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domingo, 7 de setembro de 2008

Saídos da casca


Cul de Sac: ECIM (Strange Attractors / Sabotage; 2006)
Reedição do álbum de estreia, em 1991, de uma banda de Boston que sem querer tornou-se a ponta do iceberg do revivalismo do Krautrock que acabou por ser conhecido por Post-Rock, novo género musical que se tornou na histeria dos "índios" no final dos anos 90. O disco é uma cápsula do tempo com fantasmas musicais nas suas paredes em que música a música não se cria um estilo mas são revisitados vários em assumido ecletismo, como o ritmo Motorika, trechos Surf e passagens exóticas, folk norte-americano (uma versão de John Fahey é revista com interrupções "white noise"), ready-made/samplagem/colagem sonora (Nico's Dream), sons espaciais, psicadelismo e mais alguns espectros roqueiros. ECIM é um álbum em que nos deixa à deriva não por ser completamente diferente do que se possa ter ouvido na altura mas porque tem um excesso de coordenadas sonoras que se não fosse o "terra-à-terra" do ritmo seguro de Chris Guttmacher quase que seria um disco abstracto.
Este CD compila também mais três temas extras, de um single gravado também em 1991, que mantêm a linha proposta do álbum de estreia.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Pecado original


Silver Apples (MCA; 1997)
Há malta que ficou pelo tempo e recusa-se a viver os tempos actuais. Justificam que "tudo já foi inventado" e que no caso da música Pop/Rock são os anos 60 os "anos dourados" e onde "tudo se inventou". Claro que pensar em Metal vamos a Led Zeppelin e aos Black Sabbath e antes deles temos o tema Helter Skelter dos Beatles em 1968, se quisermos Punk temos Iggy Pop/Stooges e MC5, rock sónico com os Velvet Underground, tribalismo-psicadélico dos Cro-Magnons, o punk-reggae de David Peel, etc... Quem pensa assim acaba por rejeitar o progresso da vida (por mais que a vida tenha coisas estúpidas e desmemorizadas) impossibilitando o gozo da velocidade de Slayer, o brutalismo de Napalm Death ou a parolice-dançante de Sean Paul... e podiamos nos fazer de arrogantes em relação a estas pessoas excepto quando acabamos por tropeçar em bandas seminais como os Silver Apples que num estalinho de dedos resumem a invenção de MADchester e do Krautrock, ou de tiques evoluídos mais tarde pelos Suicide, Sigue Sigue Sputnik ou Spacemen 3... em 1968!
Troquei uma merda qualquer com o Camarada Fon Fon por este CD que reedita os dois discos dos anos 60 - Silver Apples (1968) e Contact (1969) - dos Silver Apples, uma dupla constítuida por um baterista e um vocalista toca um monstro electrónico que ele próprio construiu - o Simeon, que é feito de vários osciladores de rádio que emitem sons "espaciais" e "futuristas". Reparo para esta edição que no livrinho do CD mostra um esquema quer da bateria (enorme!) e quer do Simeon também ele enorme por causa da tecnologia primitiva da altura - aliás, tão primitivo que reza a lenda que deu cabo do quadro de electricidade da ZDB quando tocaram o ano passado.

O som é algo realmente 60's mas com ideias tão avançadas que quase não notariamos por elas -até porque o que se continua a fazer nos dias de hoje são repetições dos anos 60, seja como for, e digo isto sem uma "daquelas pessoas" que escrevi anteriormente. Sobretudo as letras tem uma pitada Freak-Hippie de subúrbio, alguns sons psicadélicos também são datados q.b. mas há um "groove" que está para além dos anos 60, quase que "alien" e "rave". Um andamento orgánico não fosse toda a bateria e "electrónica" feita com músculos de humanos, ao contrário de que ouvimos hoje feito em loops perfeitinhos e limpinhos.
Ouvindo o CD que junta os dois discos não há um momento de divisão de qualidade ou de diferença de estilo entre os dois álbuns, excepto que no segundo os Silver Apples passam a usar também um banjo aqui e acolá como no tema Confusion - Confusão? O mundo nunca foi linear como se lê nos livros de História...

