
Nos anos 90 era puto de vintes e tais anos, pensava que sabia tudo, ingenuidade tal que achava que "50 anos" era uma coisa grande, importante, telúrica e capaz de enterrar todos os fantasmas. O meu grau de comparação era que há 50 anos tinha havido a segunda guerra mundial, um momento histórico e traumatizante para a Humanidade, um ponto de partida para algo melhor. Entretanto o
Punk faz 50 anos e deixa-me à toa - mais até que o facto de mundo estar numa terceira guerra mundial sem fim (começou em 1980 quando apareceu a revista
World War 3 Illustrated pelos vistos) e de estarmos à beira da extinção, ou pela natureza que destruímos ou pelo artefacto mais sofisticado criado pelos humanos. E não, depois de 50 anos não acabou o nazismo...
Se o Punk está velho tudo o que vier a seguir está alinhada numa lógica de peças de dominó a caírem, é o peso da idade, do tempo e da história, ninguém me avisou. O Punk que se foda, tudo bem, quando comecei a escutar já ele tinha idade madura e aceitei a "novidade velha" na mesma, agora, as Raves também ficaram velhinhas?
Até já livros sobre elas como este
A Darker Electricity : Spiral Tribe Sound System : Les Origines (Imp Print 23; 2026) de
Mark Angelo Harrison... que me faz lembrar que apanhei já o fim da coisa original. Vem à memória uma festa em Colares em Junho de 1995..., no meio da martelada havia bandas punk/hardcore/crust a tocarem - eram os
Porcos Sujos?
Subcaos? Isso agora... Seja como for, para dizer que tolice a minha de sentir a História e as estórias. Harrison parece lúcido no que escreve, era um dos fundadores da
Spiral Tribe, um colectivo de nómadas instigadores de festas em que não se pagam para uma pessoa se divertir. Claro que o Estado não curte fins não-lucrativos (que podem pôr em causa a economia) e este colectivo sofreu perseguições policiais e idas a tribunais pela ousadia das folias. Espírito de porco esse que continua ainda hoje pelo mundo fora, como no Estado Policial de França - ler este artigo no
The Guardian.
As recordações de Harrison estão bem sequenciadas e também descobro ingenuidade da sua parte - devido à sua idade quando começou a organizar as festas nos anos 90 -, pois ele e o seu grupo de longe pareciam conhecer os princípios anarcas do DIY e as políticas da auto-gestão. Erro a erro, sucesso a sucesso vão aprendendo e percebendo que o mundo não está para brincadeiras. No auge do sucesso são apelidados de "Sex Pistols do Techno" mas diria que serão antes os "
Crass do Techno", afinal estes quando começaram a banda pensavam que
Bakunin era uma marca de vodka... E a Spiral Tribe deveria ser a mesma coisa, digo eu, para além da uma intersecção com os "travelers" freaks e os Crusties (e os seus cães), como aliás a festa de Colares mostra, lembra a evolução da carreira dos Crass.
Curiosidade, este livro foi impresso em Portugal porque Harrison pelos vistos está em Montemor-o-Novo com uma "start-up", onde criou uma editora. A primeira iniciativa foi a tradução para francês deste livro publicado originalmente pela Velocity Press. Como foi impresso cá quer dizer que o livro tem Depósito Legal 'tuga e em breve todas as bibliotecas distritais vão o receber, estejam atentos francófonos para exigirem o empréstimo domiciliário!
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