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sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Formigueiro nos pés e cu dorido

Sr. Alfaiate: "A vida na ponta dos dedos" (Loop; 2006)
Buraka Som Sistema: "From Buraka to the World EP" (Enchufada; 2006)

O primeiro é um álbum de "scratch", coisa rara em Portugal... e quando sabemos que quem está por detrás dele é o Nelassassin (DJ dos Micro, Bulllet entre outras colaborações e filiações) com as colaborações de Ollie Teeba (dos Herbaliser), DJ Damented, Kika Santos, Mellow D, SP, Verbal e DJ Riot mais curiosos ficamos. Há na rodela Hip Hop (claro) instrumental de qualidade mas encontraremos "agradáveis" (diz a editora) momentos Soul e R'n'B (agradáveis? para quem?) e funcionalidade Drum'n'Bass na última faixa, bastante atrasada no tempo, só para inglês ver. Com a função de ser cosmopolita até ao tutano, ouve-se bem dada à excelente produção do disco mas como quase tudo que vêm da Loop (que fez, no ano passado, 5 anos de actividade nas áreas do Hip Hop e outros géneros) há um trago ao artificialismo, uma perseguição dos modelos comerciais anglo-saxónicos óbvios numa tentativa de compromisso entre uma música de autor / alternativa com sucesso comercial - basta ver as banhadas que são Vicious 5 ou Fuse... Por isso, seguimos uma viagem mediana - a título de gosto pessoal, os fashion victims dirão que é um grande álbum - em que os melhores momentos passam pelas faixas que participa Kalaf (sempre em very-cool-style) e Sam the Kid com Bob the Rage Sense em guerra aberta ao que é e não é Hip Hop - tema sempre desagradável e masturbatório mas aqui com alguma garra e pujança por vir da boca de Sam. [3,7; Quando há uma Festa de Troca de Discos, caramba!?]
O segundo é o EP de estreia daquele foi o fenómeno da música portuguesa em 2006 - e que só ouvi na totalidade agora em 2007. Considero este CD-EP um dos discos mais importantes em Portugal dos últimos 10 anos. Ainda em tempos, na revista cinzenta Entulho Informativo a propósito de "Ngonguenhação" (Matarroa; 2004) do Conjunto Ngonguenha, escrevia que em Portugal temos vergonha de usar a matéria-prima da música africana (conclusão, aliás, nada nova porque vinha da leitura das escríticas pop de Miguel Esteves Cardoso), quando somos nós dos países com mais potencial para tal dada a nossa estreita relação histórica-colonialista com África e outros continentes. Mas não, aqui é a saudade e a morcegada que servem de personalidade nacional para a música e cujos exponentes máximos são os Madredeus e os Moonspell. Enfim... 2006 é o ano de ruptura graças ao boom estival dos Buraka Som Sistema e talvez venha a ser o ano em que Portugal passará a deixar de ser um país salazarento-de-merda e mapear-se-á na música do globo com um som completamente fresco [mas segundo a edição de hoje do Y, os franceses já se estão a adiantar com festas e a lançar discos de Kuduro - de origem angolana].
Sinceramente gostaria que os BSS venham a ser tão ou mais importantes como foi o House manhoso dos Underground Sound of Lisbon nos anos 90. Música de Dança Inteligente Crioula (IDM-PALOP?), Kuduro Progressivo (como lhe chamam), F-Dubstep (F de Fuck ou de Funk), Grime de Lata, qualquer designação servirá para este futuro "new two-tone" de uma sociedade que se quer progressista e cosmopolita, europeia e outras tretas. Dá-lhe Buraka! Vai ao World, vai! [4,5; precisadizer+?]
Entretanto para quem sofre de melomania, com ou sem critério, e procurar saber o que é o Kuduro, o sítio Wikipedia já é uma fonte de pesquisa levando já para páginas de artistas como o Dog Murras (o que me diverti a visitar a página murraspower.com) ou poderá encontrar algumas compilações manhosas como "Kuduro - Sempre a subir" da editora-pimba-k7-pirata Ovação (de que ano? não se sabe...) com Zeca, Semal, Frank Lioni, Virgilio Fire (hehehehe), Big Beto (que compila as faixas e no final faz um mix de todos os temas neste CD), DJ Fantasma (com este nome podia ser um DJ Gó-Gó!), Milay Xavier e MLX com Kwanhama. Diversão total garantida por muito pouco dinheiro... «É elaaaa! É elaaaaaaaa!» Que photochupada di capa, hein!? [3; é prá vergonha!]
Grandes temas desta nova vaga de Kuduro-pt também pode ser encontrado nos discos "Poesia Urbana" e no disco dos Nigga Poison.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ainda 'tá vivo, branquela!?



Bezegol: "Rude bwoy stand" (Matarroa; 2007)
Freddy Locks: "Bring up the feeling" (Gumalaka / Matarroa; 2007?)

Agora que a Jamaica já faz definitivamente no mapa musical de Portugal - demorou algumas décadas para saber que daquela ilha não era só Peter Tosh e o Bob Marley - começou a rapinagem dos vários estilos de música que aquele país criou nos últimos 40 anos e que influenciaram toda a produção musical no mundo. Começaram a aparecer bandinhas de Reggae para animar os bares de surfistas da costa vicentina, compostas por putos deslavados e sem pica, e ignorando o trabalho mais inspirado dos Kussondulola que conseguiram fazer a ponte musical robusta entre Jamaica, Angola e Portugal, começaram a gravar, alguns com pontos mais abaixo (os últimos dos referidos Kussondulola, Mercado Negro e a maioria dos "novatos"...) e alguns pontitos mais acima (como o último de Prince Wadada).
O álbum de estreia do Freddy Locks é o mimetismo perfeito de qualquer disco de Roots Reggae, é uma «jóia na produção de Reggae em Portugal», um "wallpaper" sonoro que tanto pode estar a ser tocado na aparelhagem de uma esplanada no melhor dia de Verão como na aparelhagem de casa à procura de "positive vibes". Tão perfeita que é esta música a imitar os modelos que podia ter sido feito na origem jamaicana... como podia ter sido feito na Rússia ou na Suiça ou onde vocês quiserem. A única referência portuguesa será a participação de um Rap em português emitido pelo MC Tranquilo (um padreco moralista chato como qualquer beato). O disco é tão bom qualquer outro bom disco de Reggae, é tão saudável como futuramente será entrar nos cafés sem o fumo dos cigarros. O problema será para aqueles que querem fumar! Ah! Sendo esta edição feita com o apoio da Matarroa e do talentoso Chemega, e fazem a "big shit" de capa e embalagem que é!? A ganza nos brancos bate mal, pelos vistos...
Ao contrário de Freddy, Bezegol é menos positivo e mais eclético - sim, é um sítio para fumadores de seja o que for! Do Dancehall ao HipHop, do Ragga à Soul, Bezegol mostra que tem garras, aliás como DJ de MatoZoo mostrava que "samplagem" de sons estranhos e originais era com ele. No álbum de estreia consegue nos surpreender com samples de filmes brasileiros (os diálogos são cortar à faca), um excerto inesperado dos Ramones à abrir, uma guitarra portuguesa (não "samplada"!), sons do 25 de Abril, ... ainda assim a esquizofrenia não é completa, o que é uma pena talvez porque o investimento de Bezegol passa muito para uma (sua) voz grave de "ganza-man" que canta num inglês não muito convicente. O esforço de imitar um modelo parece desnecessário e parece que Bezegol não tem confiança no seu talento - como acontece com quase todos os artistas portugueses. Apesar de Bezegol não saber que não pode fazer uma voz negra, e porque as listas já andam por aí, aqui vai o hype: este é pelo menos o melhor disco da Matarroa de 2007. Peace!

PS - memória para os que não tem e para relembrar aos "pulas" que querem ser "niggers" deveriam arrumar as botas porque vão estar sempre atrasados. A semana passada consegui uma raridade: Black Ja Tchga (Mesapro; 1997) dos cabo-verdianos Black Side - que já tinha feito uma resenha no extinto zine My Precious Things (14 números, FC Kómix; 1996-2000). Residentes na Holanda misturavam tudo o que era "black sound": Reggae, HipHop, Ragga, Pop africano, Dub,... Fusão embrulhada em crioulo du power, brotha! Aprendi pula com esta Obra-Prima!