sábado, 23 de abril de 2022

Pio neiro



O Santo Graal dos discos: descobrir o pecado original. O primeiro gajo ou banda que [preencher qualquer coisa aqui] na música. Apesar das certezas há sempre descobertas, o que mete em causa o que é a originalidade e a sua validação no discurso artístico. Então, agora apanhei este Song of the Second Moon (Fifth Dimension; 2015) de Tom Dissevelt e Kid Baltan (soa a contemporâneo este nome por cauda do "kid") um disco de 1962, gravado entre 1957 e 1961. É considerado o primeiro "disco de electrónica com popularidade" ao ponto de ter sido considerado por Kubrick como banda sonora para o seu 2001. Antes há os descobridores sonoros - Martenot ou Theremin - ou os compositores sérios - Stockhausen, Varèse. A dupla holandesa são uma segunda vaga de gajos mais funcionais como os torturadores de circuitos da banda sonora do filme Forbidden Planet (1956) e os vendedores televisivos - o tema da série de TV Dr. Who (1962) - estando aqui com um disco que pretende ser "espacial". Os sons artificiais devem ter demorado eternidades a fazer, falamos ainda de fitas magnéticas a serem cortadas e remontadas até à exaustão, construindo ambientes e cenários que serão mais tarde expandidos para a psicadelia "Krautrock" e o Techno mais dançável ou mais "chill". Para o fim do disco há Swing e Jazz a lembrar o Dean Elliott - curiosamente Zounds! também é de 1962 - talvez para acalmar e satisfazer as necessidades do "normie" de 62.

O Pecado Original dos discos: satisfazer o Santo Graal do mercado. Coil vende! Aliás, é a única coisa que ainda vende... Ao ponto que ao fazerem a reedição comemorativa dos 30 anos de Love's Secret Domain (1991) a Wax Trax! é trazida dos mortos. Loja e mais tarde editora de Chicago que foi o berço do Industrial norte-americano - Ministry. Revolting Cocks, KMFDM, Controlled Bleeding,... Mas não é verdade, a companhia regressou em 2014 mas parece que só lida com reedições do seu catálogo mítico. Voltanto atrás, sim Coil vende e com razão, pareciam estar sempre à frente de tudo e de todos. Este é mais um disco que prova isso, em estado de graça no admirável novo mundo do sampler e MIDI, onde o Techno e Rave são mastigados para algo que irá aparecer passado um ano ou dois - seja os ambientes de Aphex Twin seja o trip-hop dos Massive Attack. Não é música de dança embora use os seus ritmos e padrões. O dramalhão da música deles mantêm-se, claro, senão não era Coil. Boa reedição com bom texto de um gajo de Matmos / Soft Pink Truth.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Efeito Merkel



Michael Rother : Sterntaler (Polydor; 1984; orig.: Sky; 1978)

Encontrei este cromo do Krautrock (Kraftwerk, Neu!, Harmonia) pela segunda vez a solo - e curiosamente o encontro é com o segundo álbum, tal como o primeiro encontro tinha sido com o primeiro álbum numa pefeita coincidência cósmica entre a lixeira e a segunda mão. Desta vez foi na Feira da Achada há algumas semanas a 2 euros o LP... Talvez porque depois de um fim-de-semana no Milhões de Festa com dezenas de bandas Kraut ou Post Rock não haja paciência para mais disto. Não sei, não entra / convence / molha... ao ponto de no primeiro encontro nem ter feito o registo neste blogue onde costumo comentar todos os discos que me chegam...
A música parece infantil ou lembra más séries de TV, tanto faz, na sua Rockice germánica instrumental. O ritmo "motorik" ainda é naquela, as guitarradas xunguitas é que não. Será que vou cair na esparrela de ouvir o terceiro álbum no meu terceiro encontro?

