domingo, 30 de janeiro de 2005
Guantanamo questionnaire : Stealing Orchestra
Dois álbuns editados, três EP's lançados na net, remisturas para projectos tão diferentes como Holocausto Canibal, Mão Morta, ou Legendary Tiger Man, é assim o historial dos Stealing Orchestra. The incredible Shrinking Band foi, sem dúvida, um dos álbuns nacionais de 2003. Este ano a sua actividade passa pelo EP Bu, o qual inaugura a "netlabel" de nome irónico: You Are Not Stealing Records [entretanto em baixa, desactivado?]. Eis o maestro João Mascarenhas.
Como estão a correr os downloads do "Bu"? Estão a correr muito bem. Temos um novo website [www.stealingorchestra.com] com uma parte de estatística na administração tão porreira que permite ver de que países tivemos visitas. Temos Portugal e Estados Unidos empatados em primeiro e lá no fundo países como Vietnam, Marrocos, Lituania, Bulgária, Nigéria... países que nunca esperei que nos viessem visitar. Mas a verdade é que com a netlabel e os contactos que fizemos lá fora o EP circulou bastante. Ainda por cima o espaço do website foi oferecido por um fã da banda e os mp3 estão num servidor americano que fornece espaço a netlabels, o archive.org. Daí que, mesmo que ande com pouco tempo para a netlabel, as coisas correm bem sem precisar de me mexer muito. O mês passado um amigo disse-me que viu uma revista espanhola em Barcelona que escolhia a You Are Not Stealing Records como a netlabel do mês, o que tendo ainda apenas 2 EP's me deixa espantado.
E tens reacções escritas / por e-mail do pessoal que tem sacado os EP's? Algum tipo da Nigéria já te escreveu? ;) Por e-mail tive reacção de pessoas dos Estados Unidos e França por exemplo. Todos me asseguram que gostaram tanto que mostraram a amigos e que lá na zona onde eles vivem já dava para encher uma casa para um concerto. O que é sempre bom de se ler, no entanto, nem cá em Portugal estamos a dar concertos para já. Mas.. a ver vamos onde isto vai parar. O Fernando está neste momento com os X-Wife nos EUA, daí que só faltava eu e o Gustavo metermo-nos num avião ao lado dum terrorista e irmos para o país das oportunidades.
Já tens ideias para mais EP's para download ou já se prevê um novo álbum? Novo álbum é muito cedo.. a média tem sido 3 anos para fazer um álbum, o que quer dizer que provavelmente só em 2006. Mas até lá vai haver muitos EP's a sair pela netlabel, tanto de Stealing Orchestra como projectos individuais nossos ou com/de amigos. Na netlabel sempre de borla. Só me mete um nojo desgraçado estarmos a oferecer as músicas às pessoas gratuitamente e saber que elas ao passarem em algum lado tipo rádio, TV ou bar... vão pagar a taxa aos ladrões da SPA. É uma nojeira termos instituições que roubam os portugueses e com o apoio do estado. Vê lá tu que até um Cine-clube mesmo que sem fins lucrativos que passe umas musiquinhas no intervalo dos filmes, tem de pagar à SPA. Morte na maior agonia possível, é o que desejo a essa gente.
Percebo... uma das vezes que fiz de DJ foi num bar do interior - já agora, o bar Oráculo em S.Romão / Serra da Estrela - e a preocupação maior do dono era pagar os 8 contos à SPA e não fazer a lista das obras / músicas que passei nessas noites - por acaso até passei umas duas de Stealing. É que se chega lá a inspecção e a licença não estiver paga, eles podem multar e confiscar o material de som. Uma vez que o bar tem uma onda diferente (numa zona como aquelas) já tem os seus n problemas e não quer saber da lista dos temas passados para nada. Mas a verdade é que a SPA não fornece o formulário para executar essa lista, ‘tão-se a cagar, querem é o guito! Desculpem o desabafo! Mas se estás chateado com isso não estás com o facto de poderem sacar gratuitamente a tua música, como "planeias viver da música"? Que é o principal problema destas questões da música gratuita, e também arma de arremesso dos “proibicionistas”... Até agradeço o Desabafo, cada vez vejo mais pessoas enojadas com a SPA. É daquelas coisas que a União Europeia tem de acabar. Têm de acabar estes escândalos como a SPA e o IGAC, que cobra uma percentagem por cada DVD ou VHS vendidos em Portugal. É dos poucos países do mundo a ter isso, se não o único. E o dinheiro é pura e simplesmente para eles. Não tem utilidade para os portugueses, no entanto andam a roubar-nos e tal como a SPA, com o apoio do Estado. Quanto a viver da música, eu não quero ganhar dinheiro com a venda de discos. Eu sempre fiz outras coisas. Não posso nem imaginar viver deste tipo de música num país como Portugal. Mas há outras formas de ganhar dinheiro e a música pode ajudar-me chegar a elas. Como banda, ganha-se mais a tocar ao vivo, e um disco é promoção. De borla ou pago, a banda ganha sempre o mesmo com a venda dum disco - nada. Mas nada foi o que paguei por fazer este EP, daí que enquanto pudermos fazer EP's de borla, em casa ou em estúdios de amigos, eles podem ser de borla na internet.
Isso é Punk! Que eu saiba não tens um passado Punk mas sim Industrial, falo do projecto Hardware que foi o teu começo na música, fala um bocado sobre isso… A banda que me fez começar a fazer música electrónica foi Young Gods quando tinha uns 15 anos. Nessa altura ouvia muitas merdas industriais como Test Dept., SPK, Skinny Puppy, Nitzer Ebb, Front 242, Ministry... e como qualquer puto normal fiz o que aqueles que eu admirava faziam. Mas olha que quanto ao Punk, deixa-me dizer-te que a minha primeira banda era Punk. Qualquer músico dos que faz apenas o que gosta tem de ter começado por uma banda Punk, foda-se! É o mais básico e simples. Mas ao mesmo tempo era fã dos Pogues, daí que pegar no acordeão do meu avô e começar a aprender foi um passo. Hardware apanhou uma fase em que já ouvia também muito Heavy-Metal e as primeiras cenas de Techno. Hardware se te lembras era uma mistura de Metal com Techno, Electrónica com voz Death. Um disparate, mas era o que eu curtia nessa altura... devia ter uns 17 ou 18 anos.
É a tua opinião... eu fui dos poucos que teve acesso aos Hardware e achava fixe. E como foi a transição para os Stealing? E como integras o acordeão nos Stealing - uma banda essencialmente de samples? Depois de Hardware ainda experimentei Jungle que mais tarde se veio a chamar Drum'n'Bass quando se tornou numa moda. Em pouco tempo percebi que a minha cena não é tanto o ritmo mas mais a melodia. Stealing Orchestra apareceu ao samplar uma guitarra acústica de Grant Lee Buffalo e mistura-la com a voz num pitch lento da Dolores Pradera e com uma batida meia Hip-Hop, que deu origem à música “Mujer”, a primeira de Stealing. Senti que tinha descoberto o meu som, a minha identidade musical. O facto da batida ser Hip-Hop nada tem a ver com o que marca a sonoridade da banda. Mas tinha descoberto o conceito ou o molde. Stealing usa realmente muita samplagem para chegar onde quer, mas não deixa de haver muito trabalho de guitarras, bateria e acordeão, dependendo dos temas. Acordeão era o instrumento que eu gostava e sabia tocar e que era perfeito para a sonoridade que queria fazer e mesmo antes de começar a toca-lo por cima de músicas, já o tinha usado samplado (de Astor Piazzolla) nos primeiros temas. Isto antes dos merdosos dos Gotan Project. Sabes, as vezes não é tanto o ter-se sido pioneiro em alguma coisa, o que provavelmente não aconteceu da minha parte, mas é mais gajos como esses Tanga Project fazerem tanto alarido de uma merda de nada que toda a gente os come como grande cena. Depois é só uma questão de tempo até toda a gente dizer "bah. afinal aquilo é xunga". Já me estou a perder, que se fodam os gajos!
“Don’t believe the hype” já diziam os Public Enemy. Realmente existe um público nacional muito otário, que come uma série de merdas pseudo-cosmopolitas. Deve ser por uma questão de complexo de inferioridade que essas pessoas engolem “Gotans” para se mostrarem que também são “cidadão do mundo”. No início até pensei que os Stealing faziam parte dessa onda de Electrónica “clean” e asséptica. Entretanto que a vossa atitude não é a electrónica pela electrónica só porque “gamam” sons mas mais pela amalgama de sons como uns Mr. Bungle, End, Secret Chiefs 3… Mas como estas bandas tem sons mais pesados os críticos acham feio comparem-vos com elas. Queres aproveitar para nos dares referências de arrepiar? Já sei que fizeste uma versão de Marco Paulo, tens singles de Quim Barreiros, vá conta o que mais de tenebroso tens nos teus caixotes e estantes… Se há coisa que Stealing não é uma cena clean e asséptica ou robótica e fria. A amalgama de sons não tem que ser vista peça a peça, ou como uma soma de partes, o que interessa é apenas o resultado, o todo. É como um quadro de uma gaja nua feito com rebuçados, papeis, arames, moedas, etc... isso é a técnica mas o que tu vês é uma gaja nua. A soma de todas as sonoridades que juntamos resulta na nossa própria sonoridade, é apenas essa que nos interessa. Cabe à imprensa descobrir o que ali está, se quiser. Normalmente somos associados a bandas que não gostamos ou nunca ouvimos falar. E realmente das bandas que aí andam das poucas com que temos ligação é mesmo Mr. Bungle, Fantomas, Secret Chiefs 3 e depois coisas como The Lonesome Organist ou A Hawk and a Hacksaw.
Não tenho singles do Quim Barreiros mas tenho uma data deles do Marco Paulo. É uma das colecções parvas que faço, singles xungas com capas ridículas, e o Marco Paulo tem muitas. O disco mais parvo destes de música popular portuguesa é de um gajo que toca acordeão. É um disco musical e “spoken word”. Começa um juiz a contar a história dum gajo que matou a mulher e que com a emoção perdeu a fala, daí que vai usar o acordeão no tribunal para responder às perguntas do juiz. "Qual a sua nacionalidade?" e o gajo toca o hino nacional, e por aí fora com todos os fadinhos e cançonetas cujo titulo vai dizendo o nome, idade, etc… até no fim revelar que lhe tinha posto os palitos.
