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quarta-feira, 21 de junho de 2023

Singela Sabotagem


Faleceu, ou pelo menos foi noticiado no passado dia 15, o "Zé Maria da Sabotage". Os aspas significa isso tudo. Ninguém sabe o seu nome como deve ser, a sua data de nascimento e ao certo as suas actividades, de tão resguardada que era esta pessoa. 

Da minha parte nada poderei dizer mais do que foi escrito na 'net excepto que lhe tenho em dívida uma cultura de música "Rock" quando ele tinha a sua distribuidora de discos Sabotage nos anos zero deste novo milénio. Não fosse ele nunca saberia quem eram os génios como End, sunn0))), Dälek ou Otto Von Schirach ou os géneros musicais como o Dancehall ou o Afrobeat ou editoras como a Anticon e Web of Mimicry.

Melómano e reservado, pouco mais poderei contar porque mais nada saberei, apesar de me encontrar com ele regularmente quando escrevia para a Underworld / Entulho Informativo, entre 2003 e 2006, e ia ao seu escritório-armazém, em Cascais, buscar "promos". O contacto era mínimo e sentia até um desconforto ao início porque vinha de uma revista ligada ao Metal. Aos poucos provei que conseguia escrever sobre os discos sem ter uma censura metaleira (que havia mas sempre consegui mandá-la à merda!) e com entusiasmo - pudera! dado os discões que recebia!

Lembro-me que a dada altura deixei livros da Chili Com Carne e da MMMNNNRRRG com a Sabotage - para eles venderem em feiras de discos? - e que ele e a sua companheira, Ana Paula, gostavam deles. Tanto que passados uns bons anos sem contacto - quer a revista quer a distribuidora desapareceram com o "fim" dos discos - quando decidem abrir uma sala de espetáculos com nome homónimo, contactaram-me para lhes sugerir alguém para fazer um mural no clube. A escolha recaiu sobre o João Maio Pinto, que quase passou a fazer tudo para eles. É irónico que não houvesse espaço visual para mais e sem "censura metaleira" mas a cultura visual portuguesa sempre foi sempre será limitada, pelos vistos...

Sem uma relação pessoal, a notícia da sua morte entristeceu-me e com dúvidas lá escrevi esta elegia. Ela tinha de ser escrita. Não teria a coragem de ser unDJ sem os terrores e os prazeres proporcionados pelos discos do "Zé Maria da Sabotage". Seria injusto não o recordar por mais "apagado" ele fosse. Seria ingrato senão o agradecesse publicamente, mesmo que o tenha agradecido várias vezes em privado pelas pérolas sonoras. 

Obrigado, mais uma vez!


PS - E lembrei-me que foi graças ao Zá Maria que conheci outro cromo, o João Mascarenhas dos Stealing Orchestra, um dos projectos musicais portugueses mais inteligentes, com quem tive a oportunidade de trabalhar com ele na banda sonora do Futuro Primitivo. Memória, onde estás?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Pais & Filhos

Não há banda Rock mais importante dos últimos 25 anos como Los Melvinos... é capaz de ser exagerada a afirmação e assim só de repente, lembro-me logo dos Sonic Youth, Big Black e Butthole Surfers para fazer concorrência. E eles ainda valem a pena? Não será Nude with boots (Ipecac / Sabotage; 2008) só mais um álbum? Fiel leitor, tem toda a razão e é certo que temos aqui Die Melvinen em estabilidade de formação - não me lembro se a banda conseguiu alguma vez gravar mais do que um disco com os mesmos membros - com a incorporação definitiva dos Big Business, filhos espirituais de Les Melvines desde 2006 com um baixo e (mais uma) bateria.
Quando ouvi este novo álbum de Melvinsimäa foi ao chegar a casa às tantas da noite. Coloquei na aparelhagem com o volume baixo por causa dos vizinhos, conclui que o álbum não fosse lá muito bom. Engano puro! Foi só subir o volume no dia seguinte, para engolir as palavras. Não vamos esquecer, eles criaram o Drone-Metal e o Grunge ao apropriaram-se dos Led Zep e avançando onde estes tinham parado com o seu Hard Rock "artístico" - é bom escrever Hard Rock sem vergonha, sabendo que não falamos de spandex e permanentes apesar da extravagante permanente do King Buzzo! Este "nu de botas" é mais psicadelismo & bizarria roqueira marchando de botas pesadas a espezinharem chihuahuas (a raça canina mais nojenta deste planeta) que não atingirá o Rock de Arena (glória total dos anos 80) por isso também não será um álbum que dará nas vistas. (In)Felizmente será mais um registo para os fãs ou para os neófitos que ainda desconfiam da qualidade da banda. Por mim, podem começar por aqui ou no Stag (1996) ou no Hostile Ambient Takeover... Melvins é Melvins!

Os Beehoover são um duo germânico que tenho a sorte de acompanhar a sua carreira desde o início até este segundo álbum Heavy Zooo (Exile on Mainstream / Sabotage; 2008) que até é uma bombita! Não só tem uma capa curiosa q.b como um som é uma explosão de Rock Pesado bastante devedor aos Melvins, aos Kyuss e aos Queens of Stone Age - os coros em Spirit & Crown parece mesmo sacado do Song for the deaf dos QOTSA - mas surpreende porque não fazem música "parada" ou repetitiva. Talvez por ser uma dupla, logo deve haver uma maior cumplicidade entre os seus elementos, que o som de Beehoover joga com várias mudanças de ritmo e de Riffs de guitarra - que aliás, é uma guitarra-baixo, tornando o som da banda em algo peculiar, ou seja, entre a fina linha do viciante-genial e o ranhoso-amador, não se percebendo bem se estamos ouvir uma banda de garagem carismática ou uma banda "Pro" mas desleixada. Pelo meio há interlúdios ambientais para entrar rockalhada logo a seguir (fórmula Melviana assumida). Ao vivo dizem que são do melhor que há, desconfio que sim... Ei! Promotores portugueses da treta: são alemães e são apenas dois gajos, deve ser barato trazê-los a Portugal! Go!

Para um país como o nosso em que os jornalistas vivem do payola britânico sem que esse investimento (ou corrupção, como acharem melhor) compense, dada a realidade do mercado discográfico nacional, até que é fixe saber que existe um Boris cult em Portugal. Melhor isto do que apanhar que rapazes larilas a cantarem como se ainda estivéssemos nos anos 80. Os japoneses até já cá tocaram, sem surpreender, para promover o Smile (Southern Lord / Sabotage; 2008), um disco que tem duas versões, uma japonesa e uma norte-americana com diferenças de alinhamento de temas, Design e som. Já me disseram que a versão japonesa é melhor mas sinceramente acredito que deve ser daquelas conversas de café opinativas non-stop e inconclusivas... Na última música não intitulada mas que o media player acusa como You were holding an umbrella (ou em japonês 君は傘をさしていた) ia jurar que eles cantam «Fo-dá-sé»... pois, my feelings exactly!
Desde Pink (2005) que a banda tem sido badalada não sei bem porquê - afinal, o payola britânico também serviu para estes nipónicos que usam paralelos de vários estilos musicais (Drone, Doom, Hard Rock, Stoner, Psicadélico) sem se imiscuírem totalmente embora o que os lançou para a fama foi a sua aura mais Pop e roqueira, do Pink, que parece Nirvana cantado em japonês - o que deixa sempre um indelicado gosto kitsch à coisa.
Neste álbum, o Pink é a base mas o trio lá vai ao J-Pop, Rock trashado, psicadelismo barato, algum Rock Noise, Drone-Metal de forma que se consegue ouvir o álbum sem ficar muito chateado. Não podemos esquecer que o nome de Boris foi sacado a uma música dos Melvins e seria de mau tom trair os "progenitores" e realmente deste disco há duas coisas boas, raras nos dias de hoje em qualquer disco de Rock (e Pop): há um ambiente geral para o disco - não é plástico como 99% da produção contemporânea - e o som deles ao ser gravado analogicamente tem uma sujidade (ergo humanidade?) que apesar de ser ténue salvam-lhos do anonimato e da comparação fácil.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Rock RIP

O Rock há muito que se tornou numa palhaçada, e como sabemos tal como a arte circense anda pelas ruas das amarguras. Inevitavelmente o Rock também caminha pelo mesmo trajecto parecendo cada vez mais um "Rancho Folclórico Chic" que uma expressão de rebeldia - seja juvenil ou não. Afinal com os seus pesados 50 e tal anos de existência, o Rock está senil, vive de Nostalgia e revisitações amorfas, e claro já não mexe massas - tal e qual como um Rancho Minhoto! A provar as acusações, algumas edições recentes:


Revivalismo por revivalismo está "1+1=ate" (Estrus / Sabotage; 2004) dos Knockout Pills, uma banda de garagem de trintões que ainda pensam que tem vinte e poucos, tal é a pica, energia e simplicidade "ramoneana" das músicas, os especialistas falam que este é um álbum que trás a Estrus de volta às grandes edições... percebe-se porquê. (3,5; talvez incorporar na colecção ou oferecer a um amigo Rocker)


"Flies the fields" (Touch and Go / Quarterstick / Sabotage; 2005) dos Shipping News fede a urbano-depressivo com um peidinho de Emocore(!), dando uma impressão que os Slint passaram por aqui. Bonita embalagem! (3,2; incorporar na colecção até arranjar Slint)


"Blocked Numbers" (Suicide Squeeze / Sabotage; 2005) é a estreia dos Crystal Skulls todo Indie-Pop norte-americano bem feito mas sempre com o mesmo tom de "draminha de quarto". Citando a VH-1, isto é "so nineties". Bonita embalagem - também! (2,92; despachar o + rápido possível - até antes de uma Festa de Troca de Discos)

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

all gone from F to K

[f.e.v.e.r.] Bipolar EP 2006 · Raging Planet
Com o risco de me repetir [ver Under #17], a pós-modernidade tem destas coisas estranhas: existe uma banda portuguesa Pop/Rock muita boa, que lembra ora os KMFDM ora os Linkin Park, orelhuda até ao caroço mas sem passar atestado de imbecilidade – que é quase sempre o problema do Pop. Uma combinação de Metal, Goth, Electrónica e com um sentido Pop apurado. Mas esta banda até agora ainda não gravou o álbum!? Fez dois EP's, um álbum de remixes das músicas desses EP’s, tudo bem embrulhado e hypesco. Esperávamos pelo álbum mas lançaram ainda mais um EP de um só tema que é remisturado pelos próprios (que já tinha saído na colectânea Shock Of This Light [Thisco; 2006]), pelos Corvos e pelo mestre Martin Rev. Temos ainda na rodela um vídeo do tema animado em flash e de estética Sin City, sons para telemóvel e samples do tema para usarmos e abusarmos. O que se passa aqui? E ainda por cima o raio do tema é porreiro. Não cansa mesmo depois de ouvir cerca de sete variações (se incluirmos a faixa dos samples!), até parece uma sinfonia. Isto é muito estranho... 4,3

[f.e.v.e.r.] Electronics CD 2005 · Raging Planet / Thisco / Fonoteca de Lisboa
Álbuns de remixes são sempre uma grande banhada, não porque a música seja má ao ser “remisturada” mas porque geralmente ao haver tanta gente envolvida (bandas, produtores, DJ’s) parecem-se mais a mantas de retalhos sem força. Curiosamente este disco de remisturas dos [f.e.v.e.r.] que envolve gente tão diferente como Shhh…, Ultimate Architects, Mofo, Sci Fi Industries é bastante coeso sem que se perca as identidades das bandas “remisturadoras” e (curiosamente) a banda “remisturada”! Mais pesadão pelas mãos de Bizarra Locomotiva, mais Metal por Moonspell, mais Gótico por Aenima, etc... o tema mais desconstruído é o de Mécanosphère em industrialismos Dub. Se este disco é exemplar no que diz respeito ao conceito de álbum de remixes, o seu ponto fraco é justamente a banda “remisturada” que ainda não provou ser uma “referência Pop telúrica” que justifique um álbum de remixes quando só tem apenas dois EP’s editados [ver Under #13]. Vivemos o pós-modernismo, do que adianta fazer esta resenha? 3,6

FANTÔMAS Suspended Animation CD 2005 · Ipecac / Sabotage
Eu, Prof. Marte, especialista em tarot e búzios, prevejo para 2005 um novo lançamento do grupo musical Fantômas, do estimado Patton. Prevejo que será um álbum de homenagem ao mês de Abril – conhecido por ser o mês do humor nos EUA – e aos desenhos animados. Prevejo que o disco gravado na mesma sessão de "Delirium Cordia" é composto por trinta faixas que representam trinta dias. A embalagem terá um calendário luxuoso com ilustrações do japonês Yoshitomo Nara. O ambiente sonoro será como ver desenhos animados antigos da Warner a um sábado de manhã, depois de uma noite terrível e cheia de cocaína, neuras, muito mau sexo e um vizinho do lado a ouvir Grindcore em altos berros. Prevejo também que os críticos do nosso país – que são todos uns fashion victims – irão dizer mal deste disco, porque se por um lado é verdade que não traz nada de original ao que Patton já fez, também é verdade que não é uma seca ao contrário dos discos anteriores (ver Under’ #13). Como a moda Patton deve estar a passar, está claro que os nossos "criti-cu-zinhos" vão começar a sua rápida jornada da debandada! Prevejo ainda que o disco sairá no dia 1 de Abril e receberá pelo menos um 4 nas resenhas dos discos na revista Underworld.