E bom... o que se pode dizer disto!? Pai Grande (Sons d'África; 200_) que tem como sub-título Dog Murras apadrinha estrelas do Kuduro... é uma colectêna de Kuduro que achei que poderia colocar por aqui também, não sei bem porquê - porque é música Power du Black Pá! Claro, para provar que a cena "Black" é non-stop e cheia de pica. Como se sabe a tecnologia está em favor dos "pobres" - se eles conseguirem ter acesso, claro está - e é assim que à medida que a tecnologia chega às favelas, terceiro mundo e afins, novas pespectivas musicais populares surgem como o Baile Funk, Reggaton, Kuduro... Este disco é uma colectânea apadrinhada por um super-star (um xungão!) que é o Dog Murras - só o nome merce ser super-star. Já se sabe o que se pode ouvir aqui: tambor-techno, letra sexual parva para curtir em festa, o que for necessário para o branco ainda com tiques de colonialista com medo do futuro - Aprendi pula!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Axas que não

Costuleta : Bomba Kuduro 2008/2009 (Sons d'África; 2009)
Conheci o trabalho do Costuleta quando escrevi isto... mal sabia que ele teria tão impacto mais tarde! Em Maio, perdemos a primeira camioneta para Beja com o convidado croata Igor Hofbauer e como ainda tinhamos quase duas horas de espera para a próxima camioneta decidimos ir dar uma volta pela jardim da Gulbenkian. A caminho topámos a praça de Espanha aquelas barraquinhas de africanos onde vendem coisas maravilhosas. Saímos e logo na primeira barraca de música apareceu em destaque o DVD (+ CD áudio) do Costuleta!
Como disse já conhecia este grande artista do Kuduro, que tem como particularidade a falta de uma perna fazendo dos vídeos dele um verdadeiro "freak show" em que o senhor dança com a sua deficiência em verdadeiro estado de espanto de quem vê: com e sem muletas e até com uma prótese - para parecer mais espectacular muitas vezes aceleram a gravação sobretudo quando o artista se atira para o chão e dá umas voltas de pseudo-break-dance... A acompanhar o senhor perneta estão os seus "boys" todos em encanto de luxúria gangsta-MTV-3ºMundo e montes de gajas a abanar rabos, quando sem querer não se mostra algumas mamas molhadinhas - ah! todos juntos também simulam sexo nos sítios mais estranhos possíveis: na piscina de plástico e nas árvores é o que me lembro porque ainda não vi todo DVD. Para dizer a verdade acho que nem vou conseguir fazer, depois de 5 minutos de bundas (duração média de cada vídeo-clip), a coisa começa a enjoar (os caucasianos não tem tesão!?) e só sem querer é que se pode apanhar cenas bizarras, como um parte de um vídeoém que o artista vestido de monge (Franciscano!?) a dançar/ cantar/ caminhar pela rua acompanhado pela sua trupe, bófia e público!
O CD é Kuduro lixado, sempre a arrebentar mensagens brutais de sexo («abusou no... anos...»), ego-trip, gangstarismo amador e até algumas piadinhas - como uma tipa a dizer à Beyoncée para ir passear que agora o Jay-Z está apaixonada por ela. O CD não é só do Costuleta, deve ser uma colectânea mas ninguém está creditado na embalagem e isso... Mais mistério africano!
De resto, o Igor foi dar uma volta, perdi-o, ele perdeu o autocarro, encontramo-nos em Beja para "dois dedos de conversa" (conversa pública com o autor) e enquanto ele não vinha, para distrair e atrair público coloquei o DVD em altos berros lá no Festival.... Foi quase glorioso!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Em Lisboa a Cultura Beta ganhou! Confundiu a "cultura alternativa" com o "chic-freak" protagonizado pelos horror pós-colonialista dos Terrakota e materializados por espaços como a Crew Hassan que vinculam chavões para tias tontas como o Jazz (mas o Jazz técnico dos John McLaughlin que ninguém suporta), o Yoga e a Dança do Ventre (para fazer dinheiro com pessoas desiludidas com o quotidiano) e a World Music (limpa pelo empresário caucasiano).
Lisboa não tem Punk nem Metal, nem Rock nem Electrónica. Lisboa é um paraíso de ratazanas que exploram toscamente o turismo estrangeiro que deslubrado pela beleza da cidade esquece que não encontra cultura alternativa ou independente - a maioria dos turistas devem pensar que deve haver uma cultura tão "underground" em Lisboa que não conseguiram encontrar na primeira visita. E é verdade, ela está em Corroios (o punk e metal), no Barreiro e Almada (o Rock) e a Electrónica? Bem, temos de apanhar o Inter-Cidades para o Porto!

Neste panorama desolador, a tendência é sempre para piorar e serve este "post" para revelar a experiência horripilante da última Quinta-Feira à noite no Bacalhoeiro (outro sítio que propela alternativa mas é só serve para lugares-comuns) e o concerto de Pássaro, organizado pelo Movimento Alternativo Rock (!) que copiam o "template" FlorCaveira nas formas mais fúteis, nomeadamente o DIY (meramente) tecnológico mas sem o pathos, a estrutura colectiva (porque pensa-se que "União faz a Força" mesmo sem talento) e o regresso do português e/ou do cantautor mas com resultados succedâneos e chatos. Ou seja, um bocejo total porque tudo é bonitinho e certinho. Com letras de poesia asséptica e tão impessoal que se pensa que foi um Robot que a escreveu. Mas cada vez que acabava uma canção os amigos todos aplaudiam, claro. Na casa-de-banho percebi que alguém mijou contra as todas paredes, bidé, tampo da sanita e por todo o lado, talvez desesperado para se divertir de tanta modorra ou tentar, de forma frustrada, imagino eu, fazer com que a estadia de todos nós ficasse o mais desagradável possível - é realmente anti-democrático esta atitude mas até entendo! Depois do concerto ainda me passaram um CD poluente, um CD-R só com uma música do concerto - giro não é? receber um "recuerdo" do que se acabou de ver! - mas que 1) a capa foi para o papelão, 2) a rodela foi para o plasticão e 3) a caixa foi usada para outro CD-R. Vamos Limpar Portugal! E a começar por Lisboa!

Na mesma semana saiu na revista Blitz a única capa que não tem um artista vendido ou morto, ou seja o grande Adolfo Luxúria Canibal de cigarro na boca e a fazer de talhante. Um aberração do século passado, um primitivo dinossáurio dirão os estúpidos de Lisboa tão habituados a serem asseados e pseudo-cosmopolitas. Além da entrevista ao Canibal, a revista vinha acompanhada de um CD, E-Spam 001 (Enchufada; 2010).
A capa do disco é nojenta - desde de quando é que um ambiente de conta e-mail é uma boa ideia para uma capa!? E se começa muito mal com os PAUS - uma imitação perfeita dos Battles, que chega a ser díficil de perceber quem é quem a dada altura, até no grafismo da banda houve cópia! É mesmo uma imitação de sem-vergonha feita por lisboetas fraudulentos com poder mediático nas mãos, tão falso como foi CAVEIRA ou os Vicious 5! Depois... depois quase que ouvimos sempre "kuduro progressivo", ou seja, o "up-grade" do Kuduro (Techno xunga que apareceu em Angola) reinventado pelos Buraka Som Sistema em 2006. Há também algum Soul-House (Orelha Negra, Coca o F.S.M.) e Rock Electrónico (Youthless) sofríveis (porque sofro quando os oiço!), e ainda Dubstep (DJ Riot) e o Trip-Soul dos 1-UIK project com a óptima voz e letra de Kalaf que impressiona sempre que se mete num projecto - será o Kalaf o Canibal neste milénio da letargia?
Escrevia-se no Expresso neste fim-de-semana que ao menos esta colectânea cheirava a 2010, o que é quase verdade uma vez que a revolução Buraka e o álbum de estreia dos Battles foram em 2007 mas sempre mais vale ouvir algo com três anos de atraso do que música de «setenta, oitenta e noventa» como o resto do panorama português. A edição em Portugal continua eternamente com 3 anos de atraso, o que quer dizer que apesar do excelente esforço dos Buraka (e este CD é mais um esforço sendo eles os editores / promotores do disco) ainda não se conseguiu romper o muro de cinzento de Portugal nem se conseguiu chegar à tão desejada mestiçagem. Mas sinceramente, onde se pode ouvir Kuduro em Lisboa quando nem se quer existe B.Leza? E Mão Morta onde se ouve? Em casa (às escondidas?) como nos tempos do Dr. Salazar...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Eu quero que o Fado se foda!


