terça-feira, 11 de junho de 2024
Farra & Diana
16 anos depois de passar por Lisboa, eis Mike Diana pela Feira do Livro de Lisboa a passear um bébé espancado que adoptou na feira da ladra... E já agora, ele está a usar uma t-shirt serigrafada pelo Gonçalo Duarte, procurem se quiserem passar vergonhas públicas!
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
Visita ganzada
Sempre se disse que BD é para ser publicada e não para se expor na parede. Não sei se é por concordar em grande parte com isso que ganhei resistência a exposições de BD, ou apenas, os meus originais são tão feios e lixados que nenhum "agente da BD" queira promover exposições minhas. Não sei mas também não é que eu me possa queixar assim tanto, logo em 1998 tive direito a uma individual na Universidade De Aveiro, "Auto da Fé(rrajota)" organizada pelo Núcleo de BD e mais recentemente (o tempo passa, meu!) em 2015, a "Free Dub Metal Punk Hardcore Afro Techno Hip Hop Noise Electro Jazz Hauntology" (título homónimo do livro) na galeria da Mundo Fantasma. Pelo meio participei em algumas exposições colectivas nacionais - destaque para a “Tintanos Nervos” no CCB (2011) - e umas três no estrangeiro (Ourense, Ravenna e Pančevo).
Fico feliz que o João Silvestre me tenha convidado e que não
se atreveu a colocar como "curador" porque senão recusaria logo.
Tivemos trocas de emails a pensar o que faria sentido expor, é certo, mas sem
uma hierarquia e esse parasitismo do intermediário. Ele organizou e essa
palavra "organização" é mais catita que "curadoria", é o
que acho porque acredito na cultura DIY numa óptica colaborativa (opondo a
competição do empreendorismo neoliberal DIY). Daí que a maioria dos projectos
que me envolvo tenham essa pretensão da "união faz a força" mesmo
que, mais tarde ou mais cedo, fique só um cromo a cuidar de tudo, especialmente
da parte chata da papelada.
Comecei o fanzine Mesinha de Cabeceira em 1992 com o Pedro Brito, tendo ele abandonado o projecto no número seis (1995) porque andava exausto com a vidinha. Da minha parte prossegui com o zine ainda mais porque tinha descoberto uma força interior para desenhar as minhas autobiografias, fascinado por Harvey Pekar (1939-2010) ou Julie Doucet. É esse o primeiro bloco de originais que é aqui mostrado, as BDs vêm dos números 10 ao 12 do Mesinha, entre 1996 e 1997, sob o título "Apontamentos de Noitadas, Deprês & Bubas". Os tempos universitários eram longos nos anos 90 (pré-Bolonha), em que uma licenciatura demorava cinco anos mas que permitia perdições e explorações várias. Nessas pranchas há concretizações como um fim-de-semana ao mítico Salão de BD do Porto - no ano de 1995 em que os convidados internacionais era a malta toda da Drawn & Quarterly: Adrian Tomine, Seth, Doucet, Joe Matt, Chester Brown e Chris Oliveros. Noutras há apenas deambulações boémias já sem número, embora o Blixa Bargeld o tente fazer. Importante para mim era tentar a tarefa impossível de colocar toda a vida em papel, fosse músicas ouvidas ou desenhos feitos num "evento" (que acabavam colados nas BDs), pensamentos tão iluminados cheios de epifania (era mais pifos!) que tinham de ser registados na hora! Isto mesmo que demorasse anos para depois desenhá-los. Foi aí que que percebi que Arte precisa de tempo para arejar e que demora tempo a fazê-la. Arte não pode competir com a vida! Por fim, as pranchas eram quadradas, nunca curti o formato A4, daí que há umas BDs no topo dos originais A4 que juntos faziam de maquete para impressão dos Mesinhas mais o suplemento Meseira de Cabecinha que era o que sobrava - depois do corte para o formato quadrado. Aqui vêem-se tiras de Leonor Gomes mas noutras passaram nomes como o Janus ou Mike Diana.
Não querendo acabar como o Joe Matt - que faleceu com 60 anos em Setembro- que era um autor que confessa, na série Peepshow, TUDO sobre a sua vida privada de tal forma que acabou por destruí-la, ou apenas porque curtia a ideia de promover a BD noutras manifestações públicas, comecei a fazer BDs de critica de concertos - e mais tarde discos e livros. Comecei onde fazia sentido, um jornal de música, xunguérimo, chamado Inside em 1998. O "deal" era simples, davam-me bilhetes para os concertos e eu fazia a resenha crítica em BD. Trabalho baratinho para eles e a precariedade que aceitava era pela satisfação de ver uns gajos a abanar a cabeça, não tendo cheta para os ver - foi assim que perdi os Cramps na primeira vez. Na BD "Recuerdos" (1998) muitos concertos foram colocados na página mas quase todos sem bilhetes vindos da redação do jornal, isto porque não havia muito para contar do concerto de Soulfly para dizer a verdade, e sempre divulgava uma variedade de gente que merecia visibilidade como o fantástico Jad Fair. Anos mais tarde, em 2012, a organização do SWR Metal Fest de Barroselas convidou-me para fazer uma BD que seria incluída no DVD comemorativo dos 15 anos deste evento! Não sei o que eles esperavam de mim, sinceramente, mas curtindo Metal como gosto de muitas outras coisas na vida aceitei avisando que não sou especialista para escrever sobre guitarras (des)afinadas, pregos de bateria ou se é mais Black ou menos Death. Fiz "gonzo journalism" como fã do Hunter S. Thompson que sou até porque a caminho do festival sofri um acidente de automóvel em que sai vivo por um triz. Achei muito sinceramente a organização do festival impecável e que tal merecia ser divulgada na BD, daí falar mais com trabalhadores do que com músicos cheios de si. Quando a revista eslovena Stripburger pediu-me para fazer uma BD prás suas páginas, em 2013, a cena de Barroselas ainda estava quente para mim. Por um lado adorei o festival, por outro ouvir mexericos por lá e percebi também do lado perverso do mundo da música - neste caso Meta mas transversal a qualquer outra cena musical, artística ou profissional. Resolvi reflectir sobre esse mundo, mostrando o seu lado mais capitalista. Nesta altura já me tinha habituado a usar imagens de outros (ou minhas) para outras BDs, assim em modo de preguiça e orgasmo digital. As minhas pranchas originais começam a ter buracos enormes e ter menos interesse gráfico - fenómeno que não é novo e que se passa com muitos autores de BD desde os finais dos anos 90 com a entrada das ferramentas digitais.
Quanto à prancha dos Napalm Death (grande-banda-grande-banda!)
foi feito para um número do zine suiço Milk + Wodka (2008)
que completava trilogia temática "sex, drugs & rock'n'roll" -
ideia tão original que mais tarde que o zine brasileiro Prego também
o fez e que eu também participei! A BD faz parte de uma fase em que não me
apetecia desenhar mais e restou-me desenhar com a mão esquerda para recuperar o
gosto e a concentração. Fiz mais algumas destas "BDs à canhoto" para
o M&W, a antologia Futuro Primitivo (Chili Com
Carne; 2011) e o zine que acompanhava o EP 7" Raridades (Zerowork;
2008). Aconselho este exercício a todos desenhadores quando estiverem na
merda...
Fecha-se o círculo com a questão da disposição da BD nas
paredes, da generalizada ausência de poder plástico de originais de BD quando
são expostos. Tema bastante discutido no seio da Chili Com Carne,
tentou-se resolver a questão no "Zalão de Danda Besenhada",
em 2000 na Galeria ZDB, com vários artistas a montarem instalações que
acrescentassem uma aura expositiva às suas obras. Da minha parte, apresentei a
BD "Vaiz curtir?" que retrata o percurso de casa dos
meus pais para uma paragem de autocarro num subúrbio em Cascais. A BD revela as
relações (a)sociais com o local e na parede da exposição as suas páginas eram
intercaladas por fotografias ampliadas desse trajecto. É uma modorra
paisagística que obviamente a BD nunca iria apanhá-la nem as fotos iriam reter
o humor de viver na seca suburbana. "O Império Nunca Acabou" (adoro Philip
K. Dick!) foi feito para a colectiva "Mistério da
Cultura" (2007). Foi um engano de um casal de betos
que tinham uma galeria em Lisboa. Nunca disse que fazia ilustração mas
insistiram. Saiu este auto-retrato divido em nove partes que in
extremis faz dele uma BD. Cada desenho trata de momentos culturais
marcantes para mim, que me construíram quer eu queira quer não, seja xungaria
tipo X-Men ou Mata-Ratos, seja o bom tom de Young Gods ou Daniel Clowes.