Enquanto o novo álbum e novos EP’s não saem, o que os Stealing tem remisturado nos últimos tempos? Para já há planos para um projecto do Gustavo (baterista) chamado Sweet Monster em EP. E mais outro EP com as primeiras musicas de Stealing. Mixes fizemos do Legendary Tiger Man e estamos para fazer uma dos Norton. Mais tarde vai haver mais EP's de outros projectos e vamos voltar aos concertos.
segunda-feira, 14 de agosto de 2006
all gone from V to X
Looking for stars
Your imagination
CD 2002 · Bor Land
Dois discos antológicos de nova música portuguesa: O 1º reúne 5 bandas representadas com 3 músicas cada. São elas: Old Jerusalem, Alla Polacca, Polaroid, Boiar e Abstrakt Circkle, todas elas ligadas ao Pop/Rock inteligente. As três primeiras bandas estão próximas das vertentes Folk/Alt.Country e Indie-Pop, já as duas últimas são mais difíceis de rotular pois divagam em atmosferas Jazz misturadas com Pop/Rock dos gloriosos tempos da MMP em que não havia vergonha em misturar qualquer tipo de sons para o melhor e para o pior: Pop dell Arte, Mler Ife Dada, Ocaso Épico, Lucretia Divina, Repórter Estrábico... Acho as primeiras bandas menos interessantes mas são as mais bem produzidas e confiantes mesmo quando copiam modelos óbvios. Um exemplo paradoxal, o tema "Geonav" dos Alla Polacca parece mesmo um inédito dos Radiohead (entre o "The bends" e o "OK Computer"), uma réplica tão perfeita que (até) soa bem - eu sei, é uma heresia... As últimas duas não parecem nem confiantes nem bem produzidas, o que é mesmo uma pena pois tem um imaginário maior! 2º disco, 12 faixas, 12 bandas: Bildmeister, The Unplayable Sofa Guitar, Old Jerusalém, Bypass, Alla Polacca, Wave Simulator, Boiar, Zoë, Dead Sea Israel, Stealing Orchestra, Polaroid e Moving Coil ou seja mais Folk/Alt.Country e Indie-Pop lamechas tirando os excelentes Stealing Orchestra (com uma faixa homónima da estreia "Stereogamy"). Acima de tudo o que se pode admirar destas bandas são as suas capacidades de composição e desconcertante intimidade exposta aos "receptores". E por falar em intimidade, esta é a linha editorial da Bor Land - basta olhar pelo minimalista design dos seus discos. Já não me lembro bem onde li o slogan da Bor Land mas era algo do tipo "não é por gritares alto que vais conseguir o que queres"... uhm... acho que era isso... uma piada às bandas do Metal!? 3 e 3,5 respectivamente
V/A: Matarroêses CD 2003 · Matarroa / SóHipHop
Colectânea do clã Matarroa, isto é, a Matarroa é um colectivo e uma editora de Hip-Hop com base em Matosinhos cujo o trabalho editorial tem sido exemplar. Sendo mais um lançamento (o terceiro) da Matarroa só vem confirmar o que a Matarroa pretende:
«Música alternativa porque não é para a maioria Música agressiva porque não tem fantasia» [in "Música Alternativa" por VRZ]
É certo que falamos aqui de Hip-Hop mas é um Hip-Hop bem produzido, bem trabalhado, consciente e inteligente, neste caso especifico este disco é um excelente catálogo das várias tendências do Hip-Hop suficientemente eclético para não enjoar: luta desgarrada de palavras entre MC's ("Yoko vs IP" por Yoko-Zoona & Inspector Mórbido), frases em velocidade desfreada ("Expansão suspeita" por Nokas), fusões com Reggae'n'Ragga (duas faixas por Bezegol) e Allah Drum'n'Bass (com o Fuse), letras com ligeira pronúncia africana e/ou divertidas ("A conspiração dos moskitos inofensivos" por Ikonoklasta), um instrumental "cool" (por Buster Bitz)... tudo razões para sentirmos que estamos a descobrir uma nova cidade musical, um El Dorado... em português! 3,8
V/A: Portuguese Nightmare, a tribute to the Misfits CD 2005 · Raging PlanetNão contem comigo para falar de discos que servem para fazer guita à pala de nomes famosos por parte de bandas obscuras. E é o caso deste disco? Por um lado acho que o sistema “associação a nome famoso para promover os que não são” é o que se passa por aqui mas por outro há aqui um estranho magnetismo, tão estranho como era o dos Misfits – uma banda medíocre mas com um carisma tão forte que se tornaram incontornáveis. E é o que se passa aqui, as bandas portuguesas são o que são (médias ou boas mas nunca brilhantes) mas conseguiram apanhar o brilho maléfico dos Misfits cada uma ao seu género: Core diversificado (Easyway, Simbiose, Day of the Dead), Metal pesadão (Decayed, Grog), Rock variado (The Temple, Capitão Fantasma, No-Counts D.O.M.), Nu-Goth (Cinemuerte, [f.e.v.e.r.]),... colocando a compilação numa confortável situação de que é possível unir (quase) todas tribos num bom disco. Destaco Mata-Ratos e Dead Combo (apesar de não gostar das bandas) por terem tido os tomates de fazer as versões em português (“Sementes do ódio”, “Hate Breeders” no original) e em instrumental (“Angelfuck”), respectivamente. Outro destaque para D’Evil Leech Project (uma violência de Extreme Metal!) e TwentyInchBurial – sem dúvida a banda com o binómio groove/peso mais equilibrado na cena Metalcore portuguesa e a confirmar que versões é com eles! Resta saber quem são os psicadélicos Octopus in the Fisherman’s Style – já que não se canta em português ao menos que se brinque com a língua inglesa... 4,2
v/a Summer One DVD 2005 · Metro Discos
Os tipos da editora Metro não nos enviaram o último CD dos excelentes Bizarra Locomotiva (quando até havia uma entrevista a esta banda no último número), mas enviaram um DVD de Surf! Que fixe! Que bom ver uma hora de homo-erotismo desportivo: betinhos em tronco nu, ondas a rebentar como uma ejaculação gigante do Rei Mar, rapazes bronzeadinhos a fazerem gestos obscenos com os dedões das mãos porque falharam uma ondita. O que aconteceu àqueles vídeos de Surf em que as melhores partes eram aqueles cortes de poucos segundos com gajas boas e enjoadinhas e de rabos bem queimadinhos? E de maminhas redondinhas? Ah! Este é o primeiro DVD de surf português com banda sonora só de bandinhas portuguesas, cujas músicas nem sempre se ajustam às imagens - nada de escandaloso, maus são os separadores digitais. Temos Rock electrónico, pós-Grunge, Nu-Metal, Funk, Dub num ecletismo saudável e atletismo participativo dos Braindead, Blasted Mechanism, Mofo, Tendrills, Anger, Rollana Beat, More República Masónica, Cool Hipnoise, e (oh, não!) Blind Zero (a banda mais azeiteira de sempre?). Pergunta-se porque não estão os Dr. Frankenstein – a banda surf!? Bem, pelo menos não estão aquelas bandinhas de Hardcore melódico, ufa! 2,7
V/A: Superfuzz - o.s.t. CD 2005 · Lowfly
A LowFly lançou mais uma colectânea, desta vez uma selecção de 26 temas de Retro-Garage-Rock’n’Roll-Punk-Blues-Surf escolhida pelo “Paiva” em pessoa! Conceito inédito, pelo menos em Portugal, uma vez que o “Paiva” é uma personagem de BD publicada no Blitz, da autoria de Esgar Acelerado e Rui Ricardo (actualmente desenhada por João Maio Pinto que colabora aqui no Underworld). Ok! Na verdade quem escolheu Dirtbombs, 5.6.7.8’s (sim, as japonesas do filme Kill Bill!), Monkeywrench, Knockout Pills, Act-Ups, Dr. Frankenstein, Insomniacs, Legendary Tiger Man entre outros foram o autor Esgar Acelerado e o editor da Mondo Bizarre, Hugo Moutinho. Curiosamente o disco cheira a “disco de oferta” desta revista (não digo isto como má língua!) pois 90% das bandas costumam flutuar por lá. A excepção a isso e a quase tudo no mundo (este sim um evento inédito!) são a estreia de Garina Sem Vagina, uma banda que existia... na BD. Cheira-me a piada dos autores! Já agora, “elas” soam a Surf Rock. Por fim, e mais uma razão para comprar o disco, a editora oferece uma impressão offset limitada de 1000 exemplares, numerada e assinada por Rui Ricardo. 3,7
VIVE LA FETE Grand Prix CD 2005 · Surprise / NTM
São 4 e meia da manhã, a festa cá em casa já acabou… Olha, chegaram os meus primos emigrantes… vêm da Bélgica e estão cheios de pica. (eu queria era pelo menos tirar as garrafas do quarto)
Os cabrões puseram uma cena qualquer na aparelhagem e estão a dançar aquela porra…
- “O que estamos a ouvir? (tosse de excesso de nicotina) Alguém tem um cigarro?”
– “É uma banda d'um gajo dos dEUS”, responde-me a Antoine Vanessa.
– “Ah!” (amanhã tenho tirar os vidros partidos por detrás do frigorifico) ... Foda-se! Quando é que eles se vão embora? E levam esta treta Electro-pop? Não tem a ironia fun & lo-fi dos Stereo Total (que os meus primos emigrados na Alemanha deram-me a conhecer), não tem a escatologia ou o carisma da Peaches, nem a estética lesbian-chic da Miss Kittin, nem… nada. (porra, quem é que vomitou no bidé!?)
E esta voz da gaja da capa (que a estas horas da manhã parece boa comó-milho!) viola as figuras da Brigitte Bardot e da Jane Birkin,… os anos 80 nos países francófonos devem ter sido um pesadelo como está a ser agora! Não admira que queiram meter fogo naquela merda... (Claro, alguém tinha de apagar os cigarros nos copos e nas canecas)
– “MALTA, C'EST FINI! A FESTA ACABOU!!!”
