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terça-feira, 3 de agosto de 2021

RIP ROCK

Como escrevi numa resenha a uma k7 no penúltimo número d'A Batalha: O Rock nasceu negro nos anos 50, foi adoptado por padrastos brancos, começou a namorar aquela que viria a ser a sua companheira prá vida, a Pop. Até tomaram drogas psicadélicas juntos nos anos 60. Depois ficou adulto e responsável (Prog), teve um filho anarca (Punk), nados-mortos (Metal) e bastardos (Industrial) e sendo entretanto um «ok, boomer» perdeu-se nos anos da web 2.0. Claro que quer deixar rasto na História e meteu-se a fazer museus e deixou que lhe escrevessem epitáfios. Sem «gigs» em 2020, morreu no centro de dia porque o Estado não tem paciência para velhos. Em Guimarães, Porto e Almada até fizeram livros luxuosos com prefácios dos mercenários Rui Moreira ou Inês de Medeiros (...) - estes últimos respectivamente nos catálogos Musonautas:  Visões & Avarias : 1960-2010 : 5 Décadas de Inquietação Musical no Porto (Galeria Municipal do Porto; 2019) e Margem : Uma História do Rock (Museu da Cidade de Almada; 2019).

O prefácio de Medeiros é a hipocrisia com todo o charme. Se a capa e a primeira foto que se encontram no livro é dos putos a atirarem-se dos balcões de Ratos de Porão em 1994, não convém esquecer que a senhora afirmou que o Rock não entraria mais na sala de espetáculos onde aconteceu o mítico concerto - o Incrível Almadense. Revela estar contentinha pela exposição, que esteve patente em 2019, por ter batido o recorde de entradas de público no Museu da Cidade. Uma foto do belo concerto dos Mudhoney deveria lembrar que até à pandemia acontecer em 2020 não havia um sítio decente na cidade inteira para as bandas tocarem em condições. Pois é filhota, o que vale é que as pessoas esquecem-se de tudo e os kotas do Rock devem voltar a votar em ti por os ter metido num livro em formato superior A4, talvez para não ser tão foleiro como objecto de design - é luxuoso q.b. mas não tem a aristocracia dos Musonautas - já lá iremos... Neste Na Margem há textos a pensar sobre a museificação do Rock por Vítor Belanciano e as normais cronologias desta música mais a indexação da memorabilia da exposição, desde pulseiras de picos de Black Metaleiros a fanzines de BD como o Hips! de Nuno Saraiva & cia, bem como uma divertida BD pós-moderna de seis páginas de Miguel Fonseca e Rui Amaral feita em 1987 - um caso raro de contemporaneidade na BD portuguesa, diga-se de passagem mesmo que em contexto escolar - e que deu origem nos Thormenthor. Ah! e também as discografias das bandas do concelho e essas coisas todas e ao contrário do Porto, assumem aqui a existência da música pesada Punk / Hardcore / Metal. Um manancial para os historiadores do Futuro. Um trabalho bem feito, sem crítica como as instituições gostam. Epá, e topo da cereja é que já faço parte da bibliografia da história desta merda do rock tuga, ena! Vou mudar o meu nome para Múmia Farrajota.

Musonautas é outro patamar, não fosse o Porto e o que significa, a segunda mais importante cidade portuguesa e como tal berço de artistas e cultura. claro que começa mal com o editorial de quem dá o carcalhol, o actual presidente da câmara Rui Moreira, a dar em nostalgia e a falar dos seus negócios de família. Dá tudo a perder mas felizmente a fantástica documentação, a abrangência do livro (não é só sobre Rock, trata de música contemporânea, neo-clássica, popular, da imprensa, enfim quase tudo), as intervenções dos seus vários escritores e o design gráfico fazem disto uma peça histórica que Lisboa com o "Merdina" nunca poderá ter tal documento. Se calhar ainda bem, se fosse a actual Vereação da Culltura só se poderia esperar murais de homenagem ao Zé Pedro ou ao Ribas poluindo as últimas paredes de Lisboa que restam. 

