segunda-feira, 29 de agosto de 2011

David Soares : "Batalha" (Saída de Emergência; 2011)

 Mais um romance de David Soares pela sua editora Saída de Emergência? Quem for cínico que diga isso, quem pegar no livro - já agora uma bela peça de Design de livro - e o ler poderá verificar que não é mais um - se é que alguma vez os livros do David Soares tenham-se repetido... Mas é verdade que este é especialmente diferente dos outros ao colocar uma ratazana em discurso directo - numa tradição literária que podemos encontrar talvez em Herman Hesse ou Jack London com "os seus lobos". O roedor anda à procura do "sentido da vida" e o maravilhoso encontro desse sentido não deixa de ser irónico porque David "vai contribuindo, passo a passo, para uma mitologia de fantástico genuinamente lusa" (João Seixas dixit). Afirmação certeira mas que deveria estar acrescentada com outra frase como o autor me escreveu no seu primeiro romance: "verdadeiramente alternativo e bruto, disfarçado de mainstream... assim posso corromper os insuspeitos!»
Nos próximos dois meses estarei pela Finlândia, os últimos dias foram de stress a arrumar malas, finalizar leituras para o projecto que irei realizar no frio... Peguei no livro sem pensar que iria acabá-lo e com remorsos que deveria estar a fazer outras coisas. Enquanto não o acabei não havia paz! O David está cada vez mais fluído a escrever que quando dei por mim tinha acabado o livro. Valeu a pena!  Eis um livro que poderá vir a ser um clássico no futuro - como os Lobos dos escritores mencionados acima. Com um David menos Death e Goth, a escrita dele cada vez tem uma abragência para "todo o público" sem ser estúpido ou infantilóide como o que anda para aí. Parabéns ao autor... como se constuma dizer "quanto mais velho..."

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Grande novela americana


Matmos : The Civil War (Matador; 2003)
WHY? : oaklandazulasylum (Anticon; 2003)

Era uma vez... vapores de peidinhos quentes cobertos pelos lençóis da manhã, o arrastar dos pés do vizinho de cima sobre o soalho de madeira, os últimos suspiros de um pombo moribundo, a língua da gata a lamber obstinadamente o pêlo brilhante, o bicho a roer a madeira da cama, o titilar do motor do Opel acabado de estacionar. Usurpados por microfones e sequenciados em laptops nos finais dos anos 90, tornou-se de forma pragmática e maquinal da lógica anglo-saxónica embutida em todo o DNA do mundo Pop, mesmo daquele que se diz "diferente". De repente o novo brinquedo do Pop era procurar o som microscópico ao ponto de Matmos enfiarem microfones em tubos digestivos de vacas para fazer microhouse - som paneleiro-lounge que se confunde com a outra grande paneleirice deste século que é o Techno minimal. Outro ser anglo-saxónico, Matthew Herbert como Radio Boy, fez coisas parecidas antes de entrar num esquema de big band e manifestos artísticos que não interessam a ninguém.
No caso de The Civil War, os americanos tentam explorar sons medievais folclóricos com "americana" e o tal microhouse. Usam sons "verdadeiros", ou seja gerados por instrumentos acústicos (como tambores e gaitas-de-foles) com o átomo digital. Glitches à parte soa a manual 1-0-1 de como fazer a coisa sem chegar a nenhum sentimento - ao contrário por exemplo do último disco dos Stealing Orchestra que partilha a ideia do som "verdadeiro" com o "virtual" - mas não a obtusidade das explorações dos sons imperceptíveis. The Civil War não aquece nem arrefece, parece uma feira medieval com nerds do Mac ao peito. É uma tentativa tão válida como a minha de conhecer o trabalho deste casal tão respeitado na música deste século. Não deixarei de tentar outro disco porque tenho boa impressão de um tema Rag for William S. Burroughs de outro álbum The Rose Has Teeth In The Mouth Of A Beast - que terei de ter a paciência de me cruzar com ele um dia destes.
Já WHY? é outra estória... É o primeiro álbum do projecto de Wolf e também o último antes de o transformar numa banda de 3 elementos em Elephant Eyelash (Anticon; 2005). Para quem gosta dos Pavement mas têm medo de Wu-Tang Clan pode vir aqui deliciar-se com a faceta delicadoce do Indie / alt country / americana disfarçada com técnicas de produção Hip Hop. A tradição de canção está aqui bem vincada, é certo que é mutante graças à tecnologia dos século XXI não faltando loops e "micro-sons" texturizados e melódicas para acompanhar a melancolia urbana. Por mais samples de carne que se une ao esqueleto destas canções o humano não se desfaz em máquina. O colectivo Anticon, que WHY? pertence, é segunda geração do som de fusão Pop/Rock com Hip Hop iniciada por Beck. Chamam-lhe de "hip hop abstracto" e é capaz de ser das poucas coisas giras inventadas neste milénio.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carbono 14