Realmente não há paciência para alemães e branquelos, felizmente ainda apanhei lá na Achada, um CD de Carlo Jones & The Surinam Kaseko Troubadours (MW; 1995), que é uma mestiçagem de música Voodoo com o Jazz à Nova Orleães. Soa realmente a Caribe puro e duro mesmo que seja do país mais pequeno da América do Sul e onde se fala em holandês! WTF!? O mundo foi mesmo todo fodido por europeus que cheiram mal dos pés! Morte aos brancos!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

10 cidades tornam-se numa aldeia

Antes de ser o livro Ten Cities : Clubbing in Nairobi, Cairo, Kyiv, Johannesburg, Naples, Berlin, Luanda, Lagos, Bristol, Lisbon 1960 - March 2020 (Spector; 2020) por Johannes Hossfeld Etyang, Joyce Nyairo e Florian Sievers (e que já lá iremos) foi um disco. Ten Cities (Soundway; 2014) reúne 50 produtores e músicos das dez cidades já referidas para uma saudável e higiénica orgia juntarem-se para criar o monstro sónico Frankenstein que... pariu um ratito aldeão! Sou contra a ideia que "a fusão é um erro" mas é verdade que pode correr muito mal quando os intervenientes não tenham coragem artística para explorar mais do que uma simples fusão de ritmos já mastigados pela Aldeia Global, sobretudo na área da música electrónica funcional ou de dança. A ideia de juntar norte e sul - Europa e África - num laboratório de música de "Clubbing" tem tudo para correr bem. Talvez o dinheiro do Goethe tenha ido para betinhos que não deixaram a malta ir para o desconhecido musical - ao contrário o que tem acontecido entretanto em Kapala. Tudo é previsível mesmo que as línguas desconhecidas africanas apareçam ao longo do disco, o que é considerado como um brinde exótico pelo responsável da edição. Metade do disco é de uma vulgaridade tal que se resume na letra de Quero Falar (Lunabe com MC Sacerdote) que apesar do apelo... nada diz. Um óbvio reflexo do estado da arte no século XXI, muito artifício, pouco conteúdo. A outra metade do disco é mais chill e também mais interessante mas sem rasgos de génio mesmo que tenha o Maurice Louca ou Alva Noto como músicos. A evitar...

O livro logo que saiu estava já aberto às consequências dos horrores humanos. A primeira e assumida é que aborda a história do Clubbing nas ditas cidades desde os anos 60 até Março de 2020 - mês que marca o final de algo contínuo e progressivo nas nossas vidas, devido ao covid-19. Dois anos depois o que aconteceu a alguns dos clubes e discotecas que existiam até então? A segunda consequência é a inclusão de Kyiv que desde Fevereiro deste ano apanhou com a tentativa de invasão russa na Ucrânia. Que noitadas haverá nesta capital desde então?

O gigantesco livro ensina-nos imenso sobre duas coisas, a história da música de clubbing nessas cidades e a sua relação política. Alguns géneros de música são fáceis de associar às cidades, do Krautrock à Capital do Mundo do Techno que é Berlim ou o Afrobeat / Highlife de Fela Kuti em Lagos. Ou ainda o Jazz sul-africano de Joanesburgo e claro o Trip Hop de Bristol. Ah, e o Kuduro de Luanda! Mas que dizer de Nápoles lembrando-me lá eu que já conhecia 99 Posse? Há descobertas para se fazer neste livro mamute. Para além do "género" muito disto passa pela exclusão social, racismo e contestação às autoridades, não esquecendo o nojo do Apartheid e das suas cidades separadas por raças ou o confronto político das Okupas e Raves ilegais na Europa.