Resta dizer que deixei de desenhar o ano passado e este é o
meu epitáfio. MF … Lx, 30/11/23
Fotos de João Silvestre
sábado, 22 de outubro de 2022
30 anos de MdC
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| número zero, capa desenhada por Pedro Brito menos as "letras" que foi Marcos Farrajota |
Foi neste dia em 1992 que eu e o Pedro Brito, com 19 e 17 anos respectivamente, "lançamos" o fanzine Mesinha de Cabeceira para entrar à pala no Festival de BD da Amadora. Este não era o principal motivo de termos junto umas 20 e tal páginas com montes de colaboradores mas foi uma oportunidade. Se fizéssemos com aquela data na cabeça, conseguiríamos entrar no festival porque podíamos reclamar à entrada que íamos deixar a nossa publicação num stand para os vender. Acho que era assim... Foi em 1992 que o Festival da Amadora passou prá Fábrica da Cultura e prometia - e conseguiu - tornar-se no evento mais importante de BD em Portugal. O maior não quer dizer o melhor, e rapidamente deu para perceber a dada altura que a BD não interessava aquela gente mas sim o evento em si. Num concelho onde não há nada a nível cultural - este "nada" pode significar apenas "mediático" porque se calhar há sempre uma banda Rock numa cave a tocar ou algo do tipo - o que vale é manter a engrenagem a andar sem pensar ou ter cuidado com artistas, Arte e BD.
E saiu o número "zero", estranha lógica de "teste de mercado" que corrigimos assim que pudemos com o duplo 2/3.
O principal motivo - vá vamos ao que interessa - era fazer o melhor fanzine do burgo. Eu (de Cascais) e o Pedro (do Barreiro) conhecemo-nos em Lisboa, no Clube Português de BD, que nessa altura já não fazia nada a não ser, ser um espaço de encontro de colecionadores velhos de BD, aos Sábados à tarde num espaço de uma freiras ou lá o que era - o que fazia os velhos da BD esconderem muito bem algumas das suas publicações. Ali, os jovens ficavam à toa, embora o simpático Geraldes Lino tentasse levantar os ânimos. E foi lá que nos conhecemos todos: eu, Pedro, João Fazenda (com 13 anos), Ricardo Blanco, Arlindo e Jorge (d'O Moscardo, o único zine de crítica à BD até hoje!!!), Arlindo Yip Sou, Miguel Falcato (creio) e mais uns quantos - entre eles muito à distância porque perceberam que aquilo não era para eles, o Bruno Borges e o Nuno Neves (do Serrote) que fizeram os excelentes graphzines Crash e Speed Comics, e que muitos anos mais tarde iria reencontrar noutras situações. Mais tarde seria a Tertúlia Shock do Estrompa o local e dia da semana (Quinta-Feiras) de eleição prá malta jovem e rebelde.
O Mesinha era para ser também o nosso espaço de trabalho. Eu não me sentia bem com o desenho e o Pedro com a escrita. Fizemos parceria, eu escrevia e ele desenhava, histórias cheia de sexo violência, efeito dos anos 90. Mais tarde eu comecei a desenhar e o Pedro a escrever as duas histórias. Para além disso percebíamos que o ambiente da BD era morto. Não havia a energia que víamos nas outras Artes, sobretudo na música Punk e Industrial que descobríamos nessa altura todos babados em headbanging violento, sendo o nosso grande ponto de encontro os Ministry.
Daí que colagem (convenhamos os computadores "ainda estavam a começar"), poesia, desenho e entrevistas a bandas faziam todo o sentido no meio de BDs parvas. Por isso a distribuição passava por lojas de discos como a Torpedo invés de livrarias, ou seja, onde estava a canalha punk e metaleira.
Também acreditávamos estupidamente na falta de "heróis" (ou anti-heróis) ou séries na BD portuguesa e que a sua criação deveria ser a salvação prá coisa. Erro crasso da juventude embora daqui o grande sobrevivente tenha sido o Loverboy que deu em três (+ um) livros. Já agora, um reparo, depois de fazermos o zine começamos a perceber que havia outros fanzines com atitude e cheios de vida mesmo que fossem de "bêdê" como A Mosca (de onde saiu o Janus!), G.A.S.P. de Diniz Conefrey & cia, ou mesmo o Hips! de Nuno Saraiva e Jorge Mateus, Psicóse Infantil e O Búlgaro.
Depois, o natural, cada um para o seu lado. O Pedro fundou a Polvo e saiu de lá aldrabado. Eu criei com os amigos a Chili Com Carne e depois a MMMNNNRRRG - que muitas vezes e até agora editaram vários números do zine. O Mesinha serviu de "estágio profissional" para o saber-fazer da edição. Aliás, outra consequência do MdC foi a colecção Mercantologia onde já recuperei material desde bons velhotes dos anos 70 às melhores autoras do momento (Amanda Baeza e Mariana Pita) já para não falar de BDs de gatos melomanos...
Que dizer mais? Sempre foi uma publicação mutante, até à saída do Pedro sempre assumimos que tinha de mudar de número para número. Com temas em cada número, esquemas editoriais até radicais como censurar um número como se fossemos uns cavacos. Continuei sozinho mantendo um estilo até o quebrar com o número 9 em que dei um maior passo em relação à exploração da BD autobiográfica e que durou ainda alguns números. Depois mais mudanças, no número treze comemora-se 5 anos de existência com o primeiro monográfico, o 88 de Nunsky, autor fora do vulgar que ainda esta semana teve o monstruoso Companheiros da Penumbra editado. O artista Mike Diana proibido de desenhar também teve direito a um monográfico. Antes a Isabel Carvalho que ganhou um concurso onde incluía não só guita mas edição de um livro, neste caso o Allen - por isso, foi foleiro ela dizer anos mais tarde que não fazia mais BD porque nunca tinha ganho dinheiro com esta Arte, aliás, ela foi das poucas que ganhou dinheiro num meio super-precário, mais do que os seus colegas masculinos, cheira-me que para continuar com a "arte contemporânea" tinha de dar este golpezinho.
Em 2002 o André Lemos é quem comemora os dez anos com um graphzine em serigrafia, abrindo caminho para muita réplica mais tarde. Vinte anos em 2012 é solidificado num dos objectos editoriais mais fixes em Portugal, o número 23 (coincidência deste número cabalístico que o Pedro sempre me avisou!) com montes de malta. Regressei à autobiografia em alguns números a seguir. O Nunsky também.
Até que no ano passado decidi recuperar o Mesinha no seu sistema mais básico enquanto "true zine", ou seja, fotocópia (agora é a lazer tudo), 100 exemplares e com malta (+ ou -) nova a bombar loucura gráfico-narrativa. Tem sido fantástico ver e publicar "sangue novo" como o André Ferreira, Alexandra Saldanha (louca louca louca), Marco Gomes, Matilde Basto, Luis Barreto, 40 Ladrões e brevemente o R. Paião Oliveira. Mais virão espero...
Numa cena que só não foi reacionária e anacrónica nos anos noventa até 2005 - com a Lx Comics, Quadrado, Salão do Porto, Ai-Ai e Bedeteca de Lisboa - sinto algum orgulho em poder mostrar trabalhos que fogem à "bedófilia" e ao zombismo-papa-merda tal como em 1992 em que olhava à minha volta e havia tudo para fazer e tudo para destruir. O problema é que antes a "Merdibérica" era apenas incompetente, nos dias de hoje os "bedófilos" são mais espertinhos e mais hipócritas, sabem vender os seus subprodutos de forma mais convincente. A qualidade da crítica piorou e a desinformação aumentou, por mais estranho que isso possa parecer no mundo da 'net. Se calhar a próxima vida do Mesinha devia ser mais Fanzine e menos Zine, quem sabe?