Mais uma ida à Carbono para comprar xungaria-refundida-a-2,5-euros na dita loja. E curiosamente na zona Metal/ Dark / Industrial (está tudo assinalado naquela loja!) encontro um CD dos Genaside II. Não é a primeira vez que encontro este projecto misturado na zona "heavy" das lojas de discos. A capa, grafismo e nome da banda remetem para algo Death Metal underground mas não, é Jungle / Big Beat e onda dançável UK. Return of the Redline Evangelist (Copasetik; 2002) realmente engana muito para quem não sabe o que é, daí a necessidade de resgatar um dos projectos basilares da cena Rave / Jungle, admirados pelos Prodigy e Tricky, para o qual até gravaram um álbum. Este é o último da carreira do projecto e que infelizmente soa a "auto-vintage". Para um álbum de 2002 realmente soa demasiado a 1992, embora o projecto admita para si mesmo que é realmente "old school". São DJs / produtores e não-músicos, que pegam na jóias do passado para fazerem música funcional pela via mais festiva histriónica Ragga / Big Beat como pelo o "down" introspectivo via Dub/ Trip Hop. Não é mau para quem goste dos géneros já aqui citados mas enerva que não tenha faixas tão carismáticas como o primeiro álbum - o único que conheço. Um salto a um passado recente, não reconhecido e mal-compreendido. Vale a pena descobri-lo.
Segue-se o último álbum dos Loretta's Doll, Creeping Sideways (Middle Pillar + World Serpent; 2001) que só comprei porque na ficha técnica aparecia Orson Welles (uma obsessão da banda pelo que descobri entretanto) e Genesis P-Orridge. Som Gótico-Industrial sem no entanto se deixar encurralar por géneros - o único possível será defini-lo como Dark - apresenta-se mais estimulante do que se espera (capa, editora, caras dos bichos, vídeos) justamente pela capacidade de fazer metamorfoses electrónicas que não se estão à espera neste tipo de bandas que gostam de ser marciais e/ou indutoras de transe e meta-física do chinelo. Acho que só pelo facto de terem uma banda com nome de gaja (é sempre estranho isso, não?) é que não vou ficar com este interessante disco. 
Good as gold (Homestead; 1989) dos OWT não é bom como ouro. O duo constituído por David Leaton (bateria, eletrónicas) e Zeena Parkins (harpa, teclados) com constrangimento parecem esconder publicamente que fizeram este disco. Por acaso, até se compreende, é uma coisinha fraquita vinda de dois cromos da música. Um esquema Improv mais ou menos orientado pelo Rock, sem grandes surpresas e momentos, e nem chega a ser pica-miolos. Realmente este disco é uma nota de rodapé "mal-paginado" na secção "dark" da loja...
Por fim, o melhor do lote, outra classificação desorientada, The Hellbender Suite (Some Place Else; 2005) do finlandês Reptiljan - um dos mil projectos de Niko Skorpio. Soma de trabalhos entre 2003 e 2005, em que as vertentes mais extremas e modernas da Electrónica são aplicadas: Grindcore digital, Breackcore, Technoise, etc... havendo ainda lugar para uma inserção Dub ou Glitch aqui e ali. Não tem a qualidade de produção de Bong-Ra ou The Drumcorps, parece, até feito no PC do quarto decorado com colchas cor-de-rocha com naprons feitos pela mãezinha mas ao menos é música que não rapina cadáveres com 30 anos em cima como faz toda a produção Rock/ Pop actual. Belo erro de catalogação! Valeu a pena acertar nisto!

