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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Last night the DJ saved my... my... my... ehm... hum...

Eis algo díficil de analisar The portable supersound (Small Town Super Sound / Ananana; 2007), um CD-sample promocional ou será mesmo uma colectânea comercial? Mas a dificuldade não passa por aqui, o resultado é o mesmo seja promo ou seja comercial, passa antes em catalogar, assim em caixinhas pequenas, o que se ouve... A editora é de Oslo e lança discos de Jazz, Rock e Electrónica - o Jazz que editam dizem que tem de ter uma "atitude Punk", seja lá o que quer dizer isso.... A verdade é que se no essêncial temos uma viagem de Techno, ou seja, ritmos repetitivos misturados com texturas, pedaços musicais e ruídos de várias origens - talvez para não cansar o ouvinte que não gosta de Techno, conseguindo intrigá-lo. É o caso dos Sunburned Hand of the Man, uma banda Rock de desvaneios psicadélicos cujo tribalismo aplicado na faixa Half-under, confunde propósitos - parece um "downtempo" ou uma freakice "chill-out" talvez por ter produção de Four Tet? Outro caso, é Lift Boys que na realidade é disfarce de Yamatsuka Eye (o mítico vocalista dos Boredoms e de Naked City) que começa com um exótico House (quase a lembrar algumas músicas de Chemical Brothers) para acabar por soterrar o tema em Electro-Noise inesperado - é a melhor faixa do CD. O resto é música de consumo simpático de absorção fácil para quem gosta de bares de acrílico e achar que a música de dança ou electrónica ainda é uma vanguarda musical - por falar nisso, o House-com-assobio de Bjorn Torske é mesmo o fundo do poço da música electrónica, os Kraftwerk não devem estar a acreditar nisto...

Entretanto, os Bandidos Desesperados lançaram a sua primeira "mix-tape" (termo anacrónico na era digital mas sempre soa melhor que "mix-CD-R", certo? seja como for fui eu que usei a expressão, eles intitulam o CD de "promo") e até estava com alguma curiosidade em ouvi-los dada a javardice que é o programa dos tipos na Rádio Zero - e que tive a dupla honra de ter sido recebido no seu programa e de os ter recebido no meu. Quando eles disseram que «bandidos à noite é merda e bandidos à tarde na rádio também é merda mas é merda diferente» não estava à espera desta merda toda misturada: começa com uma merda qualquer da bola (alguém que perceba de bola deve achar piada, não é o meu caso), mete uns coros à Beach Boys e salta pró House nojento ou Techno-Samba vomitante, e até um excerto de (I don't want to lose) "Your love" (tonight) dos Outfield (uns parolos dos anos 80). E há Electro, R'n'B e Hip Hop francês do mais ordinário possível em pouco mais de 42 minutos - se calhar queriam mesmo fazer uma k7. Iá, man! Os Bandidos são daqueles DJ's que se devem divertir a passar bosta e o pior é que o pessoal vai dançar esta porra... É o "Trash chic", é o "lixo de uns é o Lux de outros", é a porra dos designers e dos publicitários, são as revistas inócuas de novas tendências, é a CGD e a revista Azul, é a propaganda da ONU e os seus agentes do mal a poluirem o planeta mais uma vez para combater a poluição. Abram os olhos terrestres idiotas, crianças e outras lesmas: agora sim somos "consumidores responsáveis" e agora sim é que "é fixe reciclar".

Por isso, fodam-se todos bandidos do caralho! Eu quero é que o planeta se foda! O que é mesmo fixe é Trash à séria! E para isso gostaria de relembrar este álbum: Hellspawn (Earache; 1998), o sub-título diz tudo: «Extreme Metal meets Extreme Techno». De um lado as grandes bandas da Earache como Morbid Angel, Napalm Death, Brutal Truth e outras mais ligeiras como Dub War ou Pulkas, do outro lado e a remisturar em registo Techno Hardcore / Gabba estão Delta 9, Panacea, Freak ou projectos Rock que já usam electrónica (Berzerker e Pitch Shifter). O resultado é variável e devo acrescentar que a editora engana os consumidores neste disco em duas faixas: Godflesh vs Justin Broadrick não é uma faixa nova uma vez que aparece no álbum de remisturas dos Golflesh, Love and Hate in Dub (Earache, 1997), e o próprio Justin faz parte dos Godflesh! E na faixa de Ultraviolence vs Hellsau, ambos projectos electrónicos extremos - e não uma banda de Metal versus Electrónica... Mas até se perdoa dada a brutalidade de algumas faixas e as melhores são, sem dúvidas nenhuma, as de Metal mais extremo como as de Morbid Angel ou de Napalm Death (que tem um groove do caraças!). Há também Techno troglodita, umas misturadas manhosas ou faixas longe do Techno bronco mas que ficam aqui bem como contra-ponto como é o caso de Godflesh que é mais Drum'n'Bass.
A Earache - cujo nome sempre lhe assentou bem por ter editado os discos Grind mais lixados do planeta até no novo milénio se ter reduzido à parvoíces comerciais, moral da história: os metálicos não sabem gerir bem o seu património - com este disco e outros do género estava a explorar um novo filão de música extrema - como o Gabber que ficou conhecido pelo "Techno dos metálicos" - na mesma altura que a Digital Hardcore e os Atari Teenage Riot estavam no auge criativo. Pena não terem ido mais longe mas já se sabe o extremo não é infinito... É um festão este CD mesmo com a capa 3D manhosa ou para quem não tem paciência para "dance music" e outras paneleirices.

sábado, 5 de setembro de 2020

Dança narrativa



Falar em narração em Techno fará muita gente rir. Os Metaleiros ou os Progues habituados a histórias da treta de naves espaciais, piratas furries e afins nos seus álbuns conceptuais dirão que não é possível. Talvez até dirão que a música de dança não tem mensagem. A questão da mensagem daria para outro "post", por isso em relação à primeira questão: se toda actividade artística ou intelectual começa com um lápis numa folha de papel, como não julgar que tudo é "BD"? Tudo é texto e imagem - esquece BD, infografia será mais correcto, não? Antes de ser um edifício (arquitectura), um livro (prosa ou BD), uma cadeira (design), uma prótese dentária (medicina), uma escultura ou um quadro (Arte) e... uma música, tudo passa pelo desenho, e do desenho à narração - progressão de imagens ou conceitos - o passo é mínimo, basta pensar nas partituras de composições ou os monitores de programas de música que parecem electrocardiogramas de alienígenas. Desenhando um objecto ou um conceito, imediatamente temos narração.

Johnny Violence ou Ultraviolence deve ser dos poucos "stars" da cena Gabber / Techno a nível internacional, aposto que deve haver dezenas de "stars" holandeses enormes (na Holanda e por lá ficam e ainda bem). Curiosamente foi contratado pela a que era uma das editoras mais perigosas de Metal, a Earache - casa de Napalm Death e Godflesh. Martelinhos fodidos no catálogo de referência do Grindcore? Tempos estranhos nos anos 90 que pelo menos a editora pensou que ia haver uma união entre a drum-machine e a guitarra suja - nada de impressionante se pensarmos nos universos contestários anti-sistema das Raves e dos Metalpunks, e a velocidade e volume sonoro também de ambos. Enfim, escolheu-se a timeline errada para nós habitantes da Terra-616 e cada um dos gêneros correu o seu caminho descendente. Mas voltando ao bicho inglês, em Psycho Drama (Earache, 1995) ele cria uma ópera-gabber! Um "Romeu e Julieta" desta era do abuso sexual e drogas sintéticas, um Natural Born Killers de pacotilha, acompanhado por um libreto (o booklet do CD), que permite acompanhar a história desenvolvida neste álbum... conceptual. Sobretudo é um disco instrumental como qualquer disco de dança em que aparecem alguns excertos - "falas" ou "versos" numa veia vocal devedora ao House - que vão criando uma narrativa desde as nascença dos dois personagens principais, uma Pop Star agarrada e um Assassino profissional com coração de Adamantium, até ao seu encontro e "final feliz". Mais não conto, nada de spoilers ó caralho!

