quarta-feira, 21 de maio de 2014

João Moreira dos Santos : "Jazz em Cascais : Uma História de 80 anos" (Casa Sassetti; 2009)

Eis uma agradável surpresa este livro, pelo menos para um ex-residente de Cascais e curioso do Jazz. Desconhecia completamente que a implantação e desenvolvimento do Jazz em Portugal passou sobretudo pela Linha do Estoril - claro que a evolução do Jazz em Portugal deixou de acontecer por estas bandas a dada altura porque as iniciativas do concelho foram quase sempre para o Jazz cristalizado, comercial e para o tio & tia fingirem que gostam.

Assente nas histórias dos empresários Erico Braga (1893-1962), Luís Villas-Boas (1924-1999) e Duarte Mendonça (1931-) e a forma como sempre tentaram dinamizar e divulgar o Jazz em Portugal, o que nunca foi fácil porque essa música era do Diabo! Para o Estado Novo, pior que saber que esta música punha o pessoal a dançar e pular era ainda mais inconcebível saber que os músicos negros não eram os selvagens que os "bons portugueses civilizavam em África".

O livro é bastante agradável no que respeita à leitura do texto e das imagens / documentos que aparecem. Não chega à leviandade dos "foto-livros" que nada dizem - é irónico que neste país pouco dado às imagens tenha começado nos últimos anos a serem editados montes de livros só com fotografias mas novamente com pouco ou nenhum contexto escrito, crítico ou narrativo - mas também não é uma enciclopédia exaustiva para cromos do Jazz.

Fiquei a conhecer as razões da existências de discotecas, teatros, clubes, casinos em Cascais e Estoril, como por exemplo, nunca pensei que o Palm Beach ou Bauhaus (discotecas dos betos) tinham começado por serem lugares de música Jazz, abertos em 1941 e 1955 respectivamente. Aliás, o Bauhaus chamava-se Ronda - acho que o Camarada Gouveia já me tinha contado. Agora percebo a decadência da noite cascaense nos anos 90 quando lá vivia...

As melhores histórias contadas passam pelo festival Cascais Jazz onde vamos encontrar as drogarias e extravagâncias de Miles Davis (em 1971), o incidente político de Charlie Haden (no mesmo ano) ou as exigências "da época" (estamos no PREC, em 1975) do grupo Plexus, ao qual faziam parte o Rui Neves (actual Director do Jazz em Agosto) e Carlos "Zíngaro" (músico e autor de BD) que ilustrou um panfleto contestário. Dos anos 80 para frente, com mais ou menos pobreza ou riqueza de meios e de apoios, os movimentos ligados ao Jazz na linha vão ficando profissionais e instítuidos, ou seja, deixa de contar episódios caricatos nem nada que valha a pena ler. Se por um lado permitem a edição de um livro como este (com o apoio da Câmara Municipal de Cascais), por outro chegamos ao fim da linha.

Em completa antítese ao livro anterior está o mono-volume Duarte Mendonça : 30 Anos de Jazz em Portugal 1974-2004 (CM de Cascais; 2004), também redigido por JM dos Santos. É o pior que a despesa pública consegue fazer porque não sabe delegar o dinheiro a quem sabe fazer como deve ser - o livro anterior é exemplo disso, aliás, apoiado pela CM de Cascais mas produzido por editores particulares.

Este é um livro luxuoso com design horroroso e disfuncional, que deveria servir para homenagear a Duarte Mendonça pelo seu bom trabalho que fez em promover o concelho e o Jazz. Porque é que o designer - já agora o nome: David Santos, para quando cruzarem com ele não lhe pedirem ajuda ou trabalho - coloca uma moldura enorme ao longo de todas as páginas? Além de parecer um convite de casamento torna o livro pesado em número de páginas e peso. Porque faz páginas duplas com algumas fotografias quando elas não tem esse tamanho e com isso ficamos com elas cortadas? Nada faz sentido... Sendo que ainda por cima é um livro para cromos do Jazz porque as fotografias só tem interesse para quem é doidinho por aqueles músicos (ainda assim dada a má qualidade da reprodução nem sei se satisfaz este público) e o conteúdo escrito é apenas uma simples biografia das façanhas de Mendonça e dos seus projectos sem que haja nada de especial a declarar a nível de histórias milaborantes.

O peso, o luxo e o institucional poderiam ser más características para um livro mas este é o livro institucional no pior sentido da palavra porque foi feito pela própria Câmara, que se calhar sabe passar multas ou atribuir verbas a centros de dia mas não sabe o que é um livro! Se calhar até deveriamos ter pena do designer, coitadinho deve ter sido obrigado a fazer o que lhe pediram... Imagino o Presidente da Câmara (que deverá ser tão ignorante como a maioria dos portugueses em matéria de cultura visual) a dizer "ó David, não se pode ter fotografias a ocupar o livro todo? E se colocasse o título do livro em cabeçalho de todas as páginas? eih? Tá bonito não 'tá? E prateado? Pode-se imprimir em prateado?" Deus nos livre de sermos assim homenageados! É de enfiar o capucho!

Mediocre também é Josephine Baker em Portugal (Casa Sasseti; 2011) também do mesmo autor dos outros dois livros acima referidos. Baker (1906-75) é um ícone do século passado e que passou por Portugal várias vezes entre 1933 e 1960, ora como jet set, ora como artista como ainda como espia para os franceses. A artista nasceu nos EUA mas foi em França que se fez aceite enquanto cidadã negra com o sucesso e "escandale" do mundo do espectáculos, por isso quando a França foi nazificada, além de se ter recusado a tocar durante o regime de Vichy, ao que parece andava a recolher informações nos Casinos portugueses, informações essas que escrevia e colocava no soutien para enviar à malta do De Gaulle - a mim parece-me pouco provável isto, acho que os Senhores da Guerra têm é pancas sexuais maradas e se calhar pediam à "Josefina" esta missão era antes para ter fantasias olfativas-sexuais... Tarado, eu!?

Também se relata outras questões de Baker ter tentado adoptar uma criança portuguesa para a sua Tribo do Arco-Íris, a família de Baker de dez crianças de toda as "raças e religiões", incluíndo por exemplo um coreano, um finlandês, um israelita,... A Madonna e outras "stars" americanas não inventaram nada de novo. O livro é "light" embora seja mal enjorcado com o seu formato estreito. O DVD incluído reúne as gravações sobre as suas passagens em Portugal mas não as actuações da música em 1960 - talvez os "copyrights" fossem altos mas poupando um bocado no papel (formato e qualidade) talvez até se conseguia isso, não? No final, é um simpático documento sobre esta relação portuguesa com a "Vénus Negra" que nunca chegou a fazer "shows" tão provocantes como nas  Folies Bergère - não por pudor do nosso terrível catolicismo e Estado Novo mas apenas porque esta grande mulher já estava noutra quando veio cá actuar, o que mostra que Portugal sempre acerta ao lado...