FAT WORM OF ERRORS Pregnant Babies Pregnant With Pregnant Babies CD 2006 · Load Records
Douglas Adams no Guia Galáctico do Pendura falava de uma lua em que decorria uma festa já há 100 anos, e que essa festa já estava para além da idiotice total porque não só a orquestra já estava bastante cansada como os habitantes-foliões já não renovavam o seu sangue há algum tempo e por isso roçavam a Trissomia 21. Creio que este colectivo norte-americano de Improv/Noise devem ser deste sítio e roubaram os instrumentos à tal orquestra. O nome do colectivo faz justiça à sua música porque não me lembro de ouvir algo tão irritante e errático nos últimos tempos como este disco de estreia. Atonalidades de Música Concreta, porrada de sons tirados de brinquedos (são mesmo brinquedos? parecem-me armas sonoras!), Histerismos à canzana God Is My Co-Pilot, Falsificações de pretensões artsy-fartsy, Exponenciais de Morte à Música. Dêem-lhes um foguetão, sff! Enorme! 3,5

FATIMAH X Ángeles en loop, la brutalité des ordinateurs et des enfants CD 2003 · Transformadores / Sabotage
Estreia de mais um projecto de Jorge Ferraz - dos clássicos 80's vanguardistas Santa Maria Gasolina do teu Ventre (ver crítica nos nossos arquivos)... e mais outras cem encarnações - desta vez acompanhado por mais duas personagens femininas que são ou querem ser mães e gostariam de lançar cocktails molotov na música nacional e internacional. Juntos criam atmosferas melódicas mesmo que usem maquinaria triturada e guitarras grelhadas. Somos um país de poetas e ultimamente temos parido bandas de Pop electrónico baseadas em "boa poesia + voz feminina" - tendo os Três Tristes Tigres como a banda seminal desta onda. Cantam/recitam em português provando mais uma vez que a nossa língua, ao contrário que se diz, serve para letras de músicas Pop (e não só). As referências zapatistas e revolucionárias (na capa, design gráfico do disco e letras) desaparecem na música pois o discurso lírico não chega a ter uma carga social como dá a entender na embalagem, nem é radical como se podia esperar nestes tempos que vivemos revoltados com a Globalização / Imperialismo dos EUA. É projecto com alguma piada como se pode atestar pela faixa 4 que é um excelente exercício (instrumental) de Drum'n'Bass + Electro. Se não fosse tão pseudo-fragmentado não perderia a mensagem - e qual era mesmo? Com menos pretensão em criar personagens e conceitos sem carisma teria mais impacto lírico e musical. O título em francês é enervante pois é assim que percebemos que a senhora ressaca da cultura de intelectual de café dos anos 80 ainda não se lembrou de tomar um Gurosan. 3,5

Fidbek: Erro musical
Infamous & VRZ: 100 insultos
Dois CDs de 2003 · Matarroa / SóHipHop
Estes são os dois primeiros discos lançados pela editora Matarroa e que mostrou logo que pretendia fazer um excelente trabalho na cena Hip-Hop portuguesa. Infelizmente ao contrário do francamente bom "Funk Matarroês" dos MatooZoo ou da eclética & interessante colectânea "Matarroêses" (ver neste site), estes dois discos são o que é mais normal em Hip-Hop. Pode parecer um insulto dizer isto pois a qualidade é acima da média seja nas rimas & beats dos artistas, ou nas embalagens e produção dos discos. Mas a verdade é que daqui pouco ou nada de novo há para falar, tão bem feito que são feitos os discos mas vazios de novidade que o mais fácil de analisar são as coisas que irritam do que as coisas positivas, assim sendo, o que irrita são 3 coisas:
1) a temática em autofagia e masturbatória, ou seja, insultos e "ego-trips" sobre a cena Hip-Hop, por um lado parece que batem em gajos mainstreams e gajos underground filha-da-putas (e há sempre tantos em todo o lado, seja no Hip-Hop, seja no Cinema...); até podemos identificar algumas pessoas em geral (Eminem's & Puff Daddy's & os MacDa Weasel) ou figuras que já tivemos a infelidade de conhecer (cada um na sua área profissional e/ou artística)... mas a dada altura os "insultos" tornam-se cansativos, sempre a bater na mesma tecla e assim perdendo todo o sentido...
2) a mania de samplar "som branco" (sinfonias, musica de câmara, bandas sonoras de filmes)... será um complexo de ser branco? O Hip-Hop é fixe é pelo groove obtido pela rapinação a grandas malhas Funk, Blues, Jazz, Reggae - tudo o que é "som negro"... soa mesmo a foleiro, como se fosse os samples sacados fossem uma tentativa de mostrar erudição (musical!?) mas o que soa mesmo é a música de super-mercado... só falta mesmo a Vanessa Mae aquela da bruta-mini-saia e violino na omoplata para completar o ramalhete.
3) cédés longos como raio!!! 60 e 70 minutos respectivamente, tenham lá dó, pá!!! Momento alto em "Erro musical": o tema "... em extinção" em que ouvimos um arrepiante sample de um rosno de cão, ideia bem sacada diga-se e que dá ao tema uma distinção única a um disco já ele bastante variado nas abordagens instrumentais... Momento alto em "100 insultos": o tema "3 gotas de ácido" com 3 MC's convidados (Martinêz, Fuse e Bezegol) a darem registos vocais bem diversificados e poderosos, a um álbum por si já violento... 3,2

JEL Soft Money CD 2006 · Anticon / Sabotage
O que pode correr mal num álbum? [resposta a escrever muito em breve] E num álbum da Anticon? [resposta a escrever um dia destes] Este é o primeiro álbum de Jel a solo, que para quem não saiba, Jel não é um debutante na música: é membro de projectos como Subtle, 13&God e Themselves, além de ser um dos cabecilhas da editora Anticon. Há qualquer coisa de déjà vu neste disco, algo injustamente que não nos impressiona para quem conheça minimamente os discos desta editora de Hip Hop alternativo ou só o económico "Anticon label sampler 1999-2004" [ver Under #16] onde aliás, já se editava o tema "Nice last" como chamariz deste álbum. Jel com ajuda de Odd Nosdam vão na senda do catálogo já explorado: landscapes abstractas, deambulações psicadélicas, beats bem sacados e letras inteligentes ligadas aos sentimentos anti-Bush, anti-consumista e anti-guerra. Sem querer, parece que o disco se posiciona num ponto estático. Não deixa de ser muito bom e agradável - certo! - mas também é inconclusivo. [pontuação] Tenho aquela triste sensação que daqui um ano, se voltara a ouvir o disco ficarei arrependido de não o ter pontuado + do que 3,9

JELLO BIAFRA & THE MELVINS Never Breathe What You Can't See CD 2004 · Alternative Tentacles / Sabotage
Prognósticos só no fim do jogo! Dois pesos-pesados! À vossa esquerda o Punk-mais-Punk de sempre, activista político, ex-Dead Kennedys! À vossa direita os pais do Grunge-antes-de-ser-Grunge, mestres do Rock mais pesado do planeta!
Jello ataca com fantásticas líricas politicas cheias de sarcasmo como sempre! Seja a Bushes, Guerras Santas e a imbecilidade total deste mundo capitalista!
O uppercut de Melvins é fraco! Mais parece murros à DK!
Biafra não consegue defender a sua idade! A voz falha!
Melvins no entanto retrai daquilo que estamos habituados! Não há imaginação neste combate!
Podia ser Biafra vs outra banda qualquer! No passado houve bons combates como Biafra vs NoMeansNo! Não é este o caso destes 40 minutos de combate!
Cada round tem pelo menos 4 minutos balofos! E nada se resolve!
Só "Islamic bomb" meio broadwayesca é que faz vibrar!
Boas artes gráficas como sempre!
Não deviam respirar aquilo que não vêem! 3,4

KITTIE Spit In Your Eye + Until The End DVD + CD 2004 · Artemis / Rykodisc / Edel
Pitas menstruadas a dar no Metal. Raiva no feminino! Faltam bandas com fêmeas, sobretudo no espectro mais pesado. Tal como My Ruin e Otep, as Kitties tem vozeirões e riffs pesadões MAS falta imaginação nos instrumentos. A voz berrada de Morgan Lander é bem fodida MAS também canta com melodia super-pirosa ao nível de uma Avril Lavigne. Enfim, vê-se que são meninas mimadas e que namoram o Metal empresarial – como muitos outros meninos feios com tatuagens e piercings. Para provar basta analisar as edições recentes da banda. “Spit in your eye” é o típico DVD de banda em digressão gravada com um concerto e vários vídeos cheios de caretas e brincadeirinhas parvas para mostrar que são umas malucas MAS depois afirmam que afinal são músicas sérias, honestas, etc... um discurso abusado pelas bandas MTV, o que só as coloca em xeque com contradições inevitáveis. Resta dizer que o DVD é do piorio: concerto com chungaria, imagens cheias de blur para não fazer publicidade a esta ou aquela marca MAS, no entanto, fartam-se de dizer fuck you e afins… sem censura. As imagens da América por onde viajam são também do pior – ainda nos queixamos das paisagens portuguesas! 2,5
O CD “Until the End” (o terceiro da carreira) até começa bem, com um tema bem violento, “Look so Pretty”, MAS depois vai perdendo a pica. O tema “Daughters Sown” acabaria o CD em beleza MAS aparece um extra que é uma remistura soft e cantada de “Into the Darkness” que estraga tudo outra vez! 3,2
Não são as inócuas Donnas e percebe-se o sucesso desta banda – miúdas novinhas que fazem barulho de envergonhar muitos gajos – MAS não se pode falar em bandas no feminino só porque há uma vocalista e umas outras miúdas a tocar. Se as letras e os instrumentos forem tão cinzentos como os das bandas masculinas então estamos no limite da mediocridade, em que homem ou mulher significarão a mesma coisa, ou seja, nada. Será que nunca irão aparecer umas novas Babes in Toyland?