Nigga Poison : Simplicidadi (Optimus; 2011)

Na Sexta passada, os Nigga Poison deram um concerto na Musicbox para lançar o seu terceiro álbum. Casa semi-vazia - pudera, o bilhete era a 10 euros (?) - e mesmo com o disco gratis à entrada, não se conseguiu a festa que o disco pede. Talvez as pessoas sabem que não vale a pensa ir à Musicbox porque esta casa tem uma acústica de merda, ou porque o concerto estava marcado à meia-noite (e não haja transportes públicos para os subúrbios) ou talvez apenas porque os Nigga Poison chegaram a um disco de "terra de ninguém" que deve ter afastado os fãs de Hip Hop ao mesmo tempo que ainda não atraiu o público mais generalista. A verdade é que de Hip Hop este disco nada têm, em 10 temas encontramos dois temas de Reggae/ Dancehall, um Jungle raggazado com cítara (ripanço total a Asian Dub Foundation), três temas de Kuduro e um dancehall voodoo (Sentimentu Klaru, grande tema!). Sobra... um Hip Hop Snoopy à canzana e outros dois "normais". 
Que se lixe o Hip Hop, se só o Nerve, Halloween (álbum do ano?) e Ex-Peão conseguem fazer algo de jeito mais vale investir noutras áreas que aliás os Nigga Poison já deram entender que poderiam ser geniais - refiro-me a Ke ki rapasis kre?, talvez o melhor tema de música urbana alguma vez gravada em Portugal, perdida numa colectânea medíocre e nunca regastada pela banda noutro registo nem (pelos vistos) ao vivo. Mas ao contrário do tema referido ou outros cabo-verdeanos Blackside capazes de fazer fusão de estilos, os Nigga não conseguem sair do "cada tema um estilo musical" o que faz pensar que eles não se esforçam muito, o que é mesmo uma pena.
Nigga Poison apesar da confusón-confusón que vivem ultrapassam o último álbum de Buraka Som Sistema - não é muito dificil, o último de BSS consegue ser mais estúpido que o Kuduro angolano mesmo quando um dos BSS seja cronista no Público. Confusón-confusón, rewind. Escrevia que os Nigga apesar da sua falta de direcção conseguiram fazer um disco bastante bom com temas fortes que mostram um cosmopolitismo que não existe em Portugal de forma oficial mas que existe numa série de cidadãos.
Para quem achar isto hermético, eis uma ideia do nosso Apocalipse: este fim-de-semana o Fado foi reconhecido como Património Mundial, ou seja, teremos mais histeria oficial e investimento unidireccional neste género, reforçando o cliché que Portugal é "Fado, Futebol e Fátima". Teremos de aguentar com esta porra reaccionária e fascista porque ela será a única coisa que as editoras irão apostar, para já não falar no espaço que o género irá ocupar em rádios, TV e eventos públicos e privados. O lado urbano contemporâneo não vinga porque é como uma prostituta junkie controlada por um sistema ilusório de "star system" instigado pelas empresas de telecomunicações. Paranóia? Teoria de Conspiração? Basta observar: a TMN que tem uma sala de espectáculos em Lisboa, todas elas patrocinam festivais de música, possuem estações de rádio (!) e a Optimus edita quase todos os discos de música portuguesa que não seja o Fado. As fadistas também eram umas putas há 100 anos e agora são património mundial, teremos de esperar 100 anos para os Nigga Poison serem reconhecidos como a grande música do século XXI?

quinta-feira, 10 de março de 2016

Split-tape Black Taiga + BLEID / nova edição fonográfica da MMMNNNRRRG



Talvez a MMMNNNRRRG tenha de mudar o slogan da editora de "só para gente bruta" para "só para gente muda" porque voltou a fazer uma split-tape, outra vez com Black Taiga e desta vez com essa "beata do beat" que é a BLEID!

Sai esta HOJE no Damas quando começarem as festas barulhentas com DJ Balli e outros extremistas sonoros! Esta noite haverá um live-act de BLEID e uma sessão unDJ MMMNNNRRRG.
+ informação aqui

Black Taiga é o encontro entre um congolês e um português, um foi para a gélida Irlanda mas nunca abandonou o calor africano, o outro queimou-se em Setúbal. Com EPs em linha e em k7 este projecto teve um feedback de sectores inesperados da aldeia Global:

Yes yours it's doom-kuduro but stil pretty core. I like it, nice one!!! ;) 
DJ Balli (Sonic Belligeranza, AAA, Antibothis, autor de Apocalypso Disco)

parece-me Jibóia se tivesse mergulhado num banho de ansiolíticos.!!!! já percebi! Throes + The Shine? Será? Não me acredito 
Fúa (Lovers & Lollipops, Milhões de Festa)

Top das 10 Melhores Cassetes Nacionais pela revista Arte Sonora

Cumbia Rebajada from hell? 

O dito cujo é como que o cruzamento do doom metal satânico escandinavo com o kuduro de Angola, tudo decorrendo muuuuuuuuuuito leeeeeeentameeeeeeeente, com peso de hipopótamo alimentado a papas de sarrabulho. Não se tinham lembrado da possibilidade de tal… como dizer… convergência geocultural, pois não? (...) os Black Taiga, projecto que envolve gente do Congo, de Portugal e da Irlanda (não, não participam suecos nem angolanos). Este ouve-se como se um disco em vinil de 45 rotações fosse passado em 33: até as vozes se arrastam, cavernosas. 



BLEID surgiu em 2015, é um projecto de música digital residente num computador. Com o intuito de percorrer as diversas linguagens nas quais a música electrónica se tem vindo a desenvolver nos últimos anos - como o footwork, o techno, o afrobeat, o IDM - procura explorar diferentes sonoridades a velocidades improváveis numa miscelânea ritmada e esquizofrénica.

...
2 EPs:

- Cristão Casmurro de Black Taiga : três temas de puro Doomduro produzidos por Walt Thisney + um remix inédito e exclusivo desta edição por Bleid

- Voltan de Bleid : um tema de Techno-não-canónico de 23 minutos

edição limitada a 66 cópias.
46m de música.
cartonila vermelha com dois autocolantes impressos em vinilo.
artwork de unDJ MMMNNNRRRG (BT) e Neuro (Bleid)
embalagem por Joana Pires

PVP: 6,66€ (portes incluídos)
em breve disponível na loja em linha da Chili Com Carne 



De resto, para quem anda distraído neste blogue, eis a antiga versão quadrada:


E um Jogo das 7 Diferenças aqui

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Porcalhota (1/3)