Gracias à Biblioteca de S. Domingos de Rana pelos livros - em especial, claro, pelo primeiro livro que é mesmo uma bela surpresa.

terça-feira, 20 de maio de 2014

LusoSerbiAmerica


E apareceu-me hoje no correio o mítico fanzine norte-americano White Buffalo Gazette com uma BD minha e do sérvio Aleksandar Zograf (autor do Mundos em Segunda Mão) que foi feita em 2003 e publicada originalmente no Talento Local apenas em 2010...  

Thanks Buzz & Aleksandar!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

quinta-feira, 8 de maio de 2014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 a vir-se...


Marriette Tosel vai realizar a exposição Beijo de Língua dedicada ao livro W.C. na galeria da Abysmo a inaugurar no dia 25 de Abril, às 18h.

O evento conta com a presença de Tiago Manuel, representante em Portugal desta artista belga, sabemos que foram feitas 20 originais novos e estarão patentes até 9 de Maio.

Esta exposição veio em boa altura uma vez que o trabalho foi seleccionado para COMIC AND CARTOON ART ANNUAL (categoria "Long Form") pela Society of Illustrators (Nova Iorque), a mesma instituição que premiou recentemente André da Loba e Marta Monteiro.

...

E na Casa da Achada numa exposição intitulada O 25 de Abril por vir, Marcos Farrajota participa nesta colectiva com esta imagem...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Guantanamo questionnaire : Marcosom Farrajoto


Entrevista feita por Kaja Avberšek e David Krančan para Stripburger #62.

Let's start with Bedeteca, your home institution.
Bedeteca de Lisboa is a comics library created in 1996 by the City Hall of Lisbon. Until 2002, it has been the most important public institute supporting comics in Portugal, as it helped young artists and new editors, republished classics and published essays about comics and their History. It also organized exhibitions (with catalogues) and festivals. All this was possible thanks to the organizing skills of its director João Paulo Cotrim. Things started to fall apart after he left since all the projects depended on the political support of the then-mayor João Soares. From 2002 to 2006 we had a good program, but since then we had to work with a "zero budget". In 2009 we gave up doing exhibitions (even at zero cost) because of the problems with the building where Bedeteca resided. In 2010 the director Rosa Barreto left and the City Hall didn't find a substitution for her. This is where we are now: no leader, no team, just two people taking care of the library – and a damn good library, by the way!

What exactly was your function at Bedeteca in the golden times? Were you officially employed?
I used to manage the program for the Salão Lisboa Festival and other events, curate exhibitions, take care of the website bedeteca.com (where you can read the Portuguese comics history between 2001 and 2010!), to edit and publish books, catalogues and magazines (like Quadrado magazine or Lx Comics collection for new authors), give comics workshops, a little bit of everything … I started working in Bedeteca in 2000 as an “independent worker” – which was an illegal way of working for companies or the public institutions. As independent you work as any other employee, but you are not officially in the “house”, you’re “independent”, so you can be fired whenever they want and all that ... ah, the old days of “recibos verdes” (the tax figure of this kind of employment in the 90’s and 00’s). I’ve been working as a normal employee since 2009, yup, I’m a public worker, I’m the enemy...

So now you’re officially at Bedeteca?
Yes, that’s my “day job” or the “pay the rent job”. But since 2010, I refuse to be more than a librarian in Bedeteca. No more having Jakob Klemenčič at my place! Let me explain this private joke: in 2008, when Stripburger was here in Lisbon with the Honey Talks exhibition, the show was held in Bedeteca de Lisboa, which is funded by the City Hall. Despite having the exhibition for free and the Slovenian guests coming all the way here for free, the City Hall didn’t want to pay for their accommodation. So I offered Jakob to stay at my place, and my boss at the time also arranged her boyfriend’s place for David Krančan. Anyway, I think this is not the way to do it, so I’m not sacrificing my own resources for a public institution anymore.

Also, there seems to be no clear idea or plan of what to do with Bedeteca, so it doesn’t make sense to plan anything here right now… So I’m just a good librarian, you know, someone comes here looking for a comic book and doesn’t know the name of the author or even the title, and still I’m able to find it! I’m a nerd this way, I guess… Of course Mr. Jakob has been at my place afterwards, but that’s another story …

Does the future of Bedeteca money-wise depend only on the good will of the municipality? Has anyone tried to reactivate it with some sort of EU funding, programs like EVS, Leonardo da Vinci etc …?
Bedeteca is a public library, a member of the municipality libraries network (BLX), which is part of the Culture Department of the City Hall. It’s not a private institution so it has hierarchy and rules that make everything slow and dull. Previously there was a connection with the mayor and the culture alderman who could speed things up or at least give us some orientation lines. None in the City Hall is interested in or understands comics anymore, there’s no top management since Rosa Barreto left - we’re like a dead chicken running around headless, except this chicken can give you more than 8000 volumes of comics to read!

… among which there are quite a few books you have helped to produce yourself. You are generally known as a (self)publisher and as an activist in different areas of the alternative scene, but you are also a comic artist. How did you get into the comics anyway?
I’ve liked them since I was a kid and this passion went the usual way: as a shy and antisocial person is was more into reading comics than speaking with peers. I was drawing here and there, getting crazy about super-heroes and later underground comix. After that I got into the fanzines scene and started to do one in 1992, it was titled Mesinha de Cabeceira. Then I worked here and there, the usual way again: xerox copies, autobiography comics, getting pissed and stoned, getting pissed with the comics scene, doing DIY and becoming famous for 15 minutes in some popular series with the Loverboy series. Then I went back to zines, started doing DIY again, got really fucking pissed with the comics scene, but continued to do stuff … Now I do it less, since the editorial work take a lot of time. I was lucky to get a grant to make comics outside Portugal in 2011: this way I’ve already made half of a book which is to be published someday …

Tell us more about the upcoming book.
The all thing is essay and autobiography about archives, collections and the relation with objects. Trying to figure out why we buy so many records, books, zines, tapes and all that…

Will you publish it with Chili Com Carne? How does your publishing house work?
For now I’m publishing it by chapters in my zine Mesinha de Cabeceira (and in issuu.com/mmmnnnrrrg) but who knows when I’ll finish it anyway… I need another grant! Hahahaha The all thing is complicated to continue when I’m back to the “9 to 5 thing” and after that on the editorial stuff (Chili Com Carne and MMMNNNRRRG) and still trying to do creative work…

Chili Com Carne is a non-profit organization of young artists that mutates every 2 years with the election of a new editorial board. We are present since 1995, got legalized in 1997 and focused on publishing in 2000. You can get a lato sensus idea of the CCC on the website. The majority of our publishing represents comics but we’ve also published literature, drawings, essays and music because we like all that ... I guess CCC was always a melting-pot of ideas which couldn't be satisfied only with comics or the comics scene - or any scene at all. Of course the comics scene is square but we can say the same for music or literature as well. "Networking" was always the goal before the word went hype with the internet.