Um ano depois, Shocker (Earache), é um álbum normal, isto é, uma colecção de músicas como são todos os álbuns. No meio da violência da martelada Hardcore, mais uma vez o livrinho do CD revela narração, neste caso de faixa a faixa. Cada uma além de revelar os BPMs envolvidos tem uma nota explicativa do assunto, por exemplo a faixa The Hardest Gabba o assunto é sobre "Nada. Isto não é Techno inteligente. Que se foda o Techno Inteligente". Sei que é o pior exemplo para dar mas não resisti, vá, há faixas sobre suicidas, guerras, Wagner e fazer anos. Por fim, duas curiosidades, a primeira faixa, 2 kicks for yes, Violent é entrevistada por uma sensual fã de Gabber e responde com dois "kicks" para sim e um para "não", afinal os martelos também podem comunicar; e, Burn out entre um record mundial de 20 000 000 BPMs cria o Extratone sem o saber...

Este texto foi patrocinado pela iminência da chegada a Portugal do próximo livro do DJ Balli sobre o Gabber & Futurismo. Estejam atentos, gabbas!



terça-feira, 18 de outubro de 2005

Entulho de Marte (in Underworld #17; Out'05)

«And let us never forget that the human race with technology is like an alcoholic with a barrel of wine» - FC

Tudo estava inventado como música (Noise, Dub, Reggae, Rock, Metal, Electrónica, Jazz, Hip-Hop,…) quando saiu Scum (Earache; 1987) dos Napalm Death e sem ninguém saber eles decretaram a morte da música ao demonstrar que era possível fragmentá-la em pedaços minúsculos – não é à toa que haviam digressões da editora Earache intituladas “Campaign for Musical Destruction”. Bem… a música não morreu e na realidade o que aconteceu é que o Grindcore acabou por inspirar uma nova vaga de compositores e bandas como John Zorn que inclusive chegou a trabalhar com um dos cabecilhas dos Napalm, Mick Harris nos Painkiller.
Dada à volatilidade da cena, Depois Napalm Death, a própria banda tinha de se desintegrar (1) e a música ficou a lamber as feridas, passando à fase de redundância como é normal em qualquer situação de ruptura: segue-se um período de adaptação e absorção. Num mundo narcotizante como o nosso já quase nada nos (co)move de tão fartos que estamos de tudo, regredimos a um estado de consumismo estéril em que mastigamos tudo o que já foi vomitado há anos porque assim é mais reconfortante. “Revival” atrás de “revival”, “comeback” atrás de “comeback” assim tem andado a última década da música urbana. Nem interessa se o concerto dos Queen não tenha o Freddie Mercury e não passe de um show de karaoke, qualquer merda serve! Isto para chegar a Conspiritus (Earache / Megamúsica; 2005) de Ewigkeit, um disco idiota da mesma editora que durante nos fodeu os ouvidos com géneros tão extremistas como Death, Industrial, Grind e até Gabba… Ao que parece o Rock Progressivo está a voltar – claro, o que há mais para fazer revivalismo? - ora com exumações de corpos antigos ora com novas gerações de músicos, estes últimos ou com ideias de 40 anos ou outros mais inteligentes com novos artefactos para explorar como o “drone” em que os sunn O))) serão a figura de proa desta vaga.
A verdade é que o Prog nunca esteve morto sobretudo no Metal que pegou no seu legado de instrumentações virtuosas ou de imaginário freaky: lendas épicas, mundos imaginários, histórias longas que aproveitam o formato de Longa Duração – os famosos álbuns conceptuais. E se houve que fizesse um bom trabalho como Atheist (recentemente reeditados), Cynic, Tool, Meshuggah e o seu recente Catch 33 (Nuclear Blast; 2005), não esquecendo o álbum a solo do seu guitarrista, Fredrik Thordendal's Special Defects: Sol Niger Within (Nuclear Blast; 1997) e Theory in Practice, ou ainda bandas Indies-Pop/Rock como Radiohead (últimos discos); também houve quem tivesse posto a pata na poça, ou seja os marmelos que fizeram a colagem ao Heavy antigo dando num híbrido tenebroso, o Power Metal – acreditem que nem vale a pena fazer download de coisas como Dream Theather para tirar as dúvidas! Perdi-me outra vez! Isto por causa de Ewigkeit, um projecto de inspiração pinkfloydiana tão útil como berlindes durante uma cópula entre dois rinocerontes, que faz música sintética e melódica até à medula. Mistura Electrónica e Rock Pesado com uma valente piscadela aos Killing Joke e aos terrenos abordados pelos My Dying Bride em 34.788%... Complete (Peaceville; 1998). Ewigkeit é assim tão mau? Infelizmente sim! Porque apesar não ser muito foleiro em relação a outros discos do género continua a ser um produto de fácil consumo de tão bem feito e orelhudo que é. É de um Metal modernaço e só deixa tudo a perder quando usa um Folk à la New Age na música Theoreality conseguindo assim mostrar o mau gosto do seu compositor - isto para não falar da capa foleira feita por arte digital. Então qual é a solução? Afundar o Prog para entranhas do Inferno de onde nunca devia ter saído?

Os nomes para os “géneros” de som irritam-me! A principal razão porque criam barreiras que nos impede de ouvir uma banda só porque é… (ex:) Prog. Devo admitir que nunca quis ouvir Prog por uma espécie de preconceito Punk (2). Ainda dei o benefício da dúvida escutando um disco de Genesis ou outro… Que horror! Como é possível ter havido uma cena tão pretensiosa como esta!? Por coincidência cósmica não foi só Ewigkeit que me chegaram às mãos mas mais outros 3 discos que me abalaram o sistema – podiam ser eles definidos por Prog? Fiquei curioso em saber o que era realmente este género, vesti a gabardina de detective musical e fui a uma loja especializada - na Calçada do Carno (3). Lá comprei um CD dos Magma que já tinha ouvido falar por gente insuspeita como o Jello Biafra (na revista Re/search #15). Infelizmente só havia um Live (Charly; 2001) de 1975 mas com um bom som de gravação. Os Magma são franceses, criaram a sua própria língua que cantam (o Kobaïan), são instrumentalmente sombrios buscando estruturas da música clássica e fusão. É operático mas não histérico, o que é bom. A faixa inicial tem meia hora mas ouve-se bem… Ok! ‘Tou convertido! Terei mais calma de futuro e prometo ouvir melhor os dinossáurios! Especialmente estes tipos que criaram um subgénero, o Zeuhl (que significa em kobaïano “celestial” - mais uma razão para não gostar de rótulos não é?) que inspirou bandas japonesas como os Ruins.
Entretanto ficam aqui as “pérolas” que me baralharam tanto:

I.
A mirror is a window’s end (Beardhead; 2005) é composto por 3 músicas quase todas de 10 minutos e trata-se do EP de estreia dos alemães Beehoover que são apenas 2 gajos: I.Petersen (voz, baixo) e C.-P.Hamisch (bateria, voz). Os temas são complexos, um Rock pesadão como se os Clutch estivessem a fazer versões dos Kyuss na garagem. Denso e atmosférico (sem ser “ambiental”) é de referir o som torpe do baixo modificado de Petersen que substitui completamente o som de guitarra. Um nome a reter no futuro. [www.beehoover.com]
II.
Por falar em duos, foi lançado o 4º disco de Orthrelm: OV (Ipecac / Sabotage; 2005). OV é um tema de 45 minutos em que se repete o mesmo riff de guitarra Heavy ad eternum et ad nauseum (de Mick Barr) com uma bateria (de Joshua Blair) a acompanhar. A guitarra lá pára de vez em quando (a primeira vez é aos 22 min.) para pequenos delírios de percussão. Se o Prog nos anos 70 foi buscar o sentido erudito da Música Clássica ou do Jazz para aplicar ao Rock, então os Orthrelm mantêm essa linha pois o que está aqui é a música minimalista desenvolvida por Tony Conrad. Por isso eles são o “refresh” do Prog, longe do barroco pindérico da orquestração e perto do conceptualismo da Contemporânea e usando as franjas técnicas do Metal e da Música Improvisada. Não é fácil ouvir este disco mas que é uma importante experiência sonora lá isso é.
III.
Sleepytime Gorilla Museum Of Natural History (Web of Mimicry / Sabotage; 2004) não é só mais uma banda vinda da família Mr. Bungle apesar de serem lançados pela editora de um elemento dos Bungle ou por serem mais um bando de multi-instrumentalistas sem preconceitos. Tematicamente ou instrumentalmente poderá satisfazer fãs de Secret Chiefs 3, Einstürzende Neubauten, Skeleton Key (há um membro em comum), Death in June, Diamanda Gálas, Ministry, Gentle Giant (uma banda Prog dos anos 70) e mais 1001 coisas. Álbum dedicado ao “museu de história natural do gorila adormecido” que “estuda” a evolução da humanidade e dos invertebrados. São desenvolvidos temas apocalípticos do confronto entre manifestos belicistas dos Futuristas italianos e os anti-progressistas (passe a ironia) do último anarquista do século passado (Unabomber e o seu consanguíneo Freedom Club). A embalagem é acompanhada por resumos desses manifestos, um ensaio sobre entomologia e várias imagens de emulação humanos/invertebrados. Estamos perante um álbum conceptual. Este facto e a complexidade das composições obrigam-nos a defini-lo como Rock Prog por muita confusão que isso poderá fazer aos puristas. Um disco poderoso e conquistador.



(1) A maior parte dos membros seguiu carreiras em intermináveis projectos bastante diversificados (Metal, Industrial, Dub, Improv), alguns inventivos (Godflesh), outras menos (Cathedral) mas sempre de alta qualidade, deixando os Napalm numa banda “oca”, ou seja sem coisas “novinhas em folha” para dar em que tal como os Rolling Stones (vestidos de t-shirts e calções pretos) é preciso vê-los pelo menos uma vez na vida!
(2) Punk que é Punk NUNCA ouve balofos dos anos 70!
(3) www.progcds.com para quem não gosta de sair de casa. Também organizam um festival de Prog em Gouveia lá para a Abril.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Vinilo laico

Uma rapidinha sobre as aquisições na última Feira Laica que por acaso eram espólio do O Poeta e do Opuntia. Por acaso os tipos livraram-se de coisas bem fixes como Dark Recollections (Necrosis / Earache; 1990) dos Carnage, álbum seminal do Death Metal Sueco, uma verdadeira loucura underground nos anos 90. O tempo não perdoa e parece que já ouvi tanto Death que não aqui nada de surpreendente, por isso prefiro ficar como referência os anti-cristo Deicide, os escatológicos Cannibal Corpse ou os narco-satânicos Brujeria. [3,5; levo prá Troca de Discos para fazer ambiente e trocar porque não vou ter gira-discos para passar... pena!]

Uprising (Tuff Gong / Island; 1980) de Bob Marley & the Wailers é um disco "terminal" - foi o último álbum de estúdio de Bob antes de morrer no ano seguinte. Álbum de Reggae de qualidade não fosse um álbum do Bob, encontra-se cá Redemption Song, uma das faixas mais emblemáticas e fora do âmbito do Reggae por ser meio Folk - terá sido por isso que foi anos mais tarde versionada pelo Johnny Cash? [4; bom para ouvir à tarde ou a desenhar]

Com a capa toda fodida (adivinhem de quem era o disco?) outro clássico: o quarto álbum (Atlantic; 1971) dos Led Zeppelin, imortalizado pelo famoso tema Stairway to heaven mas também pela estranha capa que nada diz: nome da banda, título do álbum (não existe), créditos e afins... só quatro símbolos que representavam estes outros fab four. Um dos álbuns mais vendidos de sempre a 1€ e essêncial p+ara qualquer "alternativo" para entender o Hairway to Steven (Touch & Go; 1988) dos Butthole Surfers, hehehehe [5; mas o que faço com aquela capa toda fodida?]

Mais clássicos: os Mahavishnu Orchestra eram uma banda Jazz-Rock e que tem Birds of Fire (Columbia; 1973) um magnífico segundo álbum. Cheio de energia e textura vindo de cinco virtuosos que aproximam o Rock, o Jazz e a música indiana. A orquestra era liderada pelo famoso guitarrista John McLaughlin antes de ser conhecido pelas secas. Um clássico é um clássico, e vice-versa, muito imitado mas poucas vezes batido. [4,5;...]

Mais recentes mas clássicos na área da Genitália-Juvenália, vulgo, Grind em duas estreias, ambas da Earache quando a editora fazia juz do nome: Lawnmower Deth com Ooh Crikey It's... Lawnmower Deth (1990) e O.L.D. com Old Ladies Drivers (1988). Bandas que reflectem bem a juventude alimentada com junk-food, filmes Gore e falta de respeito pelas instituições sociais e humanas.

No caso dos Lawnmower Deth são mais Trash e Death com letras tão imbecis sobre a clínica Betty Ford: «I can't help it, I'm not pure But Betty Ford's will have the cure. Alcohol, at Betty Ford's / It's cost me loads of money, Money I could have blown, On buying loads of heroin» como sobre hábitos britânicos no Pub - ou melhor porque se luta num Pub? Simples, Did You Spill My Pint? Inesquecível uma faixa Death com a vocalização à Pato Donald! Parece que no terceiro álbum (em 1994) deram numa de Punk (melódico?) e foram esquecidos para sempre. Pena? [3,7; este não vou largar tão cedo!]

Os O.L.D. são dos E.U.A. e é Grind puro e duro. Nas suas fileiras estava James Plotkin com cara de puto (porque era) antes de ser um cromo de música eh... Noise? - Ex.: Phantomsmasher (Ipecac; 2002). Aqui é o primeiro registo de Plotkin com mais dois metálicos de gema, que deviam-se vir feitos tontos com faixas como Lepers Without Feet ou Special Olympics - recuso-me a citar as letras, hehehehehe Xungaria barulhenta da boa com uma excelente versão de Cocaine (Eric Clapton). Estes é que eram tempos sem perseguições politicamente correctas e de música extrema e rápida como depois deixou de haver - voltou com a cena Breakcore? [3,6; vai ficando até arranjar melhor, tipo, um vinil de Anal Cunt!?]

Por fim, quanto a Towards Thee Infinite Beat (Temple; 1990) dos Psychic TV é um álbum que usa a estética Acid - tal como muitos que sairam na altura: "In Gorbachev We Trust" dos Shamen, para não falar dos KLF ou dos 808 State -mas com aquele "twist" do Mr. Genesis P-Orridge & cia. Letras niilistas, sons étnicos e a veia experimental no meio das batidas Rave UK. [3,5; ...]

Por este lote de discos que não ultrapassaram os 4 Euros cada - alguns a 1€! - é caso para dizer que vale mesmo a pena ir à Laica! Auf Auf!