2
WHITE STRIPES Get Behind Me Satan CD 2005 · Third Man / XL / Pop Stock
O que posso escrever mais do que aquilo que já foi escrito sobre o último álbum dos White Stripes? Todos já sabem que não é um álbum típico de quem conquistou o planeta inteiro e a discoteca da província com o tema "Seven Nation Army". O que estamos presentes é o princípio que o duo sempre defendeu e pelo facto de serem umas estrelas mundiais não os tirou do caminho, ou seja, de provar que se pode fazer boa música sem mega-produções. O duo conhecido por só usar voz/guitarra/bateria ama a sua raiz musical norte-americana saltita pelo Blues e pelo Rock só que desta vez e contra a lógica comercial estão menos Blues e menos Rock pois vão alternando com um piano que soluça Ragtime. Para completar à riqueza musical ainda há triângulo, marimba e sinos. Este disco é como um delicioso Hambúrguer cada vez mais cheio de ketchup e outros molhos. O que não deixa de ser um "Hambúrguer White Stripes" nem de ser delicioso. Os não-irmãos-incestuosos são inteligentes. Se venderam a Alma ao Diabo, negociaram-na muito bem. Devemos afastá-los das prateleiras dos "sons retros" que nos empestaram nos últimos anos e também do "mais do mesmo". 4
WHY? Sanddollars the EP CD-EP 2005 · Anticon / Sabotage
Quando 'tou na fila para pagamento no Mini Preço há sempre uns expositores com coisinhas para levar, como embalagens de fritos-chamados-Doritos-sabor-Tex-Mex. E eu, consumidora como outra pessoa qualquer muitas vezes levo um pacotito. Quero dizer com isto que este EP do Why? tem de algo de Tex-Mex? Sim, mas só se for daquelas embalagens pequenas porque estamos perante um EP só de 20 minutos e 31 segundos que sabem a pouco e obrigam-nos ao "replay" - como os tais Doritos-sabor-Tex-Mex: ficamos viciados logo na primeira trinca daquela merda e não descansamos enquanto não acabarmos a embalagem toda como se fossemos uns animais! Why? sempre foi o artista mais "Pop" da Anticon, editora / colectivo de Hip-Hop alternativo (ver Entulho de Marte in Under #16) e com este EP que antecede o disco "Elephant eyelash" faz a sua grande viragem. Hip-Hop aqui? Aonde? Há restos deste género de música lá no fundo (da embalagem de Tex-Mex?) no uso das técnicas de Hip-Hop: samplagens, uso de beats, forma de cantar mas o que temos mais aqui é Indie-Pop/Rock (da boa!) acompanhada quase sempre de piano. É também um disco que Why? deixa de ser Yoni Wolf para passar a ser Yoni Wolf e mais 3 gajos. No fim do disco, depois de desistir de procurar o "HipHop" vamos encontrar grandes canções inteligentemente fabricadas sobre uma esquecida Miss Ohio, perdedores vários, a vida mundana, o quotidiano melancólico. Empacotado em brilho humano, como poucos ainda o fazem. Será a embalagem grande (o disco "Elephant eyelash") tão boa como esta mini-embalagem? No próximo número do Under alguém dirá... 4,1 assinado como Axima Bruta
WIRE The Scottish Play CD + DVD 2004 · Pink Flag / Ananana
Afinal esta edição é um DVD ou um CD? É difícil de adivinhar, por um lado temos um CD áudio com o concerto de 30.04.04 no festival Triptych (Glasgow) e por outro temos um DVD (muito simples) que também reproduz esse mesmo concerto (com imagem, claro) e ainda excertos de outro dado a 26.04.03 no Barbican (uma espécie de CCB de Londres) com uma excelente instalação de Es Devlin. A propósito disso, a banda está separada em quatro salas no palco, de frente (viradas para o público) são projectadas imagens – as mais impressionantes são as ampliações de partes das caras dos elementos da banda: nariz, olho, boca – enquanto a banda debita o seu high-energy Rock mesmo quando a média dos membros da banda deve ser igual à idade do meu pai. É pena que se fique pela típica imagem de gajos a tocarem, o que no caso dos Wire ainda é pior dada à sua mítica distância com o público. Aparte: nunca percebi lá muito bem porque o pessoal curte ter "ao vivos" de bandas... são sempre uma grande seca com as devidas excepções o que não é este caso. Porque não reproduziram o concerto do Barbican na totalidade? Ou pelos menos metade/metade. Se por um lado é incrível a energia e chinfrim debitado por estes cotas (pós)punkers – um gajo ainda pensa que os Stones são uns malucos – por outro passado um pouco a coisa começa a aborrecer, o melhor é ficar pelo CD áudio. Ainda assim, só na Inglaterra é que podia haver um fenómeno assim, uma banda mítica dos gloriosos anos do Punk que volta com temas originais. Em Portugal a cultura musical só dá para insistir no regresso dos Pixies, bah! 3,9
XEG Conhecimento, 1978-2004 CD 2004 · Matarroa / SoHipHop
Geralmente os press-releases dos discos são sempre uma seca, uma tentativa bacoca de convencer o crítico que o disco é muito bom e/ou de o ajudar a não pensar... bem, ou porque hoje é domingo ou porque o press-release desta nova produção da Matarroa (uma das melhores editoras portuguesas de Hip-Hop) traduz com sinceridade o produto que estão a promover, eis uma reprodução da mesma, sendo que subscrevo/acredito com aquilo o que é escrito. Marte «Xeg é um dos MCs mais populares no meio Underground do Hip-Hop Português. Com um currículo extenso que incluí participações em Álbuns e Mixtapes já considerados clássicos (Sam the Kid, Bomberjack, DJ Cruzfader), e outras mais recentes (Nbc, Kacetado, MatoZoo), não nos devemos de esquecer do seu disco de estreia, “Ritmo e Poesia” editado em 2001, com assinalável sucesso. [ok, esqueçam esta parte porque nunca ouvi nada disto tirando os excelentes MatoZoo] Ao longo da sua carreira Xeg, caracteriza-se por controlar a mesma, da forma como controla a sua vida, simples. Sem papas na língua, fala do que vê e sente, o que lhe tem rendido alguma animosidade e, claro, a falta de reconhecimento típica de quem lidera e não segue, num meio tão pequeno como é o nosso. Sejam os tópicos, sociais (Racismo, Guerra no Iraque e o Governo), passionais, ou direccionados para o interior do movimento Hip Hop, o resultado é sempre o mesmo: honesto, directo e no final, arrasador. [um bocado reaccionário de vez em quando mas percebe-se porque o Hip-Hop em Portugal está a ser a voz das novas gerações já que é a única música urbana politizada com uma actualidade viva] Vivendo e respirando Hip-Hop, da forma mais pura, este B-Boy dos anos 80, faz questão de nunca esquecer as 4 vertentes nos seus discos. E “Conhecimento”, não foge à regra, sendo um disco de batidas harmoniosas e melódicas, maioritariamente produzido pelo próprio, podendo considerar-se este segundo registo, como um filme da sua vida, onde muitas histórias são (deliciosamente) contadas.» 3,4
XEG Remisturas vol.1 CD 2004 · Matarroa / SóHipHop
Sétima edição da Matarroa, uma editora exemplar do Hip-Hop que é lançada agora mais uma edição toda XPTO de Xeg com um cortante bonito como sempre. Sobre o conteúdo da rodela, é de referir que é um álbum que Xeg remistura uma série de músicas de Hip-Hop: dele, de uns clássicos como os Líderes da Nova Mensagem (de 1994) e de "clássicos" recentes como NBC, Kacetado, Sam the kid, Valete, MatoZoo... As remisturas implicam uma nova produção, novas versões e na maior parte dos casos novas rimas. O disco é bastante fluído e porreiro de se ouvir, não chega a entrar muito nas disputas internas do pessoal do Hip-Hop, tem músicas bem funky e com pica - destaco "Crise financeira" e "Combate mortal" que são super-catchy - e só tem uma intro que é foleira - como geralmente são foleiras todas as intros. Foi uma boa forma de acabar o ano de 2004! Parabéns à Matarroa pelo trabalho desenvolvido! 3,9
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Porque eu vivo para a música


Pois é! Voltei a escrever para revistas de metaleiros! Enquanto não há uma nova Underworld ou algo pujante, passei a ter uma secção numa revista online, a Infektion Magazine - exacto, com K, boy!!! A secção chama-se Infecção Urinária de Marte - o logotipo da secção foi feito pelos metálicos da revista - que começa no terceiro número da publicação por divulgar o excelente Deliverance dos Stealing Orchestra.
Lobby por lobby, também fiz a minha primeira obrita sonora com a "orquestra do gamanço" para a banda sonora da nova antologia da Chili Com Carne, Futuro Primitivo, que também servirá de banda sonora para a exposição a rolar pelo planeta - a começar já pelo Festival de BD de Beja no final do mês, seguindo depois para Roma, Helsínquia. Mälmo, e talvez EUA e Brasil. O disco (também só acessível online) pode ser descarregado gratuitamente no blogue oficial da net-label You Are Not Stealing Records.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Dada Tuga : a Portuguese Post Modern Pop/Rock 1983 - 2003 (Soul Jazz; 200_)
Ocaso Épico: "Muito obrigado" (Dansa do Som; 1988)Em 200_ de certeza que uma editora estrangeira vai fazer uma colectânea de bandas Rock portuguesas dos anos 80. Longe de mim nostalgias parvas e mercantis mas acho que um disco que a música urbana portuguesa nesse período foi algo de bastante original, visto até a uma escala global. Ou porque eram filhos-dos-papás ou porque eram apenas intelectuais/artistas, a verdade é que as bandas dessa década foram o expoente da criatividade musical neste país cinzento - não estou a afirmar que nos dias de hoje não hajam boas bandas, ou que não tenham havido nos anos 90, mas infelizmente o que se vê hoje são estagiários para a fama (por falta dela é que são "alternativas") ou profissionais estéreis: Xutos, Blind Zero, Fonzie, David Fonseca (para quem tanto canta sobre os 80 devia fazer um TPC mais trabalhado), etc...
Num país atrasado, pobre e pouco informado é de estranhar que tenham aparecido tantos "aliens" como Mão Morta, Pop Dell Arte, Émas foice, Enapá 2000, Santa Maria Gasolina em teu Ventre, Mler Ife Dada, Repórter Estrábico, (os primeiros tempos de) GNR, K4 Quadrado Azul, Lucretia Divina, etc... quase todas estas bandas unidas entre elas pelo pós-modernismo, ou seja a capacidade de pegar em mil géneros de músicas e misturá-las criando novas formas de ouvir. Se da lista acima alguns nomes forem mais fáceis de identificar com uma estética Rock, ainda assim é de relembrar um álbum como Corações Felpudos dos Mão Morta que corta com a tradição Rock, ou sendo o humor e a pastiche uma característica do pós-modernismo porque não meter nesse saco os Enapá 2000 e os Émas foice? E já agora, nesta colectânea imaginada podia-se continuar a viagem até ao novo milénio com projectos como Primitive Reason e Blasted Mechanism (primeiros álbuns de ambos), The Astonishing Urbana Fall e até Kubik e Stealing Orchestra - acabava a colectânea com o segundo álbum de Stealing!
Bem, isto tudo porque apanhei o vinil dos Ocaso Épico numa loja de discos em vinilo - nas Escadinhas do Duque, não me lembro o nome da loja mas é algo tipo "Discolecção" ou um nome tão horrível como isso. Este é o maior registo oficial de bizarria Pop liderada pelo já falecido Farinha Master (Carlos Cordeiro), depois deste disco (que só há vinilo) ainda foi editada uma k7/maquete: Desperdícios (1989) que pode ser descarregada aqui. "Álbum-alien" em que encontramos música tradicional portuguesa com tratamento trangénico e arraçado de Pop/Rock, música oriental e alguma ambiental (concreta ou experimental?), em óbvia esquizofrenia sonora. O lado A é mais agressivo porque é mais "apunkalhado" e as letras são mais directas, mundanas e de costumes: «E a produção musical / do triste saloio nacional / nunca deixou de cheirar o cu / de cheirar o cu / o cu ao capital» (Tinto If), «Chegou da Beira Baixa / uma linda criancinha / vinha tirar o curso / construir a vidinha / vinha ver o mundo / tal como a sopeirinha» (Da Beira Baixa à Extrema-Dura); enquanto que o lado B é mais instrospectivo e calmo. A produção não é das piores - para quem não sabe, a produção foi um dos maiores problemas dos discos portugueses nessa "década dourada".
A capa do disco é divertida q.b, com o Farinha Master a fazer de beato, na contra-capa há mais fotografias dele a protagonizar um rufia, um padreco, um sacana, um boémio e duas em ambiente Zen-brilhante. No interior, mais fotografias maradas: campinos-khrisnas, gajos vestidos de Rockers de 80's com outros gajos vestidos com fatos orientais, o Master no estúdio de gravação acompanhado por um engenheiro de som (?) dono de um bigode à portuguesa, afinal de contas, não podemos esquecer onde estávamos.