What about MMMNNNRRRG? We can hardly follow all the activities you're involved in …
MNRG is a solo project of mine created in 2000 with the intent of publishing all the comics that nobody wants! It's been a "dinamic duo" project with Joana Pires taking care of the design and my bad mood since 2010, hahahaha. Most of the label aspect is connected with an "art brut" feeling of art with no compromise and no fixed genre. The idea was to publish unique voices in comics and illustrations.

How many publications have you produced until now? Could you point out some of your most important achievements?
Maybe around 50 books both CCC and MNRG, I should go check it on the website of CCC and MNRG … and two music records as well!

I guess the most important are the first ones: Mutate & Survive and O Macaco Tozé. The first because we had this crazy idea of making a “MEGA-zine”, a 200 pages comics book featuring independent artists from Portugal. Thanks to the international promotion (I suspect most of it came from Stripburger!) we started to receive stuff from all over the world! In the end there were 77 artists from 16 countries. It was such a joy to get to know all these people. As for Macaco (crazy bas-fond Oporto comix done by Janus), it’s my first book under MNRG label, and it was my response to some stupid stuff happening with publishing houses in Portugal at that time. This was in 2000, at the peak of comics publishing and author’s comics in Portugal, and I was really angry and passionate about making this MNRG statement to protect “the innocent artists from the evil publishers”. Apart from that, I also wanted to show “fucked up comix” – not only nice stuff as it was made at the time: I wanted to show there was also nasty stuff!

Recently, perhaps it would be Boring Europa and Futuro Primitivo anthologies, because I’ve tried to change the editor’s role into a narrative DJ concept or, in other words, into a ‘comix-remix’. This means to “screw and chop” comics by other artists transforming them into new comics. It’s not an easy job because there haven’t been many experiments of this kind in the history of comics. I have a slight sensation of failure but I’m proud that I’m trying to introduce a new concept into comics … Sounds pretentious, but that’s why I started to write these articles about it published in the newspaper Kuti and in the book Metakatz. Seems like no one knows that there have actually been some experiments in this field: from Max Ernst to recent anthologies Tonto and Giuda.

What are the channels of distribution for your publications? Is it easy to buy your stuff in bookshops throughout Portugal?
We’ve mostly had mixed experience with this since 2000. We had three different distributors. One was perfect, but closed down. It was a Belgian girl who lived in Portugal but later returned back to Belgium. The last distributor was a "motherfucker" that didn’t pay, so we had to get a lawyer and we won! I guess that’s how Portugal works. This is why now and in the meantime we distribute ourselves. There’s not many bookstores left, just like record shops, after Internet revolution and economic crisis. Most of bookstores are now owned by four major chain bookstores (FNAC, Bertrand, Bulhosa and Almedina). Sometimes we succeed in convincing them to sell our books, sometimes we don’t – and we don’t know why … there is no scientific explanation to it! Still, we try not to depend on the mood of these messed up companies, so we do our own events to sell and put our books in record or fancy design shops. There is also this idea to get different crowds to read comics or literature.

There are some comics shops in Portugal but I don’t work very well with them – and vice-versa – since all they want is to sell fetishist and fascistic superheroes bullshit, manga porn and paedophilic Franco-Belgian albums. Of course there are some exceptions, like Mundo Fantasma in Porto, with which we collaborated to make an exhibition of Marcel Ruijters over there.

You surely have many foreign readers; does your stuff reach them through the distribution channels or is it more hand-to-hand, dealing stuff at the festivals throughout (mostly) Europe?
Same as in Portugal, yes, hand-to-hand, festivals … but then there’s some official and solid connections with stores in Germany, Spain and Brazil.

Do you get any kind of subsidies from the Municipality of Lisbon or the Ministry of Culture? We cannot imagine you being able to do it all out of your pockets ...
We received some funds from the Portuguese Youth Institute and previosly Cascais City Hall. Cascais is a suburb of Lisbon where I previously lived and where CCC was founded. It really helped to kickstart CCC between 1997 and 2001, but not so much a bit later: Cascais City Hall became angry with us over an anthology we published with their support. They hated a comic by Mike Diana and Rafael Dionísio’s hilarious text about the Dalai Lama. Later, they withdrew their donations saying that they didn’t support books anymore, hahahaha. This was in 2005, but last year they gave money for O Hábito Faz O Monstro, a comic book by Lucas Almeida, with a page where the Devil’s giant penis is cut with a sword. Some people just never learn!

Anyway, we’re becoming progressively able to sell enough to do whatever we want without depending on public grants and all that. This is a small operation in the sense that we don’t have an infrastructure like an office and materials or a regular program of X books per year. The internet access is paid from my pocket, the designers have their own Macs … everything is quite organic! We do what we want when we’re supposed to … so for instance, just to destroy your romantic idea of us, the books are being stored at my place (along with the clothes and shoes), at my parent’s house and at another member of CCC parents’ house. But everything is well packed and organized, our parents don’t complain!

MNRG books are published by me only, so yes, it’s from my money and it is possible to do it! It’s possible to do stuff without much money but only if you’re an organized person. You also have to be a long distance runner and you need to believe in your work. If you want to get money fast, well … then become a hipster and spend 100 Euros on a t-shirt to be at the right party with the right people! Of course it was hard in the beginning, but slowly everything comes together. For example: 10 years ago, nobody cared what I published. Now, just because we have books in FNAC megastores, people are amazed: “Oh, I saw your books at FNAC!” as though the books are better if they are sold in FNAC. Hahaha! Or some critic that used to ignore or write bad reviews about our books now writes “incredible work, blah blah”…

We all know that the alternative scene never operated with much money. Does editor’s work earn you enough money to live? If not, what are your bringing-home-the-bacon activities, if that's not too personal?
I don’t have to earn anything at all with publishing! Like I told you, I work as librarian, a comic librarian, and then I spend my money on publishing, hahahaha.

Chili Com Carne is a non-profit association so everybody volunteers most of the time – writing, drawing, design, distributing, whatever … Sometimes if there’s a better budget we can pay someone for this or that. We pay all the expenses by selling our books and other labels’ stuff, with quotas of the members of CCC and some ridiculous grants.

The small press thing is not about money but ideas. Books or other products you create serve to promote ideas or the authors in the sense that they can propel to other ideas, situations or projects in the professional world. Of course, there’s some underground stuff that you earn good money, those niches & nostalgia market maybe, but I don’t want to release stupid garage rock records or make drum’n’bass parties, do I?

What are the influences you would point out as the most important for your work? OK, we know it’s anarchism, punk, art brut, no compromise whatsoever … but can you be more specific and give us some names?
Hm, I don’t know … I think you named them all … add to this the industrial culture, noise and death metal, hahaha … and Fábio Zimbres, the editor and artist of the Brazilian comics magazine Animal, Brazilian magazines of the 90’s (Chiclete Com Banana, Piratas do Tiête …) and Escape magazine from the UK (edited by Paul Gravett). Those were the magazines that influenced me to start my own zine.