KK NULL Kosmo Incognita EP 2005 · Thisco + Fonoteca de Lisboa
Esta é a segunda investida da Thisco em Japanoise - a primeira recorda-se foi ainda este ano com “Dust of Dreams” do mestre Merzbow - e como tem sido hábito no seu catálogo, eis mais EP de cerca de 20 minutos de edição limitada (200 cópias) estreando em Portugal o KK Null, músico Rock dos monstruosos Zeni Geva e compositor Noise. É como “noiser” que o apanhamos a esmigalhar o cérebro do ouvinte dado à massa sonora pesada e dinâmica que imprime nesta peça intitulada “Kosmo Incognita”. Sorrateiramente, KK Null vai oscilando os sons e acrescentando elementos novos fazendo com que a peça cresça e pouco a pouco deixe se ser óbvia. Um Jam de Electrónica toda lixada que perdura 13 minutos amaldiçoados. Depois de uns minutos relaxados – tipo sci-fi-chill-out – volta a drones industriais em crescendo até acabar abruptamente aos 19m48s. Um cosmos que se descobre brutalmente. 3,7

Kutna Hora: Will or nothing
Novalis: Paradise...?
dois CDs 2003 e 2005 · Twighlight / Ars Musica Diffundere / Black Rain / Equilibrium
A primeira que ouvi Punk foi numa K7 emprestada toda lixada com o primeiro álbum dos Censurados. Depois de arranjar uma cópia para mim e ter passado sei lá quantas semanas a ouvi-la, fui descobrindo outras bandas Punk, algumas seminais como Clash, Dead Kennedys, outras já numa linha diferente como RxDxPx, Chaos UK, etc... e de repente tirando uma ou outra outra banda, sentia que a cena Punk era uma repetição de clichés. Senti-me traído pelo Punk - afinal não devia ser ele a originalidade e liberdade? Ao longo dos anos fui descobrindo outros sons, e depois de encontrar uma primeira banda de um género e os seus percursores, abatia-se o peso da repetição. O que tem haver o Punk com estes dois discos? Nada... mas continuando a minha deambulação egocêntrica: hoje, ouvindo o primeiro dos Censurados continua achar pica ao álbum, não reconheço lá grande Arte na banda comparando aos originais Dead Kennedys, mas reconheço o prazer da descoberta. Por isso cada coisa na sua prateleira, independentemente dos gostos, há música de qualidade (com ideias, com personalidade, com universos, etc...) e depois há sucedâneos com os quais nos podemos apaixonar por esta ou aquela razão ("passava os Fields of Nephilim quando fizemos amor" ou "fiz o primeiro Mosh no concerto de Xutos!") mas não significam que tenham a) interesse b) Arte c) razão de existir.
Isto para dizer o quê? os Kutna Hora são uns argentinos do NeoFolk-DarkWave mas eu não preciso deles quando já ouvi os clãs Swans e Death in June, nem dos Novalis que são alemães e mais parecem ter um nome de um carro para classe média. Talvez alguém que não conheça este tipo de som possa vir a gostar deles mas se ler esta resenha então já sabe por onde deveria começar. 2,5 e 1,8 respectivamente
PS Argentinos e Alemães? Quem diria, não há nada que oiça nas rodelas que me diga isso a não ser as notas de imprensa que as acompanham. A globalização ainda os pune mais mas para explicar porquê seria preciso escrever ainda mais, eles merecem?

all gone from L to U

L'EGO Os ladrões do tempo CD 2005 · Thisco + Fonoteca de Lisboa
Com cerca de 20 discos realizados (na essência reeditados como CêDê-R's pela Thisco) e uma «não-carreira» que remonta a 1984 (ironia de data, hein?) com os pioneiros da música electrónica portuguesa, os Hist, esta banda sonora para o Teatro do Mar (uma companhia de Sines) pode ser considerada como o primeiro disco "oficial" - como as regras comerciais ditam - de L'Ego. Temos aqui um disco «composto exclusivamente por colagem e manipulação de elementos sonoros pré-existentes», excertos inteligentemente pilhados a fontes tão diversas como Pan Sonic, Autechre, Fura del Baus, Scanner... De estética ambiental e IDM, não é brilhante mas também não envergonha e ouve-se bem. Não sabendo como foi o executado o espectáculo dedicado ao Futuro da Humanidade abordando as questões tecnológicas, e sendo um «teatro de rua multimédia, não verbal, assente numa estrutura cénica mutante, próxima do conceito da máquina de cena, visual, físico, musical, com recurso a efeitos de pirotecnia. Todos os públicos» [site da companhia dixit] não sei como a banda sonora funcionava. Como objecto independente não impressiona nem parece transmitir nenhuma mensagem em especial. Será melhor assim? 3,4

LOOSERS 6 songs E.P. CD-EP 2003 · ZDBMüzique / Sabotage
Os Loosers estreiam-se num EP de 6 canções e mais 3 de bónus... isso não é um LP!? Espero que seja para enervar coleccionadores chatos caso contrário, ponho em questão a sanidade mental da banda que é a «next big thing» lisboeta - tal como os X-Wife o são no Porto. A música que elaboram tem um Groove contagiante que extraem de um Rock cru e de um Noise bem estruturado de sintetizadores a lembrar Suicide. E adivinhem? Toda a gente diz que ao vivo é que é! Vi-os no passado dia 27 de Dezembro (2003) na Galeria Zé Dos Bois e não senti diferenças significativas entre o ao vivo e a gravação. Gozam, para o bem e para o mal, da bênção dos "artaístes", "freak-chics" e outros "losers" do mundo da arte lisboeta, vulgo o "lobby gay" (ou será uma afirmação demasiado reaccionária!?) que dizem com um ar bovino "eles são muita-fixes!", e se alguém disser que não, dão aquele olhar de "não sabes o que dizes" - ler: todos os meus amigos artistas acham que eles são bons, o lobby do suplemento Y do jornal Público escreveu que são fixes e sendo assim eu também acho fixe! Espero que a banda consiga passar por cima disto e prove, quando o lobby se fartar deles, que afinal não era só + uma "next big thing". Este EP estreia a ZDB no mundo da edição fonográfica. Para quem não sabe, esta galeria foi nos anos 90 a ponta-de-lança de Arte alternativa. Desde 1996 que tem apostado numa programação musical no seu espaço (Bairro Alto), primeiro para projectos de sons electrónicos / improvisados / experimentais mas desde 2002 que abriram portas para a música urbana como Hip-Hop ou Rock. 3,6

LOOSERS iiii CD-Demo 2005 · Ruby Red
Mundo pequeno: está um gajo em Antuérpia (Bélgica) a falar com o camarada Jelle Crama [www.jellecrama.tk] e a trocar galhardetes, quando o tipo me passa um CD-R embalado numa capa no formato de álbum em vinilo de uns tais... Loosers. «Ah! Que engraçado, lá em Portugal também temos uma banda chamada Loosers...»; «Exactamente, são eles», responde o Jelle; «Não, não... não percebes, em Portugal também temos uma banda com esse nome»; «Sim, sim, são eles!» insiste Jelle. E eram. Investigações mais tarde, descobri que os Loosers andam a (auto)editar uma série de CD-Rs (e também o recente segundo disco que só saiu em vinilo) provando que são mais do que uns fashion-victims-do-pós-electro-revival-new-wave-do-pessoalixo-do-Bairro-Alto. Ao que parece nestas edições tem havido menos Rock rotulável e mais experiências sónico-tribais na linhagem Glenn Branca e acólitos. Interessante. Especialmente a capa em serigrafia do Jelle! 3,6

MAL D'VINHOS CD-R 2004 · Pimba's Autoroute, discos & peticos iltd / Some Farwest Noizes
6 potenciais mega-hits para o Verão mais uma bUnita canção bónus de Natal («este natal vai ser diferente.../ este Natal não há prendas para ninguém») é o que os Mal d'vinhos apresentam na sua primeira obra Pimba DIY. E sabem do que falam: «Gravei um disco para a Discossete, dei-me mal Não quero mais ver esses cabrões da Espacial Eu nunca serei cãozinho da Lusosom Não vou deixar a Vidisco roubar o meu dom». É isso mesmo! Ser Pimba não é só cheirar o bacalhau da Maria e quer'alho. Pode ser poemas de Bértol Bérxte, denunciar os lobis ou o mediatismo Capitalista («a gaja da têbê não peida») e os paneleiros do tuningue. Humor artsi do Faroeste 'tuga, dá-le! 3,5

MICRO AUDIO WAVES No waves CD 2004 · N_records
Há nitidamente uma tendência na música urbana portuguesa para bandas electrónicas com uma voz feminina. Se a coisa pode remontar aos Mler Ife Dada nos anos 80/90 foi com os Três Tristres Tigres que se estabeleceu seguido de uma enxurrada: Mãozinha, Coldfinger, Gift, Fatimah X, ... Será que foi por causa de sucessos (justificados) de Portishead e (injustificados) de Lamb? Talvez, também há a hipótese de como as mulheres, em geral, gostam de drama e os portugueses, em particular, também gostam de ser trágicos de terem encontrado o ponto de encontro nesta fonte de trabalho que é a "electrónica com voz de gaja". MAW (para simplificar) inclui Flak (Rádio Macau) só por curiosidade e até poderíamos analisar paralelismos com Fatimah X (que inclui o Jorge Feraz) mas não me apetece... MAW vão no segundo disco e encontraram uma vocalista (o primeiro disco era só instrumental ao que parece) mas não deixaram de explorar as relações de composição entre o Pop/Rock e a electrónica mais sofisticada do momento, a micro-samplagem - que tem Matmos como reis, ou príncipes visto que a Björk é a Rainha que os emprega. O resultado Pop dos MAW é simpático, agradável e eficiente tal como uma refeição saída do micro-ondas depois de um chato dia de trabalho. Ouve-se bem como muitas outras coisas que se podiam ouvir nestas condições. Não irrita mesmo quando se armam em "artaítes" e despejam umas línguas estranhas e/ou deambulações pseudo-Dada. Até podiam mudar de nome para Micro Audio Wallpapers! Ainda assim é uma banda a seguir com atenção de futuro, na esperança das coordenadas sonoras desloquem-se da frieza Nórdica para o confortável Sul. Nota de referência para a N_records (que organiza o Número Festival) que fez um bom trabalho de edição. 3,6

NEVERMET ENSEMBLE No Quarto Escuro CD 2005 · Rudimentol / Ananana
Miguel Cabral, activista da música electrónica, fez mais uma das suas. Desta vez recebeu ficheiros de música por e-mail vindos de músicos da Bélgica, França, Itália, Japão, Espanha e EUA que nunca se encontraram. Misturou os sons desses ficheiros e assim lançou a Nevermet Ensemble - a banda que nunca se conheceu. A música é experimental, balançando entre a improvisação óbvia e outras sonoridades mais "urbanas" (até há um bocado de Death Metal e tudo!), ficando a impressão no fim que há aqui um ecletismo musical que podia ser devedor aos projectos da Ipecac ou da Web of Mimicry embora o conceito tenha mais piada que o resultado propriamente dito. 3,5

Numbers We're animals CD 2005 · Kill Rock Stars / Sabotage
Escrevia eu ainda no outro dia, sobre o Festival Número (ver na secção "Ao vivo"), o que ia fazer uma banda portuguesa que lá tocou (eram os U-Clic) e que investiu no Electro-rock agora que género passou de moda? E o que pode fazer uma banda norte-americana? Duas respostas: a portuguesa começou a carreira tarde demais como sempre, bem podem arrumar as botas porque já não vão conseguir atingir mercados internacionais e sobreviver com os nichos electro-rock - daqui a 10 anos é capaz de haver um revival deste tipo de som, por isso rapazes, é melhor esperar sentado! A norte-americana é bem capaz de continuar, até porque já assentou no tempo certo, continua a vir cá tocar - foi à Galeria ZDB e ao Porto - e continua a editar discos anualmente, como este recente "We're animals" - o terceiro de originais & oficiais (esquecemos remixes e afins). Mais perguntas: independentemente das modas estes tipos norte-americanos ainda têm validade? O disco pode ser ainda interessante? Respostas complicadas. Realmente agora que estamos em ressaca Electro e deixou de ter piada ouvir sintetizadores ácidos + vozes femininas ou réplicas do vocalista dos B-52's + bateria rockeira + guitarras sujitas do indie 80's (muito Sonic Youth aqui!), pouco ou nada poderemos encontrar aqui que nos emocione. O "enquadramento histórico" está errado. Podiam os Numbers incorporar novas coisas e dar um passo à frente? Não quiseram... não estão interessados em evoluir, só em canibalizar o que já foi feito. Podiam até chamar ao álbum de "We're robots" ou "We're Pavlov animals" que seria mais sincero... 3,4

ORGASMO CD 2005 · Vida / Som Livre
Com um nome destes – um bocado incómodo, tentem perguntar no quiosque do bairro pelo CD dos Orgasmo – ao menos devia ser uma bomba! Este orgasmo é daqueles de punheta antes de adormecer. Não é aquele orgasmo-mamute quando um tipo entra noutra dimensão mental de excitação e quando se vêem é uma enxurrada de energia que percorre o corpo inteiro até ficamos felizes da vida e cairmos para o mundo dos sonhos. Ainda assim há razão de existência para este quarteto que não é novato nestas andanças das bandas – há aqui sobreposições de projectos e convites de elementos de outras bandas como Carbon H e Slamo. Penetrando nos cosmos do psicadelismo, via Rock e alternando pelo Funk, algumas vezes ao ritmo Drum n’Bass & Breakbeats, esta cópula de estilos é excitante mas a tesão não é (ainda) total. Algumas partes fazem lembrar vagamente os The Music, entre outras coisas perdidas na memória, mas com identidade em construção ficando a expectativa que bastará no próximo registo lubrificar a máquina e... Schuap, schuap! Devo referir (pela negativa) a discrepância de registos gráficos entre a capa (departamento de aerógrafo anos 70/80’s) divertida pelo kitsch assumido e os desenhos toscos na faixa multimédia e na impressão do CD (para fazer tosco é necessário também ter dom artístico), o que não se percebe bem onde querem ir no que diz respeito à imagem da banda: brincalhões com suor de Red Hot Chili Peppers ou bedum dos Fúria do Açúcar? 3,9