...
E agora algo completamente diferente, a tracklist-work-in-progress de Dada Tuga : a Portuguese Post Modern Pop/Rock 1983 - 2003:
1- Pop Dell Arte: "Querelle" (1987)
2- Mler Ife Dada: "Dance Music" (1989)
3- Enapá 2000: "Pão, Amor e Totobola" (1987)
4- Ocaso Épico: "Da Beira Baixa à Extrema-Dura" (1988)
5- Mão Morta: " É Uma Selvajaria" (1990)
6- Santa Maria, Gasolina em teu ventre!: "Go West, Céline" (1991)
7- ...
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Infecção Urinária da Finlândia (VI)

E com este texto fecho os relatos sobre as minhas aventuras sonoras nórdicas durante a minha estadia na Finlândia. Na última semana ainda consegui ir a Turku e comprei um CD-R enganoso. Intitulado Avarrus Suomesa (trad.: Finlândia espacial?) de 2006 (?) é um “set” de dois DJs, Prof. Roland Fender e Prof. Megatron Holaris (ligados à bd? Adquiri numa loja de bd) que misturam músicas Pop sobre o espaço cósmico numa pespectica descendente de 2020 a 1959 seja lá como isso é possível. Pensava que era um disco do colectivo experimental Avarus, que fez a banda sonora da exposição Glömp X patente na Bedeteca de Lisboa em 2009 mas não, é uma “mix-tape” de kitsch em que o único nome conhecido é Jimi Tenor com um “tango espacial”. No fundo, isto só tem piada pelas letras que nos transportam para uma era perdida e inocente (o passado é sempre considerado inocente mesmo que tenha sido bárbaro!) em que se ainda sonhava com a conquista do Espaço. Não percebendo patavina da lingua “suomi” é mais fácil imaginar este objecto deslocando-o para uma versão portuguesa em que teriamos misturadas fatais de um tema de 10.000 anos depois entre Vénus e Marte de José Cid com a Amália a cantar o Sr. Extraterrestre seguido de Planet Lakroon dos Pop Dell’Arte, as Doce com Starlight, os Space Boys, Stealing Orchestra, etc…Talvez esta tenha sido a minha pior despedida cultural de sempre!
“Pop Will Eat Itself” é capaz de ser o melhor nome e manifesto para música urbana pela forma canibalesca e autofágica como vemos as fórmulas repetirem-se até à exaustão, com uma indústria fonográfica a gastar mais dinheiro em promover lixo do que a incentivar à criação – aliás, como seria possível de outra forma? A música é um negócio capitalista, e o Capitalismo é o Rei do Trash! Talvez pelo avanço na minha idade vou tendo menos paciência para a Pop e o Rock e infelizmente também para os outros géneros que se foram cristalizando como o Punk, Hardcore, Metal, Hip-Hop, etc… Ouvir estas formas de criação que insistem em serem eternamente jovens quando a maior parte delas já têm pelo menos 30 anos de História provocam-me vómitos e enjóos fáceis. Talvez por isso prefiro ouvir Noise, música árabe ou Africana do que a última sensação Pop sueca anunciada pelo Imbecílon… Ops! Caí na esparrela agora! Porque ando louco a ouvir Melanie Is Demented e os seus últimos dois álbuns online Melanie är Demented e MXLXNXXXSDXMXNTXD, ambos editados este ano pela sua label Wormfood. Mas como é uma coisa DIY, a imprensa oficial não vai ligar patavina, estou livre de culpa!
MID é uma “one-band man” que tem vivido em instituições psiquiátricas a gravar estes maravilhosos discos, é sueco e não finlandês mas serve para fechar este ciclo de artigos. Conheci-o em Estocolmo em 2008 durante o SPX (festival de bd alternativa) nas condições descritas nesta bd mantendo um contacto permanente com este jovem perturbado mas com uma sensibilidade Pop/Rock apurada. É aquele tipo de gajo que consegue sacar o famoso e obrigatório “orelhudo” em todos os seus temas mesmo quando canta em sueco, completando a famosa equação do “indie” Pop/ Rock para ser viciante - sem deixar de ser "inteligente".
Para mim é uma espécie de Frank Zappa pelas ideias de fusão e ruptura (não a forma superficial) em versão “bedroom punk”. Há partes da voz que lembra David Bowie, outras Butthole Surfers, onde aliás, instrumentalmente acaba por haver alguma ligação com a banda texana que na sua última fase investiram num Rock Electrónico não muito longe do que MID faz: loops, samples, ritmos Hip-Hop ou Drum'n'Bass com guitarradas balizadas entre o Blues e Rock. Enquanto os Butthole desapareceram sem glória, MID tem todo o sangue na guelra e sente-se a poderosa evolução de registo em registo. As letras tratam de assuntos endérmicos de quem escolheu o Rock como expressão criativa, passando por uma forte crítica ao negócio fonográfico e as suas bandas atrasadas-mentais, ao fascismo dos Sociais Democratas, à Globalização, aos abusos da polícia e à apatia social. MID escreve numa componente autobiográfica e irónica que é contudente e longe da futilidade do “teenage love” ou “teenage angst” como 99% da música que se ouve. Quando ele dedica um tema ao Batman não é para se armar em Gótico da pacotilha mas para criticar o alter-ego da personagem, Bruce Wayne, que é um filho-da-puta de um beto rico. Quando canta um tema sobre pastilhas elásticas não é para celebrar o gozo de mastigar este produto pueril mas para lembrar que ele é feito de dinheiro sujo de países explorados do terceiro mundo.
O estranho é como ele o faz de forma armadilhada onde podemos encontrar em doses idênticas de militância, energia, crítica, astúcia, empatia, desordem, desobediência e humanismo. Características de um verdadeiro artista. MID é um “filho de uma colisão cultural” (roubo descaradamente a expressão ao meu tema favorito dos Urban Dance Squad!), que obviamente tanto se passa a ouvir Stoner Rock como Gangsta. Um híbrido da civilização Ocidental que não se alinha no conforto zombie da boa integração social, especialmente o da sueca que pretende que os seus cidadãos sejam humildes e que escondam qualquer forma de exibicionismo. Ora isto é uma missão impossível para este tipo, ainda o ano passado enviou-me uma foto dele a mostrar a pila em frente ao monumento (não menos fálico) do centro de Estocolmo. Havia um contexto, ainda assim, que era a comemoração dos 10 anos da MMMNNNRRRG e o lançamento do livro Pénis Assassino do Janus mas ainda assim eu não precisava de ver os seus genitais… Freud explica!
sábado, 31 de dezembro de 2011
10 + 1 de 2011

Halloween : A Árvore Kriminal (Sonoterapia)
Secret Chiefs 3 : Masada Book 2 : Book of Angels 9 : Xaphan (Tzadik; 2008)
Monotonix (ZDB; 27 Fev)
Feira do Jeco (Maus Hábitos; 2 e 3 Abril)
v/a: Tinta nos Nervos (CCB; Jan-Mar + catálogo)
Çuta Kebab & Party (Chili Com Carne + Faca Monstro)
Stealing Orchestra : Deliverance (YANSR)
D.R.I. (Revólver; 11 Mar)
Melanie is Demented : Melanie är Demented + MXLXNXXXSDXMXNTXD (Wormfood)
Neuro : Neuro-Trip (MMMNNNRRRG) + expo Trem Azul (24 Jun - 30 Jul)
+ Aaron Shunga : Vacuum Horror (MMMNNNRRRG)
segunda-feira, 12 de dezembro de 2022
web .2 tone .3
Culpados disto tudo se calhar Death Grips que desde cedo com o seu segundo álbum (ou primeiro oficial?) The Money Store (Epic; 2012) mostraram que seriam sempre rock híbrido - chama-se a isso de punk rock ? o feeling é esse mesmo que já não se possa meter o mofo da bateria + guitarra + baixo + voz isto é rock ciborgue electrónica rapada para mim é impossível dizer o que soa Eu Juro! já ouvi este CD mil vezes e sempre quando ele acaba ainda não percebi o que se passou o que ouvi o que aconteceu é como ouvir a primeira vez o Last Rights dos #Skinny Puppy ou Beers, Steers and Queers dos #Revolting Cocks Rembradt Pussyhorse dos #Butthole Surfers não é todos os dias que isto acontece ... Punk weight!
PS O 2 tone era nome para um Ska não racista em que o ponto de honra era ter uma banda que tivesse elementos branquelas e negros Clipping e Death Grips sabendo das cores de peles dos seus elementos (como se na verdade isso importasse para uma coisa - bom, na Amérikkka importa pelos vistos) parece isso um 2 tone para um mundo de Trampa mergulhado na deep web
espera
há mais
Apareceu Zeal And Ardor... WTF!? Imaginem o coninhas do Moby a fazer Black Metal essa seria a melhor ilustração para este disco Devil is Fine (Reflections; 2016) música de escravos americanos a cantarem Blues ou Gospel invertido, ou seja, a louvor de Satanás Nosso Senhor invés ao Porco Nazareno Devil is fine (o primeiro tema) abre-nos o coração, não não são samplers como o triste do Moby a voz é verdadeira In ashes arrebenta com os primeiros Blasts de Black Metal e ficamos confusos claro e mais ficaremos com intermezzos de electrónica que tanto podem ser Trip Hop ou caixa de música de criança como gamanço de arabescos à Çuta Kebab & Party ou What Is A Killer Like You Gonna Do Here? é uma pequena intervenção Tom Waits Children's summon parece o sonso do Gonza Sufi mas com Black Metal sempre isso "mas com Black Metal" o xoninhas do José Luís Peixoto escreveu há 10 anos um artigo qualquer a dizer que o Black Metal nunca seria popular pela sua violência - já na altura o que ele escrevia era errado porque bastava entrar no metro de Berlim e ter bem presentes outdoors do último disco de #Dimmu Borgir God good is a dead one entretanto fizeram um segundo disco a explorar a fórmula que não tem piada nenhuma apesar das revistas especializadas virem dizer muito bem, os metaleiros andam atrasados!
vi os Ho99o9 no Milhones 2016 e foi das melhores coisas que vi há imenso tempo ! Era como ver Bad Brains ou Black Flag e nunca o poder ter os visto porque não tinha idade para estar lá em Washington D.C. nos anos 80 nem nunca iria/ irei aos EU da amerdikkka a sério! Andei louco até conseguir um disco deles há um álbum - United States of Horror (Toys Have Powers; 2017) fazem Hardcore melhor que a malta do Hardcore e metalada, isto sim digno de sucessão de Discharge ou Slayer (vai na volta até samplam Slayer) ... mas fazem também dark Trap que a malta curte e tal em 2018 fuck! Tudo convive num disco de 46m que nada enjoa nada
a música pesada voltou a ter um ambiente de perigo depois de vinte anos de repetições ad nauseam
quarta-feira, 21 de junho de 2023
Singela Sabotagem
Faleceu, ou pelo menos foi noticiado no passado dia 15, o "Zé Maria da Sabotage". Os aspas significa isso tudo. Ninguém sabe o seu nome como deve ser, a sua data de nascimento e ao certo as suas actividades, de tão resguardada que era esta pessoa.