Still there’s no need to invent or quote much, the tools and models are all here! You just have to do it by yourself, make mistakes, acquire experience, have fun, revolt and do something about it. People can help a lot, you just have to ask them for it to make connections, get the rewards and enjoy what you’re doing … You can do something original or at least different from what you wanted to do in the first place by mistake! If you want something perfect, go “franchising”, if you want something different, do it on your own and invite friends to do stuff with you. They will always screw up your original idea and thanks to that it will be a better project. I like the band Pigface! Seriously, what I wrote here is more or less their modus operandi … I guess I wanted always to be Martin Atkins!

I suppose most of the stuff that influenced me comes from music, not so much from comics or arts. I like the rock’n’roll vibe of doing things – not the rock music anymore, but of the way of doing things alive and kicking. I guess that’s why we made the Boring Europa tour!

Are you a fan of Le Dernier Cri? I suppose you are …
Yes, of course, but not of every book. We don’t share many methods and aesthetics, except for a few authors we both published: Mike Diana, Tommi Musturi, André Lemos and now Marcel Ruijters. But that’s it. I do “industrial printing” books and most of them comics or literature, while LDC makes hand-made artistic graphic books. What’s fascinating about LDC is their “democratic access to culture” which is rooted in the punk culture. With LDC stuff you can have art at a reasonable price. That’s beautiful because unless you have 5000 Euros to buy original paintings, the only solution would be to put Bob Marley or Sex Pistols posters on your walls. With LDC you can have a nice drawing on a big silkscreen for 50€! Isn’t that fair? Also, the funny thing about LDC is that as soon as you discover them, you want to be part of it somehow. You want to make an exhibition with them in your town, buy their stuff to sell or to give someone, etc. It’s not common to have this relation toe-to-toe in the "normal" elitist art world, they’re an inspiring telluric force!

How do you find the right artists? You probably don't just rummage through the "garbage", but as you said, you take all the stuff that nobody else likes. You surely have some standards … do you have any preferred or favourite authors? Do they generally find you or do you find them? How does that happen? On fairs, exhibitions, on the internet, by word of mouth?
Well, the first three, Janus, Mike Diana and Christopher Webster, came from zine word. I used to read their zines in the 90’s (which was a sane activity to do in those days) and then decided to create MMMNNNRRRG, because I wanted them to get a broader audience so that their work wouldn’t be forgotten after the xerox zines disappeared into the “underground”.

Things started to change with the end the zine scene. I found some artists in the internet, like Neuro or Aaron $hunga, others through friendship or being their friends (Tommi Musturi, Igor Hofbauer, Aleksandar Zograf), and some because they live in my country (André Lemos, João Maio Pinto, Max Tilmann, Alexandar Brener & Barbara Schurz). Also festivals: I’ve met Marcel Ruijters at the Ravenna Komikaze Festival when he was doing the Inferno book (of which I saw some pages and loved it). Later I met him again in Angoulême where he gave me the Dutch edition and then in Helsinki we agreed to make the Portuguese edition! Finally I brought him to Feira Laica in Lisbon to release the book. I guess this is the most typical “comic nerd culture” example you can get from me, hahaha … things just happen.

All this authors are my favourites, they touched me somehow and I know because they are fresh and different, but nobody is paying attention to must of them. Some are just too dysfunctional to do publishing themselves so I show them to the world. Of course, nobody wants fresh and weird stuff, so some books take ages to sell out or to start selling … but anyway, that’s what editors do, right? Find important stuff to show to the world!

You mentioned Feira Laica ...
Feira Laica IS DEAD! Yeah! It's a naïve project created by me and José Feitor (illustrator and publisher - Imprensa Canalha) in 2004. We made 21 events under this banner until the last one in December 2012. Basically it was a small press fair (not a comics event) that took place twice a year: one in June, which was like a summer party with books and beers, and one in December to exploit the Christmas consumerism frenzy. It grew quite well, especially during the last 2 years, even when we somewhat reduced the program. Still, it always had concerts, many Portuguese bands that are now famous did the first gigs on Laica, then exhibitions (with Stripburger as well), DIY films, program for children, workshops ... It was all 100% DIY: we only had to find a big place and then we would organize all the things in collaboration with people interested in helping ... so I guess anarchy works! And it works really well because we had around 900 visitors in one weekend during the last edition almost without the support of the official media, of the traditional advertising (we even gave up doing posters and flyers in the last years) or the "all mighty bullshit" “Facepoop”.

Then why did Feira Laica die after all? Financial issues? Personal problems? Quarrels? Boredom? We really wonder why because it seems like it was a really successful event! Does this mean anarchy doesn't work that well after all? :)
Fuck no, it works!!! There is already another group of people doing the substitution event right now!!! See? You wicked Slovenian!!!

No money problems. Why? Because it never had any money! No personal problems or quarrels. Why? Because there was no money in it again! Just boredom! We were doing this for 8 years, always in the same way, we’ve shown that it works, so we decided it was time that someone else did it – maybe they can do it better, who knows? We don’t use the name Laica for the new events because we feel that people should use a different name as it’s going to be a different concept, working methods, people etc. At some point we actually considered just giving away the name, but then we remembered that we promoted the last one as the ultimate one. I’m not a Christian, I don’t believe in resurrection, not of the Nazarene pig and not even of this Russian bitch Laica! It’s over.

So, I guess you're not planning any similar events in the near future?
Probably not: while others continue making this kind of indie events, I’ll help with what I can, of course. Maybe we’ll use Laica as a brand to help promoting these new initiatives – like some kind of a “quality sponsor”, as Laica turned out to be pretty influential. This might help if we can assure that the next show has the same “Laica” standards. Another thing: Laica could make a comeback, but only for social purposes, like doing a benefit to save someone’s ass. Let’s not forget that all the system is shaky so you must think in a solidary way and stay connected with your community. Like sweet lil’ George Bush Jr. said: “Either you’re with us or you’re against us!” I guess he meant this in defense of the small press scene, but due to an enormous and incredible hierarchical mistake he invaded Afghanistan and Iraq.

Was there ever a time you wanted to quit the alternative scene and just be a pension-waiting public worker?
Should I have given up in 2001 or 2005 or 2008 or … today? No way, I’m like punk/hardcore bands and they’re just like cockroaches: always coming back and never giving up!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Robocopo III



Por acaso tem havido ultimamente uma revisão da história belga do Pop / Rock e a chegar-se à conclusão que havia muita electrónica por aquele país. Os Front 242 já são velhinhos, começaram em 1981, mas ainda hoje se consegue ouvir a sua discografia sem parecer anacrónica ou desactualizada - aliás, como poderia se no século XXI tudo é "re-actualizado"?

