domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Eles nos devem uma vida - Crass : Escritos Diálogos e Gritos" (Imprensa Marginal + No Gods No Masters; 2017)

 O que dizer sobre os Crass que não tenha já sido dito? Ainda mais no ano de 2026 em que parece estamos no centro de todas as distopias a 85 segundos do Apocalipse
Ainda assim, qual a diferença dos finais dos anos 70 com os dias de hoje? Na altura, o cerco às contra-culturas era tão selvagem como as "guerras culturais" de hoje. (Re)Lendo os textos deste precioso livro, não me parece que haja diferença, sobretudo quando a banda tinha uma clareza anarquista para analisar o que se passava ao seu redor, longe das manipulações das industrias do entretenimento e das reacções violentas da esfera política - fosse da skinaria fosse dos "tankies", os Crass levaram dos dois lados. Falar de Crass é falar de Anarquia nos finais do século XX, o seu rejuvenescimento no mundo "Ocidental" dado que a banda foi mais que uma banda DIY de [anarco(punk)rock]. Redigiram panfletos e fanzines, fizeram filmes, acções de solidariedade, fixaram uma ética sobre as políticas de preços dos seus discos (que podia ser observada mais tarde até na "nossa" Thisco), constrangeram políticos (sobretudo a porkkka Maggie), puseram ao ridículos estruturas de opressão (a famosa k7 de uma conversa montada entre Reagan e Thatcher, em que o primeiro ameaçava invadir a Europa - olha 2026 e o Trump!), reinventaram o imaginário anarquista que ainda hoje tem ecos em milhares de estruturas pelo mundo fora.
Textos como O último Hippie - Um Romance Histérico de Penny Rimbaud, de 1982 mantem toda a actualidade ao ponto que deveria ser dado nas escolas secundários e universitárias, em que nada sai ileso, a destruição das contraculturas Hippie e Punk, a absorção do Punk pela Direita - com o Oi e a invenção do rock do proletariado - e o monopólio da violência do Estado sobre qualquer dissidência - o que se passa no Irão, poderia acontecer na Europa? Claro que sim, ainda alguém se lembra dos Coletes Amarelos e a quantidade de pessoas que ficaram cegas que a bófia fez - foi quando, há quê? Sete anos atrás? Ena! Será por isso que os estudos académicos dos últimos 10 anos sobre o Punk, quando chegava à parte da política os "investigadores" borravam-se todos e ignoravam essa veia do Punk? Até a Intelligentsia (Greil e Reynolds) teve a dignidade de os ignorar reconhecer, quer pela música quer pelo fenómeno - menos o "nosso" REP!! Entre 1977 e 1984 ainda não havia "google" para descobrir esta malta, do que estás à espera?
 
PS - De resto, a nível pessoal devo ainda escrever que é sempre um "prazer" (re)ver a arte de Gee Vaucher - as colagens e as pinturas - e que tive oportunidade de ver alguns originais há muitos anos no Happening Internazionale Underground (2003) no Centro Social Leoncavallo - espaço autogerido desde 1975 e estretanto fechado pela facharia italiana no ano passado, 40 anos de resistência. Eles nos devem uma vida!

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