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Finger lickin' good



Fudge Tunnel : Creep Diets (Earache / Columbia; 1993)

Meu, cada vez acho que os anos 90 foi a última década de música Rock à séria, ou pelo menos para o Rock "pesado"... E com isto admito ficar velho, quadrado e estúpido. Que se lixe... Nunca ouvi os Fudge Tunnel nos anos 90 embora soubesse que um tal de Alex Newport fosse da banda. Sabia que este cromo Newport era um produtor conceituado e soube que ele existia através daquela bomba de pregos "Indus-trash" que eram os Nailbomb - a única merda de jeito que o Max Cavalera fez fora dos Sepultura.
Fudge é Rock sujo, a roçar Hardcore e Metal, muito nas linhas de Helmet ou Nirvana-porque-não, são ingleses da mesma cidade da editora Earache e dos Napalm Death, por isso, se falamos de rock barulhento é isto. São do melhor. O resto pouco importa...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Scanner Darkly


Mick Harris, Eraldo Bernocchi : Overload lady (Sub Rosa; 1996)
Scanner vs Signs ov Chaos (Earache; 1997)

Duas aquisições que prometiam bastante mas que falharam redondamente. Se calhar em 1997 teriam sido o "state of the art" da música electrónica, passados estes anos são CD's com uma carga datada.
Mick Harris foi o pai do Grindcore e nos anos 90 meteu-se nas teias pesadas do Dub Industrial e Illbient - Scorn anyone? eu é mais scones... - sendo que será normal encontrar vários discos em nome próprio com algum outro cromo da música como é o caso deste com o italiano Bernocchi, em que ambos investem em techno revestido de jungle e ambientes sonoros negros. O efeito é de sonolência e irritação profunda de tão "demodé" que é. É demasiado caucasiano e digitalizado. Aposto que a culpa é do italiano - alguém se lembra de boa música do país da bota? Eu não...
Do Scanner não sabia o que esperar, da Earache talvez qualquer coisa uma vez que apostaram em Techno para Metaleiros na segunda metade dos anos 90. Invés disso surge uma manta de retalhos em que Scanner e SoC, ao que parece, partilham ficheiros e constroem temas - SoC os temas impares do CD e Scanner os pares num total de seis faixas, que começa com House do piorio e muda para Dub electrónico, breakbeat, big beat e ambient mas sem nunca criar um terreno sólido nem fértil. É uma manta de retalhos que se rasga toda logo à primeira audição. É triste. Dizem as críticas pela 'net fora que este é um período mau de Scanner, devem ter razão...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Ladra metaleira!

Este Sábado fui à Feira da Ladra e logo no inicio um metaleiro estava a vender a sua colecção de vinis e CDs. Fui aos vinis, claro, em bom estado embora um bocado sujos aqui e acolá.

Comecei pela barulheira... O terceiro de Napalm Death, Harmony Corruption (Earache; 1990), recebeu críticas na altura que estava mais para o Death que para o Grindcore... não é à toa que Unfit Earth tem vocalizações de Glenn Benton (dos satânicos Deicide) e John Tardy dos Obituary, além da produção ter sido feita por Scott Burns - o gajo que produziu Obituary, Deicide, Sepultura, Malevolent Creation, Death, Cannibal Corpse, ou seja tudo o que podemos considerar de Death Metal produzido na sua gênese. Bom, é verdade as vozes sobretudo são chatas e soa um bocado tudo ao mesmo sem aquela sensação de emergência que define os Napalm. Parece estar tudo mais certinho e regrado ao agrado dos metaleiros. Não deixa de ser claro uma grande besta sonora que incomoda muita gente que o ouve.

Conhecidos por serem os Napalm da Holanda não conhecia os Consolation que me aparecem num single, The Truth (Displeased; 1994) de cinco temas Grindcore puro e duro. Podem ter um dos piores nomes de sempre mas não desiludem em rapidez, técnica e barulho. No lado A ainda oferecem uma faixa escondida com uma versão Grind de Smells like teen spirit dos Nirvana, a fugir aos cabrões do "copyright" e reduzida a poucos segundos. Nada mau, rapazes!
Voltando à Inglaterra, o segundo álbum dos Acid Reign, Obnoxious (Under One Flag; 1990) é uma supresa agradável. Na essência é uma banda de Thrash com "riffagem" da melhor e muito boa composição musical. Lembra um bocado Anthrax e Metallica (com a vantagem de não ter o vocalista de Metallica!) mas como são britânicos levam a coisa prá brincadeira a dada a altura, como se topa nos dois últimos "trechos" do disco, ou seja, no tema Codes of Conformity, que são surpreendentes ou no mínimo divertidos. Imagino que deve ter chateado / chocado muito metaleiro na altura... Talvez por isso, quando a banda acabou, um dos tipos foi parar aos palhaços da Earache, os Lawnmoner Deth, e outro passou a fazer "stand up comedy"! Stooopid lads!

Por fim, o melhor do lote, The Accüsed com o seu segundo álbum More Fun Than An Open Casket Funeral (Rough Justice; 1987) que comprei muito sinceramente pela capa de S. Clay Wilson... Nada sabia da banda nem nunca tinha ouvido falar. A referência dada pelo vendedor era que era Crossover - como D.R.I. e afins - e faça-se justiça a esta banda de Seattle, é Crossover sim senhora, como uma agressividade rock'n'roleira que não há muita gente assim a fazê-la - talvez os Zeke. Merecem mais reconhecimento do que tiveram porque acabaram por ser uma banda influente para sub-gêneros que apareceram como o Crust e o Grindcore, bem como o Grunge - a banda gostava de chamar o seu som de "splattercore", pelo gosto de filmes de terror splatter. Está aqui tudo que carateriza o Crossover, a fusão da energia primária do Punk com a técnica e a precisão do Metal mas o que mais impressiona nesta banda é voz podre de Kevin Cochneuer. Sick sick sick!

sábado, 23 de novembro de 2013

Podiam ser mais se fossem menos...



Godflesh : Slavestate (Earache; 2009)
They Might Be Giants : Mink Car (Restless + Play It Again Sam; 2001)
v/a : Judgment Night o.s.t. (Sony; 1993)