Se nos primeiros registos a banda ainda soa bastante a Kraftwerk mas com um sentimento mais Dark, pouco a pouco, eles próprios irão cunhar o termo "electronic body music" (EBM) para justificar esta música que não pretendia ser um "computer love" dos alemães mas algo mais orgánico, homo-erótico e militar - o que sempre lhe deu para receber extrema direita como público. É curioso que a extrema-direita nunca percebeu o fundo homossexual dos fascistas mas sempre podemos pensar que é a nossa derradeira vingança, quando um neo-nazi é violado pelo seu colega-de-armas, não? Foram-te ao cu porque és ignorante, meu facho de merda!

Claro que a banda queria alertar justamente para o contrário e talvez Front by Front (Red Rhino Europe; 1988) lembra que Hakim Bey afirmou que vivemos "uma cultura do chui" - ler um dos capítulos do livro Zona Autónoma Temporária (Frenesi; 2000). Ou seja, mais que um Big Brother, a cultura da TV e do Cinema adoptou a figura do bófia como a personagem principal, justamente para nos doutrinar. A ideia é que passamos a pensar que os bófias são pessoas como todos nós - alguns bons, outros maus, com problemas e falhas como tu e eu. O que é uma aberração porque estes "seres humanos" optaram por serem cães de guarda do sistema, pessoas com autoridade, poder e com licença para matar. Mas voltando ao disco, temas como Circling Overland ou Headhunter (foi um "hit" na altura) tem essa mesma ressonância de vigilância e perseguição, uma adrenalina de quem detem poder. Ora, esse poder cega-nos e é hiper-energético para a pista de dança, algo robótico mas com uma pulsão humana, como o Robocop. É música para mexer-mos com um robot em pane mas com capacidade para improvisar passos de dança cibernéticos inesperados.

O futuro era pessimista em 1988, mal sabia-se que o Muro de Berlim iria cair no ano seguinte e que o capitalismo iria vencer o código binário que se vivia. No entanto outro código binário iria reger a banda em 1993 quando lançam 06:21:03:11 Up Evil (RRE / PIAS) seguido de outro CD irmão (será antes irmã pela quantidade vozes femininas?) mas que prefiro nem falar de tão diferente que é da carreira dos F242 (realmente, vozes femininas em F242 é estranho). Sobre "Up Evil" falo eu bem até porque foi o disco que me iniciou à banda - soa a paneleiro isto! O inimigo já não são os comunas mas o mundo árabe, patente com os acontecimentos como a primeira guerra do Golfo e os genocídios na ex-Jugoslávia. Não é à toa que a estação de propaganda norte-americana Radio Free Europe / Radio Liberty se tenha virado para os países muçulmanos depois do fim do comunismo. Por isso que o Diabo anda sempre à espreita neste(s) álbum(ns) a começar pelos títulos e capas. Este que vos escrevo é o álbum mais físico da carreira dos F242, ao mesmo tempo que a sua componente dançante tem maneirismos da grande festa Techno. Estamos nos "90s", o Diabo que fez-nos mexer as ancas já se expandiu por todo o espectro musical. '93 é pós-Industrial (o Rock Industrial só espera por Nine Inch Nails para entrar no Top 10) e é pós-Rave, a alma já se vendeu à máquina e a tecnologia inunda o disco com uma quantidade maníaca de sinais electrónicos que fazem mantas de texturas sonoras inacreditáveis. A produção é ruídosa como era muita do género dessa altura - Ministry ou Skinny Puppy, com as suas devidas distâncias. Este disco é um monstro imoral que até o seu tema mais forte chama-se Religion! A banda passado 10 anos deve ter deixado algumas máquinas pesadas e anacrónicas para trás e metido-se em "softwares" novos, não se deixando dormir para uma concorrência lixada da altura como The Orb ou The Prodigy.

Só 10 anos depois de Up Evil é que aparece um novo álbum de originais, Pulse (XII Bis), que mostra que a banda não estava morta, muito antes pelo contrário, estava melhor do que nunca - e passam-se mais 10 anos sem que este disco seja batido. Geralmente queixo-me dos discos que ultrapassem os 60 minutos de música não é o caso deste que começa com uma festa Techno e vai subindo e descendo em ambientes e humores. Os melhores são mesmo os maus-humores, as músicas da depressão cheias de dramatismo de telenovela "teen" - na realidade uma pessoa nunca cresce. Os F242 aproveitam o "state of the art" atingido pela tecnologia e pelos próprios para encher o disco de Glitches e texturas sintéticas fazendo dele um caleidoscópio "emo-digital", obrigatório para quem gosta de electrónica, quer venera ou não antigos heróis e pioneiros. E realmente, a única coisa negativa desta banda a apontar é que deve ter sido a que infelizmente mais influenciou TOCs a fazerem música...

sábado, 8 de março de 2014

Vou tentar dizer mal deste álbum...



Secret Chiefs 3 : Book of Souls : Folio A (Web of Mimicry; 2013)

Queria escrever que este álbum não é tão bom como os outros... E que aquela ideia do Spruance dividir os SC3 em outras 6 ou 7 sub-bandas não resulta porque cada vez mais elas soam iguais entre si - comparando com o primeiro volume desta trilogia, Book of Horizons (Web of Mimicry; 2004), quando ele começou esse conceito, as bandas tinham muito mais definição... Queria também escrever que numa altura que ninguém compra CDs, o "artwork" deste disco é feio e que se o mentor deste projecto diz que gosta de esoterismo, a julgar pela informação que coloca no livrinho do CD parece-me pouco profundo e até naíve. Enfim, o gajo é norte-americano, como poderia fazer algo esotérico num país que abateu os índios e vive pró dollar? Mas aí está, é norte-americano, sabe entreter e o disco just grows on you!
Rendição!
Como viram, tentei rejeitar o disco mas de audição em audição, os poucos 39 minutos levam a repetições infinitas e cada vez mais o álbum vai-se mostrando bonito. As fronteiras estão expostas daquilo que é SC3, ou seja, música oriental a rodos, o habitual Surf Death Metal, banda sonora de "gialo" existente ou não (por acaso até faz uma versão de um tema do Halloween de Carpenter), colagens cabotinas e canções Pop vintage - surpresa Mike Patton aparece neste disco em registo Mondo Cane, ou seja, volta a trabalhar com Spruance depois de anos de arrufos, numa versão de uma fantástica canção de Jacques Brel.
Nada de novo no horizonte, trata-se do aperfeiçoamento das fórmulas do som da banda. Os fãs até se queixam que muitos destes temas já sairam em singles nos últimos 9 anos entre os álbuns de originais desta trilogia que já agora chama-se Book of Truth. Ainda assim, apesar disto tudo, acreditem!, continua a ser da música mais excitante do planeta para se ouvir como novidade editorial. Também se pode dizer que o disco que fizeram com composições de John Zorn será a perfeição das fusões estílisticas dos SC3, só que este disco continua a ser bom, ponto.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Remexer no lixo

A Matéria-Prima fechou as portas em Lisboa no final de Janeiro como anunciei aqui. Fui lá comprar em promoções alguns discos, curiosamente todos caiem de uma forma ou de outra na repropriação / remix / re-qualquer-coisa.