PHANTOM VISION Calling The Fiends CD 2004 · Cop International
Terceiro registo desta banda electro-gótica em terras estrangeiras, caso para admiração para os que pensam que o mundo é só o bairro onde vivem. Phantom Vision desenvolve-se nos caminhos da electrónica compondo boas canções. Curiosamente a atmosfera deste disco consegue aproximar-se mais do Rock do que de um registo electro, mas pessoalmente, para um velho gótico como eu, pouco ou nada transmite. Falta loucura e imaginação para ultrapassar um género que já tem mais de 25 anos e que já teve tempos memoráveis, justamente porque os artistas desses tempos arriscavam, não ficaram presos a cânones, pelo contrário estavam a criá-los! Bauhaus, Alien Sex Fiend, só para citar os meus favoritos. Por mim, não acho impressionante que uma banda seja profissional e ache um “spot” numa cena especializada: Acho confortável para todos os envolvidos. Só espero que esta banda não seja realmente um caso de “visão fantasma” e avance para o desconhecido. Se o disco fosse de há 20 anos levava um 4,4 mas sendo deste milénio... 3,4

PUBLIC ENEMY New Whirl Odor CD+DVD 2005 · SLAMjamz / NTM
Este é o oitavo álbum dos “Laibach do Rap” – ninguém se lembrou desta! Um álbum já considerado pela crítica como um disco sem inspiração… mas como assim? São os Public Enemy! Estamos em 2005 e não há espaço mediático nem para polémicas nem para critica social na ponta da língua, tudo isso está acabado. O HipHop que os Public Enemy projectaram ao longo da sua carreira – eles e muitos artistas negros foram censurados ou proibidos de passar na rádio ou TV – foi substituído pelo individualismo e materialismo alicerçado e projectado por uma MTV estúpida e estupidificante. A batalha dos PE é a de ainda ter alguma voz no meio de uma cena que não querem parentes “pobres” a criticá-los. Os PE são dos poucos (como os Dälek) que tem a integridade artística, a militância DIY, que continuam a ser barulhentos e sujos, que se atiram a pequenas deambulações musicais e que, sem papas na língua, cospem letras intervencionistas. Sim, este álbum não vai ter airplay nem vai ficar nas listas dos melhores discos de 2005 (até porque foi editado pela sua própria editora, a indie SLAMjamz)… mas são os Public Enemy! A catinga de uns PE envelhecidos continua a ser melhor que muita merda que anda por ai, seja Rock seja HipHop. Há qualquer coisa de estranho neste álbum que passa pela auto-referência e auto-reflexão da banda. Se juntarmos ao facto que na mesma altura é editado um best of pela (sua antiga casa) Def Jam diremos que “New Whirl Odor” poderá um ponto de partida para próximas acções e edições. Até lá «Check What You’re Listening To». 3,8

SANTA MARIA, GASOLINA EM TEU VENTRE! Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção CD 2005 · Zounds / Sabotage
Até nem nos podemos queixar muito sobre reedições de discos que foram importantes no meio Pop/Rock português dos últimos 25 anos. Desde a Candy Factory ter reeditado os LP's de Pop Dell'Arte à colectânea "Ama Romanta Sempre!", entre outras iniciativas em relação a Mler Ife Dada, Mão Morta, Us Forretas Ocultos, Rádio Macau, M’as Foice, etc, agora foi a vez LP "Free Terminator/ Falcão Solitário Sem Ser Distorção" (Ama Romanta, 1989) dos Santa Maria, Gasolina Em Teu Ventre!, e o seu maxi homónimo auto-editado (de 1990), ambos reeditados pela Zounds com um excelente trabalho gráfico e embalagem. Os Santa Maria incluíam Jorge Ferraz – hoje com o projecto Fatimah X –, e o que tocavam pode ser descrito por poesia instrumental pseudo-Dada, com guitarras em abrasantes arrastos de feedbacks devedores às experiências excessivas da juventude sónica dos anos 80. O tempo, no entanto, não perdoa. Se nos fins dos anos 80, em Portugal, este LP foi conotado de alien ou de provocador, no nosso novo milénio passa um bocado ao lado. Sobretudo o LP que é menos interessante ao nível de composição do que o maxi. De registar que o maxi inclui a participação de Adolfo Luxúria Canibal no tema "Go West, Celine", que parece um lado B perdido de Mão Morta. Próxima reedição obrigatória: Ocaso Épico! 4

Si-cut.db From tears: beach archive CD 2005 · Bip Hop
A Thisco além de editar discos de electrónica alternativa também promove editoras e bandas estrangeiras. Foi através deles que nos chegou "From tears: beach archive" de Si-cut.db que pode ser considerado como uma mistura de Dub com Micro-House criado para descansar no conforto da casa e respectivo sofá. O compositor/músico Douglas Benford usou o seu lap-top para explorar os sons das costas marítimas por onde viajou entre a Europa e a América do Norte. Felizmente o resultado é mais dado ao desafio auditivo do que ao narcotizante efeito do New Age - acredito que se devem ter arrepiado quando leram sobre os sons do mar e isso... 3

SIZZLE Natural Elements CD-R 2000 · Facthedral
O Dub apesar de já existir desde os anos 70 e apesar ter sido usado em várias técnicas de gravação em discos mais insuspeitos, só nos anos 90 é que foi redescoberto na sua pureza mais antiga, o do ambiente sonoro que invoca espaços ou paisagens psicológicas. Foi com Scorn, de Mick Harris, que trouxe as aproximações industriais a este género de música - é mais que um género, é também uma técnica! o projecto francês, Sizzle é a continuação lógica destas estratégias psico-espaciais exploradoras de ambientes negros, de "bad trips" que o Dub Industrial emite aos nossos cérebros. 55:55 é o tempo desta viagem hipnótica, onde a imaginação é limitada a loops que se repetem à exaustão sem nos surpreender de alguma forma. Podia ser melhor? Cêdê de tiragem limitada e já esgotado, pode ser descarregado em: www.facthedral.com/the_music.htm# 3,1

STEALING ORCHESTRA The Incredible Shrinking Band CD 2003 · Zounds / Sabotage
Risos de crianças, orgãos xungas, xilofones, blip, disparos laser de jogos de computador dos anos 80, pombos, cabaret, acordeãos, bandas sonoras de filmes série B, tetris, caretos de Podence, blip blip, caixas de brinquedos, que infância infeliz, blip-blip, valsa de andróides bêbados de vinho verde, blip-blip, punk-vodka & metal-klezmer, blip-blip-blip, o Papa ama os Mr. Bungle, cacos digitais, samples do John Barry e Glenn Miller a vomitarem orquestras que os nossos pais insistem em ouvir de vez enquando, chocalhos de cabras do quintal da puta da vizinha, blip-blip, o meu o rancho foclórico é maior que o teu, Dub com pauliteiros e música de Natal que passa nas lojas dos monhés e no Metro, blip, circo & tourada & uns cornudos, dark-funk para mariachi paneleiro, o Tom Waits a tomar gurosan e a tocar para a Françoise Hardy... Ah! Isto é que é Electrónica com atitude, man! Os Stealing são a fusão itílica refrescante da nossa Tradição Lusa (que os gajos do Lusitania-metal e os novos fadistas que se ponham a pau, ó caralho!!!) e de um Portugal escarrado para o Futuro pelo sr. dr. Cavaco «canibal» Silva e o betinho do Guterres. A embrulhar a música mais divertida que se faz hoje em Portugal, uma embalagem luxuosa e um livrinho com ilustrações iconoclastas a lembrar um o humor do Winston Smith (o gajo das capas dos Dead Kennedys pá!) para cada música. 4,7

SUNN 0))) Black One CD 2005 · Southern Lord / Sabotage
Bandas com nomes bizarros há muitas, mas bandas com um som bizarro não há tantas. Sunn 0))) alia as duas coisas, um nome gráfico e uma sonoridade que é um pesadelo. Rotulá-los de Experimental Metal ou Drone Metal será supérfluo embora simpatize com a ideia de Nerd Atonal Doom Metal. Ao ritmo de um álbum por ano, conquistando cada vez mais admiradores (pelo menos na imprensa), os Sunn 0))) avançam para um novo ciclo de gravações após o “White 1” e “White 2”. Trata-se de um ciclo negro de uma banda que mais parece uma espécie de “se Stockhausen fosse metálico fazia isto”, só que se antes o ciclo White só provocava um ambiente irritante, agora a irritação abraça o medo, que aliás está logo estampado na capa: um desenho detalhado de uma árvore numa floresta negra mas também parece um anjo esventrado numa floresta com raízes por todo o lado em que os nós dos troncos parecem olhos de carneiros mal mortos... Ok, ok, já chega! Não aconselho ouvir este disco em fase de sonolência pois são ainda desconhecidos os psico-traumas que poderão surgir – o meu terapeuta ainda não determinou os efeitos mas ordenou-me afastar-me do disco. Convidados desta: Oren Ambarchi, Wrest (Leviathan/ Lurker of Chalice/ Twilight), Malefic (Xasthur, Twilight) e John Wiese (Bastard Noise). De salientar que Malefic gravou a sua participação vocal dentro de um caixão colocado num Cadillac carro funerário. Não sei que espécie de tarado é que se lembra deste tipo de coisas nem sei que espécie de tarado quererá ouvir isto. Respect!! 4,1

TAPE FREAK HUGO Old Tape Series #1 Demo 2005 · Edição de Autor
O universo é estranho, tão estranho que os subúrbios de Lisboa parecem a “América mítica” do tipo Tucson. E depois, os tipos que habitam por cá (neste universo ou nos subúrbios de Lisboa ou em Tucson) têm ideias estranhas. Por exemplo, este Hugo lembrou-se de pegar nas k7’s (sim aquele formato audiofónico que tende a desaparecer tal como as cassetes vídeo VHS) para fazer um projecto musical misto com mail-art. Então é assim, se enviarem uma k7 para o Hugo, ele grava por cima dela composições electrónicas / Improv suas, faz uma capa nova (uma “foto desértica” - daí a piada Lisboa/ Tucson) e ainda troca as k7’s com outros tipos que também enviaram. Por isso quando recebi o meu exemplar dava para ouvir no fim os The Cult (arght!) que pertencia a um André que desconheço. Gira a ideia! Quanto à música do Hugo, ela anda nos territórios experimentais da Electrónica ambiental. [this_boy@netcabo.pt] 3,3

US FORRETAS OCULTOS The Worst of The Best CD 2004 · Lowfly
Estes U.F.O's não são a banda xunga alemã de Hard'n'Heavy mas sim uma banda xunga 'tuga... Em meados dos anos 90, a produção de bandas de garagem, com poucas mas honrosas excepções, dividia-se entre a banda de Metal na linha Pantera/Sepultura ou então no Indie com os Sonic Youth e os Dinosaur Jr. como linhas de orientações. Us Forretas Ocultos estão na segunda categoria, com uma pose descontraída e pretenciosamente "fun", deixaram como legado meia dúzia de temas em demo-tapes, em edições em vinil e em colectâneas na Beekeeper e LowFly, editoras cada uma à sua maneira foram as mães deste tipo de banda. Passados 5 anos desde o fim da banda (ou pelo menos do seu último registo) a LowFly lembrou-se de criar a sua colecção "Arquivos LowFly" com o objectivo louvável de reeditar pérolas do underground musical português (como a MMMNNNRRRG em relação à bd...) só é pena é que não consigo ver isto como uma pérola... só vejo porcos... algo cheira mal na banda e no som, será o problema eterno que cada vez há alguém "arteist" da Caldas da Rainha e com um elemento da banda com o apelido de Feliciano (sim essa família de artistas do "fake") num projecto musical a coisa cheira sempre mal? Tudo bem que estes UFO não tem uma postura tão "kiducha" como as outras bandas do género/geração mas é por pouco. Tudo bem que o som que praticam tem algumas outras influências para além dos papás Sonic Youth (há um bocadinho de Ska, Surf...) mas nunca chega a ser um dado adquirido, parece como sempre uma coisa à portuguesa: a meio gás e com medo (claro) de assumirem seja o que for. A desculpa será eles eram os engraçadinhos da cena, os gajos brincalhões, os gajos que se estão a cagar... sorry... but no cigar... Se houve boas bandas nessa altura e da linha "sónica" elas chamavam-se Damage Fan Club e Pinhead Society, tudo o resto foram meninos muito muito mas mesmo muito tristes, alguns porque eram deprimiditos e outros porque faziam figuras tristes tentando ser fixes... Se adquirir este disco vale a pena por a Hi-Fi em altos berros porque ainda assim é de Rock Lo-Fi de que se trata. 2,6

all gone from A to E

A minha colaboração com o Underworld / Entulho Informativo foi-se... e antes que eles tirem as minhas críticas do site deles (nunca se sabe) vim alojá-las aqui mesmo assim ao molho, só por ordem alfabrútica! As reviews têm pontuação à boa maneira de revista pro e os nomes das bandas estão em caixa alta sabe-se lá porque razão idiota...