Da minha parte nada poderei dizer mais do que foi escrito na 'net excepto que lhe tenho em dívida uma cultura de música "Rock" quando ele tinha a sua distribuidora de discos Sabotage nos anos zero deste novo milénio. Não fosse ele nunca saberia quem eram os génios como End, sunn0))), Dälek ou Otto Von Schirach ou os géneros musicais como o Dancehall ou o Afrobeat ou editoras como a Anticon e Web of Mimicry.
Melómano e reservado, pouco mais poderei contar porque mais nada saberei, apesar de me encontrar com ele regularmente quando escrevia para a Underworld / Entulho Informativo, entre 2003 e 2006, e ia ao seu escritório-armazém, em Cascais, buscar "promos". O contacto era mínimo e sentia até um desconforto ao início porque vinha de uma revista ligada ao Metal. Aos poucos provei que conseguia escrever sobre os discos sem ter uma censura metaleira (que havia mas sempre consegui mandá-la à merda!) e com entusiasmo - pudera! dado os discões que recebia!
Lembro-me que a dada altura deixei livros da Chili Com Carne e da MMMNNNRRRG com a Sabotage - para eles venderem em feiras de discos? - e que ele e a sua companheira, Ana Paula, gostavam deles. Tanto que passados uns bons anos sem contacto - quer a revista quer a distribuidora desapareceram com o "fim" dos discos - quando decidem abrir uma sala de espetáculos com nome homónimo, contactaram-me para lhes sugerir alguém para fazer um mural no clube. A escolha recaiu sobre o João Maio Pinto, que quase passou a fazer tudo para eles. É irónico que não houvesse espaço visual para mais e sem "censura metaleira" mas a cultura visual portuguesa sempre foi sempre será limitada, pelos vistos...
Sem uma relação pessoal, a notícia da sua morte entristeceu-me e com dúvidas lá escrevi esta elegia. Ela tinha de ser escrita. Não teria a coragem de ser unDJ sem os terrores e os prazeres proporcionados pelos discos do "Zé Maria da Sabotage". Seria injusto não o recordar por mais "apagado" ele fosse. Seria ingrato senão o agradecesse publicamente, mesmo que o tenha agradecido várias vezes em privado pelas pérolas sonoras.
Obrigado, mais uma vez!
PS - E lembrei-me que foi graças ao Zá Maria que conheci outro cromo, o João Mascarenhas dos Stealing Orchestra, um dos projectos musicais portugueses mais inteligentes, com quem tive a oportunidade de trabalhar com ele na banda sonora do Futuro Primitivo. Memória, onde estás?
quarta-feira, 4 de março de 2009
Invisual 18.2 || RÁDIO ZERO
Esta Quarta, às 20h vai para o "ar-virtual", cortesia da famosa Rádio Zero, a 18ª emissão da "segunda temporada" do Invisual, um programa que pretende divulgar as promíscuas relações entre a banda desenhada e a música.Produzido por Marcos Farrajota, neste programa ouviremos as habituais pérolas e novidades ligadas à bd e à música - desta vez um especial sobre "Colagem na ilustração".
O ciclo de músicas dedicadas ao sub-anormal do Super-Homem desta vez é satisfeito com Superman dos The Bruce Lee Band, tema incluído no álbum homónimo e de estreia da banda (Asian Man; 1996).
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É repetido no Sábado, às 13h.
Playlist: Omala, White Williams, Stealing Orchestra, Júlio Pereira e Carlos Cavalheiro, Kingdom Scum, Butthole Surfers, Mano Negra, Jello Biafra & NoMeansNo, Trencher e Why?.
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Podcast aqui depois da emissão.
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ilustração de Fredox do Le Dernier Cri
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Grande novela americana

Matmos : The Civil War (Matador; 2003)
WHY? : oaklandazulasylum (Anticon; 2003)
Era uma vez... vapores de peidinhos quentes cobertos pelos lençóis da manhã, o arrastar dos pés do vizinho de cima sobre o soalho de madeira, os últimos suspiros de um pombo moribundo, a língua da gata a lamber obstinadamente o pêlo brilhante, o bicho a roer a madeira da cama, o titilar do motor do Opel acabado de estacionar. Usurpados por microfones e sequenciados em laptops nos finais dos anos 90, tornou-se de forma pragmática e maquinal da lógica anglo-saxónica embutida em todo o DNA do mundo Pop, mesmo daquele que se diz "diferente". De repente o novo brinquedo do Pop era procurar o som microscópico ao ponto de Matmos enfiarem microfones em tubos digestivos de vacas para fazer microhouse - som paneleiro-lounge que se confunde com a outra grande paneleirice deste século que é o Techno minimal. Outro ser anglo-saxónico, Matthew Herbert como Radio Boy, fez coisas parecidas antes de entrar num esquema de big band e manifestos artísticos que não interessam a ninguém.
No caso de The Civil War, os americanos tentam explorar sons medievais folclóricos com "americana" e o tal microhouse. Usam sons "verdadeiros", ou seja gerados por instrumentos acústicos (como tambores e gaitas-de-foles) com o átomo digital. Glitches à parte soa a manual 1-0-1 de como fazer a coisa sem chegar a nenhum sentimento - ao contrário por exemplo do último disco dos Stealing Orchestra que partilha a ideia do som "verdadeiro" com o "virtual" - mas não a obtusidade das explorações dos sons imperceptíveis. The Civil War não aquece nem arrefece, parece uma feira medieval com nerds do Mac ao peito. É uma tentativa tão válida como a minha de conhecer o trabalho deste casal tão respeitado na música deste século. Não deixarei de tentar outro disco porque tenho boa impressão de um tema Rag for William S. Burroughs de outro álbum The Rose Has Teeth In The Mouth Of A Beast - que terei de ter a paciência de me cruzar com ele um dia destes.
Já WHY? é outra estória... É o primeiro álbum do projecto de Wolf e também o último antes de o transformar numa banda de 3 elementos em Elephant Eyelash (Anticon; 2005). Para quem gosta dos Pavement mas têm medo de Wu-Tang Clan pode vir aqui deliciar-se com a faceta delicadoce do Indie / alt country / americana disfarçada com técnicas de produção Hip Hop. A tradição de canção está aqui bem vincada, é certo que é mutante graças à tecnologia dos século XXI não faltando loops e "micro-sons" texturizados e melódicas para acompanhar a melancolia urbana. Por mais samples de carne que se une ao esqueleto destas canções o humano não se desfaz em máquina. O colectivo Anticon, que WHY? pertence, é segunda geração do som de fusão Pop/Rock com Hip Hop iniciada por Beck. Chamam-lhe de "hip hop abstracto" e é capaz de ser das poucas coisas giras inventadas neste milénio.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Sombras sem forma...

Kongh : Shadows of the Shapeless (Music Fear Satan; 2009)
Depois de uma competente actuação dos Godflesh no Santiago Alquimista, fica sempre uma banca de coisas para comprar. De Godflesh nada - zangas com a Earache ainda? - mas havia um caixote cheio de vinis de metalices. Kongh? Caramba quem é que me tinha falado bem desta banda há pouco tempo? Kong? Não eram uns gajos Techno da Peaceville? Não são outros que o Sr. Stealing Orchestra me falou há meses no Porto... Caramba, é isso! Truca, comprei o disco em formato 2xLP! É mesmo chato estar sempre a mudar de lado e de disco nestas bandas Doom / Stooner que editam em vinil... As músicas excedem os 7 ou 9 minutos e por causa disso só cabe quase uma ou duas faixas de cada lado do disco vinil. Deviam pensar ou em fazer músicas maiores para render os lados ou então editarem em CD...
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Simon Reynolds: "Retromania : Pop Culture's Addiction to its Own Past" (Faber and Faber; 2011)
Não se deixem levar pela capa pirosa... Este é o melhor livro sobre música jamais escrito excepto que poderá ser ultrapassado no futuro. Ainda assim, algo de extremamente radical teria de acontecer na música Pop para que este livro ficasse desactualizado - o que ele não prevê nem deixa prever.Reynolds ao longo das páginas deste magnífico livro desmonta todo o aparato do Rock/ Pop nos dias de hoje, ou melhor, desde o novo milénio quando a cultura Pop deixou de crescer e começou a entrar em autofagia. Dos “revivals” aos regressos (dos Sigue Sigue Spunik aos My Bloody Valentine), dos museus dedicados ao Rock (com as suas relíquias de santinhos Pop, como uma rasta de Bob Marley, a camisa de John Lennon antes de levar com os balázios ou as cinzas mortais do DJ que cunhou o termo Rock'n'Roll!) às curadorias de festivais Rock, do coleccionismo ao fetishismo, do Retro à Nostalgia, do eterno revivalismo dos anos 50 (fenómeno que vamos encontrar logo cedo nos finais dos anos 60) à "hauntology" - música que pega em sons fantasmagóricos do passado e que parece estar na moda!
De forma divertida e pessoal, sem que estas desviem o ensaio para algum tipo de baboseira reaccionária, Reynolds faz uma análise da música Pop até aos dias de hoje, e de que forma ela se modificou até ao ponto de "eterno presente" graças ao advento da web. São vários os analistas que têm advertido que o mundo deixou de ter passado e futuro quando podemos aceder tudo pela internet (no seu "anarquivismo") e não é de estranhar que o mesmo tenha acontecido nas artes e na música.
O Punk fez ruptura democrática do Rock e cultura em geral, o pós-punk trouxe o "artsy" ao Rock, o Hip Hop e a cena Rave novas formas de expressão e de produção, e pelo meio houve o Reggae, Ska e Dub mas segundo Reynolds, os anos 00 não trouxeram nenhum novo tipo de música. Aliás, não será o único a afirmar que desde o Grunge que não houve um género que tenha sobressaído ou feito estragos no mundo Pop. Afirma mesmo que os 00 são os anos conhecidos pela tecnologia (mp3, ipods, napster, myspace, bandcamp,...) e não por um grupo ou estilo musical. Não é o único a afirmar tal coisa, o grande Scaruffi no seu sítio scaruffi.com dá nomes como “Revolução Indie” aos anos 80 e outras décadas mas de 2001 a 2008 chama-lhe de “Era Digital”!
Não é fácil de opor a esta ideia quando desde os meados dos anos 90 assistiu-se a meros revivalismos "non-stop": o regresso do Disco (Daft Punk, Kylie Minogue), Ska (Sublime), Jazz Big Bands / Swing / Lounge (Combustible Edison, Squirrel Nut Zippers, Matthew Herbert), Punk (Green Day, Offspring), Hard / Heavy Metal (The Darkness, Queens of Stone Age), Post Punk / New Wave (Franz Ferdinand, She Wants Revenge), os kitsch dos 80 (o electroclash), o Glam dos 70 (Placebo), os 60 (quais? entre muitos, a cena Neo-Folk), os 50 (The White Stripes e um sem fim de estupidez garageira),... Quer no Top 10 quer no “underground” não se vê inovações mas apenas ao melhoramento de estilos: seja no R'n'B da MTV, no Dubstep a chegar ao Top, no Punk Rock mais selvagem tocado numa Okupa,... E o livro mostra e explica como isto acontece. Na essência explica que isto deve-se ao arquivamento de música nunca antes existente na Humanidade.