domingo, 31 de julho de 2011

Apolo Negro


Ruy Mingas : Temas angolanos (Orlador / Círculo de Leitores; 1976)

Mais uma vez na Feira da Achada a descobrir música africana graças a capas lindas - que reforça a teoria que qualquer capa de LP é melhor que de CD - embora este já o conhecia de outras andanças. O vermelho sobre laranja quase parece serigrafia mas parece que passo a vida a coleccionar mistérios editoriais fonográficos. Procurem na 'net por este disco e aparecem outras capas e pior a versão CD de 1999 (creio) com uma capa de Mingas com ar tecnocrata e velho. 
Outro músico africano que depois da carreira musical que se tornou ministro e/ou embaixador, talvez porque não é do "povão" (classe baixa, sem educação, etc...). Mingas é bom de se ouvir mas é óbvio que o que canta e a produção que o acompanha está mais perto de uma burguesia ou de uma classe média educada - até há pianinhos aqui e acolá. Não é para encontrar aqui a Africa selvagem mas a África da melancolia e da beleza infinita... Mesmo que seja em forma de postal.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

David Soares (a), Jorge Coelho, João Maio Pinto [et al.] (d) : É de noite que faço as perguntas (Saída de Emergência; 2011)

Eis um livro que sofreu atrasos como se pode constatar pelo tema que é sobre os 100 anos da República e que deveria ter saído o ano passado no Festival de BD da Amadora. Devido a complicações editoriais só agora é lançado pela Saída de Emergência, uma editora especializada em Ficção Científica e Fantástico e que tem matado muita sede a muita gente que gosta destes géneros literários, para além de ter publicado os fabulosos romances e contos de David Soares.
Trata-se de uma encomenda institucional para as Comemorações dos 100 anos da República mas em que a "qualidade" da "dita senhora" é questionada por David Soares, que escreve todo o livro para cinco ilustradores diferentes - como o novato André Coelho e o veterano Richard Câmara. Invés de comemorar de forma canina, o livro é sóbrio ao explorar as virtudes e os defeitos da Primeira República. O texto tem pertinência e inteligência mas como produto final acaba por fazer perder a força do argumento de Soares.
Aliás isto não é um "livro", peço desculpa, é um "álbum de bd", de tamanho parvo e colorido imposto pelo anacrónico Festival da Amadora. Os desenhadores, todos eles de talento reconhecido, talvez não se sintam à vontade com este formato e sente-se uma rigidez qualquer que irá afectar também a narrativa. Ainda assim, se este for o futuro da bd portuguesa na vertente "histórica-por-encomenda" (porque a bd é sempre vista como uma boa maneira de explicar História portuguesa para putos e iletrados) estamos muito bem servidos. Soares sabe pegar na matéria-prima histórica sem a abordar de forma patriótica, ou pior de forma "factual-pedagógica". Como bom escritor de romance histórico que é soube dar a volta para que a estória deste álbum fosse interessante de se ler.
Eis um álbum que está nos antípodas das produções do Antigo Regime (que ainda hoje pupulam por aí devido à ignorância das autarquias e outras instituições públicas) e que está ao lado de trabalhos como História de Lisboa (de A.H. Oliveira Marques e Filipe Abranches) ou Salazar : Agora, na hora da sua morte (João Paulo Cotrim e Miguel Rocha). É bom assistir ao facto de ser uma editora sem ser de bd a pegar neste álbum. É uma esperança que assim este álbum tenha mais facilidades de ser divulgado e distribuido num mercado livreiro que não quer saber da bd para nada. Apesar das letras manhosas do título que conseguem destruir a capa fizeram um bom trabalho de produção gráfica. Uma experiência a repetir?
Por fim, de salientar o trabalho de Daniel da Silva, que entretanto também ilustrou o novo romance de Soares, Batalha (Saída de Emergência; 2011), um desenhor em estreia no campo da bd apesar de já ter um trabalho de ilustração há muito tempo - inclusive foi publicado no Mutate & Survive.