ADVANTAGE The Elf-intitled CD 2005 · 5RC / Sabotage
Vivemos num mundo em ruínas, uma Roma cercada de bárbaros à espera de ser saqueada... Bem... ‘bora divertir-nos antes do massacre e do fim da nossa existência! Bute ouvir estes californianos que juraram gravar todas as músicas da Nintendo até morrerem! Tarefa essa que continua neste segundo álbum: as músicas de 8 bits dos clássicos Double Dragon III, Castlevania, Wizards & Warriors são transformados para o formato “guitarra, baixo e bateria”, em estruturas muito bem conseguidas de Rock-Jazz-pseudo-electrónico, que podem lembrar um pouco os Trans Am. Merecem a pontuação em linguagem binária: 0011,0101

ANABELA DUARTE DIGITAL QUARTET Blank Melodies CD 2005 · Zounds / Sabotage
Polaroids: Anabela e a Björk fazem compras em Londres; Anabela e a Laurie Anderson tomam um cappuccino em Nova Iorque; Anabela ao lado do “Fernando Pessoa” na Brasileira, a comer um pastel de nata... Quem é esta gaja ao lado da Björk? Anabela Duarte é uma figura injustamente esquecida da Pop nacional porque, à excepção do trabalho com os Mler Ife Dada, a carreira dela nunca foi mediatizada. A solo, fez dois discos: “Lisbunah” (Polygram; 1987), no qual já trabalhava uma revisão do Fado (muito antes desta moda salazarenta) e “Delito” (Ananana; 1999), com gravações de espectáculos de 1991 no Instituto Franco-Português, e onde o tradicional e a cibernética apertavam muito bem as mãos. Apesar da gravação ser fraca, “Delito” mostrava que Anabela sempre esteve uns passos à frente de quase toda a gente em Portugal. E tão à frente está ela que fez um terceiro disco – finalmente com uma boa produção, como é apanágio da Zounds – tão sofisticado que “Ela-ela” perdeu a Alma. Não é à toa que a Björk ou a Anderson aparecem logo no início deste texto – as comparações são inevitáveis, os maneirismos deixam-nos desapaixonados. Anabela canta pela primeira vez tudo em inglês, um fascismo linguístico, quando antes usava o português e enxertava inglês, francês, alemão, arménio e “Dada”. O som Microwave até nos entusiasma, sobretudo em “There Will Be Evil”. As doze músicas que compõem o CD são bonitas mas a beleza é de um Design artificial. O título “Blank Melodies” assenta como uma luva: melodias vazias. “Alfama” ficou lá bem para trás. 3,3

ANDRÉ ROBILLARD Sait-on jamais la vie CD/DVD 2002 · Le Dernier Cri
A editora francesa Le Dernier Cri é a ovelha negra das independentes francesas. É uma editora que se dedica a lançar os desenhos, ilustrações e banda desenhada em livros (geralmente serigrafados com mestria) mais agressivos do planeta. Mas também lançam discos Punk Noise... entre eles encontramos este de André Robillard um demente cujo o trabalho é procurado / cobiçado pelos coleccionadores de Art Brut. É conhecido pelas suas armas Lazer feitos de lixo encontrado na rua. Mas o bicho também canta. E toca acordéon (até lhe dá!) para além de executar uma estranha percussão com um balde e cartuchos vazios nos dedos... Irritante ao ponto de se quer me dar ao trabalho de perceber o que homem diz, eis um objecto que serve de registo aúdio de um artista louco e dos periquitos na gaiola que vivem com ele. 3

BERNARDO DEVLIN Circa 1999 [9 implosões] CD 2003 · ExtremOcidente / Sabotage
- Então Marte, o que tens feito?
- Olha, ando a escrever para um zine de música...
- E é fixe?
- Sim, escrevo sobre bd e alguns Cêdês de música estranha...
- Música estranha?
- O que não é Metal, Punk e Hardcore [risos] ... sei lá... sobre Industrial ou Pop... coisas inclassificáveis como o Bernardo Devlin...
- Devil!?
- Não é Devil Metal! É mesmo nome de beto, Bernardo Deve-line. Fez a banda sonora d' A Suspeita...
- Aquele filme de animação muita-bom?
- Yá!
- E é fixe?
- Algumas pessoas gostam, a parte instrumental é do melhor que já se fez em Portugal mas a voz dele estraga tudo... o que eu gosto mesmo é do nome da editora, Extremo Ocidente, tudo pegado!!!
- Masé-fixe?
- São 9 composições bufas & oníricas de música contemporânea... não é Clássica, não é Jazz mas usa elementos de ambos...
- Masé-fixe?
- Ele já fez parte dos Osso Exótico, lembras-te?
- Sim, sim, masé-fixe?
- Lembras-te mesmo de Osso Exótico!?
- Bardamerda, para a próxima não falo contigo, adeus!
- ...
3,5

BY-PASS Psychoactive CD 2000 · ITMM
I. O autor sérvio de bd Aleksandar Zograf veio a Portugal e passou-me o disco de estreia dos seus vizinhos By-pass. Ambos vivem na cidade de Pancevo, cidade essa que foi bombardeada pelas Forças da Liberdade da NATO em 1999... pois. Dada a estas "convulções de libertação" (para não dizer outra coisa) devem imaginar que não deve ter sido fácil gravar e editar o album.
II. Poucos meios, grande imaginação. A jeito de brincadeira, hoje ao almoço, dizia para a minha colega de trabalho que Portugal também devia ser bombardeado ou sofrer uma guerra civil para a arte portuguesa deixar de ser uma punheta chata.
III. Os By-pass podem ser facilmente rotulados como um Rock Neo-Grunge que suplica a Soundgarden e Tool, e apesar de a dada altura perderem a pica nas últimas faixas, também sabem apresentar um Rock poderoso com identidade. E isto porque sabem Criar. E só se cria quando se tem à vontade para ser lúdico. E esta banda "psioactiva" sabe fugir fugazmente aos seus moldes fazendo experiências laterais - usando electrónica ou até elementos étnicos - que até soam a algo de novo mesmo quando sabemos que isso não é verdade.
IV. By-pass não é a melhor banda de sempre, é só mais uma banda de garagem perdida no mundo mas serve de exemplo para as bandas de garagem de Portugal. Se em Portugal o pessoal fosse menos coninhas e parasse de fingir que é muito sério e/ou profissional - o que até hoje não deu em nada no que diz respeito a fama & fortuna tirando os Moonspell diga-se de passagem - e já agora se cantassem na sua língua-mãe - estes By-pass cantam em sérvio = não percebo um peido... mas garanto que soa bem! - talvez a música portuguesa fosse mais excitante e sincera. Estamos balofos ou mimados (escolham)...
V. O humor está mais que presente a julgar por um separador em que o David Lee Roth é parodiado... só por isso já vale a a pena! «I'm just a gigolo!» 3,4

CLEANING WOMEN Aelita CD 2004 · Badvugum/ BV2
Se o tivesse ouvido em 2004 seria o meu álbum do ano! Apesar de ser um CD encontro-lhe um feeling de LP/vinil, isto porque a partir da faixa sete – que no grafismo do CD inicia a segunda coluna de títulos das músicas – o ambiente muda completamente. Bem, do que falamos? Copy+paste sobre o primeiro CD criticado no texto do Under’ #15: “os CW são “Post Novelty Noise Rock Funk Sci-fi Samba Metal Disco Hardcore Folk Industrial Zounds” / Três pseudo-travestis pegam em restos de material de limpeza doméstica (estendal da roupa, tambor da máquina de lavar, baldes, parafusos, …) / Obcecados por limpeza / Rock transgénico com dramatismo da música tradicional e riqueza rítmica do Industrial.” Neste segundo disco, começam com uma “banda sonora” de seis minutos para o filme de Iakov Protazanov, “Aelita” (1924), que é o primeiro soviético de Ficção Científica – a acção passa-se em Marte, prestes a explodir numa Revolução Operária, e tem cenários/roupa esteticamente devedoras ao Futurismo e ao Construtivismo [o filme é remontado num videoclip de dez minutos e incluído no CD]. A tal banda sonora recria o ambiente cinematográfico e nostálgico na perfeição, com um toque épico de meter inveja a muita banda de Gothic Metal. Uma homenagem e uma obra-prima ao mesmo tempo? Possivelmente! Até à quinta faixa há um tom sério com Hip-Hop Industrial, Country meio tonto, Hardcore desmembrado, etc... Chega ao lado B (a faixa 7) e o tom muda para algo divertido: funky, musical de Broadway (“Entertaining Musical Hall”), Metal Étnico/Oriental (lembra Secret Chiefs 3), jingle para vídeo promocional de um hotel de Verão... Logo vêem. E sempre com um som “CW”. É pouco? É! Só tem 42 minutos! Quero mais!! 5

CREWCIAL Ombuto (A semente) CD 2005 · Matarroa / SóHipHop
Com as edições de Conjunto Ngonguenha, Verbal e agora estes Crewcial, a editora nortenha Matarroa tornou-se na embaixada de hiphop angolana em Portugal. O que per se já é uma boa notícia obstante que os discos de Crewcial e Verbal - ao contrário dos Conj. Ngonguenha - deixam um bocado a desejar. O Hip Hop é o fenómeno (musical e não só) urbano mais importante dos últimos anos não só em Portugal e na comunidade portuguesa, no entanto o que tem faltado é loucura e genialidade nos grupos/discos. Não que a qualidade de gravação, produção, da música e "literária" sejam más - aliás isso já não existe neste milênio graças ao acesso tecnológico - mas justamente neste caso podia haver aquela metáfora que entre Angola e Portugal há uma distância enorme mas ouvindo "Ombuto" não damos conta disso... as raízes africanos devem ter caído do Boeing 747, os tripulantes ouviram demasiada R'n'B foleira nos auscultadores do avião e por fim foram assimilados pelo cinzentismo português quando chegaram ao aeroporto. E já agora, por falar em qualidades de produção, parabéns ao Chemega, provavelmente o designer de embalagens de cédés mais original do mundo! Quem duvidar que veja o que ele fez com a estreia de Verbal e agora com este disco: chemega.com - é que este é o segundo disco (o outro é do Verbal) que só está lá em casa por causa da embalagem! 3,1

DEATH FROM ABOVE 1979 You're a woman, I'm a machine Duplo CD 2005 · Last Gang / 679 / Farol
Parece que anda na moda bandas de 2 elementos e realmente para quê ter uma banda de 7 gajos para fazer estardalhaço? Numa pespectiva KISS (keep it simple, stupid) acredito que deve criar uma sinergia mais intimista e menos distraída com apenas 2 pessoas. E os resultados estão à vista, neste caso, estes canadianos transbordam energia e imaginação Rock e Funk trashalhado (a referência antiga dos Gang of Four não poderia estar de fora como aliás tem acontecido com maior parte das bandas dos últimos 2 anos) chupado nas veias revisitadas da New Wave. É natural a comparação dos DFA1979 a Liars, Yeah Yeah Yeahs e The Rapture. Com bateria, voz e sem guitarra (incrivelmente emulada pelo baixo e sintetizadores) convencem-nos a dar um pezinho de dança e a beber mais um copo... e mais outro e... a desgraça acontece... uma bebedeira daquelas que dá para dançar histericamente a provar a quantidade temas "single" que podem ser sacados de um álbum com pouco mais de 35 minutos, que é diversificado e certeiro como deve ser um bom álbum de estreia. A presente edição inglesa presenteia-nos com um disco extra com 2 vídeo-clips, um tema ao vivo, dois extra e 3 remisturas a dar para o "Electro", tudo isto material sacado da discografia "extra-álbum" da banda que completam mais uns vinte e tal minutos de prazer. 4

DINOSAUR Jr. 3 CêDês 2005 · Sweet Nothing / Ananana
Dinosaur [1985] Era o álbum homónimo da banda antes da banda ter de acrescentar o “Jr. “ por já haver outros Dinosaur na praça. Já cá está tudo o que viria a tornar os Dino Jr. em algo único nos anos 80: barulheira sónica, energia crua ressacada do Hardcore, solos de guitarra Heavy, sentimentalismo Folk e letras lamentosas cantadas por uma voz mastigada de J Macis.
Extras: O primeiro single “Does it Float” ao vivo, o que permite comparar o tema em estúdio e o inferno sónico live. 3,7
You’re Living All Over Me [1987] É o desenvolvimento natural e aperfeiçoamento da fórmula descoberta. Gravado na editora da altura, casa dos Sonic Youth ou dos Husker Du, o baixista Lou Barlow tem direito à composição de dois temas neste disco cheio de energia Pop/Rock com trago metalizado.
Extras: A versão bem porreira de “Just Like Heaven” (The Cure) e dois vídeos. 4,2
Bug [1988] Primeiro álbum já com a denominação “Jr.” e o último da formação original. Macis torna-se o único compositor e tirano da banda. O som está tão solidificado que mais do que nunca apresenta as suas características dualistas: acessível /complexo, épico/melancólico. Mas o que é mesmo fixe neste disco é que não todos os dias que se mete um tipo da banda a gritar durante 4 minutos “porquê é que vocês não gostam de mim?”. Barlow saiu depois deste álbum para criar os Sebadoh, Folk Implosion, …
Extras: Dois videoclips. 4,1
Conclusão: Com estas três reedições fica feita a primeira parte da história dos Dino Jr. Em 1988 sai também pela SST, o primeiro dos Soundgarden, um ano depois aparecia “Bleach” e em 1991 “Nevermind”, ambos dos Nirvana. O plano Grunge estava em curso! Os Dino Jr. iriam ter a sua quota-parte da fama nos anos 90 até à sua dissolução em 1997 – e respectivo recente retorno que até deu direito a uma visita ao Sudoeste deste ano.