Já perceberam que se aprende muito com o livro mas claro quando chegamos a Lisboa temos Judas na área. Rui Miguel Abreu escreve um artigo sobre a história da música urbana portuguesa (deveria ser sobre música de clubbing, boy!) sem aprofundar nada em especial (porque se calhar não há uma música que defina Lisboa) e Vítor Belanciano dá um no cravo e outro na ferradura, armado em rebelde a criticar a gentrificação da cidade mas tal como Abreu também a vende como um sítio excitante e multi-cultural. Não sei onde estes gajos saem à noite mas devem ser sítios do caraças!! Vê-se nas fotografias que acompanham os artigos! Quase todas em volta do Frágil dos anos 80! Ah! Como a cidade vibra ou sempre foi "multi-culti" de artistas e betos brancos... Onde está essa relação entre Europa e África? Sempre foi fraca e estes artigos revelam isso sem o quererem fazer. Lisboa é uma fraude e gera seres fraudulentos que escrevem sobre ela, obrigado por relembrarem isso.

Mau disco, bom livro.

PS - No livro há uma lista de sons criados por cada cidade. Em Lisboa ela começa em Heróis do Mar para acabar em DJ Lilocox. No meio inserido o Pois pois dos Repórter Estrábico. Sim é a única banda portuguesa Pop/Rock que merece estar em qualquer lista de admiração mas que eu saiba ela sempre foi do... Porto! 

PPS - Abreu e Belanciano: ide pastar!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O que faz falta é avisar a malta...

Nos anos 70, a cultura juvenil não estava para brincadeiras. Depois das explosões e implosões de 68, muitos abriram os olhos para quem estava a manipular a cultura e as indústrias de entertenimento. No caso do Rock ou da música Pop não faltou críticas em livros como estes que aqui são mostrados: Pop Music / Rock (A Regra do Jogo; 1974) dos franceses Philippe Daufouy e Jean-Pierre Sarton, e O Mundo da Música Pop (Paisagem; 1973?) do alemão Rolf-Ulrich Kaiser.
Curiosamente ambos editados em Portugal numa altura que o boom do rock português ainda estava para vir, ninguém deve ter ligado aos ensinamentos destes livros que além de contarem a história do Pop/Rock aproveitam para dissecar a indústria fonográfica, da forma como exploram económicamente e ideológicamente os artistas e os consumidores-ouvintes.
São livros essêncialmente datados na era do Wikipedia e do mp3 (ilegal ou legal) mas ainda assim não deixam de serem inspiradores porque previram a decadência da música Pop/Rock e projectam a vinda de uma "nova música" (que ligam o Rock às vanguardas do Improv e do Free) - no caso de Kaiser, ele próprio será dono de uma editora de Krautrock. E ainda deita por fora os argumentos que a pirataria destroí a música, afinal, a verdade é que as grandes companhias viveram muitos anos com lucros bem gordos graças a nós, amantes de música.
Há poucos livros de Pop/Rock em Portugal, a maioria são de letras de bandas ou biografias de dinaussários. Muito poucos ou nenhuns de reflexão - como as brilhantes compilações do Rui Eduardo Paes - por isso se apanharem estes títulos nos alfarrabistas e afins aproveitem. O de Raiser acaba por ser o mais sarcástico e discursivo. Reproduz também uma entrevista ao Frank Zappa.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Isto é que é!


Alien Sex Fiend: "It" The Album (Anagram; 1986)