Antes de ir prá Residência na Finlândia, decidi despachar todos os livros e discos que andaram moribundos durante "n" Feiras Laicas... E despachar não significa ir sacar guito mas sim trocar por mais lixo cultural à procura de pérolas esquecidas por todos ou apenas desconhecidas por mim. Uma das hipóteses foi a Carbono Amadora , apesar de conhecer um dos sócios - que faz parte dos [f.e.v.e.r.] - não me apetecia muito ir à Porcalhota que nem se quer para ir ao seu Festival de BD vou há 3 anos... porque infelizmente os CTT fizeram merda e da grossa com a entrega dos discos dos Çuta Kebab & Party e tive mesmo de ir lá! Levei uns quantos CDs e trouxe mais uma série de deles que mal consegui ouvir porque dias depois estava a ouvir "suomi". Eis finalmente o relatório de aquisições e por ordem alfabética:
Abe Duque : So underground it hurts (Abe Duque; 2004) estava na secção do Hip Hop sem querer e sem querer trouxe a pensar que seria isso. No no! Techno e Big Beat que poderia ter sido útil no Pinhal Novo... Quem ouve esta merda em casa? Eu não...
Beenie Man : Undisputed (Virgin; 2006) também estava na secção do Hip Hop só porque é preto mas ao menos este sabia que levava o "Rei do Dancehall"... Embora esse auto-proclamado título pudesse ser verdade há 20 anos não creio que agora ou em 2006 fosse verdade - o Sean Paul já levava o título em 2002 com o tal disco que roubei no Pinhal Novo. Disco básico com o Rei a não se aguentar nas canelas ao ponto de se rebaixar pedindo o apoio do vomitante Akon numa faixa, para além de tentar conquistar novas terras como o Reggaeton e o House manhoso sem inspiração. A melhor faixa é quando entra Lady Saw, claro, não fosse ela a... "Rainha do Dancehall"!
Chullage : Rapresálias : Sangue Lágrimas Suor (Lisafonia; 2001) E se Beenie Man é o Famous and Dandy (Like Amos and Andy), Chullage será o oposto - a "CNN dos negros"? Embalado por uma militância bacoca sobre o género musical Hip Hop e a sua cultura, acaba por criar um ponto de saturação em que por mais que a mensagem seja séria (descriminação, pobreza,...) não é possível ouvir mais do que poucas faixas. É o mal do "Hip Hop 'tuga" incapaz de inovação e de criar algo único. Pode-se criticar o sistema mas quando nos agradecimentos Deus é o primeiro a aparecer na lista, então ainda há muito caminho para percorrer... Mais um disco a evitar tal como se evita entrar num bairro social.
Hawkwind : Undisclosed Files - Addendum (Emergency Broadcast System; 1995) é um disco ao vivo dos inventores do Space Rock com 11 temas de dois concertos, um de 1984 e outro de 1989. Blues / Hard Rock com sons espaciais é a fórmula desta banda só cada vez que eles abrem a boca, não estamos numa nave espacial algures na via láctea mas num pub na província britânica. Farto-me de ouvir falar bem desta banda mas nunca ouvi um disco de jeito deles, azar cósmico?
Makongo : Angolan Kung-Fu (ed. de autor; 2008) foi o passo lógico depois dos Buraka Som Sistema terem inventado o "kuduro progressivo" - por acaso a Petty está neste projecto - e que acaba por ultrapassar o que os BSS fizeram nesse mesmo ano com Black Diamond. Quer o "Diamante" ou o "Kung-Fu" são histriónicos e aproveitam ao máximo o facto do mundo ter-se aberto para o "tecnho angolano" mas enquanto os BSS simplificaram a fórmula (ou para agradar as massas ou para ir mais de encontro ao Kuduro original) estes Makongo decidem ir realmente pelo "progressivo" da coisa com temas mais longos e misturadas do universo da música de dança... Não é nada mau mas parece que não tiveram sucesso - pelo menos nunca ouvi falar neles e farto de ver CDs deles em promoção. Será que Portugal ainda é racista? Hum...
They Might Be Giants : They got lost (Idlewild, 2002) e é quando reparo que a maioria destes discos foram editados pelos músicos - assumidamente como edição de autor ou com uma etiqueta! Curioso... E no caso dos TMBG até faz sentido dada a quantidade de música que eles produzem fora do mercado habitual do Pop/Rock como prova esta antologia de temas feitos pra revistas, programas de TV, um atelier de Design,... Esta é a banda que pode fazer músicas Pop sobre História, Ciência (explicar o que é o Sol é um dos seus clássicos!), Mamíferos, Classe Média ou qualquer outro tema que lhes derem - é sabido uma boa série de discos e livros para a infância feita por eles também. E se como alguém notou que esta deve a única banda que é possível fazer compilações de temas dispersos sem estragar uma coerência do disco também é verdade que os TMBG há muito deixaram de ter a piada que tinham até 1992, quando dos dois Johns aumentaram o formato do projecto para banda (ou seja como mais elementos). Desde então há demasiada guitarrada, menos esquizofenia de mudanças de ritmos e géneros, não sei como é possível mas deixaram há muito de serem (tão) orelhudos e terem o elán da juventude. Creio que foi a última tentativa de os ouvir pós-Apollo 18.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Vómito negro

Nigga Poison: "Resistentes" (Very Deep / Som Livre; 2006)

Foi a faixa destes niggas na colectânea Poesia Urbana (Horizontal; 2004) que me fizeram comprar o álbum de estreia - apesar de já conhecer o CD-EP Podia Ser «Mi» (edição de autor; 2001). Na colectânea, o seu tema metia as outras 12 participações num canto, tal era a misturada hiper-energética de HipHop, Ragga, Kuduro, quase a roçar para um Punk Digital - cena marada mesmo! No furor dessa descoberta atirei-me a estes Resistentes sem pensar... e... desilusão! Problema nº1, antes demais parece uma caderneta de cromos invés de um álbum: há HipHop francês, há Reggae, há Dancehall, há R'N'B, há HipHop (claro, é uma banda de HipHop) ora old school ora new school... Ou melhor: há uma faixa de HipHop francês (Julgado pela aparência), há uma ou duas de Reggae (Fazes parte deste mundo com uma participação dos nojentos Terrakota), há uma de R'n'B (a pior do disco: Onde é que estas?), há uma faixa de HipHop a lembrar a barulheira dos Public Enemy (Alas ta ben, o melhor do disco?), há uma faixa de Kuduro (Yes man - esta é que é a melhor do disco mas longe da tal da Poesia Urbana, infelizmente esta é mais básica), etc... ou seja, a lógica é de ir a todas sem arriscar fundir os géneros - como fizeram, novamente, na tal música da Poesia Urbana - e por isso sem inovar um milímetro. O álbum é mau por isso? Não, há obviamente música boa e bem produzida, cantada/rapada em crioulo (efeito porreiro de se ouvir em qualquer receptor de lusofonia) como também há momentos para esquecer para sempre. O que não se percebe é como não há um direcção, uma ideia para não serem mais uns no meio da música portuguesa. Numa altura que Buraka Som Sistema provou - finalmente! - que há um nicho de mercado para música africana ou luso-africana, é estranho os Nigga virarem-se para o Reggae (que já deve ter os seus dias contados enquanto moda) ou para a "MTV".
Como o camarada Seringa uma vez escreveu, em Portugal quando saí um disco de um som que tenha estado na moda vêm sempre com 5 anos de atraso e geralmente é uma merda. Acho que Portugal já diminuiu esse parâmetro para 2 anos e já não é uma merda total. Mais uma geração e pode ser que a música feita neste país de coninhas seja qualquer coisa de jeito. Até lá ouvimos na faixa A Nós é real alguém a perguntar aos Nigga Poison «agora vocês andam a cantar comercial»... pois...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Simon Reynolds: "Retromania : Pop Culture's Addiction to its Own Past" (Faber and Faber; 2011)