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| Capa do próximo MdC (#37) por R. Paião Oliveira |
PS - 30 anos merecia uma festa mas o Universo é cruel, para me punir da entrada à pala da Porcalhota, trinta anos depois, estando lá este ano no stand a Chili Com Carne a oferecer um pouco de civilização ao seu público, eis-me agarrado aos horários deles e sem capacidades para organizar uma festa com bandas e o catano. Desculpem meus amigos, olha mas podem organizar uma se quiserem hoje à noite, não se esqueçam de me convidar, hein!?
PPS - Seria estranho não agradecer a alguém com 30 anos em cima. Ficam aqui alguns nomes: Pedro Brito, Arlindo Horta, Miguel Falcato, Nunsky, Pedro Nora, Joaquim Pedro, João Maio Pinto, Pepedelrey, Joana Pires, Marco Gomes, Matilde Basto e todos os autores que participaram nestes 37 números do MdC. Da parte "mercantilista": Ruru Comix, Kus!, O Panda Gordo, A Batalha, Ediciones Valientes e Yuzin.
segunda-feira, 4 de maio de 2020
Donna Gaines : "Teenage Wasteland : suburbia's dead end kids" (University of Chicago Press; 1998)
Eis um livro que pode ser um companheiro da "segunda parte" de The Decline of Western Civilization, sendo que Gaines tem uma missão maior que é analisar o pacto de suicídio de quatro jovens em Bergenfield (EUA, 1987). Escrita de forma jornalística, Gaines envolve-se na comunidade de jovens marginais dessa cidade e os seus "filmes" com álcool, droga, violência familiar e exclusão social. O livro revela muito bem como o sistema de educação norte-americano é segregador e eugénico, e onde até na tentativa de mudar as regras do jogo, a sociedade gringa não consegue de pensar sempre no "big buck", fazendo de todo o arsenal social uma forma de fazer guita.Os jovens "burnouts" daquela cidade estão a curtir Metallica, Bon Jovi e Iron Maiden, enormes na altura, e também M.O.D. originais de lá. Metal e o seu "satanteenismo" são as grandes preocupações de pais que não percebem patavina dos códigos juvenis ou da sua condição miserável na sociedade dominada totalmente pelos "adultos" - ver o caso de Mike Diana. Cru na escrita, Gaines que consegui a confiança dos jovens d Bergenfield graças a gosto comum pelos Motörhead (sempre foi a banda mais unificadora de tribos urbanas!) vai a todas, faz um excelente ensaio sobre a popularidade do Hard Rock / Heavy Metal focando na mitologia do quarto LP dos Led Zeppelin, sobre a música como religião numa sociedade hiper-maniqueísta, sobre a necessidade dos jovens terem espaços auto-geridos (há referências à cultura Hardcore), sobre como as "reganomics" destruíram o tecido social norte-americano ou ainda porque nos anos 80 não se pode falar de subculturas mas subcultos dado o enorme puzzle socio-económico (e racial) que são os EUA e da forma como as culturas se modelam nesses complicados contextos - percebe-se porque os anos 80 foram uma "idade de ouro" para tantos sub-estilos de música: Punk, Hardcore, Thrash, Speed, Death, Crossover,...
A edição original é de 1991 mas esta (re)edição inclui um posfácio que fala dos anos 90 como a vingança dessa juventude espezinhada dos anos 80. Realmente os 90 foram os anos do "alternativo" e da ascensão da cultura DIY vindas da década anterior - zines, bandas como Sonic Youth ou Butthole Surfers, causas políticas - mas Gaines aponta que nada mudou no estatuto dos jovens, se é que não piorou, estatisticamente mostra que aumentou o homicídio juvenil, o suicídio juvenil, a gravidez juvenil, etc... e simbolicamente houve as mortes do branco Kurt Cobain (1967-94) e do negro Tupac Shakur (1971-96), o primeiro suicidou-se (este livro é húmus para explicar Cobain) por apatia caucasiana, o segundo foi assassinado por gangues.
sábado, 19 de janeiro de 2019
Que bem! O gato vai ter livro!
Peludo, porte médio, língua afiada. É assim que Tiago da Bernarda descreve o seu alter-ego, mais conhecido como Gato Mariano, o crítico felino que vagueia os confins da Internet. É nesse lugar amorfo e amoral que, desde 2014, tem vindo a discutir sobre os mais recentes projectos da música alternativa portuguesa.
O que começou como webcomic vira agora uma antologia que reúne as melhores tiras dos últimos quatro anos, num intenso volume de 144 páginas, muitas delas a cores (18x25cm) e uma super-capa com cortante de gato assanhado!
O Gato Mariano é uma das grandes criações da década (estimativa conservadora) em Portugal. Possivelmente nunca lhe será feita devida justiça, até porque um dos encantos que tem é a "subterraneidade", o traço e as reflexões como nos grandes mestres de apelo clandestino na BD do final do século passado. Não é um Kochalka português, nem um Tony Millionaire português, nem um Mike Diana português; é um Tiago da Bernarda português.
Samuel Úria
...
Volume 13 da Colecção Mercantologia, dedicada à recuperação de material perdido no mundo dos fanzines e afins. Editado por Marcos Farrajota, design de Joana Pires e publicado pela Associação Chili Com Carne, o presente volume apresenta uma selecção de várias BDs da série O Gato Mariano publicado originalmente em várias plataformas em linha, desde 2014, com o nome Críticas Felinas (actualmente em instagram.com/ogatomariano_), no sítio Rimas e Batidas, nos zines O Gato Mariano Não Fez Listas em 2015, O Gato Mariano não fez listas e confrontou um fã que disse não perceber as suas reviews em 2016 e O Gato Mariano não fez listas em 2017 e nos dois números do fanzine Mariano (2016-17).
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Maximum Rock'n'Roll
A parte dos discos será a que menos me interessa porque já recebo as minhas doses homeopáticas de Rock. Embora a MRR passe muito pela música (música que tenha bateria e voz senão não entra!) também tem muitas colunas de opinião em que se discute política, prostituição, queercore, vivências, livros, filmes e arte. E até BD! Sobre o caso Mike Diana, os ataques de extrema-direita ao Le Dernier Cri, sobre Nathan Ward, Ben Passmore ou a editora Silver Procket. Os números recentes que adquiri eram números especiais, um sobre fanzines (o que eles tem a dizer depois do mundo web 0.2) e sobre "arte punk" - o que é isso?
Zeus! Mexer neste zine faz-me pensar o que aconteceu à imprensa portuguesa que deixou de existir - se isto for indício de velhice, admito que sim, meu, não era mesmo fixe pegar três em três meses um novo número da Mondo Bizarre e mais ainda da Underworld / Entulho Informativo!? De resto, o que temos de imprensa musical? Nada, só blogues feios e redacções homofóbicas como as da revista Blitz, Diário de Notícias, Expresso, Público e I - digo isto porque todas receberam exemplares do livro do Queercore e ignoraram-no, o Público que sempre escreveu sobre os livros do Rui Eduardo Paes, desta vez fechou-se nas suas copas... Pelos vistos, tem de ser como "no antigamente" (antes dos anos 90), é preciso comprar publicações estrangeiros para matar o marasmo editorial!
A hamburgeria vegetariana / discoteca Black Mamba (do Porto) distribui este fanzine em Portugal. É ir lá comer um "punkburger" e comprar o último número da MRR... é uma boa desculpa para ir ao Porto-cada-vez-mais-parecido-com-Lisboa-que-nojo! [à parte, numa recente visita ao Porto vi um grafito pintado a azul que dizia "Lisboa" apenas...]
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Guantanamo questionnaire : Marcosom Farrajoto
Entrevista feita por Kaja Avberšek e David Krančan para Stripburger #62.
Let's start with Bedeteca, your home institution.