DISCO DOOM Binary stars CD 2003 · Defer / Architecture
Começa com Dinosaur Jr., depois parece Melvins com Pavement, há terceira música já vamos para Blues Explosion com Sebadoh, mais tarde Sonic Youth e outros "indíos"... não que seja mau o disco destes suiços mas para quem é já batido nestas andanças já sabe que mais vale ficar pelos originais de que uns "local heroes". Por acaso o disco até é bem esgalhado e bem trabalhado fugindo muitas das vezes para caminhos menos óbvios da mediania do "indie" como para o Stoner ou Space Rock mas ficamos sempre com aquela sensação de desconforto de que já ouvimos aquilo noutro sítio qualquer. Mais curioso é o ritmo do álbum que começa com temas mais agressivos e depois vai caindo para paisagens marcianas calmas e intrigantes... isto em 34 minutos. Nada maus para estreia. 3,5

DOWN RIVER NATION Pulse CD 1999 · Chaosphere Recordings
Alguns cromos de bandas mais ou menos conhecidas como The Whores of Babylon (Goth-Metal electrónico), English Dogs (Punk UK anos 80), Prodigy (Techno, pseudo Punk-electrónico) juntaram-se e fizeram uma brincadeira: tocar Rock pesado... Desde já digo que é um álbum bem produzido - até demais para uma brincadeira - mas há aquela máxima: "Basicamente, os ingleses não sabem rockar!!!" Buenos... tem bons riffs, boa bateria, etc... mas no fim, a coisa não pega, nem é Rock doce (sim porque os ingleses sabem fazer pop deliciosa!) nem é Rock amargo. Não que seja mau, não que não tenha até alguma originalidade, não que não seja bem tocado. Não bate, porque será? Simples: "Basicamente, os ingleses não sabem rockar!!!" Estranhamente este disco foi só editado cá em Portugal, considerando as personalidades envolvidas é caso para dizer que temos aqui uma peça de colecção. 3

DSM666 CDr 2006 · useLESS POORductions
DSM666 é alter-ego do K.U.T. (Kero um tiro – Gabba, Digital Hardcore, Teknoise), ou vise-versa - e é ainda Eye.8.soccer (Perestrelo Noise) e quem sabe outros mil projectos secretos. Neste projecto dedicado ao Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM, manual publicado pela Associação Psiquiátrica Americana que serve para identificar as várias doenças mentais) é aplicado a fórmula Drone industrializante, que presta vassalagem ao Black e Doom Metal para criar o efeito de ambiente negro e psicótico q.b. – agora que Portugal tem finalmente "serial-killers" poderemos apreciar este tipo de obra com algum orgulho nacional e pesar dramático, ié! Esta “Burzum Black Mayonnaise Mass” (perdoem-me os anglicismos) está materializada num CD-R de edição limitadíssima (existem 10 exemplares empacotados em cartão de pastas de arquivo) que traz três faixas de cerca de 17 minutos no total, e ainda bem que passado a coisa começa a irritar os tímpanos. De resto, quem tiver curiosidade basta ir ouvir no MySpace do projecto e se quiserem o objecto peçam ao Dr.Gama. 3,5

D’EVIL LEECH PROJECT Bleed Your Mind CD 2004 · Raging Planet
Não posso ficar calada quando vejo injustiças! A sério que não! Não percebo porque um dos melhores projectos de Metal – de Extreme metal, o único em Portugal? – é completamente esquecido pelo fandom português, pela imprensa especializada e tudo que rasteje nesta pátria lusa que use cabelo longo para headbanging. Nenhum álbum de estreia (embora este já seja o segundo do colectivo, uma vez que antes intitulavam-se de Devileech e gravaram Leechtron pela CD7 em 1997) foi tão ignorado - em relação directa à qualidade da banda e da sua música. Não percebo como tanta trampa que anda por ai recebe mais atenção e carinho que eles. Talvez porque incluam excertos electrónicos e o pessoal da pesada não curta? Porque pareciam uma pandilha de gays (“Tom of Finland a desenhar os Flinstones”) no vídeo-clip “M0du5 0p3r4nd1”? Porque são da margem sul? Porque usam caixa de ritmos? Mas a voz à Cannibal Corpse não convence ninguém? Nem a dualidade brutalidade e sofisticação de uns Zyklon? Nem os milhentos riffs imaginativos que escutamos nos 54 minutos do CD? Nem o Industrial Death Metal a rodos? Nem as letras sujas de Gore? Parece que ninguém se apercebeu que os D’evil tem imaginação para todos que se atravessarem no seu caminho. Por exemplo, o tema “Into Slackness” é surpreendente pela facilidade como começam com um riff minimal devedor aos My Dying Bride e algum Heavy Metal clássico (Psicadélico!), transmutando-se em Death, regressando ao riff psicadélico e acabando numa Electrónica quase ambiental na linha dos projectos mais “funcionais” da Thisco… e quando nos damos conta do que aconteceu já estamos no próximo tema, “Achromatic Impetus”. Toda a obra que se encontra registado neste este disco é uma viagem cyber-porno-serial-killer que nos deixa em estado de ansiedade tal, que se o animal de estimação arrastar a bola de ténis pelo chão e fizer um “barulho suspeito” o mais certo é apanharmos um susto valente – iá! o violador louco do bairro entrou em casa! E se de valentia escrevo, então estes 4 tipos são isso e muito mais porque até a “Dave-Mckeanada” está bem feita, ou seja, o artwork do CD está melhor que qualquer outra banda do género neste canto europeu e acreditem sendo eu uma metalhead já há alguns anos sei do que falo! O que eu quero dizer é que mesmo quando os D’evil caiem no cliché da cena, conseguem fazer melhor que a média. Isso já é muito nos dias que correm!
PS – há rumores de um regresso para este ano… amigos do underground: atentos e dêem o vosso apoio a UMA banda lusa realmente BOA! assinado como Axima Bruta 4,5

EAGLES OF DEATH METAL Peace Love Death Metal C D 2004 · AntAcidAudio / Sabotage
Na banda sonora de "Kill Bill vol.1" há uma música horrível mas que acaba por ser fixe. Correcção, mesmo muita fixe... é aquela versão Tex-Mex-Disco-de-tias dos Animals de uns tais Santa Esmeralda! Nos anos 90, o "kitsch" tornou-se um estandarte de muita arte e a ironia, a arma de arremesso. A vergonha de gostar de algo que é francamente mau tornou-se "cool". É o que acontece com esta banda, que começando logo pelo nome que é apropriado à banda autora do infra-satânico tema "Hotel California". E depois de Death Metal não tem nada, claro, afinal são os Eagles do Death Metal! Como se pode escrever uma resenha séria a uma banda cuja capa do primeiro disco se apresenta de cor-de-rosa e azul bébé? E quando a música só nos faz lembrar em gritar «let's boogie!»? [Que nojo: «let's boogie!»] Mas os EDM soam bem, sim, é verdade, o que se pode fazer? Afinal seria impossível mais uma banda da família dos Queens of Stone Age (Josh Homme é aqui baterista) soar mal, não? Só que invés de Rock pesado e desértico o passeio dos EDM é pela Pop manhoso e Rock sulista dos anos 70 (fazem uma versão de "Stuck in the Middle with You" dos Stealers Wheel, lembram-se da banda sonora dos "Cães Danados" também do Tarantino?), pelo Blues/Garage à Jon Spencer, pelo "Arena Rock" dos Kiss, pelo Glam de ir ao cuzinho, pelo "Funk-Falseto" à Prince, etc... uma paneleirice pegada que há muito não se via! Que este será o disco de verão para muita boa gente isso será... eu gostei... e pelos vistos tenho mau gosto! 4,1

EARTH Hex; Or Printing In The Infernal Method CD 2005 · Southern Lord / Sabotage
O regresso de uma banda lendária dos anos 90 que estimulou o famoso Drone Metal que tanto se fala nos dias de hoje. Um regresso cinematográfico em que o Doom da banda é abandonado para o “Gótico Americano” – o quadro de Grant Wood (1891-1942) – ou se preferirem para o “Dead Man” de Jim Jarmush - um dos filmes mais bonitos de sempre, se me permitirem o aparte. Aliás, o que temos aqui é a continuação do que Neil Young fez na banda sonora do filme: Drone-Country. Por isso fãs de (Dark) Americana eis aqui um bom disco, mórbido e desértico como é regra. Metaleiros pouco encontrarão algo que vos interesse. Gajos que pensam que os Dead Combo são fixes podem encontrar aqui algo melhor. Fãs de Earth antigo talvez venham a gostar da mudança. Quem gostar da ideia de um mash-up entre Ry Cooder e primórdios de Black Sabbath este é o disco. 4

EXPERIENCE Positive karaoke with a gun / Negative karaoke with a smile CD + DVD 2005 · Boxson / Green UFOs / Ananana
O que é pior que uma banda Rock espanhola? Fácil... uma banda Rock francesa! Os Experience além de serem uma continuação evoluída dos Noir Desir (para falar da linhagem francófona apenas) acrescentam à violência sónica alguma voz rapada e electrónica (samplers). Vão no terceiro registo constituído pelo "Positive (...)", um CD de versões, e o "Negative (...)", DVD típico de banda ao vivo, na estrada e outras vulgaridades, coisa para fã sem critério. O CD é que me provoca (alguma) confusão tal é o ecletismo e bom gosto de bandas/músicas escolhidas, que atravessam estilos tão díspares como HipHop (Public Enemy), Rock sónico (Pussy Galore), Emocore (Q and not U), Alt.Country (Bonnie Prince Billy), ou gente inclassificável como P.I.L. e Soul Coughing, ou esquecida como Moonshake - uma banda Indie inglesa dos 90! É preciso ser cromo para juntar isto tudo! Só que bom gosto nunca foi sinónimo de Arte e estes zombies são pretensiosos e pouco calorosos (o típico francês?). Se havia dúvidas o DVD ranhoso tira-as. Tanto faz que sejam malucos q.b. para escolher Gil Scott Heron e Shellac, uma Almita nunca chegará aparecer! E porque nos dias de hoje é normal comprar DVD e CD na mesma embalagem: [2(DVD)+3,3(CD)]:2= 2,65

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Entulho de Marte (in Underworld #16; Jul'05)

«Música alternativa / porque não é para a maioria / Música agressiva / porque não tem fantasia» VRZ in Matarroêses (Matarroa; 2003)

O Hip-Hop, no meio das pessoas que gostam de Rock é considerado uma merda qualquer de atrasado mental. É um género de música que significa vídeos cheio de rabos de pretas e de letras sobre dinheiro & fama – estranho… e o famoso “Sex, Drugs & Rock’n’Roll” é assim tão diferente!? O facto de um género musical ser conhecido pelo que a MTV nos bombardeia é tão paradoxal como pensar que o Rock equivale a aberrações como os Poison ou os Strokes ou os Puddle of Mud. Que as pessoas conheçam apenas o recente e imbecil The Massacre [Shady / Aftermath / Interscope / Universal; 2005] do 50 Cent, que faz parte de um panteão de deuses (Hip-)Pop, um género inteiro não pode descriminado até porque há também um underground do Hip-Hop. E falo daquele underground constituído por artistas e visionários, de músicos que inovam, que refrescam e que emocionam. Não do underground “estagiários para a fama” como há milhares bandas por ai, que dizem-se “alternativas” só porque ainda não tiveram sucesso mediático e como tal refugiam-se sobre a capa nobre da “marginalidade”.
Tal como o Punk ou o Industrial, o Hip-Hop durante uns tempos deu a entender que seria um novo género com garantia de liberdade criativa máxima (1) infelizmente também foi reduzido a meia dúzia de cânones para as massas consumirem facilmente. O Punk não é Green Day, o Industrial não é Rammstein, nem Hip-Hop é Puff Daddy. Quem já ouviu os clássicos Public Enemy (com ou sem os Anthrax) ou Cypress Hill ou N.W.A. (2) já o devia saber. Considerando que a explosão do “Hip-Hop artístico” já não é mediática e tudo o que ouvimos por ai é Da Weasel a fazer jingle para a MacDonalds ou outros anormais MTV, aqui vai uma pequena sugestão de discos para os audiófilos sem preconceitos.