Quagrandabosta!


v/a : Novos Talentos FNAC 2011 (FNAC; 2011)

40 bandas, 2 CDs e as s vendas vão prá AMI apoiar infotecas, ou seja, para combater o infoexclusão. Mais vale ser info-excluído do que fazer parte deste mundo "informado", sem talento e de betos foleiros. Tão informados que são que puseram um bloco amarelo em cima do desenho do Pedro Zamith. Não sei se é porque tudo é tão bem-comportado que a única coisa que sobresaí daqui são uns tais de O Experimentar Na M'Incomoda que ainda não percebi se tem mesmo piada ou é puro desespero meu.
Ah! Este disco é bom por uma coisa, se estiver na dúvida de ir ver um concerto basta consultar a lista das bandas para sabermos que mais vale a pena ficar em casa a ver youtubes com gatinhos...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Good riddance!




Cada vez se percebe porque nada funciona em Portugal... Com os protestantes foi o que foi, e os ateus bem... O desenho originalmente era para um papel de embrulho pró Mike Goes West - coisa que nunca foi prá frente. Entretanto há um dia atrás o Camarada Majung pede-me um cartaz para a tour dos Sunflare (granda barulheira estes boys!) que começa já esta Sexta! Obriguei-os a levar livros meus em contra-partida! Só gente doida!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A tradição já não é aquilo que era...


Secret Chiefs 3 : Traditionalists : Le Mani Destre Recise Degli Ultimi Uomini (Web of Mimicry; 2009) ; Masada Book 2 : Book of Angels 9 : Xaphan (Tzadik; 2008)

Os Secret Chiefs 3 (SC3) voltaram a Portugal em Junho deste ano, e apesar da sala de espectáculos da ZDB cada vez me atrofiar mais, lá fui ver um bom concerto. Tal como a primeira vez no Plano B (em 2008) tive mais uma vez a hipótese de conversar com o mentor Trey Spruance, que também aceitou trocar discos seus por livros da MMMNNNRRRG. Realmente, tenho andado desatento às novidades musicais desde que deixei de escrever para a Underworld e a Elegy Ibérica. Nem sabia dos últimos discos de SC3… Heresia!
Começo pelo último, Le Mani Destre Recise Degli Ultimi Uomini, que é o primeiro álbum das seis bandas inventadas para o Book of Horizons (Web of Mimicry; 2004). Os Traditionalists são a faceta italiana de Spruance, onde reina Ennio Morricone, Goblin entre outros compositores de bandas sonoras para filmes giallo*. Trata-se então de uma recriação em que a qualidade sonora da gravação e de produção mimetiza o género com uma perfeição técnica. A dada altura é essa qualidade que permite o disco ser uma pérola - este é o caso em que a cópia torna-se melhor que o original. Há malhas, riffs, pedaços que qualquer conhecedor das "bandas sonoras originais" irão reconhecer imediatamente e acusar Spruance de roubar à "cara podre". Parece-me que o roubo é assumido mas sem entrar no jogo medíocre da "homenagem" ou do "tributo". É óbvia a admiração de Spruance pelo "género" e parece que há apenas uma vontade de fazer um "up-grade" técnico sem propriamente inovar nada com outras contaminações estilísticas embora neste disco os sons concretos sejam mais assustadores, as mudanças de trechos são maiores e o Free aparece com mais frequência, não fosse isto SC3 / Spruance – afinal o gajo punha sete estilos diferentes de música na mesma canção dos saudosos Mr. Bungle! Mas tudo aqui é direccionado para o passado. Talvez seja desinteressante ou abusivo mas se todos aceitam bandas Pop/ Rock rapinarem eternamente os mesmos cadáveres (Pop Will Eat Itself!), algumas descaradamente quando são famosas, outras de forma mais discreta quando são "underground", não há neste disco nenhum dano moral à Humanidade e Cultura.
E isto traz-nos para a obra-prima que é Xaphan. Ao que parece John Zorn no seu projecto Masada criou umas 300 novas composições para outros músicos tocarem. Todas elas têm nomes de anjos judaicos e cristãos - o que prova que o monoteísmo sempre foi uma treta falhada porque não resiste nem um pouco a “divino-diversidade” politeísta, acrescentado ao Senhor uma miríade de anjinhos, demónizecos ou uma infinidade de santinhos, mártires e outros bichos. Pergunto-me, uma vez que nunca ouvi Masada, se estas composições são mesmo do Zorn? (Vou arranjar problemas!) Ou até que ponto houve uma execução exacta das directrizes de Zorn ou se existe uma lógica do "jogo" desta série de composições e discos? Será que este Masada Book 2 é como o Cobra, que deixava (alguma) margem de manobra para os músicos? Sinceramente não sei… Teria de investigar uns 17 volumes / CDs que saíram da série que inclui monstros como Marc Ribot, Uri Caine, etc… Adiante… Este disco é pura e simplesmente brilhante. Todo ele é uma "world music" que não existe, e isso não espanta! Porquê? Porque a "world music" ou o folclore não existem, são invenções da terrinha que capitaliza os seus costumes mais "typical" numa nova roupagem pronta a ser consumida por turistas e outros abutres sedentos de originalidade. O fenómeno do "etno" há muito que não passa de uma réplica de "artesanato de aeroporto", basta pensar que todo o nosso folclore, por exemplo foi criado pelo Estado Novo. Neste disco os SC3 englobam música árabe, cigana, klezmer, surf, exotica, reggae, as tais músicas de filmes giallo, metal, jazz, free, em tal fusão que não sabemos mais o que poderá significar "World Music". Podemos chamar a esta música de "toda a música"? "Música de (todo-)Mundo"? Se a Aldeia Global reduzisse toda a sua música a uma rodela digital de 55 minutos e 27 segundos teria de soar a isto. Talvez não, talvez não houvesse músicos com este elevado nível de execução... Mas aconteceu! O disco foi feito! O Mundo não mudou desde 2008?