Bedeteca de Lisboa is a comics library created in 1996 by the City Hall of Lisbon. Until 2002, it has been the most important public institute supporting comics in Portugal, as it helped young artists and new editors, republished classics and published essays about comics and their History. It also organized exhibitions (with catalogues) and festivals. All this was possible thanks to the organizing skills of its director João Paulo Cotrim. Things started to fall apart after he left since all the projects depended on the political support of the then-mayor João Soares. From 2002 to 2006 we had a good program, but since then we had to work with a "zero budget". In 2009 we gave up doing exhibitions (even at zero cost) because of the problems with the building where Bedeteca resided. In 2010 the director Rosa Barreto left and the City Hall didn't find a substitution for her. This is where we are now: no leader, no team, just two people taking care of the library – and a damn good library, by the way!
What exactly was your function at Bedeteca in the golden times? Were you officially employed?
I used to manage the program for the Salão Lisboa Festival and other events, curate exhibitions, take care of the website bedeteca.com (where you can read the Portuguese comics history between 2001 and 2010!), to edit and publish books, catalogues and magazines (like Quadrado magazine or Lx Comics collection for new authors), give comics workshops, a little bit of everything … I started working in Bedeteca in 2000 as an “independent worker” – which was an illegal way of working for companies or the public institutions. As independent you work as any other employee, but you are not officially in the “house”, you’re “independent”, so you can be fired whenever they want and all that ... ah, the old days of “recibos verdes” (the tax figure of this kind of employment in the 90’s and 00’s). I’ve been working as a normal employee since 2009, yup, I’m a public worker, I’m the enemy...
So now you’re officially at Bedeteca?
Yes, that’s my “day job” or the “pay the rent job”. But since 2010, I refuse to be more than a librarian in Bedeteca. No more having Jakob Klemenčič at my place! Let me explain this private joke: in 2008, when Stripburger was here in Lisbon with the Honey Talks exhibition, the show was held in Bedeteca de Lisboa, which is funded by the City Hall. Despite having the exhibition for free and the Slovenian guests coming all the way here for free, the City Hall didn’t want to pay for their accommodation. So I offered Jakob to stay at my place, and my boss at the time also arranged her boyfriend’s place for David Krančan. Anyway, I think this is not the way to do it, so I’m not sacrificing my own resources for a public institution anymore.
Also, there seems to be no clear idea or plan of what to do with Bedeteca, so it doesn’t make sense to plan anything here right now… So I’m just a good librarian, you know, someone comes here looking for a comic book and doesn’t know the name of the author or even the title, and still I’m able to find it! I’m a nerd this way, I guess… Of course Mr. Jakob has been at my place afterwards, but that’s another story …
Does the future of Bedeteca money-wise depend only on the good will of the municipality? Has anyone tried to reactivate it with some sort of EU funding, programs like EVS, Leonardo da Vinci etc …?
Bedeteca is a public library, a member of the municipality libraries network (BLX), which is part of the Culture Department of the City Hall. It’s not a private institution so it has hierarchy and rules that make everything slow and dull. Previously there was a connection with the mayor and the culture alderman who could speed things up or at least give us some orientation lines. None in the City Hall is interested in or understands comics anymore, there’s no top management since Rosa Barreto left - we’re like a dead chicken running around headless, except this chicken can give you more than 8000 volumes of comics to read!
… among which there are quite a few books you have helped to produce yourself. You are generally known as a (self)publisher and as an activist in different areas of the alternative scene, but you are also a comic artist. How did you get into the comics anyway?
I’ve liked them since I was a kid and this passion went the usual way: as a shy and antisocial person is was more into reading comics than speaking with peers. I was drawing here and there, getting crazy about super-heroes and later underground comix. After that I got into the fanzines scene and started to do one in 1992, it was titled Mesinha de Cabeceira. Then I worked here and there, the usual way again: xerox copies, autobiography comics, getting pissed and stoned, getting pissed with the comics scene, doing DIY and becoming famous for 15 minutes in some popular series with the Loverboy series. Then I went back to zines, started doing DIY again, got really fucking pissed with the comics scene, but continued to do stuff … Now I do it less, since the editorial work take a lot of time. I was lucky to get a grant to make comics outside Portugal in 2011: this way I’ve already made half of a book which is to be published someday …
Tell us more about the upcoming book.
The all thing is essay and autobiography about archives, collections and the relation with objects. Trying to figure out why we buy so many records, books, zines, tapes and all that…
Will you publish it with Chili Com Carne? How does your publishing house work?
For now I’m publishing it by chapters in my zine Mesinha de Cabeceira (and in issuu.com/mmmnnnrrrg) but who knows when I’ll finish it anyway… I need another grant! Hahahaha The all thing is complicated to continue when I’m back to the “9 to 5 thing” and after that on the editorial stuff (Chili Com Carne and MMMNNNRRRG) and still trying to do creative work…
Chili Com Carne is a non-profit organization of young artists that mutates every 2 years with the election of a new editorial board. We are present since 1995, got legalized in 1997 and focused on publishing in 2000. You can get a lato sensus idea of the CCC on the website. The majority of our publishing represents comics but we’ve also published literature, drawings, essays and music because we like all that ... I guess CCC was always a melting-pot of ideas which couldn't be satisfied only with comics or the comics scene - or any scene at all. Of course the comics scene is square but we can say the same for music or literature as well. "Networking" was always the goal before the word went hype with the internet.
What about MMMNNNRRRG? We can hardly follow all the activities you're involved in …
MNRG is a solo project of mine created in 2000 with the intent of publishing all the comics that nobody wants! It's been a "dinamic duo" project with Joana Pires taking care of the design and my bad mood since 2010, hahahaha. Most of the label aspect is connected with an "art brut" feeling of art with no compromise and no fixed genre. The idea was to publish unique voices in comics and illustrations.
How many publications have you produced until now? Could you point out some of your most important achievements?
Maybe around 50 books both CCC and MNRG, I should go check it on the website of CCC and MNRG … and two music records as well!
I guess the most important are the first ones: Mutate & Survive and O Macaco Tozé. The first because we had this crazy idea of making a “MEGA-zine”, a 200 pages comics book featuring independent artists from Portugal. Thanks to the international promotion (I suspect most of it came from Stripburger!) we started to receive stuff from all over the world! In the end there were 77 artists from 16 countries. It was such a joy to get to know all these people. As for Macaco (crazy bas-fond Oporto comix done by Janus), it’s my first book under MNRG label, and it was my response to some stupid stuff happening with publishing houses in Portugal at that time. This was in 2000, at the peak of comics publishing and author’s comics in Portugal, and I was really angry and passionate about making this MNRG statement to protect “the innocent artists from the evil publishers”. Apart from that, I also wanted to show “fucked up comix” – not only nice stuff as it was made at the time: I wanted to show there was also nasty stuff!
Recently, perhaps it would be Boring Europa and Futuro Primitivo anthologies, because I’ve tried to change the editor’s role into a narrative DJ concept or, in other words, into a ‘comix-remix’. This means to “screw and chop” comics by other artists transforming them into new comics. It’s not an easy job because there haven’t been many experiments of this kind in the history of comics. I have a slight sensation of failure but I’m proud that I’m trying to introduce a new concept into comics … Sounds pretentious, but that’s why I started to write these articles about it published in the newspaper Kuti and in the book Metakatz. Seems like no one knows that there have actually been some experiments in this field: from Max Ernst to recent anthologies Tonto and Giuda.
What are the channels of distribution for your publications? Is it easy to buy your stuff in bookshops throughout Portugal?
We’ve mostly had mixed experience with this since 2000. We had three different distributors. One was perfect, but closed down. It was a Belgian girl who lived in Portugal but later returned back to Belgium. The last distributor was a "motherfucker" that didn’t pay, so we had to get a lawyer and we won! I guess that’s how Portugal works. This is why now and in the meantime we distribute ourselves. There’s not many bookstores left, just like record shops, after Internet revolution and economic crisis. Most of bookstores are now owned by four major chain bookstores (FNAC, Bertrand, Bulhosa and Almedina). Sometimes we succeed in convincing them to sell our books, sometimes we don’t – and we don’t know why … there is no scientific explanation to it! Still, we try not to depend on the mood of these messed up companies, so we do our own events to sell and put our books in record or fancy design shops. There is also this idea to get different crowds to read comics or literature.