Falhas, algumas, o texto sobre o Hip Hop é fraco - e preocupante como a Matarroa é mal lembrada - e o Heavy Metal é quase ignorado - só não é porque o Gustavo Costa é um músico respeitável do mundo do Experimental e Improv, e que teve nas suas origens bandas como os Genocide. É ainda acompanhado por um CD (aprende Almada!) com raridades musicais para todos os gostos - Hospital Psiquiátrico finalmente com bom som -, pena não tem um alinhamento cronológico para se sentir um evoluir dos sons - dos estilos à gravação. Aliás, não é à toa que o disco acaba com a sensação que os Dealema (e o Hip hop) continua a ser um guetho musical. Para a próxima contacte-me que eu sei fazer isso bem.

Aaaaaaah... foi uma bela época. RIP Rock!

quarta-feira, 11 de julho de 2007

sexta-feira, 24 de março de 2017

Jim DeRogatis : "Milk It!: Collected Musings on the Alternative Music Explosion of the '90s" (Da Capo Press, 2003)

 Eis um livro que tem o não-sei-o-quê de vulgaridade e até o Steve Albini avisa num texto que o autor, o jornalista DeRogatis é capaz de divulgar farsolas como os Urge Overkill invés de coisas realmente novas ou que valem a pena. Folheando o livro topa-se à distância nomes consensuais do que foram os 90s: Nirvana, Courtney Love, Pearl Jam, Smashing Pumpkins, Mudhoney, R.E.M., U2, Jesus Lizard, Tori Amos, Ride, Jon Spencer's Blues Explosion, Flaming Lips, Ween,... enfim, isto mais ou menos e por esta ordem de importância. O retracto da década está mais ou menos correcto e o perfil dos seus intervenientes também, sem que o "fairplay" - que publica a diatribe com Albini - do autor seja mundano. DeRogatis é acima de tudo um jornalista e se ele muda de opinião, como crítico, uma vez ou outra sobre uma ou outra figura, percebe-se porquê. Porque as confrontou sem aquela atitude bovina do escritor Pop/Rock (como acontece com a nossa imprensa musical), porque foi incisivo nas grandes questões de ética e de negócio ou porque discutiu na cara a incapacidade de alguns músicos serem mesmo do Rock - e o que é isso de ser do Rock? Algures, a filha de Kurt Cobain e Love tem a resposta: "o rock dura mais tempo, pop não dura muito", certo...
Tal como os Bestiários do Camarada REP, Milk it! é uma colectânea de escritos, artigos, resenhas e entrevistas entre 1990 e 2001 apanhando uma década em que pareceu ser tudo possível (outra vez) como ter uma pose genuína de anti-heróis do Rock (todos os músicos antes do suicídio de Kurt), a batalha dos Pearl Jam versus a monopolista vendedora de bilhetes Ticketmaster (boicotem! não é só a MacDonalds ou a Padaria Portuguesa que merecem boicote!) ou ouvir na rádio comercial três ou quatro temas seguidos de bom Rock (caralho! já foi possível!!!). E claro, também são mostradas as falhas e os paradoxos como os dois Woodstocks exploratórios, as multinacionais a riparem o que podiam das bandas ou do público ou como uma banda que se diz revolucionária como os Rage Against the Machine sempre fez parte da máquina (editados pela Sony), a falta de ética do jornalista que escreveu a biografia (mais ficção que outra coisa) do Marilyn Manson, etc...
O livro é bom no espectro que pretende abordar, mesmo que o seu design seja medíocre e que não se leia nada de novo ou que já não se saiba, há pelo menos uma construção metódica para perceber quais as bandas que valia ou valem a pena ouvir e conhecer e quem é a maralha oportunista.
"Alternative Music" significa Rock e Pop porque Electrónica (um género que também deu uma grande explosão nessa década) significa neste livro apenas três nomes: Kraftwerk, The Orb e Aphex Twin. Albini tinhas razão... como sempre!

sábado, 23 de novembro de 2013

Podiam ser mais se fossem menos...