Antes dessa capacidade de armazenar música não havia forma de saber como eram as “vozes” do passado, o som de uma canção ou de uma banda. Graças aos cilindros de cera (1877), discos em vinil (1888), cassete (da criação à forma que conhecemos: 1935-1964) e CD (1979) toda uma história da música pode estar documentada e para audição ao ponto que uma meia-dúzia de falhados conseguiram reavivar o Northern Soul, por exemplo, só porque achavam que esse (sub)género era a melhor coisa do mundo... Aliás, subgénero que passou a existir depois de um grupo os cunhar como tal – eis um fenómeno que apareceu: cunhar algo que aconteceu no passado sem que na altura houvesse uma consciência de movimento ou de cena.
Graças ao conhecimento do passado, os músicos acabam por citá-la ou copiá-la sem alterar as formas originais. Imaginem que antes da música registada, mesmo um cancioneiro popular poderia passar de pai para filho mas haveria sempre algo a perder-se na “tradução” como se costuma dizer. E essa passagem poderia incluir cortes (algo que o filho não gostasse) e acrescentos (algo que o filho criou e passou a meter no repertório), agora é impossível não saber “toda a verdade” da música… basta ir ouvir o disco, seja em LP seja no youtube!
O livro é difícil de refutar e deslumbra a alguém como eu que escreve neste blogue há anos sobre este “estranho mal-estar” que sente no mundo da música Pop/ Rock. Reynolds consegue identificar e estruturar quase todas as características do momento – ou dos últimos 10 anos. Há apenas quatro situações que lhe passam ao lado, parece-me.
Sound + Vision
Estranhamente, apesar de referência ao youtube, Reynolds não levanta questões de como o vídeo-clip possa também ter modificado a nossa relação com a música.
Por exemplo, acho que só se explica o eterno regurgitado revivalismo dos anos 80s não apenas porque a música era tão "má que era boa" mas porque a geração dos anos 70 mamou todos os video-clips mais manhosos do planeta na sua juventude nos anos 80, acrescentando a sensação visual (e narrativa das micro-histórias dos vídeos) à música que se ouvia. Nas gerações anteriores, a música era meramente auditiva, coisa ridícula de se escrever (claro que só se ouve música!) mas sabemos que o Rock é mais que "música", é uma ópera bufa de música, letras, moda, performance e escândalos. Antes não havia “próteses visuais”, porque quem diz video-clips, diz todos os elementos visuais que passaram a fazer parte do Rock/Pop: maravilhosas capas dos discos LP, revistas e jornais especializados, longas-metragens, documentários, efeitos especiais e decorações dos concertos, e claro, o “merchandising” como cuecas, meias, porta-chaves, isqueiros e as t-shirts - dizia-se que os Inspiral Carpets vendiam mais das suas t-shirts "cool as fuck" do que os seus próprios discos.
Talvez por isto tudo que os Gorillaz foram criados, não? Mas mais do que isso, será por isso que nos lembramos tão bem dos anos 80, ou que seja fácil ir lá buscar coisas nostálgicas, porque foi a primeira geração de Video kill the radio star? Uma década de produção audio-visual onde há mais imagens para recuperar e lembrar do que um Elvis nos anos 50 mesmo que este tenha feito também filmes? É mais fácil lembrar o tema "euro-trash" Boys Boys Boys por causa do video onde vemos as enormes mamas saltitantes (e molhadas) da Sabrina do que um tema qualquer de Captain Beefheart nos anos 60, certo?
Rat Race
Reynolds não refere a questão dos modelos económicos que nos dias de hoje afectam a música. Há poucos meses atrás, a revista The Wire publicava um artigo sobre como a crise tem transformado os projectos musicais, afirmava que o formato de banda de quatro ou cinco elementos está a desaparecer para projectos constituídos “bandas de um homem só” ou duos. Como é complicado levar uma banda grande em turnés com os cachets cada vez mais baixos, é preferível pegar no lucro todo para uma pessoa só (ou para um pequeno agregado familiar, já repararam que anda muita banda por aí que é um casal? como os Jucifer) do que distribuir por quatro ou cinco gajos.
Com isto, haverá menos colectivos que na realidade são espaços de confronto de ideias, técnicas e conceitos. Isso não impede que se faça “co-working” em estúdio / disco, com várias pessoas a colaborar como acontece nos dias de hoje em todos os discos de Hip Hop mas também em discos de Metal ou Pop. Diziam na revista que cada vez iremos ter menos hipóteses de ter bandas "doidas" (no sentido inovador) como aconteceu no passado, como os Clash ou os Skinny Puppy, em que cada elemento com percurso diferente traz algo de diferente para o som da banda.
Querendo ir mais longe, pergunto se esta crise económica que optou por atomização dos elementos das bandas também não tem criado a especialização do mercado porque cada vez mais se assiste a “segmentos de mercado” (ou o nicho ou o público-alvo). Bandas que tocam, por exemplo, Garage dos anos 60 só para circuitos e público especializado nesse género, ou quem diz isto, diz a banda Death Metal que só toca para metaleiros que curtem Death, não conseguindo apanhar os que gostam Black Metal ou Speed Metal ou… Isto explicaria abortos como os Editors e afins que fazem a mesma música 12 vezes no mesmo álbum porque não podem fugir à cartilha Indie, mais especificamente, aquele Indie tipo anos 80 e Dark Pop que se especializaram – que não é a mesma do tipo Indie Anos 90 norte-americana dos [metam aqui um nome de uma banda dos anos 00 que soe a Pavement, sff].
É desnecessário dizer que num álbum de Led Zeppelin podia-se ouvir temas Blues, outros Reggae, ou Rock psicadélico, ou Hard Rock e o que mais se lembrassem... soando sempre a Led Zep. O mesmo pode-se dizer para os Mano Negra, Ministry, Young Gods, Black Sabbath, Pop Dell Arte, Stealing Orchestra ou Mão Morta (basta ouvir o Fado Canibal do segundo álbum, por exemplo). É Helter Skelter "menos Beatles" do que o Norwegian Woods? Se os [qualquer banda do momento] fizer uma música Techno sendo ela uma banda de Rock Indie, será aceite pelo a) público? b) editora? c) pela própria banda?
Istanbul (Not Constantinople)
Do alto das cidades do Império (Londres e Nova Iorque) onde Reynolds residiu e de Los Angeles, onde reside actualmente, não se pode ver o que está para baixo, nas periferias… Os EUA e a Grã-Bretanha podem ter tido um monopólio da Pop durante o século XX mas com o crescimento económico de outras nações e capacidade de encontrar, pela Internet, outras culturas, têm despertado novas músicas que Reynolds não considera muito embora admita que seja daí que possa vir algo novo, como da China ou do Brasil...
Mas já vieram coisas novas daí? A globalização de sons Pop têm sido assimilada em cada país desde sempre. O Jazz e o Funk no Afrobeat dos anos 60/70, e nos anos 80 vamos encontrar Reggae em vários países da África subsariana como Alpha Blondy, mais tarde Hip Hop e agora fala-se imenso de um Blues do Sahara (Bombino, Tinariwen) que é mais velho que Blues americano... Também há Drum'n'Bass com metais dos Balcãs e criou-se Reggeaton de Puerto Rico! E o Kuduro angolano entretanto sacado para Portugal pelos Buraka Som Sistema? Enfim, creio que a melhor música Pop do momento é aquilo que os porcos imperialistas chamaram de “World Music”, termo idiota para designar o que não era anglo-saxónico. O monopólio “acabou” e se há artistas para este milénio eles chamam-se MIA ou Die Antwoord, ainda eles híbridos do mundo anglo-saxónico.
E já agora, outro indício como nas periferias se vai perdendo o monopólio, é também a cultura de revivalismos noutros países. São os fenómenos locais, como por exemplo, Portugal não tinha uma tradição Pop mas 20 anos depois do aparecimento dos execráveis Resistência ou das popularuchas digressões “Portugal ao vivo”, ei-las a reaparecerem nos últimos meses para oferecer um conforto nostálgico à primeira geração 100% Pop portuguesa.
Headcleaner
Mas esse som da “periferia” é revolucionário? Ou só trazem mais-valias ao que já existe? Afinal Kuduro é Techno, os Die Antwoord combinam elementos pré-existentes (euro-dance e gangsta), tal como os discos de The Ex com Getatchew Mekuria são punk rock com jazz etíope, etc… E para isso já temos o fenómeno de reciclagem, pós-moderno e de “jogo de peças” que Reynolds revela no livro.
A tecnologia muda a música: o Rock vindo dos Blues aparece com a electrificação da guitarra, o Rock Psicadélico porque passou a haver registos longos (LP), o punk com a democratização da fotocopiadora e das k7s, o Techno e Hip Hop com os samplers e ferramentas digitais, etc… A música do século XXI vive do passado devido à tecnologia de partilha (CD-R, internet, bluetoth) em que este é reavivado a toda a hora. Curiosamente, a cultura Zombie nunca antes esteve tão popular...
E este estado de morto-vivo não ouve nada? Não terão sido os sunn0))) a única banda sonora da primeira década do século XXI? Imortalizaram o termo Drone ao mesmo tempo que se usam máquinas Drone em guerras e vigilância policial, tal é a intercepção entre tecnologia e cultura. O ruído branco dos P.A.s destes metaleiros intelectuais, o Noise de mil bandas underground, as festas de música de dança Dubstep, fecham a primeira década do novo milénio no Verão de 2010 acompanhadas por vuvuzelas que se ouviam omnipresentes à escala global. Reynolds não deu por isto? Não se curte bola nos EUA, né?