Começo por um clássico que nem sabia que existia... Christian Marclay, que pelos vistos bate o John Oswald que era a minha referência para quem rouba e manipula a música de outros, na verdadeira atitude "plunderphonics". Este artista suiço-americano pelos vistos desde os anos 70 que faz destas coisas, trabalha música com o gira-discos como instrumento, em paralelo com a malta do Hip Hop - o que mostra que as ideias podem tanto fluir num tipo com educação universitário como como no "guetho". No caso de Marclay até é um bocado mais radical porque também trabalha os próprios vinis para além do gira-discos. Como se pode saber pelas notas de More Encores (ReR; 1997) na faixa de John Cage, ele chega a pegar em vários discos deste compositor, corta pedaços e colá-os fazendo um novo disco (literalmente). As faixas deste CD (originalmente lançado como um vinil de 10" em 1988) têm os títulos dos músicos que Marclay manipulou mas apesar de tudo não os descontextualiza, por isso John Zorn ou Fred Frith continuam a soar a "aliens" do Free, ou Martin Denny a sonhos exóticos... Talvez o caso mais radical será o de Jimi Hendrix que soa mais a uma fritaria feita em estúdio pelos Butthole Surfers do que Hendrix per se. Fruto de masturbação é Marclay manipular o seu próprio trabalho na última faixa. You know, artists...

V/VM diz-vos alguma coisa? Não!? James Leyland Kirby? Não!? E que tal The Caretaker? Ahhh... pois! Antes da moda dos termos "Hypnagogic Pop" e "Hauntology", especialmente neste último caso em que The Caretaker é o seu expoente máximo, o tipo fez parte da linha da frente da "música indefenivel" que explodiu especialmente após o myspace.com (teoria do Gamão dos Traumático Desmame). Se o Punk aproveitou a fotocopiadora e a k7 para cortar de vez os cordões umbilicais da cultura que tinha de ser feita sob um acordo social qualquer, com a Internet, ou melhor, a web.2 essa atitude popularizou-se ainda mais porque qualquer um pode publicar (no sentido de se expor e não no sentido tradicional de edição física) a merda que quiser. E quando escrevo "merda" não é para armar-me em escritor mal-criado que diz "merda" para dar estilo. Não senhor! É MERDA mesmo! Ao início ainda chamavam a este tipo de música de Noise mas como o Noise ainda assim era uma estrutura intelectual com gente séria (alguns até vinham da Direita) o termo não era suficiente. No máximo apanhou-se a vaga do "Mash Up" para rotular "isto". O pessoal já que fazia o que lhe apetecia, então porque também não se livrar dos espartilhos comuns e criar os seus próprios termos musicais? Talvez foi isso que fez aparecer o "shitcore" (ah pois!) ou "chungwave" (lá pra Braga). Pelo planeta deve haver milhares de pessoas a fazer esta música não muito séria, que usa tudo o que tem há mão, do Techno ao Grind, do Hip Hop à Pop, para gozar e desconstruir o que existe. É que existe muita merda para reciclar por aí - basta olhar para a capa deste disco, It's Fan-Dabi-Dozi! (V/Vm Test‎ ; 2003). A V/Vm (editora) ou o V/Vm (artista) lançou singles, mini-CDs, CDs duplos (como é o caso deste), enfim todos os formatos possíveis, com V/VM ao leme, ou usando mil pseudónimos, ou com artistas na mesma onda. Nesta compilação vale tudo: Noise como é o caso de Cock ESP, o Porno Hop dos Suicidal Rap Orgy, músicas "cartoonescas" do Gorse, Breakcore de Toecutter, versões adulteradas e estupidificadas de Stevie Wonder, Whitney Houston (com a Kevin Blenchdom) ou Bangles - o Eternal Flame com voz Death é o sonho de qualquer gajo que cresceu a ouvir a merda dos 80s. Obrigado Rank Sinatra! Divertido e desafiante, ouve-se como se estivessemos a ouvir rádio, uma rádio cujas ondas passaram pela retrete da Interzona, claro, ou cujo director da estação são os Negativland num dia mau.

Já agora aproveito para relembrar que por cá também tivemos coisas do género como foi a compilação Xupa (Useless Poorductions; 2007), verdadeira marmelada de lixo psicótico. Hum... isto até dá que pensar em duas teorias...

Uma delas tem haver com este senhor: Albert Kuvezin e a sua banda Yat-Kha e o disco Re-Covers (2005). O CD é um disco de versões de temas Pop, passando pelo mais emblemático do que há no Blues, Rock, Hard Rock, Reggae, Electrónica, easy-listening,... Por isso temos Led Zeppelin, Kraftwerk, Hank Williams, Joy Division, Motorhead, Paul Mauriat, Bob Marley, Rolling Stones transformados em folclore transiberiano porque os senhores são de Tuva, em que a técnica gutural de música mongol também se aplica por aqui.
De resto nada de novo no factor exótico. Quarteto de cordas a fazer versões de temas Metal? Já é velho. Easy listening de Grunge? Claro que sim... Êxitos Pop em estilo Bossa Nova? Nem comento. Já para já não falar do grande Richard Cheese ou do Señor Coconut... Se já se tornou prática comum a versão de um estilo musical por outro, ou de um lado do planeta para o outro, só nos resta - e isto é uma das teorias - que um dia esse mundo oculto do Pop anglo-saxónico comece mesmo a fazer "trash" (shitcore?) como o da V/VM. Essa será a grande descoberta nos próximos anos, quando alguém da Somália fizer uma versão toda fodida de um tema popular de lá ou coisa que o valha.

Outro mestre que transforma lixo em luxo é Jason Forrest. Lady Fantasy (Sonig; 2005) é um EP que vale a pena ter em vinil porque tem um tema extra no labo B. Apesar do susto inicial da primeira faixa levarnos para sítios meramente "indie" ao segundo tema arranca o Breakcore / IDM respingador de Disco e o que houver dos anos 70 para samplar, modificar, acrescentar beats Techno e o que for necessário para identificar a música como Jason Forrest.
O lado ou tema B é a confirmação do som Forrest mesmo que a samplagem vá ao Jazz com pinta de careta e o ritmo abrande para um "chill-cool" de bar da moda. No entanto é isso que a samplagem ou a música feita sobre outras musicas têm de vantagem. Melhorar o que foi feito para trás e torná-lo excitante. A caveira cristalizada é justamente a antítese do que Forrest, ou ainda Otto Von Schirach ou End, fazem. É o ataque ao museu que os marialvas dos Futuristas não tiveram coragem de o fazer.