* Giallo são filmes de produção italiana dos anos 60/70 de género criminal e fantástico, onde se cruzam detectives, vampiros, paranóia e psicadelismo. A expressão vem de livrinhos populares impressos em papel amarelo, correspondente aos “pulps” nos EUA. Curiosamente mas sem relação, pode-se pensar nisto como a expressão “impressa amarela” - sensacionalista e popular como o Correio da Manhã.

sábado, 25 de junho de 2011

Kebab & Festa


o poster-suplemento do disco de estreia de Çuta Kebab & Party está pronto! E o disco vai ser a partir! Deveria ser tão importante como foi Buraka Som Sistema em 2006 quando trouxeram África (negra) de volta a Portugal. Agora é o "Arabesco" para relembrar que somos mais sarracenos que celtas!
Esta co-edição da Chili Com Carne e da Faca Monstro vai ser lançado na Trem Azul, na Festa Laica, dia 25 de Junho a partir das 22h. Poderá vir a ser algo assim:

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Andrew Keen : The Cult of the amateur (Doubleday; 2007)

Eis um livro reaccionário sobre a Internet, em especial sobre a web 0.2 e a forma como o mundo virtual se organizou ao ponto da revista Time na edição de 2006 ter considerado a personalidade do ano "TU"!
"You", ou seja, todos nós que enchemos Wikipedia, Facebook, MySpace, Youtube de informação (real e ou enganosa) e que, segundo Keen, esta "democratização do mundo digital está a assaltar a nossa economia, cultura e valores". Segundo ele: "Os mais prestigiados jornais e revistas da actualidade, a indústria musical e cinematográfica são postos em causa por uma avalanche de conteúdos amadores criados pelos utilizadores das redes digitais. As receitas publicitárias tradicionais caem de forma acentuada com a oferta de anúncios grátis on-line; as cadeias de televisão são ameaçadas por canais de programação criados gratuitamente pelos utilizadores, de que o YouTube é o maior exemplo; a partilha de ficheiros e a pirataria digital devastam o negócio da música e atemorizam o cinema. Pior do que tudo isto, a cultura on-line do copy-paste – na qual a propriedade intelectual é facilmente trocada, descarregada e alterada – está a destruir os direitos de autor, espoliando artistas, autores, jornalistas, músicos, editores e produtores do fruto do seu trabalho criativo.
Num tempo de celebração do amadorismo, em que todas as pessoas, por pior informadas que estejam, podem publicar um blogue, disponibilizar um vídeo no YouTube ou mudar um artigo da Wikipedia, a distinção entre o profissional e o amador é perigosamente esbatida. Quando bloggers, podcasters ou videógrafos anónimos podem publicar sem os constrangimentos de padrões profissionais ou filtros editoriais, esbatem-se as fronteiras entre o verdadeiro e o imaginário."
Keen defende que um bom livro é um que tenha um editor por trás, como o caso do livro dele mas garanto que este deve ter sido o livro mais mal-escrito que li nos últimos tempos. Repetitivo e pouco estruturado, acaba por ser uma literatura tão "light" como a dos amadores que escrevem para as "vanity press" como Lulu.com, Papiro, Chiado, etc...
Todos os exemplos que Keen aponta, como carreiras destruídas pelo impacto mediático de um vídeo no Youtube, são realmente preocupantes. É verdade que é mais fácil um jornalista ser preso de que um bloguista irresponsável. É verdade que não sabemos se uma multinacional não estará a pagar a alguém para escrever bem sobre um gelado dos anos 80s provocando um reaparecimento desse produto. Já sabemos que as empresas e publicistas usam o sistema "viral" da Internet para vender produtos sob a forma de uma opinião de uma simples pessoa que têm um blogue. Etc... Mas há três coisas que Keen não consegue compreender porque ele é tão básico e sectário como aqueles que critica.