Não se deixem levar pela capa pirosa... Este é o melhor livro sobre música jamais escrito excepto que poderá ser ultrapassado no futuro. Ainda assim, algo de extremamente radical teria de acontecer na música Pop para que este livro ficasse desactualizado - o que ele não prevê nem deixa prever.
Reynolds ao longo das páginas deste magnífico livro desmonta todo o aparato do Rock/ Pop nos dias de hoje, ou melhor, desde o novo milénio quando a cultura Pop deixou de crescer e começou a entrar em autofagia. Dos “revivals” aos regressos (dos Sigue Sigue Spunik aos My Bloody Valentine), dos museus dedicados ao Rock (com as suas relíquias de santinhos Pop, como uma rasta de Bob Marley, a camisa de John Lennon antes de levar com os balázios ou as cinzas mortais do DJ que cunhou o termo Rock'n'Roll!) às curadorias de festivais Rock, do coleccionismo ao fetishismo, do Retro à Nostalgia, do eterno revivalismo dos anos 50 (fenómeno que vamos encontrar logo cedo nos finais dos anos 60) à "hauntology" - música que pega em sons fantasmagóricos do passado e que parece estar na moda!
De forma divertida e pessoal, sem que estas desviem o ensaio para algum tipo de baboseira reaccionária, Reynolds faz uma análise da música Pop até aos dias de hoje, e de que forma ela se modificou até ao ponto de "eterno presente" graças ao advento da web. São vários os analistas que têm advertido que o mundo deixou de ter passado e futuro quando podemos aceder tudo pela internet (no seu "anarquivismo") e não é de estranhar que o mesmo tenha acontecido nas artes e na música.
O Punk fez ruptura democrática do Rock e cultura em geral, o pós-punk trouxe o "artsy" ao Rock, o Hip Hop e a cena Rave novas formas de expressão e de produção, e pelo meio houve o Reggae, Ska e Dub mas segundo Reynolds, os anos 00 não trouxeram nenhum novo tipo de música. Aliás, não será o único a afirmar que desde o Grunge que não houve um género que tenha sobressaído ou feito estragos no mundo Pop. Afirma mesmo que os 00 são os anos conhecidos pela tecnologia (mp3, ipods, napster, myspace, bandcamp,...) e não por um grupo ou estilo musical. Não é o único a afirmar tal coisa, o grande Scaruffi no seu sítio scaruffi.com dá nomes como “Revolução Indie” aos anos 80 e outras décadas mas de 2001 a 2008 chama-lhe de “Era Digital”!
Não é fácil de opor a esta ideia quando desde os meados dos anos 90 assistiu-se a meros revivalismos "non-stop": o regresso do Disco (Daft Punk, Kylie Minogue), Ska (Sublime), Jazz Big Bands / Swing / Lounge (Combustible Edison, Squirrel Nut Zippers, Matthew Herbert), Punk (Green Day, Offspring), Hard / Heavy Metal (The Darkness, Queens of Stone Age), Post Punk / New Wave (Franz Ferdinand, She Wants Revenge), os kitsch dos 80 (o electroclash), o Glam dos 70 (Placebo), os 60 (quais? entre muitos, a cena Neo-Folk), os 50 (The White Stripes e um sem fim de estupidez garageira),... Quer no Top 10 quer no “underground” não se vê inovações mas apenas ao melhoramento de estilos: seja no R'n'B da MTV, no Dubstep a chegar ao Top, no Punk Rock mais selvagem tocado numa Okupa,... E o livro mostra e explica como isto acontece. Na essência explica que isto deve-se ao arquivamento de música nunca antes existente na Humanidade.
Antes dessa capacidade de armazenar música não havia forma de saber como eram as “vozes” do passado, o som de uma canção ou de uma banda. Graças aos cilindros de cera (1877), discos em vinil (1888), cassete (da criação à forma que conhecemos: 1935-1964) e CD (1979) toda uma história da música pode estar documentada e para audição ao ponto que uma meia-dúzia de falhados conseguiram reavivar o Northern Soul, por exemplo, só porque achavam que esse (sub)género era a melhor coisa do mundo... Aliás, subgénero que passou a existir depois de um grupo os cunhar como tal – eis um fenómeno que apareceu: cunhar algo que aconteceu no passado sem que na altura houvesse uma consciência de movimento ou de cena.
Graças ao conhecimento do passado, os músicos acabam por citá-la ou copiá-la sem alterar as formas originais. Imaginem que antes da música registada, mesmo um cancioneiro popular poderia passar de pai para filho mas haveria sempre algo a perder-se na “tradução” como se costuma dizer. E essa passagem poderia incluir cortes (algo que o filho não gostasse) e acrescentos (algo que o filho criou e passou a meter no repertório), agora é impossível não saber “toda a verdade” da música… basta ir ouvir o disco, seja em LP seja no youtube!
O livro é difícil de refutar e deslumbra a alguém como eu que escreve neste blogue há anos sobre este “estranho mal-estar” que sente no mundo da música Pop/ Rock. Reynolds consegue identificar e estruturar quase todas as características do momento – ou dos últimos 10 anos. Há apenas quatro situações que lhe passam ao lado, parece-me.
Sound + Vision
Estranhamente, apesar de referência ao youtube, Reynolds não levanta questões de como o vídeo-clip possa também ter modificado a nossa relação com a música.
Por exemplo, acho que só se explica o eterno regurgitado revivalismo dos anos 80s não apenas porque a música era tão "má que era boa" mas porque a geração dos anos 70 mamou todos os video-clips mais manhosos do planeta na sua juventude nos anos 80, acrescentando a sensação visual (e narrativa das micro-histórias dos vídeos) à música que se ouvia. Nas gerações anteriores, a música era meramente auditiva, coisa ridícula de se escrever (claro que só se ouve música!) mas sabemos que o Rock é mais que "música", é uma ópera bufa de música, letras, moda, performance e escândalos. Antes não havia “próteses visuais”, porque quem diz video-clips, diz todos os elementos visuais que passaram a fazer parte do Rock/Pop: maravilhosas capas dos discos LP, revistas e jornais especializados, longas-metragens, documentários, efeitos especiais e decorações dos concertos, e claro, o “merchandising” como cuecas, meias, porta-chaves, isqueiros e as t-shirts - dizia-se que os Inspiral Carpets vendiam mais das suas t-shirts "cool as fuck" do que os seus próprios discos.
Talvez por isto tudo que os Gorillaz foram criados, não? Mas mais do que isso, será por isso que nos lembramos tão bem dos anos 80, ou que seja fácil ir lá buscar coisas nostálgicas, porque foi a primeira geração de Video kill the radio star? Uma década de produção audio-visual onde há mais imagens para recuperar e lembrar do que um Elvis nos anos 50 mesmo que este tenha feito também filmes? É mais fácil lembrar o tema "euro-trash" Boys Boys Boys por causa do video onde vemos as enormes mamas saltitantes (e molhadas) da Sabrina do que um tema qualquer de Captain Beefheart nos anos 60, certo?
Rat Race
Reynolds não refere a questão dos modelos económicos que nos dias de hoje afectam a música. Há poucos meses atrás, a revista The Wire publicava um artigo sobre como a crise tem transformado os projectos musicais, afirmava que o formato de banda de quatro ou cinco elementos está a desaparecer para projectos constituídos “bandas de um homem só” ou duos. Como é complicado levar uma banda grande em turnés com os cachets cada vez mais baixos, é preferível pegar no lucro todo para uma pessoa só (ou para um pequeno agregado familiar, já repararam que anda muita banda por aí que é um casal? como os Jucifer) do que distribuir por quatro ou cinco gajos.
Com isto, haverá menos colectivos que na realidade são espaços de confronto de ideias, técnicas e conceitos. Isso não impede que se faça “co-working” em estúdio / disco, com várias pessoas a colaborar como acontece nos dias de hoje em todos os discos de Hip Hop mas também em discos de Metal ou Pop. Diziam na revista que cada vez iremos ter menos hipóteses de ter bandas "doidas" (no sentido inovador) como aconteceu no passado, como os Clash ou os Skinny Puppy, em que cada elemento com percurso diferente traz algo de diferente para o som da banda.
Querendo ir mais longe, pergunto se esta crise económica que optou por atomização dos elementos das bandas também não tem criado a especialização do mercado porque cada vez mais se assiste a “segmentos de mercado” (ou o nicho ou o público-alvo). Bandas que tocam, por exemplo, Garage dos anos 60 só para circuitos e público especializado nesse género, ou quem diz isto, diz a banda Death Metal que só toca para metaleiros que curtem Death, não conseguindo apanhar os que gostam Black Metal ou Speed Metal ou… Isto explicaria abortos como os Editors e afins que fazem a mesma música 12 vezes no mesmo álbum porque não podem fugir à cartilha Indie, mais especificamente, aquele Indie tipo anos 80 e Dark Pop que se especializaram – que não é a mesma do tipo Indie Anos 90 norte-americana dos [metam aqui um nome de uma banda dos anos 00 que soe a Pavement, sff].
É desnecessário dizer que num álbum de Led Zeppelin podia-se ouvir temas Blues, outros Reggae, ou Rock psicadélico, ou Hard Rock e o que mais se lembrassem... soando sempre a Led Zep. O mesmo pode-se dizer para os Mano Negra, Ministry, Young Gods, Black Sabbath, Pop Dell Arte, Stealing Orchestra ou Mão Morta (basta ouvir o Fado Canibal do segundo álbum, por exemplo). É Helter Skelter "menos Beatles" do que o Norwegian Woods? Se os [qualquer banda do momento] fizer uma música Techno sendo ela uma banda de Rock Indie, será aceite pelo a) público? b) editora? c) pela própria banda?
Istanbul (Not Constantinople)
Do alto das cidades do Império (Londres e Nova Iorque) onde Reynolds residiu e de Los Angeles, onde reside actualmente, não se pode ver o que está para baixo, nas periferias… Os EUA e a Grã-Bretanha podem ter tido um monopólio da Pop durante o século XX mas com o crescimento económico de outras nações e capacidade de encontrar, pela Internet, outras culturas, têm despertado novas músicas que Reynolds não considera muito embora admita que seja daí que possa vir algo novo, como da China ou do Brasil...