There are some comics shops in Portugal but I don’t work very well with them – and vice-versa – since all they want is to sell fetishist and fascistic superheroes bullshit, manga porn and paedophilic Franco-Belgian albums. Of course there are some exceptions, like Mundo Fantasma in Porto, with which we collaborated to make an exhibition of Marcel Ruijters over there.
You surely have many foreign readers; does your stuff reach them through the distribution channels or is it more hand-to-hand, dealing stuff at the festivals throughout (mostly) Europe?
Same as in Portugal, yes, hand-to-hand, festivals … but then there’s some official and solid connections with stores in Germany, Spain and Brazil.
Do you get any kind of subsidies from the Municipality of Lisbon or the Ministry of Culture? We cannot imagine you being able to do it all out of your pockets ...
We received some funds from the Portuguese Youth Institute and previosly Cascais City Hall. Cascais is a suburb of Lisbon where I previously lived and where CCC was founded. It really helped to kickstart CCC between 1997 and 2001, but not so much a bit later: Cascais City Hall became angry with us over an anthology we published with their support. They hated a comic by Mike Diana and Rafael Dionísio’s hilarious text about the Dalai Lama. Later, they withdrew their donations saying that they didn’t support books anymore, hahahaha. This was in 2005, but last year they gave money for O Hábito Faz O Monstro, a comic book by Lucas Almeida, with a page where the Devil’s giant penis is cut with a sword. Some people just never learn!
Anyway, we’re becoming progressively able to sell enough to do whatever we want without depending on public grants and all that. This is a small operation in the sense that we don’t have an infrastructure like an office and materials or a regular program of X books per year. The internet access is paid from my pocket, the designers have their own Macs … everything is quite organic! We do what we want when we’re supposed to … so for instance, just to destroy your romantic idea of us, the books are being stored at my place (along with the clothes and shoes), at my parent’s house and at another member of CCC parents’ house. But everything is well packed and organized, our parents don’t complain!
MNRG books are published by me only, so yes, it’s from my money and it is possible to do it! It’s possible to do stuff without much money but only if you’re an organized person. You also have to be a long distance runner and you need to believe in your work. If you want to get money fast, well … then become a hipster and spend 100 Euros on a t-shirt to be at the right party with the right people! Of course it was hard in the beginning, but slowly everything comes together. For example: 10 years ago, nobody cared what I published. Now, just because we have books in FNAC megastores, people are amazed: “Oh, I saw your books at FNAC!” as though the books are better if they are sold in FNAC. Hahaha! Or some critic that used to ignore or write bad reviews about our books now writes “incredible work, blah blah”…
We all know that the alternative scene never operated with much money. Does editor’s work earn you enough money to live? If not, what are your bringing-home-the-bacon activities, if that's not too personal?
I don’t have to earn anything at all with publishing! Like I told you, I work as librarian, a comic librarian, and then I spend my money on publishing, hahahaha.
Chili Com Carne is a non-profit association so everybody volunteers most of the time – writing, drawing, design, distributing, whatever … Sometimes if there’s a better budget we can pay someone for this or that. We pay all the expenses by selling our books and other labels’ stuff, with quotas of the members of CCC and some ridiculous grants.
The small press thing is not about money but ideas. Books or other products you create serve to promote ideas or the authors in the sense that they can propel to other ideas, situations or projects in the professional world. Of course, there’s some underground stuff that you earn good money, those niches & nostalgia market maybe, but I don’t want to release stupid garage rock records or make drum’n’bass parties, do I?
What are the influences you would point out as the most important for your work? OK, we know it’s anarchism, punk, art brut, no compromise whatsoever … but can you be more specific and give us some names?
Hm, I don’t know … I think you named them all … add to this the industrial culture, noise and death metal, hahaha … and Fábio Zimbres, the editor and artist of the Brazilian comics magazine Animal, Brazilian magazines of the 90’s (Chiclete Com Banana, Piratas do Tiête …) and Escape magazine from the UK (edited by Paul Gravett). Those were the magazines that influenced me to start my own zine.
Still there’s no need to invent or quote much, the tools and models are all here! You just have to do it by yourself, make mistakes, acquire experience, have fun, revolt and do something about it. People can help a lot, you just have to ask them for it to make connections, get the rewards and enjoy what you’re doing … You can do something original or at least different from what you wanted to do in the first place by mistake! If you want something perfect, go “franchising”, if you want something different, do it on your own and invite friends to do stuff with you. They will always screw up your original idea and thanks to that it will be a better project. I like the band Pigface! Seriously, what I wrote here is more or less their modus operandi … I guess I wanted always to be Martin Atkins!
I suppose most of the stuff that influenced me comes from music, not so much from comics or arts. I like the rock’n’roll vibe of doing things – not the rock music anymore, but of the way of doing things alive and kicking. I guess that’s why we made the Boring Europa tour!
Are you a fan of Le Dernier Cri? I suppose you are …
Yes, of course, but not of every book. We don’t share many methods and aesthetics, except for a few authors we both published: Mike Diana, Tommi Musturi, André Lemos and now Marcel Ruijters. But that’s it. I do “industrial printing” books and most of them comics or literature, while LDC makes hand-made artistic graphic books. What’s fascinating about LDC is their “democratic access to culture” which is rooted in the punk culture. With LDC stuff you can have art at a reasonable price. That’s beautiful because unless you have 5000 Euros to buy original paintings, the only solution would be to put Bob Marley or Sex Pistols posters on your walls. With LDC you can have a nice drawing on a big silkscreen for 50€! Isn’t that fair? Also, the funny thing about LDC is that as soon as you discover them, you want to be part of it somehow. You want to make an exhibition with them in your town, buy their stuff to sell or to give someone, etc. It’s not common to have this relation toe-to-toe in the "normal" elitist art world, they’re an inspiring telluric force!
How do you find the right artists? You probably don't just rummage through the "garbage", but as you said, you take all the stuff that nobody else likes. You surely have some standards … do you have any preferred or favourite authors? Do they generally find you or do you find them? How does that happen? On fairs, exhibitions, on the internet, by word of mouth?
Well, the first three, Janus, Mike Diana and Christopher Webster, came from zine word. I used to read their zines in the 90’s (which was a sane activity to do in those days) and then decided to create MMMNNNRRRG, because I wanted them to get a broader audience so that their work wouldn’t be forgotten after the xerox zines disappeared into the “underground”.
Things started to change with the end the zine scene. I found some artists in the internet, like Neuro or Aaron $hunga, others through friendship or being their friends (Tommi Musturi, Igor Hofbauer, Aleksandar Zograf), and some because they live in my country (André Lemos, João Maio Pinto, Max Tilmann, Alexandar Brener & Barbara Schurz). Also festivals: I’ve met Marcel Ruijters at the Ravenna Komikaze Festival when he was doing the Inferno book (of which I saw some pages and loved it). Later I met him again in Angoulême where he gave me the Dutch edition and then in Helsinki we agreed to make the Portuguese edition! Finally I brought him to Feira Laica in Lisbon to release the book. I guess this is the most typical “comic nerd culture” example you can get from me, hahaha … things just happen.
All this authors are my favourites, they touched me somehow and I know because they are fresh and different, but nobody is paying attention to must of them. Some are just too dysfunctional to do publishing themselves so I show them to the world. Of course, nobody wants fresh and weird stuff, so some books take ages to sell out or to start selling … but anyway, that’s what editors do, right? Find important stuff to show to the world!
You mentioned Feira Laica ...
Feira Laica IS DEAD! Yeah! It's a naïve project created by me and José Feitor (illustrator and publisher - Imprensa Canalha) in 2004. We made 21 events under this banner until the last one in December 2012. Basically it was a small press fair (not a comics event) that took place twice a year: one in June, which was like a summer party with books and beers, and one in December to exploit the Christmas consumerism frenzy. It grew quite well, especially during the last 2 years, even when we somewhat reduced the program. Still, it always had concerts, many Portuguese bands that are now famous did the first gigs on Laica, then exhibitions (with Stripburger as well), DIY films, program for children, workshops ... It was all 100% DIY: we only had to find a big place and then we would organize all the things in collaboration with people interested in helping ... so I guess anarchy works! And it works really well because we had around 900 visitors in one weekend during the last edition almost without the support of the official media, of the traditional advertising (we even gave up doing posters and flyers in the last years) or the "all mighty bullshit" “Facepoop”.