Acho que sou tão tótó como a banda They Might Be Giants, aliás, só os tótós é que gostam desta banda de tótós assumidos. Tinha escrito aqui que nunca mais iria pegar na discografia dos TMBG depois de 1992, quando passam a ter uma banda verdadeira completa para além dos dois fundadores, John Flansburgh e John Linnell que tocavam vários instrumentos e eram acompanhados por leitores de k7s e uma "drum-machine" - aliás, as boas bandas são as que não tem bateristas como Big Black ou Godflesh, certo?
Ops I did it again! Mink Car sofre por tudo e por nada, começa com uma música techno que se queixa do barulho nas discotecas, tem um tema acelerado-punk-indie que foi aproveitado para a divertida série de TV Malcolm in the middle, uma baladinha hiper-amorosa que só o título diz tudo o quanto é genial (Another first kiss), etc, etc, etc,... temas sempre porreiros e orelhudos mas cuja a soma das partes não faz um bom disco sabe-se lá porquê. Mas pior é saber que a versão europeia / inglesa deste disco tem menos temas que a original (um disco de TMBG com menos de 18 temas não é um disco de TMBG!) e o alinhamento dos temas foi alterado (!). Porra, estamos em 2001 e é um CD! Porque fizeram isto? Que idiotas que são os bifes!!!  Não sei se explica o álbum ser pouco carismático porque os problemas pós-1992 continuam lá mas aposto que não ajuda em nada! Ainda assim, é a única banda Pop que sou capaz de ouvir...
E por falar nos Godflesh, este EP junta mais uns remixes e um single (Slateman) tudo do ano da Graça do Senhor de 1991. Em 2009 continua a ser reeditado porque foi quando todos se lembraram que os Godflesh foram das bandas mais importantes de sempre. Em 1991 a Earache devia-se estar bem a cagar para eles porque afinal que banda é esta que mete três guitarristas, samplagem e "drum-machine" a fazer um som pesado metálico, no limite do Industrial e neste caso, é quando os Godflesh se começam a virar para a música electrónica e o Dub. Para o metaleiro da altura deve ter sido um choque começar a abanar o rabo a ouvir ritmos de Techno... Um clássico este disco! Com ou sem extras!
Outro clássico e que devia ser dado em qualquer aula sobre música urbana porque é um dos melhores discos de sempre é o Judgment Night, mesmo sendo uma banda sonora para um filme merdoso - é o que se diz do filme, nunca o vi nem tenho curiosidade para não estragar o prazer que tenho sobre este disco. Se o encontro da América racialmente dividida gerou o Rock nos anos 50, nos anos 90 teremos o Nu Metal que rapidamente, tal como no Rock, se despachou dos negros. A história antes dos porras Korn ou Limp Bizkit é mais interessante, e surge em três momentos altos da música Pop. O primeiro foi uma conspiração de Rick Rubin em meter juntos os Run D.M.C. (grupo de Rap em ascenção) e os já então caquéticos (musicalmente) Aerosmiths a tocarem Walk This Way em 1986. Mais tarde outro grande momento: Bring the noise com os Public Enemy e Anthrax, se em 1986 o tema original é dos braquelas, a versão original desta vez é dos Public Enemy. Por fim, em 1993 a fórmula "rock + hip hop" é abusada em 11 temas para fazer este álbum que junta Helmet com House of Pain (não vale porque os House são branquelas!), Teenage Fan Club com De La Soul, Living Colour com Run-D.M.C. (ei! também não vale ambos são negros!), Biohazard com Onyx, Slayer com Ice-T (que de Rap nada fazem, porque Slayer é Slayer e ainda fazem uma rapsódia de temas dos punks The Exploited), Faith No More com Boo-Yaa T.R.I.B.E. (o melhor tema do álbum tal é o ritmo e a demência vocal de Patton com os descendentes-baleias do Samoco, digo, da Samoa), Sonic Youth com Cypress Hill (o tema de amor à Marijuana mais narcótico de sempre), Mudhoney com Sir Mix-A-Lot, Dinosaur Jr. com Del The Funky Homosapien, Therapy? com Fatal (não deviam ter colocado os irlandeses com os House of Pain já a gora?) e ainda Pearl Jam (oh não!) com os repetidos Cypress Hill (não havia mais niggas!?). Se no inicio a ideia era juntar o som mais branco pesado, ou seja Hard Rock e Metal, é interessante ver que nesta antologia o encontro passa por bandas Indie e sónicas como Sonic Youth or Dinosaur Jr. que trazem alguma "coolness" que nos outros encontros não era possível dado às metralhadas de rimas e riffs de guitarradas. Em Portugal os borregos dos Blind Zero e Mind da Gap foram logo atrás da fórmula a ver se sacavam guito disto mas sem sucesso. É que é preciso ter personalidade para que um projecto destes funcione, ora quando se é cópia de outras coisas não se pode chegar a lado algum... tal como se pode verificar 20 anos depois.

Ah! Os discos foram adquiridos na Glam-O-Rama no Imaviz Underground, novo espaço "alternativo" em Lisboa.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Scanner Darkly 2


Mick Harris, Eraldo Bernocchi : Total Station (Sub Rosa; 1998)
Scanner : Delivery (Earache; 1997)

Segundo round com os mesmos gajos que escrevi recentemente, desta vez o Harris e o Bernocchi safam-se melhor estando mais orientados para beats Hip Hop com um fundo dub industrial. Mas na realidade não faz mossa para quem já tiver os Techno Animal como referência, tem faixas porreiras, outras vulgares e uma um bocado pirosa. Bah! Nada de novo, talvez fosse interessante em 1998...
Delivery fecha as abordagens tolas da colaboração com Signs ov Chaos para um álbum quase que ambiental dramático - embora tenha beats - e ao que parece transita para um espaço musical de Scanner mais conhecido pelo seu trabalho de piratear conversas telefónicas alheias - encontra-se aqui duas dessas faixas "voyeuristas", o deseperante Heidi e tenso Affaire. Não foge a alguns "templates" da revolução musical electrónica dos anos 90 e já pode ter um cunho datado da época, o que torna a aposta no Scanner numa coisa definitivamente estranha no catálogo barulhento da Earache. Go figure!?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Martin Aston : "Facing the Other Way : The Story of 4 AD" (HarperCollins; 2014)

Na Feira do Livro de Lisboa, o amigo Afonso mostrou-me que se podia ver a discografia toda por ano no Discogs - já que não se vende nada por lá, ao menos um gajo com o Youtube, pode checar os discos todos que não conhece da Earache, por exemplo, ou da 4AD. Devo desde já dizer que ouvir os discos não conhecidos da Earache foi uma revelação e desilusão, esperava mais bandas Grind/Death e invés disso saiu muito Gabber (ok, tudo bem, gosto e gosto da fusão de Gabber com Metal) e projectos sub-merda - seja em Metal seja em Electrónica da treta.

Já a 4AD não desilude mesmo que possa não gostar deste disco ou daquela banda, tudo tem uma qualidade acima da média Rock/Pop. Para começar, fiquei surpreso com os nomes de Bauhaus, The Birthday Party e The The (antes de o ser) no catálogo desta "indie". Bauhaus é Alfa e Ómega. Sem comentários, tudo bem que a 4AD era no início uma "sublabel" da Beggars Banquet e que esta passou a ser o representante dos Bauhaus mas só isto indica o que as qualidades para descobrir talento do homem detrás da editora, Ivo Watts-Russell

E os nomes sucedem: This Mortal Coil (projecto de estúdio do Ivo), Cocteau Twins, Dead Can Dance, X Mal Deutschland,  Clan Of Xymox, Throwing Muses, "o mistério das vozes búlgaras",  o marado mega--sucesso Pump up the volume dos M|A|R|R|S, Pixies, Lush, Pale Saints, Breeders, Belly, Lisa Germano, Gus Gus, Thievery Corporation (WTF!?),... isto no reinado do seu fundador Ivo até ele sair em 1999. Não sendo o catálogo revolucionário na música Pop, indirectamente foram sem sombra de dúvida, projectos que mudaram as suas coordenadas - Nirvana não seria o que era sem os Pixies, por exemplo. 

Dois comentários possíveis, o primeiro foi a quantidade de bandas ou projectos que envolviam mulheres em bandas - um elemento na bandas ou bandas exclusivamente de mulheres. Tal parece-me importante referir mais do que a arte das mesmas - sem desconsiderar, os nomes acima referidos provam a qualidade alta dos seus projectos - porque numa sociedade patriarcal, a vida delas no meio musical não era (e ainda não será) fácil. Esse legado continuou mesmo depois de Ivo ter saído da editora e isso ainda se vê no actual catálogo da editora.

Onde Ivo "falhou" foi no acompanhamento das carreiras das bandas, ele só queria gravar bons discos, arriscando em projectos variados e inusitados, todo o jogo do negócio passava-lhe ao lado, ou porque o desprezava ou porque não tinha perfil para tal - tendo até desenvolvido problemas de saúde mental com o stress da indústria fonográfica. Ao longo do livro não faltam queixas de desorientação dos músicos face ao sucesso que alcançavam mas para Ivo o que interessava era fazer mais um disco excelente, ponto.

De resto, o livro esmiúça tudo o que e preciso esmiuçar, a vida de Ivo, as histórias das bandas e seus relacionamentos, o grafismo icónico de Vaughan Oliver /23 Envelope / v23 - fiquei a saber que ele nunca usou computador, wow! -, os negócios da editora, a saída de Ivo e mais alguma década de história depois dessa saída. Um livro obrigatório sobre os anos 80 e 90 no Pop/Rock.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Montijo: entre mosquitos, merda e cachaça

As férias acabaram na F.E.I.A., uma grande iniciativa do camarada David Campos, autor do livro Kassumai, e que vai na terceira edição - adoro dizer "terça feia"... Mas o evento que tornou-se uma seca a dada altura, e é incrível que bastou uma banda para estragar tudo.