Mas já vieram coisas novas daí? A globalização de sons Pop têm sido assimilada em cada país desde sempre. O Jazz e o Funk no Afrobeat dos anos 60/70, e nos anos 80 vamos encontrar Reggae em vários países da África subsariana como Alpha Blondy, mais tarde Hip Hop e agora fala-se imenso de um Blues do Sahara (Bombino, Tinariwen) que é mais velho que Blues americano... Também há Drum'n'Bass com metais dos Balcãs e criou-se Reggeaton de Puerto Rico! E o Kuduro angolano entretanto sacado para Portugal pelos Buraka Som Sistema? Enfim, creio que a melhor música Pop do momento é aquilo que os porcos imperialistas chamaram de “World Music”, termo idiota para designar o que não era anglo-saxónico. O monopólio “acabou” e se há artistas para este milénio eles chamam-se MIA ou Die Antwoord, ainda eles híbridos do mundo anglo-saxónico.
E já agora, outro indício como nas periferias se vai perdendo o monopólio, é também a cultura de revivalismos noutros países. São os fenómenos locais, como por exemplo, Portugal não tinha uma tradição Pop mas 20 anos depois do aparecimento dos execráveis Resistência ou das popularuchas digressões “Portugal ao vivo”, ei-las a reaparecerem nos últimos meses para oferecer um conforto nostálgico à primeira geração 100% Pop portuguesa.
Headcleaner
Mas esse som da “periferia” é revolucionário? Ou só trazem mais-valias ao que já existe? Afinal Kuduro é Techno, os Die Antwoord combinam elementos pré-existentes (euro-dance e gangsta), tal como os discos de The Ex com Getatchew Mekuria são punk rock com jazz etíope, etc… E para isso já temos o fenómeno de reciclagem, pós-moderno e de “jogo de peças” que Reynolds revela no livro.
A tecnologia muda a música: o Rock vindo dos Blues aparece com a electrificação da guitarra, o Rock Psicadélico porque passou a haver registos longos (LP), o punk com a democratização da fotocopiadora e das k7s, o Techno e Hip Hop com os samplers e ferramentas digitais, etc… A música do século XXI vive do passado devido à tecnologia de partilha (CD-R, internet, bluetoth) em que este é reavivado a toda a hora. Curiosamente, a cultura Zombie nunca antes esteve tão popular...
E este estado de morto-vivo não ouve nada? Não terão sido os sunn0))) a única banda sonora da primeira década do século XXI? Imortalizaram o termo Drone ao mesmo tempo que se usam máquinas Drone em guerras e vigilância policial, tal é a intercepção entre tecnologia e cultura. O ruído branco dos P.A.s destes metaleiros intelectuais, o Noise de mil bandas underground, as festas de música de dança Dubstep, fecham a primeira década do novo milénio no Verão de 2010 acompanhadas por vuvuzelas que se ouviam omnipresentes à escala global. Reynolds não deu por isto? Não se curte bola nos EUA, né?

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Cagufa da Revolução



The Last Poets (Celluloid; 1984 - orig. Douglas, 1970)

Recentemente escrevia sobre uma antologia de BD de um autor queer e dizia que o que gostava no trabalho desse autor era que ele não tinha um discurso só para a sua comunidade diferenciada e que alguns sentimentos das suas BDs seriam universais para qualquer ser humano. Os oprimidos podem ter a cor de pele ou outra coisa qualquer que os faz serem reprimidos pelo "Velho Branco Europeu" mas é bom que o discurso do reprimido seja entendido por outros reprimidos.
Estes vovôs do Hip Hop tinham A Fúria contra a miséria que o negro era submetido nos EUA. The Last Poets com três vozes e uns batuques fazem mais barulho contestário que qualquer banda de Grindcore.
Stop! Escrevi "era submetido"?
Sim "era"... desde os anos 70 que passou a haver uma classe média de população negra norte-americana, até mais do que isso, passou haver ricos e até elegeu-se um Presidente inútil duas vezes. Pelo caminho continuam haver milhares de miseráveis. Negros. Ameríndios. Brancos (o racismo do capitalismo: o "white trash"). Outras etnias.
Ouvir  em 2016 os The Last Poets por mais que se dirigam a uma comunidade negra nos finais dos anos 60 fazem ainda todo o sentido ouví-los mesmo sendo eu branco, português e hetereossexual (o típico repressor!). O que eles gritavam em 1970 tem ainda A Força. A Mensagem deles pode ser absorvida/adaptada para qualquer outra situação de quem vive vítima sobre a marcha incontrolada do Capitalismo brutal (todos nós, quer queiramos quer não). Dizem eles nos seus recitais que os "niggers" gostam de anúncios de publicidade ou que "niggers" tem medo da revolução, substituam "branquela" invés de "niggers" e o significado é o mesmo. Os brancos daqui da esquina embrigados por futebol, roupa e Kuduro? Uma miséria idêntica a de 50 anos no Harlem, a diferença é que os poetas 'tugas são todos uns meninos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AfroTechno

Os Buraka Som Sistema quando afirmaram no disco de estreia que o seu primeiro disco era "From Buraca to the world", eles tinham mais razão do que imaginaram há 10 anos atrás... Como projecto criativo morreu logo no segundo registo mas fizeram o impensável, abriram o Techno africano para o mundo. Agora fala-se em Gqom de África do Sul ou em "batida" dos subúrbios de Lisboa. Seja qual a designação que apareça trata-se de uma renovação da música Techno à escala global.

Em relação à "batida", ela é feita por jovens africanos em Portugal metidos em guetos à procura de uma identidade que foi perdida pela diáspora dos seus pais e negada pelas instituições portuguesas ao não se esforçarem em integrar uma massa enorme de gente. Felizmente para eles existe um "Príncipe encantado" que tem explorado (o termo parece neo-colonialista, bem sei) de forma ética (ah bom!) os DJs "foxes" que andam pelos bairros "fodidos" de Lisboa. E melhor tem conseguido projectá-los pelo mundo fora, como se bem sabe pelo sucesso internacional do Marfox. Nessa senda deu-se também uma edição de três mini-LPs pela grande editora britânica Warp numa série intitulada de Cargaa em 2015. Comprei o último que prometia, segundo uma crítica da revista The Wire, mas não fiquei muito surpreendido. Quer dizer, se o som tem algo de novo e fresco, serão os doidos da dance music que o poderão dizer, por mim, leigo na matéria passa-me ao lado e até acho a música bastante fria. Pode-se dizer o mesmo do drum'n'bass, EBM ou outras correntes dançantes mas talvez o meu principal embirranço seja justamente ao ouvir estes "ecos de África" não oiça vozes humanas. Essa falta de vocalizações dá a entender que a identidade destes descendentes africanos foi apagada, criando um desconforto pouco estimulante para quem não é DJ ou oiça música de dança de forma quotidiana. Percebo a euforia em volta desta música pelo seu ingénuo "afrofuturismo" cujas texturas são tão sintéticas como um cromado de um carro quitado "lá do bairro" e que isso seja um ponto positivo para muitos.

Muito mais entusiasmante achei a colectânea Balani Show Super Hits: Electronic Street Parties From Mali (Sahel Sounds; 2014) porque os gajos que fazem de MC estão presentes. Ouvem-se vozes! Até podem estar a dizer as maiores barbaridades, nunca saberei porque apesar da língua oficial ser o francês, é óbvio que quem grava música popular caga bem de alto na língua do opressor. Festa assumida porque o "Balani Show" é uma festa de rua, eis um LP para mexer o rabo (mesmo o dos caucasianos chatos) em que o kuduro aparece como caminho principal, tendo como paralelas instrumentos locais e o Hip Hop.

Mais agressivo, rápido e estimulante são os Supreme Talent Show também do Mali - a Sahel lançou uma k7 homónima em 2015. Inserem-se numa corrente musical chamada de "Ambience" que incorpora o Balani mas com mais Rap, o uso de sintetizadores e suponho eu letras socialmente interventivas. Ao que parece o género Ambience (atenção que de Ambiental não tem nada!) trata-se de um som underground no Mali por isso apreciem quando os descobrirem... Bring tha noize!


quinta-feira, 15 de março de 2012

Mais mistérios africanos (work-in-progress)