E se o EP de Forrest é acolhido cá em casa com o prazer por ser em vinil, já IIron (Mego; 2011) de CoH tenho as minhas dúvidas. Nada contra a música, muito antes pelo contrário mas porque a música dele confunde-se tanto com os problemas de ouvir vinil (ou seja, o disco estar sujo e riscado) que foi difícil perceber se estava a ouvir bem a obra, para além da seca que é ter de virar o disco para ouvir duas músicas de cada vez - é uma chatice a edição de álbuns em vinil-duplo!
Com tempo e coragem lá fui conseguindo entrar neste universo de Glitch-Metal. CoH é russo e neste disco recupera (recicla? não é este o tema deste "post"?) alguns riffs de Heavy Metal que ele tocou nos anos 80 quando este género de música era proíbido na Rússia - que país merdoso, não acham? A melhor forma de pensar neste disco é pensar como os sunn0))) fariam um disco de música electrónica - a associação até é meio óbvia porque a capa do disco é de autoria de Stephen O'Malley! Uma lógica de música electrónica - quase numa veia de Techno minimal - percorre o disco mas invés de procurar fantasmas nas máquinas ou os seus erros electro-magnéticos e digitais (um cliché da música electrónica nos últimos 20 anos), CoH escolhe como matéria-prima o ruído da gravação e da riffagem metaleira para construir um mundo épico para máquinas gadelhudas. Ainda não percebi se é música para estar no sofá a imaginar decadências ou se é para estar numa pista de dança pós-industrial. Espero que tenha sido considerado um dos discos do ano de 2011!

Peraí, não faltava uma outra ideia ou teoria ou lá o que é? Ah sim, que isto do "shitcore" e do "noise" são estilos realmente estranhos de criticar porque desde logo assumem-se como algo "mau" ou "anti-música", ou que mostra que ou vivemos uma sociedade sem critérios ou que a Anarquia já chegou e não sabemos ainda. É curioso que o Noise tenha sido o género que mais se tem destacado neste novo milénio pós-web.02, ou seja, numa altura que a informação tende para ser horizontal. Sendo díficil criticar Noise e afins, deixa de haver críticos, ou seja menos um intermediário e uma relação de poder. Não sei se isto faz sentido mas tenho de me ir embora agora!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Banda sonora para Lisboa (neo-nazi mix)



The Ananda Shankar Experience and State of Bengal : Walking On (Realworld / Sony; 1999)

Tenho ouvido tanta gente a chamar de "monhé" ao Presidente António Costa, que por mais que ache que ele esteja a ser um pulha ao destruir as BLX e a Bedeteca de Lisboa (por ex.), ainda assim isso mete-me confusão e nojo que se queira humilhar alguém com tons racistas quando se pode chamar tanta tanta tanta tanta coisa como "grandacabrão" ou "borrego de merda". Caramba, por mais glamour que possa haver no calão norte-americano, o português pode ser mais diabólico!
Não sei porque escrevi o parágrafo anterior e o que isto tem haver com este CD comprado na Vandoma por 3 euros. De alguma forma esta música soa há algo ligado a esta nova falsidade de Lisboa (ruas pintadas de cor-de-rosa?) não viesse o álbum das produções da Real World, editora fundada por Peter Gabriel nos anos 90, dedicada à "world music", termo tonto que rejeitavam mas que ainda assim lhe davam um certo sentido plástico (acrílico?), limpinho e atinado na maior parte da música que editaram ou que editam.
Ananda Shakar (1942-1999) morreu logo a seguir à gravação deste disco que o juntou ao produtor State of Bengal (e aos seus recursos na música) num misto de música indiana com batidas electrónicas, sobretudo Hip Hop. Se há algo que o Hip Hop consegue fazer é juntar todo o tipo de música, seja ela Noise (ver o caso de Dälek) ou pirosismo World para bar de betos (Gotan Project, por ex.), por isso a união entre os dois artistas funciona. Não só dois mundos que se fundem aqui, a começar porque Shankar desde os 60 já era um embaixador da aproximação das músicas orientais e ocidentais - vale a pena ouvir a sua versão de Light My Fire dos Doors - mas também porque junta dois tempos, um do mundo antigo com um moderno e electrónico. No final, a misturada dá um "Funk com caril", e isto não é uma ofensa, muito antes pelo contrário, mas também é verdade que há um lado que soa a falso, fabricado, sem densidade e demasiado ocidentalizado. Há no disco uma vontade de encher o espaço todo com som, algumas batidas são a mais ou algumas baterias são desinteressantes, enfim, como Lisboa em 2014... É isso, que quer criar cosmopolitismos à força para turistas, espezinhando o cosmopolitismo que já existia mas que era feita à porta fechada e de forma orgánica. Não que este disco seja tão mau como isso mas Lisboa também não é tão boa como a querem vender...

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pica-miolos

Eis uma k7 comprada em Angoulême, não uma qualquer porque sei lá o que eram as outras que andavam por lá... Um gajo joga pelo seguro, ora bem: 1) é da Finlândia, 2) da Lal Lal Lal e 3) do Roope Eronen disfarçado de Nuslux! Ah! e Custou 3 euros apenas! E o desenho é do Eronen! Impossível de falhar!
E realmente, mesmo sendo música feita com sintetizadores (a grande panca da música finlandesa!) em modo de ensaio, há algo de catita nestas gravações de arquivos - a k7 chama-se Archives C (2013). Começa um bocado mal com um pica-miolos que mais parece um bébé-robot a gemer por bytes-de-leite mas depois uma inocência pateta de "drones" prolongam-se pela fita magnética como se estivessemos a ouvir uma música de jogo de computador para crianças. Lado B o ambiente muda, passamos para banda sonora de Carpenter. É música perfeita para guiar um carro enquanto chove a potes. Genial e simples como as BDs do autor!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

sábado, 1 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Mitomania - a escolha dos nossos dias!

Marte & Miguel Falcato no Mesinha de Cabeceira #7 (1994)
 

Loverboy na Feira das Vanessas
por
Marte, João Fazenda, Jorge Coelho
e ainda António Kiala, Arlindo Yip Sou, Miguel Falcato, Nuno Nobre, Pedro Brito, Rui Gamito e unDJ GoldenShower

Capa a cores, 16 páginas a 2 cores (16,5x23 cm) e 32 a preto e branco (A5). Edição da Chili Com Carne, 7º volume da Mercantologia, colecção que recupera material perdido do mundo dos fanzines. Design de Joana Pires; Capa e fotos de olhos(«Ä»)zumbir realizadas no estúdio da União Artística do Trancão e em Sede Adres, com apoio à produção de xoscx e Adres. Bonecos realizados por Miguel Rocha e Alex Gozblau para a exposição "Loverboy Store: Liquidação Total" no Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada 2001, na Cordoaria Nacional.