Godflesh : Slavestate (Earache; 2009)
They Might Be Giants : Mink Car (Restless + Play It Again Sam; 2001)
v/a : Judgment Night o.s.t. (Sony; 1993)

Acho que sou tão tótó como a banda They Might Be Giants, aliás, só os tótós é que gostam desta banda de tótós assumidos. Tinha escrito aqui que nunca mais iria pegar na discografia dos TMBG depois de 1992, quando passam a ter uma banda verdadeira completa para além dos dois fundadores, John Flansburgh e John Linnell que tocavam vários instrumentos e eram acompanhados por leitores de k7s e uma "drum-machine" - aliás, as boas bandas são as que não tem bateristas como Big Black ou Godflesh, certo?
Ops I did it again! Mink Car sofre por tudo e por nada, começa com uma música techno que se queixa do barulho nas discotecas, tem um tema acelerado-punk-indie que foi aproveitado para a divertida série de TV Malcolm in the middle, uma baladinha hiper-amorosa que só o título diz tudo o quanto é genial (Another first kiss), etc, etc, etc,... temas sempre porreiros e orelhudos mas cuja a soma das partes não faz um bom disco sabe-se lá porquê. Mas pior é saber que a versão europeia / inglesa deste disco tem menos temas que a original (um disco de TMBG com menos de 18 temas não é um disco de TMBG!) e o alinhamento dos temas foi alterado (!). Porra, estamos em 2001 e é um CD! Porque fizeram isto? Que idiotas que são os bifes!!!  Não sei se explica o álbum ser pouco carismático porque os problemas pós-1992 continuam lá mas aposto que não ajuda em nada! Ainda assim, é a única banda Pop que sou capaz de ouvir...
E por falar nos Godflesh, este EP junta mais uns remixes e um single (Slateman) tudo do ano da Graça do Senhor de 1991. Em 2009 continua a ser reeditado porque foi quando todos se lembraram que os Godflesh foram das bandas mais importantes de sempre. Em 1991 a Earache devia-se estar bem a cagar para eles porque afinal que banda é esta que mete três guitarristas, samplagem e "drum-machine" a fazer um som pesado metálico, no limite do Industrial e neste caso, é quando os Godflesh se começam a virar para a música electrónica e o Dub. Para o metaleiro da altura deve ter sido um choque começar a abanar o rabo a ouvir ritmos de Techno... Um clássico este disco! Com ou sem extras!
Outro clássico e que devia ser dado em qualquer aula sobre música urbana porque é um dos melhores discos de sempre é o Judgment Night, mesmo sendo uma banda sonora para um filme merdoso - é o que se diz do filme, nunca o vi nem tenho curiosidade para não estragar o prazer que tenho sobre este disco. Se o encontro da América racialmente dividida gerou o Rock nos anos 50, nos anos 90 teremos o Nu Metal que rapidamente, tal como no Rock, se despachou dos negros. A história antes dos porras Korn ou Limp Bizkit é mais interessante, e surge em três momentos altos da música Pop. O primeiro foi uma conspiração de Rick Rubin em meter juntos os Run D.M.C. (grupo de Rap em ascenção) e os já então caquéticos (musicalmente) Aerosmiths a tocarem Walk This Way em 1986. Mais tarde outro grande momento: Bring the noise com os Public Enemy e Anthrax, se em 1986 o tema original é dos braquelas, a versão original desta vez é dos Public Enemy. Por fim, em 1993 a fórmula "rock + hip hop" é abusada em 11 temas para fazer este álbum que junta Helmet com House of Pain (não vale porque os House são branquelas!), Teenage Fan Club com De La Soul, Living Colour com Run-D.M.C. (ei! também não vale ambos são negros!), Biohazard com Onyx, Slayer com Ice-T (que de Rap nada fazem, porque Slayer é Slayer e ainda fazem uma rapsódia de temas dos punks The Exploited), Faith No More com Boo-Yaa T.R.I.B.E. (o melhor tema do álbum tal é o ritmo e a demência vocal de Patton com os descendentes-baleias do Samoco, digo, da Samoa), Sonic Youth com Cypress Hill (o tema de amor à Marijuana mais narcótico de sempre), Mudhoney com Sir Mix-A-Lot, Dinosaur Jr. com Del The Funky Homosapien, Therapy? com Fatal (não deviam ter colocado os irlandeses com os House of Pain já a gora?) e ainda Pearl Jam (oh não!) com os repetidos Cypress Hill (não havia mais niggas!?). Se no inicio a ideia era juntar o som mais branco pesado, ou seja Hard Rock e Metal, é interessante ver que nesta antologia o encontro passa por bandas Indie e sónicas como Sonic Youth or Dinosaur Jr. que trazem alguma "coolness" que nos outros encontros não era possível dado às metralhadas de rimas e riffs de guitarradas. Em Portugal os borregos dos Blind Zero e Mind da Gap foram logo atrás da fórmula a ver se sacavam guito disto mas sem sucesso. É que é preciso ter personalidade para que um projecto destes funcione, ora quando se é cópia de outras coisas não se pode chegar a lado algum... tal como se pode verificar 20 anos depois.