Há um mês (creio) fui à Feira da Ladra e tive uma sorte! Cinco CDs de música Afro-Pop a Cinco Euros!!!!
Queria começar pelo mais xunga deles todos mas não encontro mesmo nenhuma informação. alguém sabe dos Two Faces (nome da banda e do disco) editado pela RMS (Reis Musica e Som lda) de 1997? São três elementos: Luis Rafael, Maya Cool e Bruno Castro... É uma espécie de Afro-Dance Music que lembra um kuduro "light", proto-kizomba e até mesmo reggaeton (o tema Remexe). As letras são de ressabiado ou de tímido que queria fazer amor com uma gaja, o gajo que canta sofre e é sofrível - além de rídiculo, no caso do tema 2 Faces, tema cantado em português e em inglês: O teu amor não é sincero / alimentaste o meu ciúme / nunca foi dado por inteiro / Não me amas-te de verdade [bla bla bla + um rap manhoso] You got 2 Faces! Agradeceria informações se alguém souber alguma coisa deste curioso agrupamento pós-qualquer-coisa de origem angolana (?). Entretanto já digitalizei a capa...
Vamos para Cabo Verde com Varela Monteiro Bodinho, um star do Funáná em balizas de Afropop bem definidas em que até de vez enquando entram guitarradas fatelas de Rock FM. Um só coração (Cape Disco; 2001) têm meia-hora de festinha roça - convém sempre ter namorada nestas andanças africanas! - em que temas como Projecto ou Ta Pila dão vontade de fazer coreografias badalhocas com... a pila. Divertido apesar do aspecto betinho do Bodinho q.b.
Segue-se para Raiss di Funáná que vão no seu terceiro registo com Dja bêm (Afro-Line; 2003). O nome não engana estamos perante um colectivo de Funáná - original do Bairro da Pedreira dos Húngaros - que existe desde 1998 com este nome embora a sua história remote ao final dos anos 80 como um grupo de dança e musical Pila-Kana. O primeiro tema do disco mostra que este grupo não são meninos com fraldinhas mijadas, aqui há seis homens de óculos escuros mafia-style e uma dúia com fúria de viver, que se atiram a ritmos altamente acelerados (que começa com um sample de carro a abrir!) que só com coca e speeds é que se consegue acompanhar isto! Parece que um gajo levou com a pila depois de ouvir estes 41m de música africana bombada à velocidade estúpida do mundo ocidental. Brutal!
Também a viver em Portugal, na Buraca, Jorge Nêto é um grande nome do Afropop com raízes em Cabo Verde, embora Dia diferenti (Cabo Verde Productions; 2003) tenha sido gravado na Holanda - como aliás, acontece com muita boa música de Cabo Verde! - quando o músico vivia por lá. Cheio de energia e percorrendo vários estilos: Kizomba, Funáná, Zouk, etc...
Por fim Biere Noire (ou Alain Deloumeaux?) é um granda alien! E não é porque tem pinta de bichona mas porque Lé 3B : ou inme tchouye ou pe mo (Atis;199_?) começa logo com um orgão tirado do espaço, o ritmo Zouk é bom para roçar e a voz do mano... a voz do mano! Canta num francês crioulado da Guadalupe (ilha nas Antilhas) mas com um timbre afemininado e arrastado que muitas vezes parece um pato disléxico - alguém imagina tal coisa? Pois... Algumas música são do pior como Maladie d'Amour, é do mais azeiteiro possível mas há outras de um mistério linguístico que encantam como Ka yo dire sou moin.
Sendo das Antilhas não deveria se quer estar nests "post africano" mas como é tão misterioso ao nível da informação como os discos africanos, lixa-se e fica a aqui mesmo... Afinal, quem percebe este gajo que ora assina Biere Noire, ou Jocelyne Bierre Noire ou Alain Deloumeaux? Que no blogue desactualizado dele tanto se auto-intitula como o "boss do zouk" como noutro lado qualquer na 'net é o "mendigo do zouk"? Descobrir a capa do disco? Ah! Tarefa de titã, tomem que digitalizei:

domingo, 15 de janeiro de 2012

Infecção bicéfala...



Portugal no seu jardim plantado à beira mar /
nasceram Morangos e Floribelas na campa de Salazar
Halloween in Um jardim à beira mar


O Hip Hop Tuga (péssima expressão!) tem o grande feito de ter trazido de volta a língua portuguesa para a música de cariz urbana, depois de oportunistas bacocos como os Blind Zero e Silence 4 terem tentado sepultado a língua numa enorme campanha de pseudo-globalização – previsivelmente falhada dada a óbvia falta de originalidade desses projectos. Só que os “hip hop tugas” ficaram-se por aqui, foram a resistência para o uso da língua lusa mas falharam tudo o resto ao apropriaram-se deste estilo musical de forma dogmática sem reflectirem se o modelo norte-americano fazia ou não sentido para a realidade portuguesa. Talvez por isso quase não há personalidades distintas no Hip Hop português, ou pelo menos é muito raro encontrar. Não faltam, claro, figuras inchadas, cheias de si, que contribuem apenas para que esse “Hip Hop Tuga” seja aquilo o que vernacularmente se pode chamar de uma “grande punheta” – digo-o não de forma gratuita porque basta ouvir as letras autofagicas e masturbatórias para perceber o que digo.

Claro que temos uma serie de instrumentistas competentes ou esgrimistas exímios de palavras (Sam The Kid, X-E-G) mas estas excepções surgem por serem os virtuosos de uma cena medíocre que segue um “beat” unilateral. Nas periferias deste movimento ainda vamos encontrar dois casos interessantes embora equidistantes, por um lado os Niggapoison, descendentes de Cabo Verde que começaram como banda de Hip Hop e cada vez são mais Dancehall e Kuduro, e do outro os beirões Factor Activo, vindos do Rock e que usam o Hip Hop para retratar a urbanização da província. São dois casos tangenciais ao âmago da cena. Dentro dela conheço só dois rappers que fugiram aos “templates”, são o Nerve e o Ex-Peão. O primeiro fazendo uma caricatura da vida “white-trash” e o segundo como retrato do homem desesperado versus a máquina do sistema. A juntar a estes dois artistas, (re)conheço agora Allen Halloween, com o seu novo e segundo álbum A Árvore Kriminal (Sonoterapia; 2011), que sim senhora, considero o “álbum do ano” em Portugal!

Escreve-se sobre ele nas “wikipedias”, que Allen é um luso-guineense que vive em Portugal desde os 4 anos num subúrbio lisboeta e que é um tipo reservado. Talvez por causa disso que o concerto que assisti na Music Box no final do ano tenha sido uma treta, não parece que o Halloween seja um tipo “live” – embora geralmente os concertos naquela casa nocturna não são bons, diga-se, ou porque não enche, ou porque é estupidamente cara a entrada e consumo, ou o habitual: o som da sala é péssimo. Seja como for, desconfio que Allen é bicéfalo – não se nota, ele esconde muito bem e realmente no concerto não descobri a sua segunda cabeça! Uma delas trata de temas que poderiam ser autobiográficas e pessoais enquanto que a outra encarna personagens malditas do gueto como o dealer durão ou o bêbado irrecuperável. Pelo facto de haver uma intersecção das duas cabeças – serão siamesas? – explode uma fantasia urbana brutal que criou o Halloween, personagem psico-dramática que deixa as pessoas fascinadas quando se cruzam com as suas músicas.

Em Portugal, Halloween “rapa” de forma pouco canónica, ora de forma lenta e degenerada, ora com inesperados berros. É muito raro no Hip Hop Tuga haver rimas que sejam debitadas sem ser uma lenga-lenga melosa, nunca é onomatopaico (como os Fu-Schnickens), gritado (Onyx) ou monstruoso – como o Horrorcore dos seminais Gravediggaz ou as produções da Psycho+Logical Records. Até os convidados de Halloween no disco estão numa linha longe do horizonte habitual, trazendo realmente mais-valias ao disco – ao contrário das dezenas de convidados que os discos de Hip Hop trazem e que nada acrescentam faixa a faixa, fenómeno aliás que também já passou há muito para a Pop ou o Metal com resultados similares. De destacar os vocais “dreadas” no tema Aleleuia A Ressurreição do Kriminal com Buts MC, J-Cap e Lord-G, que lembram os momentos mais ganzados pré-milenares de Tricky ou o gangsta assustador de Wu-Tang Clan – duas influências que se sentem nitidamente. Como vêem, Halloween é realmente Dark! E em Portugal nós gostamos de música Dark!

Os seus “beats” (o som instrumental) são minimalistas mas com uma carga dramática que une sons consensuais nas produções de Hip Hop como o banal sinfónico mas quando menos se espera acrescenta “solos” ou feedback de guitarras e sons concretos, tácticas abandonadas no Hip Hop mundial – que só os velhotes Public Enemy iniciaram e perpetuaram e deixaram Dälek como dos poucos herdeiros. Halloween não é barulhento o suficiente para estar nesta liga de peso-pesados mas não foge com o rabo à seringa, não se entregando totalmente à harmonia simplicista.