segunda-feira, 14 de agosto de 2006
all gone from L to U
Com cerca de 20 discos realizados (na essência reeditados como CêDê-R's pela Thisco) e uma «não-carreira» que remonta a 1984 (ironia de data, hein?) com os pioneiros da música electrónica portuguesa, os Hist, esta banda sonora para o Teatro do Mar (uma companhia de Sines) pode ser considerada como o primeiro disco "oficial" - como as regras comerciais ditam - de L'Ego. Temos aqui um disco «composto exclusivamente por colagem e manipulação de elementos sonoros pré-existentes», excertos inteligentemente pilhados a fontes tão diversas como Pan Sonic, Autechre, Fura del Baus, Scanner... De estética ambiental e IDM, não é brilhante mas também não envergonha e ouve-se bem. Não sabendo como foi o executado o espectáculo dedicado ao Futuro da Humanidade abordando as questões tecnológicas, e sendo um «teatro de rua multimédia, não verbal, assente numa estrutura cénica mutante, próxima do conceito da máquina de cena, visual, físico, musical, com recurso a efeitos de pirotecnia. Todos os públicos» [site da companhia dixit] não sei como a banda sonora funcionava. Como objecto independente não impressiona nem parece transmitir nenhuma mensagem em especial. Será melhor assim? 3,4
LOOSERS 6 songs E.P. CD-EP 2003 · ZDBMüzique / Sabotage
Os Loosers estreiam-se num EP de 6 canções e mais 3 de bónus... isso não é um LP!? Espero que seja para enervar coleccionadores chatos caso contrário, ponho em questão a sanidade mental da banda que é a «next big thing» lisboeta - tal como os X-Wife o são no Porto. A música que elaboram tem um Groove contagiante que extraem de um Rock cru e de um Noise bem estruturado de sintetizadores a lembrar Suicide. E adivinhem? Toda a gente diz que ao vivo é que é! Vi-os no passado dia 27 de Dezembro (2003) na Galeria Zé Dos Bois e não senti diferenças significativas entre o ao vivo e a gravação. Gozam, para o bem e para o mal, da bênção dos "artaístes", "freak-chics" e outros "losers" do mundo da arte lisboeta, vulgo o "lobby gay" (ou será uma afirmação demasiado reaccionária!?) que dizem com um ar bovino "eles são muita-fixes!", e se alguém disser que não, dão aquele olhar de "não sabes o que dizes" - ler: todos os meus amigos artistas acham que eles são bons, o lobby do suplemento Y do jornal Público escreveu que são fixes e sendo assim eu também acho fixe! Espero que a banda consiga passar por cima disto e prove, quando o lobby se fartar deles, que afinal não era só + uma "next big thing". Este EP estreia a ZDB no mundo da edição fonográfica. Para quem não sabe, esta galeria foi nos anos 90 a ponta-de-lança de Arte alternativa. Desde 1996 que tem apostado numa programação musical no seu espaço (Bairro Alto), primeiro para projectos de sons electrónicos / improvisados / experimentais mas desde 2002 que abriram portas para a música urbana como Hip-Hop ou Rock. 3,6
LOOSERS iiii CD-Demo 2005 · Ruby Red
Mundo pequeno: está um gajo em Antuérpia (Bélgica) a falar com o camarada Jelle Crama [www.jellecrama.tk] e a trocar galhardetes, quando o tipo me passa um CD-R embalado numa capa no formato de álbum em vinilo de uns tais... Loosers. «Ah! Que engraçado, lá em Portugal também temos uma banda chamada Loosers...»; «Exactamente, são eles», responde o Jelle; «Não, não... não percebes, em Portugal também temos uma banda com esse nome»; «Sim, sim, são eles!» insiste Jelle. E eram. Investigações mais tarde, descobri que os Loosers andam a (auto)editar uma série de CD-Rs (e também o recente segundo disco que só saiu em vinilo) provando que são mais do que uns fashion-victims-do-pós-electro-revival-new-wave-do-pessoalixo-do-Bairro-Alto. Ao que parece nestas edições tem havido menos Rock rotulável e mais experiências sónico-tribais na linhagem Glenn Branca e acólitos. Interessante. Especialmente a capa em serigrafia do Jelle! 3,6
MAL D'VINHOS CD-R 2004 · Pimba's Autoroute, discos & peticos iltd / Some Farwest Noizes
6 potenciais mega-hits para o Verão mais uma bUnita canção bónus de Natal («este natal vai ser diferente.../ este Natal não há prendas para ninguém») é o que os Mal d'vinhos apresentam na sua primeira obra Pimba DIY. E sabem do que falam: «Gravei um disco para a Discossete, dei-me mal Não quero mais ver esses cabrões da Espacial Eu nunca serei cãozinho da Lusosom Não vou deixar a Vidisco roubar o meu dom». É isso mesmo! Ser Pimba não é só cheirar o bacalhau da Maria e quer'alho. Pode ser poemas de Bértol Bérxte, denunciar os lobis ou o mediatismo Capitalista («a gaja da têbê não peida») e os paneleiros do tuningue. Humor artsi do Faroeste 'tuga, dá-le! 3,5
MICRO AUDIO WAVES No waves CD 2004 · N_records
Há nitidamente uma tendência na música urbana portuguesa para bandas electrónicas com uma voz feminina. Se a coisa pode remontar aos Mler Ife Dada nos anos 80/90 foi com os Três Tristres Tigres que se estabeleceu seguido de uma enxurrada: Mãozinha, Coldfinger, Gift, Fatimah X, ... Será que foi por causa de sucessos (justificados) de Portishead e (injustificados) de Lamb? Talvez, também há a hipótese de como as mulheres, em geral, gostam de drama e os portugueses, em particular, também gostam de ser trágicos de terem encontrado o ponto de encontro nesta fonte de trabalho que é a "electrónica com voz de gaja". MAW (para simplificar) inclui Flak (Rádio Macau) só por curiosidade e até poderíamos analisar paralelismos com Fatimah X (que inclui o Jorge Feraz) mas não me apetece... MAW vão no segundo disco e encontraram uma vocalista (o primeiro disco era só instrumental ao que parece) mas não deixaram de explorar as relações de composição entre o Pop/Rock e a electrónica mais sofisticada do momento, a micro-samplagem - que tem Matmos como reis, ou príncipes visto que a Björk é a Rainha que os emprega. O resultado Pop dos MAW é simpático, agradável e eficiente tal como uma refeição saída do micro-ondas depois de um chato dia de trabalho. Ouve-se bem como muitas outras coisas que se podiam ouvir nestas condições. Não irrita mesmo quando se armam em "artaítes" e despejam umas línguas estranhas e/ou deambulações pseudo-Dada. Até podiam mudar de nome para Micro Audio Wallpapers! Ainda assim é uma banda a seguir com atenção de futuro, na esperança das coordenadas sonoras desloquem-se da frieza Nórdica para o confortável Sul. Nota de referência para a N_records (que organiza o Número Festival) que fez um bom trabalho de edição. 3,6
NEVERMET ENSEMBLE No Quarto Escuro CD 2005 · Rudimentol / Ananana
Miguel Cabral, activista da música electrónica, fez mais uma das suas. Desta vez recebeu ficheiros de música por e-mail vindos de músicos da Bélgica, França, Itália, Japão, Espanha e EUA que nunca se encontraram. Misturou os sons desses ficheiros e assim lançou a Nevermet Ensemble - a banda que nunca se conheceu. A música é experimental, balançando entre a improvisação óbvia e outras sonoridades mais "urbanas" (até há um bocado de Death Metal e tudo!), ficando a impressão no fim que há aqui um ecletismo musical que podia ser devedor aos projectos da Ipecac ou da Web of Mimicry embora o conceito tenha mais piada que o resultado propriamente dito. 3,5
Numbers We're animals CD 2005 · Kill Rock Stars / Sabotage
Escrevia eu ainda no outro dia, sobre o Festival Número (ver na secção "Ao vivo"), o que ia fazer uma banda portuguesa que lá tocou (eram os U-Clic) e que investiu no Electro-rock agora que género passou de moda? E o que pode fazer uma banda norte-americana? Duas respostas: a portuguesa começou a carreira tarde demais como sempre, bem podem arrumar as botas porque já não vão conseguir atingir mercados internacionais e sobreviver com os nichos electro-rock - daqui a 10 anos é capaz de haver um revival deste tipo de som, por isso rapazes, é melhor esperar sentado! A norte-americana é bem capaz de continuar, até porque já assentou no tempo certo, continua a vir cá tocar - foi à Galeria ZDB e ao Porto - e continua a editar discos anualmente, como este recente "We're animals" - o terceiro de originais & oficiais (esquecemos remixes e afins). Mais perguntas: independentemente das modas estes tipos norte-americanos ainda têm validade? O disco pode ser ainda interessante? Respostas complicadas. Realmente agora que estamos em ressaca Electro e deixou de ter piada ouvir sintetizadores ácidos + vozes femininas ou réplicas do vocalista dos B-52's + bateria rockeira + guitarras sujitas do indie 80's (muito Sonic Youth aqui!), pouco ou nada poderemos encontrar aqui que nos emocione. O "enquadramento histórico" está errado. Podiam os Numbers incorporar novas coisas e dar um passo à frente? Não quiseram... não estão interessados em evoluir, só em canibalizar o que já foi feito. Podiam até chamar ao álbum de "We're robots" ou "We're Pavlov animals" que seria mais sincero... 3,4
ORGASMO CD 2005 · Vida / Som Livre
Com um nome destes – um bocado incómodo, tentem perguntar no quiosque do bairro pelo CD dos Orgasmo – ao menos devia ser uma bomba! Este orgasmo é daqueles de punheta antes de adormecer. Não é aquele orgasmo-mamute quando um tipo entra noutra dimensão mental de excitação e quando se vêem é uma enxurrada de energia que percorre o corpo inteiro até ficamos felizes da vida e cairmos para o mundo dos sonhos. Ainda assim há razão de existência para este quarteto que não é novato nestas andanças das bandas – há aqui sobreposições de projectos e convites de elementos de outras bandas como Carbon H e Slamo. Penetrando nos cosmos do psicadelismo, via Rock e alternando pelo Funk, algumas vezes ao ritmo Drum n’Bass & Breakbeats, esta cópula de estilos é excitante mas a tesão não é (ainda) total. Algumas partes fazem lembrar vagamente os The Music, entre outras coisas perdidas na memória, mas com identidade em construção ficando a expectativa que bastará no próximo registo lubrificar a máquina e... Schuap, schuap! Devo referir (pela negativa) a discrepância de registos gráficos entre a capa (departamento de aerógrafo anos 70/80’s) divertida pelo kitsch assumido e os desenhos toscos na faixa multimédia e na impressão do CD (para fazer tosco é necessário também ter dom artístico), o que não se percebe bem onde querem ir no que diz respeito à imagem da banda: brincalhões com suor de Red Hot Chili Peppers ou bedum dos Fúria do Açúcar? 3,9
PHANTOM VISION Calling The Fiends CD 2004 · Cop International
Terceiro registo desta banda electro-gótica em terras estrangeiras, caso para admiração para os que pensam que o mundo é só o bairro onde vivem. Phantom Vision desenvolve-se nos caminhos da electrónica compondo boas canções. Curiosamente a atmosfera deste disco consegue aproximar-se mais do Rock do que de um registo electro, mas pessoalmente, para um velho gótico como eu, pouco ou nada transmite. Falta loucura e imaginação para ultrapassar um género que já tem mais de 25 anos e que já teve tempos memoráveis, justamente porque os artistas desses tempos arriscavam, não ficaram presos a cânones, pelo contrário estavam a criá-los! Bauhaus, Alien Sex Fiend, só para citar os meus favoritos. Por mim, não acho impressionante que uma banda seja profissional e ache um “spot” numa cena especializada: Acho confortável para todos os envolvidos. Só espero que esta banda não seja realmente um caso de “visão fantasma” e avance para o desconhecido. Se o disco fosse de há 20 anos levava um 4,4 mas sendo deste milénio... 3,4