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Este volume trata-se de uma compilação de “raridades” relacionadas com a série Loverboy que não foram publicadas nos três livros pela Polvo entre 1998 e 2001. Encontramos a reedição da “origem” da personagem em BDs ainda desenhadas por Marte – relembramos que os livros foram escritos por ele e desenhados por João Fazenda - e publicadas originalmente no zine Mesinha de Cabeceira entre 1993 e 1995. Participações em outros zines (Amo-te), antologias (a seminal Mutate & Survive) e revistas como a 20 Anos (oito BDs desenhadas por Fazenda), em alguns casos com as participações de outros ilustradores como Arlindo Yip Sou, Miguel Falcato e Rui Gamito. Algum “fan-art” de Pedro Brito, Jorge Coelho e Nuno Nobre (que fez um comic-book nos EUA sobre a Angeline Jolie!!!). São mostradas ainda curiosidades como os bonecos das capas, que foram feitos para uma exposição no Salão Lisboa 2001.

São mostradas ainda apropriações das personagens por Marcos Farrajota (em Noitadas, Deprês e Bubas) ou na série Psycho Whip - série de BD de unDJ GoldenShower (a) e Jorge Coelho (d) para a revista de música gótica-industrial Elegy Ibérica.

A história da série é contada por António Kiala, um académico que foi fundador do Mesinha de Cabeceira, que é bastante mais crítico e interessante que o material reunido, analizando o processo desta edição e da forma como a cultura DIY se vulgarizou na mitomania.

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O livro está à venda no site da Chili Com CarneFábrica Features, Trem Azul, Feira do Livro de Poesia e BDMundo Fantasma, BdMania, Matéria-Prima, Abysmo, Artes & LetrasKingpin BooksPó dos Livros, UtopiaLetra Livre e LAC.

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Feedback: olha já li o Loverboy, boy!! tá muita bom, gostei do todo. o fanzine do interior marca pontos, gostei bastante de rever o traço do Fazenda, o Coelho desenha mesmo pra c...(deviam ter continuado com a cena do Psycho Whip!!) curto bué a história do coquinado, a da descoberta da punheta e claro a do taxista impotente. como sou fã do Loverboy desde as minhas primeiras borbulhas no nariz,devo dizer-te que é me praticamente impossivel falar mal do Loverboy mesmo sabendo que ele é uma má companhia... tanto o Loverboy,o Astarot e o Leonardo, são personagens muito bem construidas, com vida própria e estão de tal maneira interligadas que me é impossivel dizer de qual gosto mais, mas uma coisa é certa sempre achei a irmã do Loverboy sexy... ps - tão importante como as histórias e o desenho é o texto do Kiala que nos mostra o percurso por trás das histórias, são 20 anos parabéns!! David Campos ... Parece que é para os amigos, esta edição. Está entre o "muito cuidado" e o "foi o que se arranjou!". Parece que o caderninho do meio vai dar umas luzes, mas nunca se percebe a) o que é a Feira das Vanessas (Amadora??) e b) onde é que vai dar a história da 2ª parte! Fiquei com curiosidade com as páginas a cores do Fazenda que foram todas filtradas a vermelho. De qualquer forma, tá fixe... o Fazenda e o Coelho sempre são "profissionais" com as respectivas afectações, com o Coelho a fazer umas cores incrivelmente esgalhadas para o que está em causa. Melhor mesmo é o caderninho interior e as suas bds "péssimas" que achei ainda melhores que o resto. Inusitada a ideia do Loverboy nunca fechar o negócio, mas tem graça (nunca li nenhum livro - espero que isso continue com o personagem). O Marte, duvido que exista, mas desejo-lhe boa sorte no refúgio ultramontano que arranjou. Há algumas bocas à cena dos zines que me parecem pertinentes e actuais, e o resto, lido como posta "de época", também se sai bem! Pode ser que um doutoramento parasita redima tudo isto. Astromanta

domingo, 26 de janeiro de 2014

Músicas do regime



v/a : The songs they sing (RCA; 1978)

O Camarada Fom Fom gosta de me testar os limites musicais do mau gosto. E só para me foder arranja-me discos que não lembra ao Diabo. É o caso deste LP da Namibia que em 1978 ainda estava sobre protecção da África do Sul - o país só obteve independência em 1990. A capa e fotografias interiores mostram militares de ambos as cores de pele, um negro e dois pulas mesmo com aquela cara de anormal deslavada de quem veio da Holanda ou Inglaterra para procriar mongoloídes. O disco deve querer mostrar integração racial no regime, nem que fosse na tropa mas cheira a propaganda grosseira se pensarmos que o Apartheid esteve vigente até 1994.
E a música? Muzak étnico  que não tem o mínimo elán de outras "coolonialismos". Aliás, o disco começa bastante mal, com uma música Pop assim para escuteiro tocar na fogueira, ou melhor, para o soldado raso lamber as feridas depois de ter violado uma gazela ou uma criança africana que para ele era o mesmo.
Por cá temos o Fado mais forte do que nunca...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

P: Quanto Valem os Devo? R: Valem 1 Euro



Devo : Q: Are we not men? A: We are Devo! (Virgin; 1978)

Isto porque o Dr. Uránio (responsável pelas capas dos dois últimos números do Mesinha de Cabeceira) vendeu-me o disco a um Euro. E assim sim vale a pena ouvir o primeiro álbum de uma banda que acredita na "involução" ("devolution" em inglês) da espécie humana e assumiu esse conceito para os media que criou. Menos interessantes que os Talking Heads e menos misteriosos que os Residents, o som soa mesmo aquilo que se denominou de New Wave - os ritmos do baixo educados pela Jamaica, os orgãos incluídos num formato Rock/Pop, as guitarras nervosinhas do Punk. São o template do género cheio de energia que mais tarde os imitadores não conseguirão captar, provando que afinal é possível existir involução, pelo menos na cultura.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Luís Trindade : "Genealogia da Música Popular Universalizada" (Contraponto; 1984)

Lá vou descobrindo alguma bibliografia editada em Portugal sobre música Pop / Rock. O título engana quem pensa que vai ter uma árvore genealógica do Rock até 1984. A verdade é que o livro devia-se chamar Grande Música Negra (ops! já existia!) ou Rock dos Escravos : Uma disertação sobre a Escravatura e Segregação Racial Norte-Americana como origem da Música Popular do Século XX ou Não haveria Beatles sem Negros torturados : Tese Académica sobre as origens do Jazz e Rock. Mas não... Ficou este título meio-enganador que não chega ao Punk nem ao Dub - nem poderia porque seria fora do contexto da tese escrita em 1980. Pouco há a dizer a não ser que comprei este interessante livro naquele mercado de livros na Rua da Achieta e o exemplar pertencia ao Rafael Toral. Até ele se fartou do texto académico (sinónimo de chato em espiral), pelos vistos nem em 1984 sabiam que uma tese académica tem de ser revista e transformada noutro discurso para ser um livro comercial paras pessoas "normais".