializado em design gráfico para exposições de arte contemporânea, em design editorial e em design de livro de artista - de entre as suas colaborações institucionais destacam-se Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação de Serralves, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Moderna Museet Malmö (Suécia), Kunsthalle de Basel (Suíça), Palais de Tokyo (França) e Bergen Kunsthall (Noruega). Colabora com regularidade com as editoras Dafne, Ghost, Pierre von Kleist. Foi co-editor da revista Satélite Internacional (2002-05), da editora Braço de Ferro (2007-11), do jornal Buraco (2011-19). Integrou o colectivo Oficina ARARA entre 2014 e 2020. Em 2020 deu início ao projecto editorial FOJO.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Eles nos devem uma vida - Crass : Escritos Diálogos e Gritos" (Imprensa Marginal + No Gods No Masters; 2017)

 O que dizer sobre os Crass que não tenha já sido dito? Ainda mais no ano de 2026 em que parece estamos no centro de todas as distopias a 85 segundos do Apocalipse
Ainda assim, qual a diferença dos finais dos anos 70 com os dias de hoje? Na altura, o cerco às contra-culturas era tão selvagem como as "guerras culturais" de hoje. (Re)Lendo os textos deste precioso livro, não me parece que haja diferença, sobretudo quando a banda tinha uma clareza anarquista para analisar o que se passava ao seu redor, longe das manipulações das industrias do entretenimento e das reacções violentas da esfera política - fosse da skinaria fosse dos "tankies", os Crass levaram dos dois lados. Falar de Crass é falar de Anarquia nos finais do século XX, o seu rejuvenescimento no mundo "Ocidental" dado que a banda foi mais que uma banda DIY de [anarco(punk)rock]. Redigiram panfletos e fanzines, fizeram filmes, acções de solidariedade, fixaram uma ética sobre as políticas de preços dos seus discos (que podia ser observada mais tarde até na "nossa" Thisco), constrangeram políticos (sobretudo a porkkka Maggie), puseram ao ridículos estruturas de opressão (a famosa k7 de uma conversa montada entre Reagan e Thatcher, em que o primeiro ameaçava invadir a Europa - olha 2026 e o Trump!), reinventaram o imaginário anarquista que ainda hoje tem ecos em milhares de estruturas pelo mundo fora.
Textos como O último Hippie - Um Romance Histérico de Penny Rimbaud, de 1982 mantem toda a actualidade ao ponto que deveria ser dado nas escolas secundários e universitárias, em que nada sai ileso, a destruição das contraculturas Hippie e Punk, a absorção do Punk pela Direita - com o Oi e a invenção do rock do proletariado - e o monopólio da violência do Estado sobre qualquer dissidência - o que se passa no Irão, poderia acontecer na Europa? Claro que sim, ainda alguém se lembra dos Coletes Amarelos e a quantidade de pessoas que ficaram cegas que a bófia fez - foi quando, há quê? Sete anos atrás? Ena! Será por isso que os estudos académicos dos últimos 10 anos sobre o Punk, quando chegava à parte da política os "investigadores" borravam-se todos e ignoravam essa veia do Punk? Até a Intelligentsia (Greil e Reynolds) teve a dignidade de os ignorar reconhecer, quer pela música quer pelo fenómeno - menos o "nosso" REP!! Entre 1977 e 1984 ainda não havia "google" para descobrir esta malta, do que estás à espera?
 
PS - De resto, a nível pessoal devo ainda escrever que é sempre um "prazer" (re)ver a arte de Gee Vaucher - as colagens e as pinturas - e que tive oportunidade de ver alguns originais há muitos anos no Happening Internazionale Underground (2003) no Centro Social Leoncavallo - espaço autogerido desde 1975 e estretanto fechado pela facharia italiana no ano passado, 40 anos de resistência. Eles nos devem uma vida!