Then why did Feira Laica die after all? Financial issues? Personal problems? Quarrels? Boredom? We really wonder why because it seems like it was a really successful event! Does this mean anarchy doesn't work that well after all? :)
Fuck no, it works!!! There is already another group of people doing the substitution event right now!!! See? You wicked Slovenian!!!
No money problems. Why? Because it never had any money! No personal problems or quarrels. Why? Because there was no money in it again! Just boredom! We were doing this for 8 years, always in the same way, we’ve shown that it works, so we decided it was time that someone else did it – maybe they can do it better, who knows? We don’t use the name Laica for the new events because we feel that people should use a different name as it’s going to be a different concept, working methods, people etc. At some point we actually considered just giving away the name, but then we remembered that we promoted the last one as the ultimate one. I’m not a Christian, I don’t believe in resurrection, not of the Nazarene pig and not even of this Russian bitch Laica! It’s over.
So, I guess you're not planning any similar events in the near future?
Probably not: while others continue making this kind of indie events, I’ll help with what I can, of course. Maybe we’ll use Laica as a brand to help promoting these new initiatives – like some kind of a “quality sponsor”, as Laica turned out to be pretty influential. This might help if we can assure that the next show has the same “Laica” standards. Another thing: Laica could make a comeback, but only for social purposes, like doing a benefit to save someone’s ass. Let’s not forget that all the system is shaky so you must think in a solidary way and stay connected with your community. Like sweet lil’ George Bush Jr. said: “Either you’re with us or you’re against us!” I guess he meant this in defense of the small press scene, but due to an enormous and incredible hierarchical mistake he invaded Afghanistan and Iraq.
Was there ever a time you wanted to quit the alternative scene and just be a pension-waiting public worker?
Should I have given up in 2001 or 2005 or 2008 or … today? No way, I’m like punk/hardcore bands and they’re just like cockroaches: always coming back and never giving up!
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
20 anos do Mesinha de Cabeceira
25 Outubro - 16 Dezembro
Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, Lisboa
no âmbito da Trienal Desenha 2012
Sinopse: Exposição de originais de BD, desenho e ainda de fanzines, serigrafias e pintura relativos aos 20 anos de existência do fanzine Mesinha de Cabeceira. Criado por Marcos Farrajota e Pedro Brito, desde 1992, que se assumiu como um projecto mutante que se intervala em antologia, monográfico e "perzine" para além de ter passado pela impressão profissional, pela fotocópia e pela serigrafia
Sobre a exposição: Deveria ser uma retrospectiva mas para isso era preciso logística e dinheiro que ninguém teria interesse em investir. E depois há originais perdidos por todo o lado: em Macau, na área metropolitana de Lisboa e quem sabe Brooklyn, Hamburgo, Belgrado, Viseu e Seattle... O fanzine nasceu em Lisboa, embora os seus dois fundadores, Pedro Brito e Marcos Farrajota fossem dos subúrbios (Barreiro e Cascais, respectivamente) mas os colaboradores vieram de vários pontos do planeta, daí que recolher todo o material seria complexo e dispendioso.
Esta exposição é uma selecção de peças curiosas, sobretudo de originais de BD dos 20 anos de actividade editorial do fanzine Mesinha de Cabeceira, desde o seu número zero até ao mais recente número 23. Optou-se para mostrar algumas curiosas peças que mostram de forma simples as pranchas de BD (originais) pouco antes de serem impressas fosse nos tempos gloriosos da fotocopiadora até à impressão offset – passando ainda pela serigrafia.
Muitos destes originais tiveram pouca visibilidade, ou por causa das tiragens reduzidas das edições (sobretudo dos primeiros 12 números) ou ainda porque nunca estiveram expostas noutros espaços - excepção serão os trabalhos de André Lemos, Filipe Abranches, João Maio Pinto, Jucifer, Marcos Farrajota e Pepedelrey que ainda o ano passado, foram vistas por milhares de pessoas durante a exposição Tinta nos Nervos, no Museu Berardo.
Da Noruega vieram as páginas da BD de Monia Nilsen, em registo de entrevista saída no Mesinha de Cabeceira Popular #200 (Chili Com Carne, 2006). Da viagem a Moçambique, Crizzze conta a sua experiência com as cores fortes de África – o trabalho saiu no #17 (Chili Com Carne, 2003). Dos EUA veio uma pintura de Mike Diana que mostra os ácidos a todas as cores da capa do MdC #15 / Sourball Prodigy (MMMNNNRRRG; 2002). Da Alemanha Dice Industries envia as suas BD-colagens que integram o recente número 23 a sair durante esta comemoração do MdC - um mimo, as colagens e o livro, já agora!
Vindos também deste número poderemos ver os originais de André Coelho, Bruno Borges, Sílvia Rodrigues, José Smith Vargas, Afonso Ferreira, Daniel Lopes e Lucas Almeida (numa nova montagem em serigrafia).
E recuperamos ainda trabalhos de Arlindo Horta, João Chambel (remontados) do MdC 18 (Chili Com Carne, 2004), de Nunsky - da sua clássica BD psycho-goth-billy -, Silas, Jorge Coelho e montes de originais "bedroom punk" de Marte (as primeiras páginas das séries Loverboy e NM) e claro... Pedro Brito - os primeiros trabalhos, que serão bastante curiosas para os fãs hardcore deste autor!!!
Informação útil: Inaugura a 25 de Outubro, patente até 16 de Dezembro | 10h - 18h | inauguração 19h
Museu da Água - Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, Lisboa | Público-alvo não determinado com interesse pela banda desenhada e ilustração. Para público com mais de 16 anos | Acesso: Adultos 2 euros, até 12 anos gratuito, Cartão jovem, aposentados, mais 65 anos 1 euro.
Extra: Dia 27 de Outubro – aliás à noite, a partir das 22h, na Trem Azul, as comemorações dos 20 anos do Mesinha de Cabeceira expandem-se para Festa com uma outra exposição, Cronovisões, Ex-votos para o Futuro, uma individual de Doutor Urânio que mostra o seu trabalho de colagem retro-futurista, e haverá concerto de Susana Santos Silva (trompete, electrónicas) com Jorge Queijo (bateria, electrónicas) e um pé-de-dança com os discos de unDJ MMMNNNRRRG.
Internet thing: mesinha-de-cabeceira.blogspot.com | chilicomcarne.com
FESTA de SÁBADO à NOITE (dia 27 Outubro na Trem Azul): exposição de colagens de Dr. Uránio + concerto Susana Santos Silva (trompete, electrónicas) com Jorge Queijo ( bateria, electrónicas) + unDJ MMMNNNRRRG.
CRONOVISÕES, EX-VOTOS PARA O FUTURO
Exposição de Doutor Urânio
na Trem Azul, de 27 Outubro a 23 Novembro
#23 : Inverno
one comix collection about the WINTER (Inverno, in Portuguese) to comemorate 20 years of the zine Mesinha de Cabeceira created by Pedro Brito and Marcos Farrajota in1992
published by Chili Com Carne
edited by Marcos Farrajota
designed by Joana Pires
covers by José Feitor e Pedro Brito
500 copies, 352 A6 b/w pages ALL in ENGLISH
...
Antologia comemorativa dos 20 anos do zine Mesinha de Cabeceira, criado em 1992 por Pedro Brito e Marcos Farrajota.
Publicado pela Associação Chili Com Carne
Editado por Marcos Farrajota
Design por Joana Pires
capas: José Feitor e Pedro Brito
Foram impressos 500 exemplares, são 352 páginas A6 a preto e branco. todas as BDs foram redigidas em inglês.
Com trabalhos de / comix by João Chambel, Daniel Lopes, Sílvia Rodrigues, Afonso Ferreira, Rafael Gouveia, Sara Gomes & André Coelho, José Smith Vargas, Bruno Borges, João Maio Pinto, Silas , Stevz (Brazil), Martin López Lam (Peru/ Spain), Lucas Almeida, Dice Industries (Germany), Uganda Lebre, Filipe Abranches, Tea Tauriainen (Finland), João Fazenda and Zé Burnay.