Outro ponto positivo, até diria o ponto máximo, é que não há aqui R’n’B ranhoso! É um mistério total que em todos os discos de Hip Hop haja faixas ou coros R’n’B, talvez para realçar um momento “sentimental” ou “sensível” dos artistas. O problema é que ser “sensível” não deveria significar “piroso”, e neste disco fica provado que se pode dar volta à questão. Crazy e O Ódio são os momentos “softs” mas os instrumentais destas músicas invés de irem ao vómito R’n’B lembram antes as melancolias dos Gorillaz - ou melhor, de Augustus Pablo (1954-99) uma vez que os Gorillaz rapinam este jamaicano com pompa e circunstância, e numa lógica de multiplicação Halloween também foi atrás. Mais estranho é como o disco acaba. Ainda antes de uma “faixa escondida”, o tema Debaixo da Ponte poderia ser uma balada dos Xutos & Pontapés – não que ser comparado aos Xutos seja um valor positivo (o mais certo é não ser) mas mostra como A Árvore Kriminal é tão imprevisível como uma rusga da bófia.


Mais uma música, mais um vigarista /
mais um estúpido que dança na pista /
ninguém precisa de ser um bom artista /
tu só precisas é de mais uma bebida
Halloween in O convite

Também em Halloween não há lugar para a “moralzinha”. Quase todo o Hip Hop Tuga é padreco, ou seja, os MCs dizem o que deveríamos ou deixar de fazer. Não sei o que é pior, se ser “pastor” ou não ter talento para o fazer acabando por ser reaccionário. Com Halloween não há nada disso. Os retratos que ele nos vai oferecendo não procuram convencer-nos de nada. Claro que como qualquer artista, acaba por ser “moralista” – e acho que devo esclarecer qual a diferença entre o “moralista-moralzinha” e o “moralista-artista”. Há uma mania que o público têm de achar que os artistas mais explícitos, como o Mike Diana (autor de bd norte-americano acusado de obscenidade) ou os Carcass, são depravados e “muita malucos” justamente por mostrarem imagens ou letras/sons chocantes. Mas muitas vezes estes autores são o contrário, extremamente introvertidos, e os trabalhos que produzem são imagens que necessitam de exteriorizar para não enlouquecerem – ex.: Mike Diana em julgamento teve de explicar as suas imagens ao tribunal da Florida, uma delas havia um padre a molestar crianças, Diana disse que esta imagem surgiu porque ouviu uma notícia na rádio de um padre que violava menores, que lhe ficou a imagem horrível na cabeça e teve uma necessidade de a desenhar, justamente para se libertar dela. Muito provavelmente Diana desenhou a imagem justamente para criticar a nossa realidade – bem pior que as ficções mais sádicas já criadas, escritas, desenhadas, etc... – o que no fundo mostra esse lado de crítica que acaba por ter haver com a moralização dos costumes. A diferença entre Diana, Carcass ou Halloween e os “artistas positivos” é que os primeiros não dizem explicitamente que está errado, será o receptor / leitor / ouvinte que irá julgar o que a obra lhe mostra mesmo se o desenho seja revoltante por estar cheio de genitais e esperma nas bocas das criancinhas. Halloween nas suas letras dá-nos acesso a personagens violentas, violentas com os outros ou consigo próprias, e se as letras muitas vezes são exibicionistas, Halloween não um é animal “gangsta” que anda prái a dar tiros no meio da rua, o que ele pretende é uma expiação pelos crimes cometidos por ele ou por outras pessoas que conheceu.

Se escrevia que o Halloween era bicéfalo em que a sua arte funciona da intersecção dos “dois cérebros”, é curioso que ela sintetiza de uma história oculta do Hip Hop, ignorada em Portugal mas que está mais adequada à nossa realidade do que se podia imaginar. Era um trabalho sujo que algum gajo tinha de o fazer... mesmo quando ele escreve letras que não rimam em Noite de Lisa: Não toques na bicicleta se não tens pedalada / até gosto da tua conversa mas... cala-te! Uma heresia para os puritanos do Rap? Ainda bem!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

10 cidades tornam-se numa aldeia

Antes de ser o livro Ten Cities : Clubbing in Nairobi, Cairo, Kyiv, Johannesburg, Naples, Berlin, Luanda, Lagos, Bristol, Lisbon 1960 - March 2020 (Spector; 2020) por Johannes Hossfeld Etyang, Joyce Nyairo e Florian Sievers (e que já lá iremos) foi um disco. Ten Cities (Soundway; 2014) reúne 50 produtores e músicos das dez cidades já referidas para uma saudável e higiénica orgia juntarem-se para criar o monstro sónico Frankenstein que... pariu um ratito aldeão! Sou contra a ideia que "a fusão é um erro" mas é verdade que pode correr muito mal quando os intervenientes não tenham coragem artística para explorar mais do que uma simples fusão de ritmos já mastigados pela Aldeia Global, sobretudo na área da música electrónica funcional ou de dança. A ideia de juntar norte e sul - Europa e África - num laboratório de música de "Clubbing" tem tudo para correr bem. Talvez o dinheiro do Goethe tenha ido para betinhos que não deixaram a malta ir para o desconhecido musical - ao contrário o que tem acontecido entretanto em Kapala. Tudo é previsível mesmo que as línguas desconhecidas africanas apareçam ao longo do disco, o que é considerado como um brinde exótico pelo responsável da edição. Metade do disco é de uma vulgaridade tal que se resume na letra de Quero Falar (Lunabe com MC Sacerdote) que apesar do apelo... nada diz. Um óbvio reflexo do estado da arte no século XXI, muito artifício, pouco conteúdo. A outra metade do disco é mais chill e também mais interessante mas sem rasgos de génio mesmo que tenha o Maurice Louca ou Alva Noto como músicos. A evitar...

O livro logo que saiu estava já aberto às consequências dos horrores humanos. A primeira e assumida é que aborda a história do Clubbing nas ditas cidades desde os anos 60 até Março de 2020 - mês que marca o final de algo contínuo e progressivo nas nossas vidas, devido ao covid-19. Dois anos depois o que aconteceu a alguns dos clubes e discotecas que existiam até então? A segunda consequência é a inclusão de Kyiv que desde Fevereiro deste ano apanhou com a tentativa de invasão russa na Ucrânia. Que noitadas haverá nesta capital desde então?

O gigantesco livro ensina-nos imenso sobre duas coisas, a história da música de clubbing nessas cidades e a sua relação política. Alguns géneros de música são fáceis de associar às cidades, do Krautrock à Capital do Mundo do Techno que é Berlim ou o Afrobeat / Highlife de Fela Kuti em Lagos. Ou ainda o Jazz sul-africano de Joanesburgo e claro o Trip Hop de Bristol. Ah, e o Kuduro de Luanda! Mas que dizer de Nápoles lembrando-me lá eu que já conhecia 99 Posse? Há descobertas para se fazer neste livro mamute. Para além do "género" muito disto passa pela exclusão social, racismo e contestação às autoridades, não esquecendo o nojo do Apartheid e das suas cidades separadas por raças ou o confronto político das Okupas e Raves ilegais na Europa.

Já perceberam que se aprende muito com o livro mas claro quando chegamos a Lisboa temos Judas na área. Rui Miguel Abreu escreve um artigo sobre a história da música urbana portuguesa (deveria ser sobre música de clubbing, boy!) sem aprofundar nada em especial (porque se calhar não há uma música que defina Lisboa) e Vítor Belanciano dá um no cravo e outro na ferradura, armado em rebelde a criticar a gentrificação da cidade mas tal como Abreu também a vende como um sítio excitante e multi-cultural. Não sei onde estes gajos saem à noite mas devem ser sítios do caraças!! Vê-se nas fotografias que acompanham os artigos! Quase todas em volta do Frágil dos anos 80! Ah! Como a cidade vibra ou sempre foi "multi-culti" de artistas e betos brancos... Onde está essa relação entre Europa e África? Sempre foi fraca e estes artigos revelam isso sem o quererem fazer. Lisboa é uma fraude e gera seres fraudulentos que escrevem sobre ela, obrigado por relembrarem isso.

Mau disco, bom livro.

PS - No livro há uma lista de sons criados por cada cidade. Em Lisboa ela começa em Heróis do Mar para acabar em DJ Lilocox. No meio inserido o Pois pois dos Repórter Estrábico. Sim é a única banda portuguesa Pop/Rock que merece estar em qualquer lista de admiração mas que eu saiba ela sempre foi do... Porto! 

PPS - Abreu e Belanciano: ide pastar!