Anticon label sampler: 1999-2004 [Anticon / Sabotage; 2004] como o nome indica, é um CD que compila várias faixas editadas ao longo da actividade da Anticon, um colectivo/editora de artistas amantes de Hip-Hop e que procuram a liberdade de criação através das técnicas líricas e sonoras deste estilo de música. Neste disco de 80 minutos encontramos letras sobre visões pessoais acompanhadas por uma amálgama de sons que vão por paisagens electrónicas, sons abstractos e/ou quase-industriais, beats sujos. Quase que se pode dizer que estamos perante uma espécie de Folk mutante & urbano onde o Beck não teve coragem de continuar após a fama dos álbuns pela Geffen. Parte do futuro do Hip-Hop enquanto Arte passa por aqui.
Absence [Ipecac / Sabotage; 2004] é o novo CD dos Dälek. É daqueles discos que obrigam um ouvinte a parar de fazer seja o que estiver a fazer para ouvi-lo. Como ler um livro, obriga à concentração de tão intenso que é. Os samples são ruidosos e distorcidos como se tivessem sido retirados das guitarras de Sonic Youth ou do “noise” de Merzbow. As batidas ajudam a absorver o ruído industrial. As rimas/voz também. As letras são sobre uma América sufocada até ao tutano na diferença de classes raciais e económicas [o Michael Jackson ou o O.J. Simpson podem ser pretos e só não foram “de cana” porque… são ricos!]. “Absence” é um monstro sonoro que nos dá esperança na música. Afinal nem tudo já foi inventado, ao contrário ao que os cabrões preguiçosos apregoam por ai como uns alarves. Fodam-se! Aqui, a música é sem classificação a não ser esta: "it grows on you".
Os gajos de Puppetmastaz são feios comó-caraças e o CD de estreia Creature funk [New Noise / Labels; 2003] prova que eles sabem fazer o melhor Hip-Hop em Berlim numa mistura saudável e divertida de "old-school" e "new-school". Isso deve-se às batidas bem sacadas, às várias vozes caricaturais dos MC's, aos samples bem ecléticos que passam por secções de cordas de música clássica, pela música sul-americana (paródia aos Orishas!?) e pelos sons electrónicos, ao humor non sense das letras e dos separadores - ex.: Elvis está a cantar e é interrompido para atender um telefone, do outro lado os Puppetmastaz repetem-lhe a frase «Elvis is shellfish!».
Pelo que ouvi dizer, os mentores deste projecto tocavam em bandas Hardcore e decidiram mudar para melhor, tal é a qualidade da música. Ah! Sim! Resta dizer que os Puppetmastaz são um colectivo de 8 bonecos que lembram os "Feebles" do Peter Jackson pelo aspecto idiota e asqueroso. Estes “Marretas do Hip-Hop” pretendem ser o Nº1 no mundo se os humanos não os tramarem: «Humans get all the credit. They gonna regret it. It was a puppet who said it!». Para todas as idades.
Ancient Termites [Bomb Hip-Hop; 1998] de PhonospychographDISK conta com participações de cromos tão diferentes como o virtuoso guitarrista Buckethead (ex-Guns’n’Roses), o baterista Brain (Primus, Tom Waits), e o baixista Bill Laswell (Material, Painkillers, 500 outros projectos) que curiosamente irão trabalhar mais tarde juntos no fantástico e híbrido Warsawa (Innerhythmic; 1999) como Praxis. Apesar de ser um álbum antigo, só o descobri à pouco tempo, tal como outra colectânea da editora Bomb Hip-Hop, que pelos vistos tem um forte catálogo discos de “scratch” e “turntablism”, ou seja, pegar em dois gira-discos e fazer música misturando ao vivo como quem toca uma guitarra – base de criação instrumental do Hip-Hop dos primórdios. Há cromos para tudo como se sabe, e há cromos bons. Este PhonospychographDISK é um deles, tal é capacidade de recriar os discos usados em novos ambientes sonoros bizarros… para quem gostou do General Patton vs. the X-ecutioners.

«A bastard child of Reaganomics posed in a B-Boy stance
Make our leaders play minstrel, Left with none to lead our people.
How the fuck am I gonna shake your hand, when we never been seen as equals?» diz Dälek (nome do MC e da banda) algures no “Absence”. Acho que resume a distância equidistante entre estes exemplos aqui descritos e o nojo das “starletes” Hip-Hop.


Notas:
(1) O Punk tinha a atitude “não sei tocar mas que sa-foda sei que tenho algo para dizer”, no Industrial idem idem aspas aspas com a vantagem tecnológica ou histórica-artística (colagens Dada, música concreta) de criar novos sons. O Hip-Hop na teoria é algo parecido: o MC diz/declama rimas, o Produtor/DJ pode sacar “break beats” ou “samples” de qualquer registo fonográfico para fazer a música. Para compreender a importância do Hip-Hop aconselho a investigação dos artigos de Rui Miguel Abreu em vários números da extinta (?) revista Op.
(2) Estes últimos com o “Fuck the police” estiveram a um nível dos Sex Pistols quando foi o “God saves the Queen” em 1977.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Morte aos Hippies que não sabem que são Hippies!

Os anos 00's deste novo milénio como se previa foram anos zero em ideias e conteúdos.
O ano de 2008 em especial é o pior deles. É um ano estático e que vive no passado, mais precisamente à 40 anos atrás: comemora o Maio de 1968 mas sem querer mexer muito "na ferida", exuma JFK em Barack Obama (deverei mudar o blogue para OBAMAsecretLOVERS? Será que ele também vai levar um tiro nos cornos?), Jackie O através de Carla Bruni (numa visita a Inglaterra, creio), relembra Hunter S. Thompson sem o ler, e revive o Rock em "template" alternado em Beatles ou na Motown (via R'n'B tal e qual como nos tempos dourados da editora: o produtor é mais importante que os músicos),... mais coisas para repudiar 2008: o mongolismo das artes plásticas é imparável com as eternas revisões dos anos 60 (evitem ir às exposições da Gulbenkian este verão!), na música das tribos urbanas além de tudo parecer mole e criado para agradar o respectivo público-alvo, a única "novidade" é a cena Emocore que parece um “mash-up” de “boy-bands” com Gótico sem aparente agenda política ou significância artística...

Na música dita "alternativa" além de não se apresentar nenhum fenómeno extraordinário parece que impera uma música de carácter progressivo e psicadélico. No Rock inventou-se o Post Rock, Post Metal e a Weird América (bandas Folk/Rock)... Depois ainda há o Dubstep - psicadélico, claro - e o Drone seja ele no Metal ou na Electrónica num estado letárgico de envergonhar os nossos pais e avós de 60's que andaram a lutar por nós para a haver "imaginação ao poder".
Serve este texto "um contra o mundo" para analisar uma série de discos que me chegaram às mãos que conseguem ser catastróficos, não que sejam maus – não poderiam ser, nos dias de hoje só mesmo um info-excluído é que poderá fazer uma má gravação - apenas não acrescentam nada de novo sem se preocuparem com isso.

É o caso dos britânicos The Winchester Club com Britannia Triumphant (Exile on Mainstream / Sabotage; 2008) que vivem no vazio do Rock “ambiental”. Dizem que tocam um Post Rock épico mas só se for no título porque as guitarras em loop e a bateria vulgar só conseguem ser tão aborrecidas como os samples de media de mensagem nula que aparecem aqui e acolá ao longo das 5 faixas do disco - três delas tem cerca de 13 minutos cada uma! O que se pretende aqui? Oh! É simples: Melancolia na admiração da planície com pequenas explosões de som na masturbação clássica de outras mil bandas que repetem os mesmos mil clichés... Podem dizer, e então e aquelas mil bandas de Death que existem por aí, iguaizinhas umas às outras? Bem... pelo menos são barulhentas e pretensiosamente anti-sociais, o mesmo não se pode dizer do Post Metal, que é completamente ajustado socialmente e quer que o público se ajuste também. Eu acho que estes discos deveriam ter autocolantes nas capas a dizer "Parental Advisory: Your kids won't freak out with this album!".

U.S. Christmas: Eat the low dogs (Neurot / Sabotage; 2008)... eis um álbum que só pelo nome idiota da banda não dá vontade de ouvir. Quando vemos que é editado pela "label" dos Neurosis engolimos um sapo. Quando ouvimos o disco até ao fim gregoriamos o sapo! O "template" é... Neurosis! Acrescenta-se a ele um teremin (a lembrar vagamente os sons espaciais de Hawkwind) e pergunta-se porque uma banda tão original como os Neurosis estão a editar clones deles próprios. Seria estranho se não vivessemos tempos em que só um idiota não edita ou qualquer idiota é editado - nada contra este paradigma excepto que cada vez é mais difícil encontrar algo de jeito. Admito que Red Sparowes, Isis e Pelican e afins dão-me sono porque não só encontro nada de novo nestas bandas Mathcore / Post Metal como o registo minimalista repetitivo é "fucking boring", talvez porque há muito que nos EUA o LSD foi substituído pelo Prozac - querem psicadelismo? Não procurem no Ocidente mas sim na discografia infinita como o Universo dos Acid Mothers Temple. Quase dá vontade de afirmar que ao menos no Prog dos anos 70, os Yes sabiam tocar! (Eu sei, deve ter sido a pior frase que escrevi na minha vida)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Aurea Mediocritas

Roubando o nome do blog do Camarada Caldas, eis um "post" de discos que se foram acumulando por aqui nem sei bem porquê... Até sei porquê... a qualidade mediana dos ditos sujos auto-infligiram a sua perdição nas dezenas de CD's que pairam por estas bandas...
Still Alive (Anticon / Sabotage; 2007) do Dj Mayonnaise é uma seca de quem nos EUA não soube do fenómeno da Electrónica dos anos 90 vinda de Viena: batidas Hip Hop com camadas de sintetizadores, scratch pacífico e samples inofensivos que em 1997 ainda poderiam impressionar os incautos. Uma edição que mostra que a Anticon pode ser irregular apesar de ter um DJ com um nome porreiro para uma petiscada ligeira e uma posterior grande cagada - visão tão inevitável como ir parar à secção de segunda mão da Feira Laica, amanhã no Furacão Mitra.

Next, A Whisper In The Noise com Dry Land (Exile on Mainstream / Sabotage; 2007) é melancolia gótica sem de termos de pensar em vampiros e brumas mas mais próximo de um "Gótico Americano" na Era da Informação. Soa bem para um dia de Inverno porque cheira a erva molhada e bostinha ainda quente despejada pelos animais de uma quinta próxima. Os pianos suportam as vozes Xanax e o Rock minimalista ao longo 54 minutos gravados pelo Steve Albini. Tempo mais que perfeito para um álbum "light" para quem gosta de de depressão desfocada. Tudo certinho como é normal nestes tempos de "standards" que vivemos - excepto a explosiva música Sons (a faixa 6 - sempre a faixa 6 a melhor dos discos!) que soltam-nos da letargia. Acho que ainda ei-de ouvir este disco num dia mais calmo... só para ter a certeza que ele não é assim tão desprezível porque de vez em quando, eu sei, eu sei..., sou um bocado estúpido. Depois digo-vos algo, se me lembrar!