Os Alien Sex Fiend são capazes de ser a banda mais esquecida no mundo, mesmo para uma "banda de  culto" seja lá o que isso quer dizer. O que é muito estranho porque se gostam de Cramps estes tipos não ficarão atrás a nível de selvajaria sonora, se gostam de Goth / Death Rock estes tem muito mais humor e panache que os clássicos do género, se gostam de electrónica e sintetizadores ácidos os ASF sempre evoluíram nesse campo podendo ser descartado o retro-Krautrock que anda por aí. Come on! Músicas sobre cheirar a merda? Sobre não conseguir parar de fumar? É aqui! Com a vantagem de terem as capas mais selvagens do Rock, pintadas pelo demente vocalista Nik Fiend. 
Isto é "steampunk" completo, como se primitivos do Rock'n'Roll descobrissem maquinaria vinte anos antes delas serem aplicadas ao Rock. Com esta afirmação, teríamos de ignorar toda uma carreira vanguardista dos Suicide, bem sei... Comparando com eles, os ASF são mais orelhudos, graças à sua origem britânica imersa em décadas de Pop, embora os discos deles vão melhorando com o tempo, cada vez mais electrónicos e com os temas mais extensos para sugestão hipnóticas de acordo com a cartilha Rave e Techno, sobretudo na passagem para os anos 90. "It" é de 1986, fica ainda no cruzamento de Rock e Electrónica.
Se há gente a coleccionar vinilos estes serão os poucos que valem a pena fazé-lo, a música é soda cáustica, as capas são quadros para pendurar no quarto de "teenager" tardio e... caramba, não é que este LP traz um zine, para montar (!) todo mamado com BDs e "detournements" punks!? Edita-se muito neste novo milénio mas são poucos discos que são realmente necessários ouvir, ver e ler. É preciso voltar a 30 anos atrás para se curtir alguma coisa? Isto é Nostalgia!?

sábado, 4 de fevereiro de 2006

I ou II ou UK ou 1.2?

Amon Düül: "Fööl Moon" (Spalax Music; 1997)

Editado originalmente como LP em 1989, é reeditado por uma editora francesa, especializada em reedições de Prog e Krautrock, géneros musicais de onde os Amon Düül são um dos grupos mais carismáticos. A história deste grupo alemão é uma confusão total graças à bifurcação do grupo original - que era o bébé artístico de uma comunidade estudantil rebelde & orgiática dos emancipantes anos 60 do século passado - com outro grupo homónimo que acrescentou "II" no fim do nome.
O primeiro grupo mais virado para a performance lançou álbuns entre 1969 e 1972 - ao que parece as gravações são relativas a uma jam-session de 1969 (?). O segundo grupo era constituído por cinco elementos do primeiro grupo - os músicos "verdadeiros", os virtuosos - e gravaram o famoso Phallus Dei (Liberty; 1969) até chegarem a uma decadência Pop nos anos 70. John Weinzierl, um dos fundadores dos (dois) grupos decidiu reactivar o primeiro nos anos 80 com elementos de Hawkwind, Van der Graaf Generator e Ozric Tentacles, na tentativa de captar a energia inicial do(s) grupo(s). Para confundir ainda mais as coisas, a banda ora usava o nome original, ou identificava-se com "UK" ou ainda usava "III" (raramente) no fim do nome. Confusos?
Bem, a música deste quinto e último álbum da versão 1.2 ou UK ou III é mais simples do que as questões de denominação... este é sem dúvida mais um álbum de Prog, ignorado pelos seguidores talvez porque já morreram quase todos juntamente com o Syd Barrett, ou porque não se aperceberam que os tipos voltaram nos anos 80. A informação na 'net é quase escassa sobre o disco (por desdém?) ou sobre os discos desta "fase" - em parte porque a maior parte dos discos não traziam quase nenhuma informação sobre as suas gravações.
Desta "lua parva" não há muito de impressionante: o psicadelismo guitarresco é o bacoco dos 60/70, alguns elementos concretos são bastante banais, há um tema com cítaras (o último, Hymn for the Hardcore), um tema de 16 minutos (Haupmotor, já agora, o álbum tem apenas cinco faixas) e pouco mais. Uma ode à preguiça portanto.