PUBLIC ENEMY New Whirl Odor CD+DVD 2005 · SLAMjamz / NTM
Este é o oitavo álbum dos “Laibach do Rap” – ninguém se lembrou desta! Um álbum já considerado pela crítica como um disco sem inspiração… mas como assim? São os Public Enemy! Estamos em 2005 e não há espaço mediático nem para polémicas nem para critica social na ponta da língua, tudo isso está acabado. O HipHop que os Public Enemy projectaram ao longo da sua carreira – eles e muitos artistas negros foram censurados ou proibidos de passar na rádio ou TV – foi substituído pelo individualismo e materialismo alicerçado e projectado por uma MTV estúpida e estupidificante. A batalha dos PE é a de ainda ter alguma voz no meio de uma cena que não querem parentes “pobres” a criticá-los. Os PE são dos poucos (como os Dälek) que tem a integridade artística, a militância DIY, que continuam a ser barulhentos e sujos, que se atiram a pequenas deambulações musicais e que, sem papas na língua, cospem letras intervencionistas. Sim, este álbum não vai ter airplay nem vai ficar nas listas dos melhores discos de 2005 (até porque foi editado pela sua própria editora, a indie SLAMjamz)… mas são os Public Enemy! A catinga de uns PE envelhecidos continua a ser melhor que muita merda que anda por ai, seja Rock seja HipHop. Há qualquer coisa de estranho neste álbum que passa pela auto-referência e auto-reflexão da banda. Se juntarmos ao facto que na mesma altura é editado um best of pela (sua antiga casa) Def Jam diremos que “New Whirl Odor” poderá um ponto de partida para próximas acções e edições. Até lá «Check What You’re Listening To». 3,8
SANTA MARIA, GASOLINA EM TEU VENTRE! Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção CD 2005 · Zounds / Sabotage
Até nem nos podemos queixar muito sobre reedições de discos que foram importantes no meio Pop/Rock português dos últimos 25 anos. Desde a Candy Factory ter reeditado os LP's de Pop Dell'Arte à colectânea "Ama Romanta Sempre!", entre outras iniciativas em relação a Mler Ife Dada, Mão Morta, Us Forretas Ocultos, Rádio Macau, M’as Foice, etc, agora foi a vez LP "Free Terminator/ Falcão Solitário Sem Ser Distorção" (Ama Romanta, 1989) dos Santa Maria, Gasolina Em Teu Ventre!, e o seu maxi homónimo auto-editado (de 1990), ambos reeditados pela Zounds com um excelente trabalho gráfico e embalagem. Os Santa Maria incluíam Jorge Ferraz – hoje com o projecto Fatimah X –, e o que tocavam pode ser descrito por poesia instrumental pseudo-Dada, com guitarras em abrasantes arrastos de feedbacks devedores às experiências excessivas da juventude sónica dos anos 80. O tempo, no entanto, não perdoa. Se nos fins dos anos 80, em Portugal, este LP foi conotado de alien ou de provocador, no nosso novo milénio passa um bocado ao lado. Sobretudo o LP que é menos interessante ao nível de composição do que o maxi. De registar que o maxi inclui a participação de Adolfo Luxúria Canibal no tema "Go West, Celine", que parece um lado B perdido de Mão Morta. Próxima reedição obrigatória: Ocaso Épico! 4
Si-cut.db From tears: beach archive CD 2005 · Bip Hop
A Thisco além de editar discos de electrónica alternativa também promove editoras e bandas estrangeiras. Foi através deles que nos chegou "From tears: beach archive" de Si-cut.db que pode ser considerado como uma mistura de Dub com Micro-House criado para descansar no conforto da casa e respectivo sofá. O compositor/músico Douglas Benford usou o seu lap-top para explorar os sons das costas marítimas por onde viajou entre a Europa e a América do Norte. Felizmente o resultado é mais dado ao desafio auditivo do que ao narcotizante efeito do New Age - acredito que se devem ter arrepiado quando leram sobre os sons do mar e isso... 3
SIZZLE Natural Elements CD-R 2000 · Facthedral
O Dub apesar de já existir desde os anos 70 e apesar ter sido usado em várias técnicas de gravação em discos mais insuspeitos, só nos anos 90 é que foi redescoberto na sua pureza mais antiga, o do ambiente sonoro que invoca espaços ou paisagens psicológicas. Foi com Scorn, de Mick Harris, que trouxe as aproximações industriais a este género de música - é mais que um género, é também uma técnica! o projecto francês, Sizzle é a continuação lógica destas estratégias psico-espaciais exploradoras de ambientes negros, de "bad trips" que o Dub Industrial emite aos nossos cérebros. 55:55 é o tempo desta viagem hipnótica, onde a imaginação é limitada a loops que se repetem à exaustão sem nos surpreender de alguma forma. Podia ser melhor? Cêdê de tiragem limitada e já esgotado, pode ser descarregado em: www.facthedral.com/the_music.htm# 3,1
STEALING ORCHESTRA The Incredible Shrinking Band CD 2003 · Zounds / Sabotage
Risos de crianças, orgãos xungas, xilofones, blip, disparos laser de jogos de computador dos anos 80, pombos, cabaret, acordeãos, bandas sonoras de filmes série B, tetris, caretos de Podence, blip blip, caixas de brinquedos, que infância infeliz, blip-blip, valsa de andróides bêbados de vinho verde, blip-blip, punk-vodka & metal-klezmer, blip-blip-blip, o Papa ama os Mr. Bungle, cacos digitais, samples do John Barry e Glenn Miller a vomitarem orquestras que os nossos pais insistem em ouvir de vez enquando, chocalhos de cabras do quintal da puta da vizinha, blip-blip, o meu o rancho foclórico é maior que o teu, Dub com pauliteiros e música de Natal que passa nas lojas dos monhés e no Metro, blip, circo & tourada & uns cornudos, dark-funk para mariachi paneleiro, o Tom Waits a tomar gurosan e a tocar para a Françoise Hardy... Ah! Isto é que é Electrónica com atitude, man! Os Stealing são a fusão itílica refrescante da nossa Tradição Lusa (que os gajos do Lusitania-metal e os novos fadistas que se ponham a pau, ó caralho!!!) e de um Portugal escarrado para o Futuro pelo sr. dr. Cavaco «canibal» Silva e o betinho do Guterres. A embrulhar a música mais divertida que se faz hoje em Portugal, uma embalagem luxuosa e um livrinho com ilustrações iconoclastas a lembrar um o humor do Winston Smith (o gajo das capas dos Dead Kennedys pá!) para cada música. 4,7
SUNN 0))) Black One CD 2005 · Southern Lord / Sabotage
Bandas com nomes bizarros há muitas, mas bandas com um som bizarro não há tantas. Sunn 0))) alia as duas coisas, um nome gráfico e uma sonoridade que é um pesadelo. Rotulá-los de Experimental Metal ou Drone Metal será supérfluo embora simpatize com a ideia de Nerd Atonal Doom Metal. Ao ritmo de um álbum por ano, conquistando cada vez mais admiradores (pelo menos na imprensa), os Sunn 0))) avançam para um novo ciclo de gravações após o “White 1” e “White 2”. Trata-se de um ciclo negro de uma banda que mais parece uma espécie de “se Stockhausen fosse metálico fazia isto”, só que se antes o ciclo White só provocava um ambiente irritante, agora a irritação abraça o medo, que aliás está logo estampado na capa: um desenho detalhado de uma árvore numa floresta negra mas também parece um anjo esventrado numa floresta com raízes por todo o lado em que os nós dos troncos parecem olhos de carneiros mal mortos... Ok, ok, já chega! Não aconselho ouvir este disco em fase de sonolência pois são ainda desconhecidos os psico-traumas que poderão surgir – o meu terapeuta ainda não determinou os efeitos mas ordenou-me afastar-me do disco. Convidados desta: Oren Ambarchi, Wrest (Leviathan/ Lurker of Chalice/ Twilight), Malefic (Xasthur, Twilight) e John Wiese (Bastard Noise). De salientar que Malefic gravou a sua participação vocal dentro de um caixão colocado num Cadillac carro funerário. Não sei que espécie de tarado é que se lembra deste tipo de coisas nem sei que espécie de tarado quererá ouvir isto. Respect!! 4,1
TAPE FREAK HUGO Old Tape Series #1 Demo 2005 · Edição de Autor
O universo é estranho, tão estranho que os subúrbios de Lisboa parecem a “América mítica” do tipo Tucson. E depois, os tipos que habitam por cá (neste universo ou nos subúrbios de Lisboa ou em Tucson) têm ideias estranhas. Por exemplo, este Hugo lembrou-se de pegar nas k7’s (sim aquele formato audiofónico que tende a desaparecer tal como as cassetes vídeo VHS) para fazer um projecto musical misto com mail-art. Então é assim, se enviarem uma k7 para o Hugo, ele grava por cima dela composições electrónicas / Improv suas, faz uma capa nova (uma “foto desértica” - daí a piada Lisboa/ Tucson) e ainda troca as k7’s com outros tipos que também enviaram. Por isso quando recebi o meu exemplar dava para ouvir no fim os The Cult (arght!) que pertencia a um André que desconheço. Gira a ideia! Quanto à música do Hugo, ela anda nos territórios experimentais da Electrónica ambiental. [this_boy@netcabo.pt] 3,3
US FORRETAS OCULTOS The Worst of The Best CD 2004 · Lowfly
Estes U.F.O's não são a banda xunga alemã de Hard'n'Heavy mas sim uma banda xunga 'tuga... Em meados dos anos 90, a produção de bandas de garagem, com poucas mas honrosas excepções, dividia-se entre a banda de Metal na linha Pantera/Sepultura ou então no Indie com os Sonic Youth e os Dinosaur Jr. como linhas de orientações. Us Forretas Ocultos estão na segunda categoria, com uma pose descontraída e pretenciosamente "fun", deixaram como legado meia dúzia de temas em demo-tapes, em edições em vinil e em colectâneas na Beekeeper e LowFly, editoras cada uma à sua maneira foram as mães deste tipo de banda. Passados 5 anos desde o fim da banda (ou pelo menos do seu último registo) a LowFly lembrou-se de criar a sua colecção "Arquivos LowFly" com o objectivo louvável de reeditar pérolas do underground musical português (como a MMMNNNRRRG em relação à bd...) só é pena é que não consigo ver isto como uma pérola... só vejo porcos... algo cheira mal na banda e no som, será o problema eterno que cada vez há alguém "arteist" da Caldas da Rainha e com um elemento da banda com o apelido de Feliciano (sim essa família de artistas do "fake") num projecto musical a coisa cheira sempre mal? Tudo bem que estes UFO não tem uma postura tão "kiducha" como as outras bandas do género/geração mas é por pouco. Tudo bem que o som que praticam tem algumas outras influências para além dos papás Sonic Youth (há um bocadinho de Ska, Surf...) mas nunca chega a ser um dado adquirido, parece como sempre uma coisa à portuguesa: a meio gás e com medo (claro) de assumirem seja o que for. A desculpa será eles eram os engraçadinhos da cena, os gajos brincalhões, os gajos que se estão a cagar... sorry... but no cigar... Se houve boas bandas nessa altura e da linha "sónica" elas chamavam-se Damage Fan Club e Pinhead Society, tudo o resto foram meninos muito muito mas mesmo muito tristes, alguns porque eram deprimiditos e outros porque faziam figuras tristes tentando ser fixes... Se adquirir este disco vale a pena por a Hi-Fi em altos berros porque ainda assim é de Rock Lo-Fi de que se trata. 2,6