Por fim, som Black pela dupla Yes King via Rock This World (Grand Central / Time Warp; 2008). Uma cena tão manhosa como as estórias envolta das editoras que sustentam este disco - faliram porque não pagaram "royalties", no mundo "online" não se encontram as referências certas, enfim, quase que cheira a Casablanca. Depois é dezenas de participantes, alguns conhecidos como Dawn Penn outros novos talentos como Ayak que mais parece uma compilação de R'n'B, Dancehall, Hip Hop, Dance e Reggae para MTV mostrar. Uma faixa ou outra até não são más mas no global leva-me a perguntar como é que isto veio cá parar... Não tenho mínima ideia! Mas sei perfeitamente onde irá parar... Até amanhã!

domingo, 22 de outubro de 2006

On the count of ten, you will be in Europa












Flat Earth Society: "Trap" (Zonk / Sabotage; 2002)
Kaada: "Music for Moviebikers" (Ipecac / Sabotage; 2006)

Duvido que esta sociedade seja quadrada como a outra embora a ideia de uma big band seja coisa do passado. FES é um grupo belga da parte flamenga que explode de som pelos poros, tantos danos deve ter feito ao vivo (conta a lenda) que convenceu o Mike Patton a editar um "best of" dos seus 4 álbuns esquecidos na Europa, Isms (Ipecac; 2004) - embora deva admitir que esta banda fizesse mais sentido na Web of Mimicry... Em esquizofrenia e energia (zappaniana, bungleana, pattoniana?) há aqui um bocadinho de tudo para todos os gostos: swing, free, mambo, cabaret fumarento da 2ªGG, cha-cha-cha, lounge mais qualquer coisa embrulhado no respeitável formato do Jazz. Nada de electrónicas e afins, a atitude é mais do tipo, ou sabes tocar ou vais para casa... [4; podia ser melhor se não tivesse a voz da gaja - que mania de por sopeiras a cantarem nos combos de Jazz]
...
“I wanted to find a title that described the fact that this was cinematic music. The alternatives were Music for an Imaginary Film, which was too cliché, Accompaniment to a Cinematographic Scene sounded too pompous and another idea was Fake Film, Real Music, which sounded stupid. Music for Moviebikers was a good fit.” - Kaada

Conhecido pelas bandas sonoras de filmes na sua terra-natal, a Noruega, Kaada foi dado a conhecer ao mundo via Mike Patton e a sua Ipecac em Thank You for Giving Me Your Valuable Time (Ipecac; 2003), uma "vintage sample extravanganza" bastante viciante e refrescante, um dos melhores álbuns de 2003! Uma via que foi desviada no álbum seguinte com Patton, Romances (Ipecac; 2004) e que agora foi cimentada com estas "falsas bandas sonoras", em que os samples também são abandonados por uma verdadeira orquestra de instrumentos de cordas, sopro ou outros instrumentos como o saltério ou o dulcitone, onde há coros, assobios, recitais. A música é composta por Kaada mas executada por 22 elementos e dirigida por um maestro - Baldakhin. As coordenadas sonoras são dadas por Tom Waits, Yann Tiersen, Ry Cooder, Ennio Morricone e outros que não me lembra agora, sem nunca se chegar a momentos épicos ou estridentes. Todo o percurso deste "filme" é realmente feito de bicicleta pelo campo com chuvinha a tombar incessantemente. Estamos no fim do verão no norte da Europa e a caminho do doloroso Inverno.
Cheira, de facto, a filminho europeu subsidiado pelo Estado para só meia dúzia de almas sensíves verem. Não que eu seja contra, não que eu ache mau o "filme". Só tenho pena é que raro, na Europa destruída pelo betão e neo-liberalismo, encontrar um campo para passear de bicicleta à chuva miudinha, ou pior, que se encontre tempo para poder fazer isso. Talvez uns jovens universitários possam fazê-lo, escapando às aulas inúteis. Que efeito inverso que esta música bonita me faz! [4; para o ano escuto outra vez, por que raios a embalagem teria de ser tão sui generis]

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Entulho de Marte (in Underworld #17; Out'05)

«And let us never forget that the human race with technology is like an alcoholic with a barrel of wine» - FC

Tudo estava inventado como música (Noise, Dub, Reggae, Rock, Metal, Electrónica, Jazz, Hip-Hop,…) quando saiu Scum (Earache; 1987) dos Napalm Death e sem ninguém saber eles decretaram a morte da música ao demonstrar que era possível fragmentá-la em pedaços minúsculos – não é à toa que haviam digressões da editora Earache intituladas “Campaign for Musical Destruction”. Bem… a música não morreu e na realidade o que aconteceu é que o Grindcore acabou por inspirar uma nova vaga de compositores e bandas como John Zorn que inclusive chegou a trabalhar com um dos cabecilhas dos Napalm, Mick Harris nos Painkiller.
Dada à volatilidade da cena, Depois Napalm Death, a própria banda tinha de se desintegrar (1) e a música ficou a lamber as feridas, passando à fase de redundância como é normal em qualquer situação de ruptura: segue-se um período de adaptação e absorção. Num mundo narcotizante como o nosso já quase nada nos (co)move de tão fartos que estamos de tudo, regredimos a um estado de consumismo estéril em que mastigamos tudo o que já foi vomitado há anos porque assim é mais reconfortante. “Revival” atrás de “revival”, “comeback” atrás de “comeback” assim tem andado a última década da música urbana. Nem interessa se o concerto dos Queen não tenha o Freddie Mercury e não passe de um show de karaoke, qualquer merda serve! Isto para chegar a Conspiritus (Earache / Megamúsica; 2005) de Ewigkeit, um disco idiota da mesma editora que durante nos fodeu os ouvidos com géneros tão extremistas como Death, Industrial, Grind e até Gabba… Ao que parece o Rock Progressivo está a voltar – claro, o que há mais para fazer revivalismo? - ora com exumações de corpos antigos ora com novas gerações de músicos, estes últimos ou com ideias de 40 anos ou outros mais inteligentes com novos artefactos para explorar como o “drone” em que os sunn O))) serão a figura de proa desta vaga.
A verdade é que o Prog nunca esteve morto sobretudo no Metal que pegou no seu legado de instrumentações virtuosas ou de imaginário freaky: lendas épicas, mundos imaginários, histórias longas que aproveitam o formato de Longa Duração – os famosos álbuns conceptuais. E se houve que fizesse um bom trabalho como Atheist (recentemente reeditados), Cynic, Tool, Meshuggah e o seu recente Catch 33 (Nuclear Blast; 2005), não esquecendo o álbum a solo do seu guitarrista, Fredrik Thordendal's Special Defects: Sol Niger Within (Nuclear Blast; 1997) e Theory in Practice, ou ainda bandas Indies-Pop/Rock como Radiohead (últimos discos); também houve quem tivesse posto a pata na poça, ou seja os marmelos que fizeram a colagem ao Heavy antigo dando num híbrido tenebroso, o Power Metal – acreditem que nem vale a pena fazer download de coisas como Dream Theather para tirar as dúvidas! Perdi-me outra vez! Isto por causa de Ewigkeit, um projecto de inspiração pinkfloydiana tão útil como berlindes durante uma cópula entre dois rinocerontes, que faz música sintética e melódica até à medula. Mistura Electrónica e Rock Pesado com uma valente piscadela aos Killing Joke e aos terrenos abordados pelos My Dying Bride em 34.788%... Complete (Peaceville; 1998). Ewigkeit é assim tão mau? Infelizmente sim! Porque apesar não ser muito foleiro em relação a outros discos do género continua a ser um produto de fácil consumo de tão bem feito e orelhudo que é. É de um Metal modernaço e só deixa tudo a perder quando usa um Folk à la New Age na música Theoreality conseguindo assim mostrar o mau gosto do seu compositor - isto para não falar da capa foleira feita por arte digital. Então qual é a solução? Afundar o Prog para entranhas do Inferno de onde nunca devia ter saído?

Os nomes para os “géneros” de som irritam-me! A principal razão porque criam barreiras que nos impede de ouvir uma banda só porque é… (ex:) Prog. Devo admitir que nunca quis ouvir Prog por uma espécie de preconceito Punk (2). Ainda dei o benefício da dúvida escutando um disco de Genesis ou outro… Que horror! Como é possível ter havido uma cena tão pretensiosa como esta!? Por coincidência cósmica não foi só Ewigkeit que me chegaram às mãos mas mais outros 3 discos que me abalaram o sistema – podiam ser eles definidos por Prog? Fiquei curioso em saber o que era realmente este género, vesti a gabardina de detective musical e fui a uma loja especializada - na Calçada do Carno (3). Lá comprei um CD dos Magma que já tinha ouvido falar por gente insuspeita como o Jello Biafra (na revista Re/search #15). Infelizmente só havia um Live (Charly; 2001) de 1975 mas com um bom som de gravação. Os Magma são franceses, criaram a sua própria língua que cantam (o Kobaïan), são instrumentalmente sombrios buscando estruturas da música clássica e fusão. É operático mas não histérico, o que é bom. A faixa inicial tem meia hora mas ouve-se bem… Ok! ‘Tou convertido! Terei mais calma de futuro e prometo ouvir melhor os dinossáurios! Especialmente estes tipos que criaram um subgénero, o Zeuhl (que significa em kobaïano “celestial” - mais uma razão para não gostar de rótulos não é?) que inspirou bandas japonesas como os Ruins.
Entretanto ficam aqui as “pérolas” que me baralharam tanto:

I.
A mirror is a window’s end (Beardhead; 2005) é composto por 3 músicas quase todas de 10 minutos e trata-se do EP de estreia dos alemães Beehoover que são apenas 2 gajos: I.Petersen (voz, baixo) e C.-P.Hamisch (bateria, voz). Os temas são complexos, um Rock pesadão como se os Clutch estivessem a fazer versões dos Kyuss na garagem. Denso e atmosférico (sem ser “ambiental”) é de referir o som torpe do baixo modificado de Petersen que substitui completamente o som de guitarra. Um nome a reter no futuro. [www.beehoover.com]
II.
Por falar em duos, foi lançado o 4º disco de Orthrelm: OV (Ipecac / Sabotage; 2005). OV é um tema de 45 minutos em que se repete o mesmo riff de guitarra Heavy ad eternum et ad nauseum (de Mick Barr) com uma bateria (de Joshua Blair) a acompanhar. A guitarra lá pára de vez em quando (a primeira vez é aos 22 min.) para pequenos delírios de percussão. Se o Prog nos anos 70 foi buscar o sentido erudito da Música Clássica ou do Jazz para aplicar ao Rock, então os Orthrelm mantêm essa linha pois o que está aqui é a música minimalista desenvolvida por Tony Conrad. Por isso eles são o “refresh” do Prog, longe do barroco pindérico da orquestração e perto do conceptualismo da Contemporânea e usando as franjas técnicas do Metal e da Música Improvisada. Não é fácil ouvir este disco mas que é uma importante experiência sonora lá isso é.
III.
Sleepytime Gorilla Museum Of Natural History (Web of Mimicry / Sabotage; 2004) não é só mais uma banda vinda da família Mr. Bungle apesar de serem lançados pela editora de um elemento dos Bungle ou por serem mais um bando de multi-instrumentalistas sem preconceitos. Tematicamente ou instrumentalmente poderá satisfazer fãs de Secret Chiefs 3, Einstürzende Neubauten, Skeleton Key (há um membro em comum), Death in June, Diamanda Gálas, Ministry, Gentle Giant (uma banda Prog dos anos 70) e mais 1001 coisas. Álbum dedicado ao “museu de história natural do gorila adormecido” que “estuda” a evolução da humanidade e dos invertebrados. São desenvolvidos temas apocalípticos do confronto entre manifestos belicistas dos Futuristas italianos e os anti-progressistas (passe a ironia) do último anarquista do século passado (Unabomber e o seu consanguíneo Freedom Club). A embalagem é acompanhada por resumos desses manifestos, um ensaio sobre entomologia e várias imagens de emulação humanos/invertebrados. Estamos perante um álbum conceptual. Este facto e a complexidade das composições obrigam-nos a defini-lo como Rock Prog por muita confusão que isso poderá fazer aos puristas. Um disco poderoso e conquistador.



(1) A maior parte dos membros seguiu carreiras em intermináveis projectos bastante diversificados (Metal, Industrial, Dub, Improv), alguns inventivos (Godflesh), outras menos (Cathedral) mas sempre de alta qualidade, deixando os Napalm numa banda “oca”, ou seja sem coisas “novinhas em folha” para dar em que tal como os Rolling Stones (vestidos de t-shirts e calções pretos) é preciso vê-los pelo menos uma vez na vida!
(2) Punk que é Punk NUNCA ouve balofos dos anos 70!
(3) www.progcds.com para quem não gosta de sair de casa. Também organizam um festival de Prog em Gouveia lá para a Abril.