Apoios / support: Instituto Português do Desporto e Juventude e Trienal Desenho 2012
BUY BUY BUY @ chilicomcarne.com/shop
Lançamento na exposição 20 anos do Mesinha de Cabeceira, 25 de Outubro, às 19h, na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, Lisboa.
To be released 25th October at the exhibition "20 years of Mesinha de Cabeceira" at Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, Lisbon.
Antes de apagar a luz...
Não vou dizer que 20 anos passam rápido - embora seja verdade quando se ultrapassa a barreira dos 30 - como também não vou dizer que tudo mudou desde do dia 22 de Outubro de 1992 quando eu e o Pedro Brito lançamos o número zero do Mesinha de Cabeceira.
Se nesse ano, o MdC era uma reacção à apatia que a BD sofria na altura, em 2012 os motivos para continuar um título embevecido de "bedroom punk" não são muito diferentes apesar de tudo. Aliás, é curioso que quando houve uma “época alta” para a Nova BD Portuguesa - ou seja, entre 1996 e 2002 aquando da Direcção de João Paulo Cotrim na Bedeteca de Lisboa - foi nessa altura que o MdC teve menor actividade editorial. Quero dizer com isto que vejo o MdC como uma “oposição”, não necessariamente a um sistema ou uma ordem instituída mas contra a modorra e a inércia no mundo da BD portuguesa. Geralmente cada número é feito para dar o exemplo, é portanto um projecto moralista... O que soa muito mal mas parece que faz algum sentido.
Em 1992, eu, o Pedro Brito e alguns amigos precisamos de zines de desenhos xungas com argumentos escatológicos, e porque os zines de BD que existiam não abriam portas a toda uma cultura urbana que estávamos a descobrir (música, poesia, colagem), foi a nossa mini-vingança a todos os coninhas que nos rejeitaram! Em 1995 precisava de deitar a BD autobiografia que passei da dedicar-me, coisa inédita na BD portuguesa. Em 1997 ninguém queria saber do meteórico Nunsky e fez-se uma edição especial, já ela comemorativa e de passagem para uma produção profissional. Em 2000 não se faziam concursos de BD em que se contemplasse a publicação de monografias dos trabalhos vencedores... Fez-se então! Em 2002 era porque ninguém ligava ao André Lemos nem à técnica de serigrafia. Também o polémico autor norte-americano Mike Diana não tinha um livro a solo, mais dois monográficos! Em 2003 só se pagava 10 euros por página em revistas de editoras profissionais, então a pobretanas da Associação Chili Com Carne, até ela, seria capaz de dar esse miserável valor e preparou três números do “laboratório sincopado de texto + imagem”! Em 2006 já não me lembro, foi apenas por luxúria ou porque tinha deixado de haver BD portuguesa... Em 2009 o João Maio Pinto merecia um livro num formato de meter respeitinho. Em 2010 foi para limpar a minha honra pessoal de muitos trabalhos para projectos falhados que tinham de sair por algum lado! Na coincidência cósmica da coisa tive acesso a uma nova geração de autores brasileiros a merecer embaixada em Portugal. E em 2012?
A primeira razão seria vaidade pura pelos 20 anos de existência que noblesse oblige tem de se comemorar. E chegava-se ao número 23 que sempre foi uma das obsessões do Pedro Brito - e de muita outra boa gente - para que ele voltasse aos comandos do MdC e acabava-se com a coisa, afinal 20 anos é demasiado tempo para um fanzine. Para quem não sabe o Pedro Brito por volta do número 6 abandonou o barco para se voltar para outras actividades profissionais mas nunca deixamos de ser amigos. Este 23 seria uma forma de amizade sacana de lhe passar uma batata quente mas ele conseguiu afastar-se outra vez. Entretanto à perna foi feito compromisso de participar na Trienal Desenha 2012 que incluía uma exposição retrospectiva no Museu da Água / Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos entre 25 de Outubro e 16 de Dezembro.
Sendo um número de despedida, o “Inverno” como tema seria ideal porque representa o "final" (a morte ou um final de um ciclo) e como o número zero do MdC começou com "Outono... regresso às aulas" (que merda de tema juvenil, pá!), a estação do frio traria o sentido para fecharmos esta publicação de vez. Só que entretanto comecei um trabalho de grande envergadura que me exigiu uma publicação regular para conseguir concluí-lo, logo já saiu o número 24 em Julho 2012 sem este 23 ter ainda a sua forma completa - e em breve sairá o 25 e mais alguns números nesse registo.
E como se poderia comemorar? A forma iria ditar o conteúdo porque queria-se um objecto grosso que se pudesse abrir com prazer à mesinha-de-cabeceira a caminho do descanso merecido do final do dia - uma pretensão que explica o seu nome, para quem nunca o adivinhou... Um bloco de papel que tivesse muita BD de preferência com forte narratividade - embora se aceite outras deambulações textuais. Eis uma situação complicada num período (outra vez) negro da BD portuguesa em que os autores (e tudo mais) perderam as evoluções que se registaram no mundo ocidental nos últimos... 20 anos! Falo da ascensão da BD de autor, a abertura das livrarias, galerias e instituições a este médium (na sua vertente literária e artística, não pela mera sociologia da popularidade), a interactividade entre agentes no plano internacional, o uso da autobiografia - e as vertentes paralelas dos diários de viagens, jornalismo, ensaio, crítica e reportagem - para expandir o meio, a imposição comercial do romance gráfico como modelo editorial, etc… Aspectos todos eles de máxima importância e que tenho orgulho - e talvez o único que tenho nestes 20 anos de actividade - ter difundido pelos meios limitados que tive acesso. Aproveito para agradecer à Associação Chili Com Carne (e à El Pep) por terem editado alguns dos números do MdC, algumas vezes até com apoios institucionais para ajudar a causa. Já agora, sobre os outros “selos”, a FC Kómix (doze primeiros números) e a MMMNNNRRRG (quatro números) não contam para os agradecimentos porque são estruturas por onde me escondo...
Voltando à irritável BD portuguesa, este MdC deveria ser um "tour de force" para mostrá-la energética e com (alguma) saúde, cof cof... e tal como em 1992 conseguisse chegar aos objectivos. Criou-se um tema, um formato e encomendas que foram recebidas com atenção e amor por colaboradores originais da estaca zero (Pedro Brito, João Fazenda), alguns que participaram anteriormente em números antigos (João Chambel, Rafael Gouveia, João Maio Pinto, o alemão Dice Industries, Filipe Abranches, José Smith Vargas, Stevz, José Feitor, Daniel Lopes, Bruno Borges, Silas) e algumas estreias absolutas como Sílvia Rodrigues, Afonso Ferreira, André Coelho, Sara Gomes, Martin Lam López (Peru/ Espanha), Lucas Almeida, Uganda Lebre, Tea Tauriainen (Finlândia) e Zé Burnay. A todos eles agradeço o empenho e (espero eu) gozo que tenham tido para me ajudarem a marcar a data.
Modestamente o vosso criado,
Marcos Farrajota
29/09 Lx
Agradecimentos a Ana Guerreiro / Trienal Desenha 2012, Ana Laborinho / EPAL, Travassos / Trem Azul, André Lemos, Diego Gerlach, Rudolfo e David Campos. Em especial à Joana Pires que acabou de "crashar" no sofá depois de uma derradeira sessão de design deste extenso volume.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Infecção bicéfala...

nasceram Morangos e Floribelas na campa de Salazar
Halloween in Um jardim à beira mar
O Hip Hop Tuga (péssima expressão!) tem o grande feito de ter trazido de volta a língua portuguesa para a música de cariz urbana, depois de oportunistas bacocos como os Blind Zero e Silence 4 terem tentado sepultado a língua numa enorme campanha de pseudo-globalização – previsivelmente falhada dada a óbvia falta de originalidade desses projectos. Só que os “hip hop tugas” ficaram-se por aqui, foram a resistência para o uso da língua lusa mas falharam tudo o resto ao apropriaram-se deste estilo musical de forma dogmática sem reflectirem se o modelo norte-americano fazia ou não sentido para a realidade portuguesa. Talvez por isso quase não há personalidades distintas no Hip Hop português, ou pelo menos é muito raro encontrar. Não faltam, claro, figuras inchadas, cheias de si, que contribuem apenas para que esse “Hip Hop Tuga” seja aquilo o que vernacularmente se pode chamar de uma “grande punheta” – digo-o não de forma gratuita porque basta ouvir as letras autofagicas e masturbatórias para perceber o que digo.