O Montijo é um retrato deprimente do país real que tanto percorri nestas férias, do Alentejo aos Açores, das Beiras ao Norte,...  A sua única diferença é que fica ao lado de Lisboa, separado pelo rio dando-lhe um colorido suburbano mal-parido. Mal-parido porque demora-se meia-hora para chegar à outra margem de barco, e depois de se lá chegar ainda é preciso apanhar um autocarro para o centro! Os horários são rídiculos (quase não há barcos se formos bem a ver!) e um bilhete é caro, não esquecendo que ainda temos de pagar mais um, o de autocarro! Tudo isto cria uma terra em que apesar de ter um pé à cultura urbana acaba por meté-lo na água graças a este isolamento estranho.

A terrinha também é nula em pontos turísticos o que faz que não haja nada atraente ir lá visitar a não ser a barbárie das touradas ou a discoteca xunga Kaxaça cujo ex-libris é ter o DJ Pete Tha Zouk a altos berros a ouvir-se por toda a cidade. Pergunto-me como as pessoas toleram esta barulheira à noite mas considerando que nesta cidade também cheira a merda de porco de vez enquando... A FEIA como já perceberam é um oásis cultural, ou antes, uma pérola a porcos! Caramba, até o Barreiro que tinha as descargas industrais brutais deixou de ser uma cidade agreste, aliás muito antes pelo contrário, a julgar pelas exposições de ilustração ou os festivais de música que têm lá acontecido - o Out.Fest, por exemplo!

Voltando à coisa, a FEIA foi porreira mas foi uma grande seca porque a dada altura uma banda local - os Satguru - armaram-se em super-stars, fazendo aquele clássico idiota dos concertos, ou seja, o que 'tá marcado de horas para começar a tocar é muito pouco importante porque a banda foi jantar! Chegaram tarde, tocaram balofadas dignas de Supertramp ou Dave Mathews Band, e graças a isso queimaram tempo de actuação da outra banda (os simpáticos mas mediocres garageiros Invaders from Verdelha) e do casal fixe de DJs. Creio que este é o tal espírito de querer ser urbano sem se viver a urbanidade, onde humildade, DIY e cooperação são facilmente trocados pelo espírito agrário e ruralidade.

Apesar da canseira de aturar isto e outros cromos, ao nível de música adquirida neste fim-de-semana foi bastante produtivo - muito graças a essa confusão mental dos próprios habitantes da cidade. Por exemplo, aos Sábados de manhã (acho que não são todos - é ao segundo portanto?) há uma "feira da ladra" no centro da cidade, que não é exploratória como a de Lisboa nem lixo-infinito como a Vandoma (Porto). Por isso, sem querer pode-se arranjar curiosidades a preços parvos. Por exemplo, comprei três CDs por um euro apenas! Entre eles o clássico The Bleeeding (Metal Blade; 1994) dos Cannibal Corpse que já tinha mas sem capa ou caixa... E quando mundo não podia ser mais estranho, aparece o Godkiller com The End of the world (Wounded Love; 1998), um CD de um metaleiro de Monaco!? Yup! Deve ser o único na cidade de aristocracia paneleira e o som soa a isso mesmo, Goth Metal, pós-Black Metal, Doom e uso de electrónica porque (mais uma vez) deve ser o único metaleiro da cidade. O CD entretanto vale bastante mais que um terço de um Euro, aliás, 100 vezes mais. A música é que não!
E ainda neste molho, um CD duplo de Gabber, ou se preferirem o Techno prós metaleiros se a primeira abordagem ainda não fosse tão má. Industrial Strengh (Earache; 1995) é uma compilação feita por Leenie Dee para a editora que editava o Metal mais extremo do planeta (Napalm Death, Godflesh,...), longe do que viria a ser isto (clicar link) embora o DJ Skinhead já samplava Pantera com as batidas bestas Techno. Chato passado um bocado, não admira que esta música tenha mesmo de ser consumida com drogas.

Ao nível do vinil - a um euro cada - arranjei um LP dos Traffic ao vivo, Welcome to the canteen (Island / ed. pt Dacapo; 1971) que só têm piada porque o nome da banda não aparece mas sim os dos elementos da banda, e um dos concertos foi de um "benefit" à revista Oz, publicação underground que na altura teve sérios problemas com a Censura na terrinha puritana britânica. Rock psicadélico simpático dos anos 70 que não aquece nem arrefece. "São os Led Zeppelin?" perguntou a minha mulher. Eu perdou-lhe a simples heresia porque ela é do Montijo... E até porque estou demasiado feliz por ter encontrado este disco:



You Shouldn't-Nuf Bit Fish (Capitol; 1983) de George Clinton é o que se pode esperar da cabeça por detrás dos Parliament / Funkadelic: P-Funk a rodos, Rock no meio e algumas bocas ao Rap ao lado para acompanhar os tempos... Mas o que me fez mesmo comprar isto foi a capa de Pedro Bell, grafista das bandas citadas e que criou um imaginário Black urbano dos EUA desde os anos 70. O disco até podia estar todo riscado (por acaso não!) e ser uma treta (é um bocado) que ainda assim levaria esta capa cheia de informação, cor e BDs maradas!

A seguir vamos para outro de psicopatologia montejinense através da aquisição do melhor do lote: Brian Eno e David Byrne e a sua obra-prima: My life in the bush of ghost (Sire; 1981). Disco de catalogação difícil ainda nos dias de hoje, em que os dois cromos juntaram peças encontradas - samples, na altura nem se dizia desta forma aposto - e tocaram por cima criando uma ponte entre o Funk branco, world music e electrónica - a pensar que o tema Hizbollah dos Ministry era algo de inédito, quando o que não falta aqui são arabescos sacados com instrumentações dos cromos por cima... Já tinha ouvido falar muito deste disco, da última vez, foi o autor de BD Diniz Conefrey para explicar como foi a sua influência para fazer a BD de colagens Avés Marias Rap (Lx Comics #2, 1990). Vale todo o dinheiro do mundo!


Mas perco-me a falar de música... O disco foi comprado na banca do Hey Joe! que estava lá na FEIA. O que dizer do Hey Joe? Era um bar de metaleiros que o dono expulsou passando sempre os mesmos temas dos Stone Roses e dos Sonic Youth. Pretendia nesta acção de terorismo sonoro ser um bar com loja de discos e livros mas passado poucos meses já não se percebia o que era os discos do dono ou os que eram para venda. A degradação do negócio tornou-se tal que pelos vistos o dono quis despachar tudo a 5 euros cada vinil. Ah! E os metaleiros voltaram lá a beber copos e muitas vezes como DJs... Aproveitei para comprar também um dos Nitzer Ebb já agora, o Belief (Mute; 1989), segundo LP desta banda britânica de EBM que varia entre temas fortes, excelentes para pista de dança, e temas a roçar a foleirada. Não têm os grandes temas da banda que acho que serão do terceiro disco mas percebe-se que andam a dar passos para lá!