Primeiro, não desenvolve nenhuma teoria nova e passa 200 páginas a queixar-se quando o resumo que fiz "copy/ paste" do sítio da editora portuguesa onde foi publicado, resume de facto tudo o que ele escreve no livro inteiro. Não há mais nada. Ok, ainda há algo mais! Mas já ultrapassa as marcas do razoável com uma crítica aos jogos de Poker e à pornografia na 'Net...
Segundo, Keen esquece que graças à anarquia da 'Net um puto nos Trás-os-montes (ou do Iowa, uma vez que o livro todo ele é americano-cêntrico) pode ver o mítico filme Un chien andalou no Youtube porque em Portugal só há uma Cinemateca e as salas de cinema pelo resto do país foram destruídas pela oferta monocultural dos filmes da Lusomundo (empresa canina dos produtos yankees) - como será no Iowa? Sabem o que é uma "cinemateca"?
E terceiro, a decadência da nossa cultura não surgiu porque os amadores deram cabo dela, graças às suas "piratarias" e conteúdos grátis, que estão a levar ao fim dos jornais, discotecas como a Tower Records, livrarias, a indústria de Hollywood, rádio, TV ou a pesquisa académica. A questão já é muito anterior: a ganância das indústrias "culturais" que resultou numa bolha especulativa prestes a arrebentar é culpada há muitas décadas. São estas indústrias para nos fazerem engolir produtos de má qualidade que gastam mais dinheiro em Marketing e promoção fazendo com que um CD custe 20 euros ou um livro medíocre custe 17 euros (como é o caso da edição portuguesa deste livro!), ou 6 euros por um bilhete de um filme "template" de outros mil já vistos. São as mesmas que fizeram da TV e da Rádio e outros meios de comunicação OS SEUS meios de comunicação para nos bombardear com merda como U2 ou Editors ou Lady Gaga. Entre uma playlist de uma rádio controlada por 4 editoras fonográficas multinacionais ou um podcast de um puto que tenha seleccionado só bandas de Beer Metal e músicas sobre peidos o que é pior?
A 'net está a mudar-nos, é certo mas um lado positivo é agora vemos e ouvimos o que queremos - ou pelo menos o que procuramos. Não preciso de um crítico do Imbecilón a tentar vender um Britpop de forma tão subreptícia como um "reviewer" manhoso da amazon.com. Keen defende que só se consegue fazer bons produtos culturais se houver intermediários - profissionais com experiência como editores, produtores, promotores, revisores, etc... Profissionais esses que tendem a desaparecer quando todos nós estamos a oferecer e gerar produtos na 'net que valem zero Euros. E que ao ser tudo digital e barato a qualidade dos produtos também serão menores que obras como o álbum Dark Side of the Moon. Mas a revolução digital não é só distribuição de conteúdos passa também por formas de produção que já não precisam de um estúdio carrissímo como nos anos 60. E a música lo-fi dos ex-mendingos Konono Nº1 são menos psicadélicos ou interessantes que os Pink Floyd? Não acho...
Claro que nem todos os "amadores" poderão ser Kafka ou Pessoa. Curiosamente estes dois autores não precisaram de intermediários para escreverem alguns dos textos literários mais importantes do século XX. Nem foi a Academia que os criou - à parte, a Academia não gera obras artísticas só as valida e geralmente tarde demais. É certo que foram os intermediários que deram "voz" ao Kafka (que ao morrer queria a sua obra destruída) e ao Pessoa, que pouco publicou em vida. Da mesma forma que estes intermediários deram "voz" a este pobre livro de Keen.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Rui Eduardo Paes: "Cyber-Parker" (Hugin; 1999)