Claro que temos uma serie de instrumentistas competentes ou esgrimistas exímios de palavras (Sam The Kid, X-E-G) mas estas excepções surgem por serem os virtuosos de uma cena medíocre que segue um “beat” unilateral. Nas periferias deste movimento ainda vamos encontrar dois casos interessantes embora equidistantes, por um lado os Niggapoison, descendentes de Cabo Verde que começaram como banda de Hip Hop e cada vez são mais Dancehall e Kuduro, e do outro os beirões Factor Activo, vindos do Rock e que usam o Hip Hop para retratar a urbanização da província. São dois casos tangenciais ao âmago da cena. Dentro dela conheço só dois rappers que fugiram aos “templates”, são o Nerve e o Ex-Peão. O primeiro fazendo uma caricatura da vida “white-trash” e o segundo como retrato do homem desesperado versus a máquina do sistema. A juntar a estes dois artistas, (re)conheço agora Allen Halloween, com o seu novo e segundo álbum A Árvore Kriminal (Sonoterapia; 2011), que sim senhora, considero o “álbum do ano” em Portugal!
Escreve-se sobre ele nas “wikipedias”, que Allen é um luso-guineense que vive em Portugal desde os 4 anos num subúrbio lisboeta e que é um tipo reservado. Talvez por causa disso que o concerto que assisti na Music Box no final do ano tenha sido uma treta, não parece que o Halloween seja um tipo “live” – embora geralmente os concertos naquela casa nocturna não são bons, diga-se, ou porque não enche, ou porque é estupidamente cara a entrada e consumo, ou o habitual: o som da sala é péssimo. Seja como for, desconfio que Allen é bicéfalo – não se nota, ele esconde muito bem e realmente no concerto não descobri a sua segunda cabeça! Uma delas trata de temas que poderiam ser autobiográficas e pessoais enquanto que a outra encarna personagens malditas do gueto como o dealer durão ou o bêbado irrecuperável. Pelo facto de haver uma intersecção das duas cabeças – serão siamesas? – explode uma fantasia urbana brutal que criou o Halloween, personagem psico-dramática que deixa as pessoas fascinadas quando se cruzam com as suas músicas.
Em Portugal, Halloween “rapa” de forma pouco canónica, ora de forma lenta e degenerada, ora com inesperados berros. É muito raro no Hip Hop Tuga haver rimas que sejam debitadas sem ser uma lenga-lenga melosa, nunca é onomatopaico (como os Fu-Schnickens), gritado (Onyx) ou monstruoso – como o Horrorcore dos seminais Gravediggaz ou as produções da Psycho+Logical Records. Até os convidados de Halloween no disco estão numa linha longe do horizonte habitual, trazendo realmente mais-valias ao disco – ao contrário das dezenas de convidados que os discos de Hip Hop trazem e que nada acrescentam faixa a faixa, fenómeno aliás que também já passou há muito para a Pop ou o Metal com resultados similares. De destacar os vocais “dreadas” no tema Aleleuia A Ressurreição do Kriminal com Buts MC, J-Cap e Lord-G, que lembram os momentos mais ganzados pré-milenares de Tricky ou o gangsta assustador de Wu-Tang Clan – duas influências que se sentem nitidamente. Como vêem, Halloween é realmente Dark! E em Portugal nós gostamos de música Dark!
Os seus “beats” (o som instrumental) são minimalistas mas com uma carga dramática que une sons consensuais nas produções de Hip Hop como o banal sinfónico mas quando menos se espera acrescenta “solos” ou feedback de guitarras e sons concretos, tácticas abandonadas no Hip Hop mundial – que só os velhotes Public Enemy iniciaram e perpetuaram e deixaram Dälek como dos poucos herdeiros. Halloween não é barulhento o suficiente para estar nesta liga de peso-pesados mas não foge com o rabo à seringa, não se entregando totalmente à harmonia simplicista.
Outro ponto positivo, até diria o ponto máximo, é que não há aqui R’n’B ranhoso! É um mistério total que em todos os discos de Hip Hop haja faixas ou coros R’n’B, talvez para realçar um momento “sentimental” ou “sensível” dos artistas. O problema é que ser “sensível” não deveria significar “piroso”, e neste disco fica provado que se pode dar volta à questão. Crazy e O Ódio são os momentos “softs” mas os instrumentais destas músicas invés de irem ao vómito R’n’B lembram antes as melancolias dos Gorillaz - ou melhor, de Augustus Pablo (1954-99) uma vez que os Gorillaz rapinam este jamaicano com pompa e circunstância, e numa lógica de multiplicação Halloween também foi atrás. Mais estranho é como o disco acaba. Ainda antes de uma “faixa escondida”, o tema Debaixo da Ponte poderia ser uma balada dos Xutos & Pontapés – não que ser comparado aos Xutos seja um valor positivo (o mais certo é não ser) mas mostra como A Árvore Kriminal é tão imprevisível como uma rusga da bófia.
Mais uma música, mais um vigarista /
mais um estúpido que dança na pista /
ninguém precisa de ser um bom artista /
tu só precisas é de mais uma bebida
Halloween in O convite
Também em Halloween não há lugar para a “moralzinha”. Quase todo o Hip Hop Tuga é padreco, ou seja, os MCs dizem o que deveríamos ou deixar de fazer. Não sei o que é pior, se ser “pastor” ou não ter talento para o fazer acabando por ser reaccionário. Com Halloween não há nada disso. Os retratos que ele nos vai oferecendo não procuram convencer-nos de nada. Claro que como qualquer artista, acaba por ser “moralista” – e acho que devo esclarecer qual a diferença entre o “moralista-moralzinha” e o “moralista-artista”. Há uma mania que o público têm de achar que os artistas mais explícitos, como o Mike Diana (autor de bd norte-americano acusado de obscenidade) ou os Carcass, são depravados e “muita malucos” justamente por mostrarem imagens ou letras/sons chocantes. Mas muitas vezes estes autores são o contrário, extremamente introvertidos, e os trabalhos que produzem são imagens que necessitam de exteriorizar para não enlouquecerem – ex.: Mike Diana em julgamento teve de explicar as suas imagens ao tribunal da Florida, uma delas havia um padre a molestar crianças, Diana disse que esta imagem surgiu porque ouviu uma notícia na rádio de um padre que violava menores, que lhe ficou a imagem horrível na cabeça e teve uma necessidade de a desenhar, justamente para se libertar dela. Muito provavelmente Diana desenhou a imagem justamente para criticar a nossa realidade – bem pior que as ficções mais sádicas já criadas, escritas, desenhadas, etc... – o que no fundo mostra esse lado de crítica que acaba por ter haver com a moralização dos costumes. A diferença entre Diana, Carcass ou Halloween e os “artistas positivos” é que os primeiros não dizem explicitamente que está errado, será o receptor / leitor / ouvinte que irá julgar o que a obra lhe mostra mesmo se o desenho seja revoltante por estar cheio de genitais e esperma nas bocas das criancinhas. Halloween nas suas letras dá-nos acesso a personagens violentas, violentas com os outros ou consigo próprias, e se as letras muitas vezes são exibicionistas, Halloween não um é animal “gangsta” que anda prái a dar tiros no meio da rua, o que ele pretende é uma expiação pelos crimes cometidos por ele ou por outras pessoas que conheceu.
Se escrevia que o Halloween era bicéfalo em que a sua arte funciona da intersecção dos “dois cérebros”, é curioso que ela sintetiza de uma história oculta do Hip Hop, ignorada em Portugal mas que está mais adequada à nossa realidade do que se podia imaginar. Era um trabalho sujo que algum gajo tinha de o fazer... mesmo quando ele escreve letras que não rimam em Noite de Lisa: Não toques na bicicleta se não tens pedalada / até gosto da tua conversa mas... cala-te! Uma heresia para os puritanos do Rap? Ainda bem!