 Por fim, o David foi simpático em oferecer-me um disco, a versão limitada digipack do 3 (Roadrunner; 2002) dos Soulfly - a propósito, podem ler uma BD minha sobre o primeiro concerto da banda no livro Talento Local. Deve ser um dos discos de Metal mais azeiteiros de sempre para quem já fez dos discos mais fixes de sempre - quando Max Cavalera era o vocalista dos Sepultura, claro!
Neste disco usa todos os clichés que fizeram a fase "étnica" dos Sepultura, neste caso umas batucadas sem piada com Riffs de guitarrada Nu Metal por cima. Uma porra. Onde o CD começa a ser bom, e porque é um CD com extras, é a partir do final do disco "normal" com os temas de Soufly III (instrumental psicadélico porreiro), Sangue de Bairro (versão de Chico Science & Nação Zumbi) e Zumbi (outro instrumental a lembrar quase o minimalismo de Terry Riley)... Ou seja as últimas três faixas do disco, seguido pelos extras I Will Refuse (versão dos Pailhead, banda punk-industrial com elementos de Ministry e o emblemático Ian Mackaye) e Under the Sun (outra versão! dos mestres Black Sabbath).
É incrível como um tipo que pregava o chifrudo e assuntos espirituais (!) acabou por se transformar num merdas conservador do tipo mais básico: Deus (o álbum é dedicado a esse ser abstracto), Família (todo o "espiritismo" é pespectivado segundo as frustrações das mortes e sofrimentos da sua família, e para não dizer que o actual baterista da banda é o seu filho Zyon) e Pátria (Max vive nos EUA e dedica um minuto de silêncio às vítimas do 11 de Setembro).
A evitar portanto, talvez seja por isso que em todas as mesas da feira da ladra do Montijo se encontrava um disco da banda, aliás, na FEIA só o David tinha duas versões nem ele sabia como... Ainda bem que me deu a escolher e optei pela versão especial! Os metaleiros não são nada parvos em despacharem-se disto.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Aniversário Negro


Peter M vs Mushi : Fando y Lis (MNQ; 2008)
Praxis : Transmutation (Mutatis Mutandis) (Axiom; 1992)
Scorn : Deliverance (Earache; 1997)

O amigo Lion in Zion ofereceu-me no meu aniversário duas belas raridades que mostramn como a música dos anos 90 foi do melhor apesar das bocas da reacção! O CD de Scorn é uma edição norte-americana do EP original de 1992 com três faixas de remisturas dos Sabres of Paradise. Scorn é Dub com engrenagem Industrial que saiu da cabeça de dois elementos dos Napalm Death - a banda que revolucionou a música e cujos elementos fragmentaram-se em mil projectos depois da "música acabar".
Praxis é Nova Iorque pura - pelo menos a que se imagina que deve ser a cidade de todas as emigrações, cultura e sub-culturas - e o seu primeiro álbum é a fusão de tudo o que era música urbana conhecido até então - Hip Hop, Funk, Jazz, Hard Rock e Dub - não fossem os seus elementos MEGA-cromos-quando-todos-começados-por-B como Buckethead (o melhor guitarrista do mundo? pelo menos o melhor guitarrista com um balde na cabeça!), Brain (na altura dos Primus, actualmente com o Tom Waits), Bootsy Collins e Bernie Worrell (Parliament/ Funkadelic), e AF Next Man (Lord of Paradox) ou melhor Afrika Baby Bam dos Jungle Brothers - sempre tem um B algures! - e o Bill Laswell como maestro, e já agora o Hakim Bey como inspiração! Não há definição para isto, é tudo uma grande tripalhada sonora que infelizmente não se concretizou no futuro, com a continuação de público-alvos (um público-alvo não é algo para abater?) mais estanques em sub-géneros decadentes e nada originais.
E por falr nisso, antes da noite de copos com amigos fui à tarde ao "famoso apartado 215" e encontrei a recepção de uma promessa de troca feita no Crack. Eis um CD-R com uma embalagem enganadora (parece que é um single em vinilo) dos italianos Peter M vs Mushi a musicarem um filme do Alejandro Jodorowsky - a sua primeira longa de 1967, Fando y Lis, filme polémico e proíbido mas que infelizmente não vi para poder fazer relação entre o filme e esta banda sonora. Por isso, fico com a sensação da vulgar Dark Ambient feito de material analógico (sintetizadores Kawai, Korg e Roland) sem grandes surpresas mesmo quando estas são mais Noise. A Mushi recita algo em italiano mas também não sei que relação terá com o filme... Bom, ficamos pela embalagem elegante com gravuras antigas. Esta edição é limitada a 80 cópias numeradas. Deo Gratias!

sábado, 28 de agosto de 2010

Primitive Future!


Cromagnon : Cave Rock (ESP-Disk / Jackpot; 2009?)

 A Cultura Pop tem sido um chorrilho de decepções no que diz respeito ao Futuro... não andamos em "heli-carros" nem temos armas lazer. O futuro inventado nos anos 50 foi nos anos 50 (excelente uma bd de Miguel Brieva, creio) ou o futuro inventado nos anos 80 foi para os anos 80 (ver a recente bd de David Campos na antologia Destruição). Mas nem todos deram boca! É o caso dos Cromagnon, norte-americanos psicadélicos que gravaram um único disco em 1969 (originalmente intitulado Orgasm) pela ESP. Disco experimental e maldito que levou anos a sair e a ser reconhecido como um marco importante da música.
O tema Caledonia lembra o cruzamento improvável de Carcass com os Test Department (por causa das gaitas-de-foles?), outro tema podia ser uma toineira dos  Butthole Surfers, outra malha é Einstürzende Neubauten sem o Romantismo, outra podia ser o mongolismo da cena Improv/Noise dos nossos dias - tipo Fat Worm of Errors -, noutra poderia ser Cabaret Voltaire (a banda), e claro, Psychic TV, Circle X, Black Dice e uma miríade de bandas sincopadas & barulhentas "mucho" contemporâneas. A questão é que estamos em 1969, e os gajos que faziam parte da tribo Cromagnon eram mais uns gajos do Rock/Blues como mil bandas do tipo, Boss Blues diz algo? Provavelmente não e também pouco deve interessar a não ser para os crominhos da nostalgia. Fartos dos ié-iés decidiram gravar na editora mais "fora" daquela altura (e era: Godz, Shags, W.S. Burroughs) para gravar um álbum "fora". 
Pela entrevista incluída na reedição vinil da Jackpot, um dos sobreviventes afirma que tinha decido "gravar um disco que se projectasse para o futuro de 30 anos", que fosse tão importante como a pélvis mexida do Presley ou a guitarra em chamas do Hendrix. Em 1999 teria resistido às modas do mundo. Em 2009 também e em 2010 eis um disco que aguenta as porradas todas. Muito marado. Curiosamente os temas rienvindicam um passado primitivo e pagão, intercalado com técnicas pós-modernistas como colagens sonoras, imaginário vintage (um tema tem, por exemplo, uma voz de crooner), atitude Free e tudo o mais para criar um dos discos mais bizarros de sempre embora o que eles não previram foi o Scum (Earache; 1987) dos Napalm Death.
Obrigado Eng. Fom-Fom por insistires a dar-me a conhecer este disco mais uma vez! Eu não queria ouvi-los outra vez de tão lixado que é o disco mas obrigado na mesma!

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

DEA report on "Troca de Discos com unDJ GoldenShower || GRÉMIO LISBONENSE"

Talvez dada às temperaturas desta canícula que vivemos, infelizmente, a primeira sessão deste novo ciclo de Festas de Troca de Discos não correu bem dada a falta de público que se sentiu. Ainda assim, paradoxalmente, foi a festa que mais troquei! Tendo levado para casa discos de Jazz, Jazz-Metal, Metal, Industrial, Drone, Electro e Pop. Tudo graças ao Traumático Desmame Gama e ao Sr. Fred.