Ah! Os discos foram adquiridos na Glam-O-Rama no Imaviz Underground, novo espaço "alternativo" em Lisboa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Touch Me I'm Sick!

Depois das tretas que foram Type O Negative e Tinariwen, o concerto de Mudhoney foi o melhor que vi este ano! Flyer pelo Esgar Acelerado

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

I feel stupid (...) Entertain us!

Sara DeBell: "Grunge Lite" (C/Z records; 1993)

"Quem vê caras não vê corações" MY ASS!!! Para quem vê a capa deste disco percebe logo que é bom... quer dizer é aquele clássico «é tão mau que é bom». Uma tipa com o namorado (?) e o cão, ele com uma guitarra acústica vulgaríssima, com pinta de xunga e vestido à Grunge/Seattle anos 90. Vira-se a caixa e eles (menos o cão!) estão enroscados e começa-se a ler os títulos das músicas: "Smells like Teen Spirit" (Nirvana, portanto), "Even Flow" (Parolo Geme), "Them Bones" (Alice agarradita), "Rusty cage" (Soundgarden), "Touch me I'm Sick" (Mudhoney). Começa-se a perceber onde isto vai dar... abre-se a caixa e está uma foto de várias ovelhas vestidas coma a famosa flanela aos quadrados. Pois é, antes dos chatos Nouvelle Vague, do curioso e bailante Señor Coconut e o grande-e-único Richard nós-não-o-merecemos Cheese, já alguém se tinha lembrado de converter "clássicos" da "música alternativa" em algo divertido e de fácil consumo, ou antes, converter música agressiva num género de música "lite". Sara DeBell (que não é a tipa da capa!) até elogia esta sua iniciativa usando uma declaração do papá: «making difficult music "listenable"».
Estamos portanto em confronto com versões em "Lounge music" do mais foleiro que sintetizadores podem fazer. Não deixa de ser divertido (e relaxante para quem não quiser ouvir o feedback de guitarras das bandas originais) tal é a parvoíce. Desta senhora, creio que nunca mais saiu nada de jeito (a investigação" googliana" não revelou nada), o disco está esquecido - se é que tenha tido algum impacto? Aliás, cheira-me a piada entre amigos, dela e da C/Z, uma das editoras originais do "Grunge". Valeu a pena ter ido aquele buraco infecto que se chama Bruxelas para descobrir esta pérola.

Qualidade numérica: 3,4/5 Objectivo pós-audição: Festa de Troca de Discos... para passar a mensagem, claro está!