Qualidade numérica: 3/5 Objectivo pós-audição: Vai prá Troca de Discos!

terça-feira, 6 de junho de 2006

É Punk, estúpido!


v/a: "Trash! The roots of Punk!" (Mojo; 2006)

Apesar da 3ª Guerra Mundial já ter começado e ninguém ter dado por ela - é natural, ela começou e desenvolveu-se de uma forma que não a esperada -, o espectro do desemprego ou emprego precário e a impossibilidade de gozarmos a vida em plena riqueza material e espiritual, vivemos o melhor dos mundos porque actualmente é tudo à pala! Jornais no metro, revistas de música, toda a música do mundo (Viva Soulseek!), e não sei o quê mais. Basta comprar um pacote de fritos para engasgarmos com um brinquedo de plástico. Compramos o Expresso e levamos um DVD ou um bife de porco atrás. E uma revista sem CD áudio é impossível não haver - só o triste Blitz-versão-revista é que ainda não o faz sabe-se lá porquê mas quem quer saber?
Infelizmente a maior parte dos CD's de oferta são sempre feitas com um Design popularucho cheio de brilhos e efeitos feios (iguais aos dos refrigerantes e das t-shirts com temas do Wrestling americano), tem uma falta de coerência editorial na selecção das faixas e do seu ordenamento. São CD's que promovem um mercado limitado no tempo e na ocasião, e raramente ficam nas estantes dos fãs de música porque raramente podemos ver estes CD's como "discos" ou de "álbuns" - são promoções tão importantes como os samples de perfumes no Shopping ou nas revistas de mulheres.
Por mero acaso, o DJ Milkshake há alguns anos indico-me a Mojo - uma revista britânica de arqueologia Pop cujas capas tem sempre bandas de tipos com mais de 40 anos e/ou mortos, ex.: Rolling Stones, Led Zep, Sex Pistols, Radiohead... ok! já tiveram os betinhos dos Strokes na capa mas só porque a editora deve ter mexido uns bons cordéis - mas dizia... o Milkshake indicou-me a revista porque a dada altura eles começaram a fazer umas colectâneas bem interessantes na lógica comercial e linear do CD de oferta mensal. Foram quatro volumes de uma série intitulada Mojo Music Guide e cada volume tratava de géneros musicais como o Garage-Punk, as raízes do HipHop, a Soul e o Blues. Isto com um grafismo (muito) atraente e uma selecção bem esgalhada e pedagógica. Infelizmente, fizeram só quatro volumes e voltaram à xungaria de sempre. Ainda fazem algumas colectâneas temáticas engraçadas mas insistem nas capas mais impróprias ao conceito de Belo.
Por acaso, o CD do número de Junho até surpreendeu (o Iggy está sempre bem, man!) ao dedicar-se às origens do Punk britânico e onde vamos encontrar inesperadamente (ou nem por isso) bandas pré-1976 de Pub-Blues-Rock, Glitter/Glam Rock, Hard Rock, Psicadélico e Krautrock - e os Stooges, claro! Começa logo com a promiscuidade dos New York Dolls e o clássico Personality Crisis, T-Rex a seguir («Calling all destroyers») e vai por uma listagem de gente desconhecida (*) ou mais ou menos conhecida como os (alemães) Can, Mott the Hoople (potente!), Dr. Feelgood, Hawkwind (o tema é, curiosamente, Motorhead)... Assim até vale a pena ler sobre estórias da carochinha Pop/Rock da Mojo. No fim, ainda temos esperança no Rock'n'Roll Reeditado porque o que se ouve nos dias de hoje é mesmo uma meninagem frente às guitarradas destes burgessos dos inícios de 70 quando eles saiam malcheirosos das fábricas (quando havia fábricas na Europa e não na Malásia, foda-se!) prontos a emborcar pints, a pintar os lábios com baton rasca, a usar lantejoulas e botas de canudo cor-de-rosa ultra-choque. Ah!

Qualidade numérica: 4,2/5 Objectivo pós-audição: A capa não envergonha ninguém no meio da colecção!

(*) pelo menos para mim nomes como Hollywood Brats, Jook, Count Bishops, Hammersmith Gorillas, Kilburn and the High Roads, Eddie and the Hot Rods, Be-Bop Deluxe e Groundhogs não me dizem nada...