A começar pelas secas Drone, ou seja Kobi com Drone Syndrome (Silber; 2005) com um tipo dos Sigur Ros (por isso tão chato como os Sigur Ros apesar do ambiente opressivo que desenvolve), e Jeremy Boyle com Songs from the guitar solos (Southern; 1999), este último tem como curiosidade ser um exercício de solos de guitarra de Heavy (Kiss, Van Halen, Black Sabbath, Led Zeppelin e Jimi Hendrix) que são esticados, distorcidos e refeitos (não são remisturas mas os solos são apenas matéria-prima) até ficarem irreconhecíveis. Aliás, a simetria é evidente: de Riffs pesadões passam a fantasmagóricas "landscapes" mas ainda assim, ao que parece houve problemas legais por Boyle usar os sacro-santos deuses do Rock. Não se percebe porquê... a coisa é penosa de se ouvir e impossivel de associar aos AC/DC por exemplo a não ser pelo título.
Um clássico é Comprendido!... Time stop!... and world ending (Cold Meat Industry; 1997) de Deutsch Nepal em que se se pode incluir na divisão Drone, é claro associado a "ritualista", "industrial" e "dark ambient". No caso deste disco trata-se uma compilação de material disperso entre 1992 e 1997, em que mostra como se faz um áudio-hipnose sem ser chato ao contrário de tanto projecto sem talento que anda por aí. Como dizia, é um clássico... feito por alguém que é Homem o suficiente para se chamar Lina Der Baby Doll General (hohohohoho) e Menino o suficiente para ficar fascinado por um Esoterismo de um mundo que há muito Deus cagou de alto (hehehehehehe). O pessoal facho adora isto!

Continuando pela Suécia (Deutsch Nepal não é alemão nem do Nepal) mas desta vez pelos terrenos ferteís do Metal, perdão, pelo pseudo-Metal dos Tiamat com Judas Christ (Century Media; 2002) e Carbonized com Screaming machines (Foundation 2000; 1996). O primeiro caso é Goth-Metal ou Rock psicadélico onde se detecta semelhanças a Sisters of Mercy ou Pink Floyd, uma calmaria quase Pop pós-moderna que de Metal já quase não tem nada, como aliás acontece desde A Deeper Kind Of Slumber. O pessoal do Metal também é sensível como os chorosos Indies e Emos, só que deviam era ter vergonha de ainda serem metaleiros. E ainda deveriam ter mais vergonha em meter nos créditos do disco que "Tiamat drink PATRON VODKA exclusively". Também sem vergonha na cara a julgar pela capa nojenta mas fazendo um bom trabalho são os Carbonized. O nome poderia enganar: escatologia Death/Grind dos velhos tempos da Earache? Não! Jazz Metal cheio de incursões sónicas e psicadélicas, e paragens rítmicas que lembra o Jazzcore dos NoMeansNo. Muito interessante e de referir que os músicos fizeram ou fazem parte dos conhecidos Therion.

E por falar em Jazz: The Jazz Networks com Blues'n'Ballads (BMG; 1994) e Herbie Hancok com Piano genius (MCPS; ?) foram os discos deste género. Do último pelos vistos não é o que o Gama e eu procuramos do Hancock daí que tanto o Gama se anda a despachar deles como eu ando a aceitá-los. No caso deste disco, ele não passa de Jazz standard assim Bop como nos fartamos de ouvir sempre que se vai a qualquer bar de Jazz. Ao que parece, este CD nem faz parte da discografia oficial como basta olhar prá capa - que nem me vou dar ao trabalho de scanar e carregar para aqui como devem bem perceber. Os Networks são modernitos e tocam os monstros (Coltrane, Ellington, Gillespie) entre o Be-Bop, a Fusão e aquela sensação que já ouvimos isto umas mil vezes. Se ainda ao menos soubessemos que bebiam exclusivamente Vodka... sorry guys, but Rock'n'Roll rules!!!

Na onda da música de vanguarda, recebi um sampler-CD da revista Resonance, o volume 10 (London Musicians Collective; 2006?) dedicado a "Art Radio" com trabalhos de ClingRadio, Sherre DeLys, David Grubbs + RLW, Elsa Justel, Georges Perec (um escritor OuLiPoano), Ergo Phizmiz, Walter Ruttmann, John Wynne entre outros... Cacofonia über alles.

Lembram-se de uma coisa chamada Big Beat? Era aquela música Techno e Hip-Hop de "batidas gordas" em que o Fatboy Slim foi a figura de proa. Lonesome spaceboy (La Douce / Irma; 2001) de Tommy Bass é o que se pode chamar de uma banhada. Na altura com sons de Lounge e Cocktail Music ou Musak com as tais batidas cheias de banha funky podiam ser uma novidade e ter alguma piada, seis anos depois é quase impossível pensar que isto servirá para alguma coisa. Os Deelite envelheceram bem (sem relação ao Big Beat mas o seu ambiente de festa aparece neste CD), o Fatboy não sei porque não tenho ouvido mas o italiano Tó do Baixo é que não envelheceu nada, nada bem! C'est la vie!

Mais Pop europeia, o último álbum de originais dos franceses Rinoçérose, Schizophonia (V2; 2005) é Electro-Pop/Rock da linha dos New Order com toques a Nova Iorque via !!! ou LCD Soundsystem mas que consegue irritar quanto mais se prolonga e/ou se ouve o disco. O pior mesmo não é a parte instrumental que é competente e dançavel mas antes as letras num inglês da treta, exemplo: «oooh my bitch / oooh yeah yeah bitch (...) bitch / cause you're gonna be my bitch». Felizmente só ouvi este CD em casa duas vezes porque não dá para ouvir no PC do trabalho, ainda bem...
Ise dize Nu-Eurotrashe? Non, seulement des cons!

Último género musical desta "festa", os CD's de Industrial: primeiro com um blast from the past, ou seja, Filth Pig (Warner; 1996), um álbum incompreendido dos Ministry, dado ser mais virado para Stoner-Rock ou Doom Metal do que aquele Industrial Crossover que os fez ter sucesso no final dos anos 80 e príncipios dos anos 90. A heroína está cá toda na veia, no estúdio e nos instrumentos, começa com uma falsa partida, Reload, como para enganar os fãs do Psalm 69 mas depois é pura Lava Rock, "sabbathiano" até à medula tal como aliás o tema Scarecrow já indicava (no Psalm!) A versão de Bob Dylan permanece inexplicável passados 11 anos. Mas fazer o quê com pessoal agarrado?

E por fim, a colectânea One nation under surveillance : Arable Farmland Sampler Volume 3 (Arable Farmland; 2007) que trata de temas da terra do Asno-Bush e as conspirações 11/9. Vamos encontrar 17 faixas de 11 projectos vindos da Suécia (Smea - a lembrar misturas Dub dos Godflesh), EUA (Searad, ROPS56, RDS, Metagnathous, Crypto Fascist), Canadá (PIN) e Austrália (Pask, Flood of Rain, Empty). O Industrial que soa é mais velha-guarda que outra coisa, embora ROPS56 lembre mais Prog meloso. Algumas faixas são boas, outras não, como é normal nas colectâneas. O CD lembra aqueles tempos dos discos Hardcore cheios de informação anti-autoritária. [A maior parte destes CD's vai poder ser ouvida na próxima sessão.]

A grande novidade deste ciclo foi que revistas, zines e livros sobre música também podem ser trocadas mas como isso não foi suficiente para tirar as pessoas dos seus lares mais refrescantes, pensa-se em mudar os dias destas festas no Grémio Lisbonense [rua dos sapateiros nº226, 1º, rossio, lisboa] talvez para as quintas-feiras e lá prás 22h. Brevemente mais detalhes...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sombras sem forma...



Kongh : Shadows of the Shapeless (Music Fear Satan; 2009)

Depois de uma competente actuação dos Godflesh no Santiago Alquimista, fica sempre uma banca de coisas para comprar. De Godflesh nada - zangas com a Earache ainda? - mas havia um caixote cheio de vinis de metalices. Kongh? Caramba quem é que me tinha falado bem desta banda há pouco tempo? Kong? Não eram uns gajos Techno da Peaceville? Não são outros que o Sr. Stealing Orchestra me falou há meses no Porto... Caramba, é isso! Truca, comprei o disco em formato 2xLP! É mesmo chato estar sempre a mudar de lado e de disco nestas bandas Doom / Stooner que editam em vinil... As músicas excedem os 7 ou 9 minutos e por causa disso só cabe quase uma ou duas faixas de cada lado do disco vinil. Deviam pensar ou em fazer músicas maiores para render os lados ou então editarem em CD...