É sempre um prazer conseguir arranjar mais um livro do REP! Quem não sabe porquê que leia isto. Desta vez apanhei no stand da Letra Livre na paradoxal Feira do Livro de Lisboa.
Este é o terceiro livro de recolhas ensaístas, entrevistas e resenhas críticas de REP. Mais um híbrido (assumido logo no ínicio do livro) que será apanágio nos títulos futuros do autor, em que temos um ensaio sobre morte e desejo na Música (muito interessante!), um abordagem à Música espanhola - mas que só se fica por dois nomes: Fátima Miranda e Victor Nubla -, outro ensaio sobre Live-Electronics, um artigo sobre música com o advento da Internet e uma listagem crítca de discos de projectos portugueses.
A fragmentação dos temas e dos esquemas literários (só acho a carta de Sei Miguel dispensável) de longe tiram o interesse do livro como um todo. Os ensaios são importantes de ler para qualquer pessoa que se interesse por Arte ou Cultura, as "listagens portuguesas" acabam por compilar informação sobre um tipo de música que será difícil acompanhar quanto mais documentá-la e fazer dela História. O que o REP merecia era um reedição destes seus 5 livros mas desta vez com uma separação de águas, reestruturação dos artigos por temas ou por tipos de escrita para se chegar a uma coerência formal para cada livro. E já agora numa reedição seria bom arranjar capas menos podres... Quem é que vai querer fazer isso?

domingo, 12 de junho de 2011

Fuck Tony!


Amigos & amigas & tamagoshis & Amigochis:Porque o dia de Sto António não deve ser só turístico canibal e casamentos apadrinhados por mais um cristão idiota

Domingo a partir das 19h até às horas que nos chatearmos vamos montar no Largo da Achada o
Comix Bar
O conceito é simples: na compra de uma banda desenhada (livro / revista) oferecemos BAR ABERTO!!!
Apareçam se quiserem ter um abrigo da orgia de urina e vómito que acontece nas outras ruas
...
O ano passado foi assim

sábado, 11 de junho de 2011

Piolho Romântico & Gingão

Lá porque não há resenhas a discos manhosos não quer dizer que ando parado... Esta é uma das duas ilustrações que fiz entretanto para a "revista" de poesia portuense Piolho, dirigida por A. de Silva O. e as suas Edições Mortas. É tão raro pedirem-me desenhos que ficou sempre feliz por mais estranhos que sejam os pedidos... ou os resultados. Creio que prá semana já estará à venda.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Nick Spencer, Scott Forbes, Jorge Coelho, Marley Zarcone : "Forgetless" (Shadow Line / Image; 2010)

Se há "masters" em entretenimento eles vivem quase todos nos EUA. Por mais repúdio que aquele continente-nação nos possa dar, infelizmente temos de engolir o facto que é lá que há argumentistas que nos fazem passar um bom bocado! É o caso desta bd, pré-publicada em formato "comic-book" (5 números em 2009) e mais tarde compilada em livro. Escrevo dele apenas porque participa o Camarada Coelho, com o qual já fiz algumas bds em conjunto e já participou no MdC.
Começamos pelos desenho ou melhor desenhos porque participam três ilustradores diferentes para episódios diferentes da "série". Zarcone cuida de uma bd de três hipsters suburbanos desesperados para sairem para Nova Iorque, cidade onde "as coisas acontecem". Forbes e Coelho cuidam da estória principal, o primeiro mais focado numa agência de modelos que serve de cobertura para uma agência de assassinas (ideia que lembra Glamorama de Breat Easton Ellis) em colisão com amadores de pornografia bizarra - dois putos que fodem tudo e um pivot que se veste de coala! Na realidade nem se percebe muito bem - sobretudo quando as personagens começam a colidir os seus percursos - porque Coelho ficou com aquele segmento ou Forbes com outro. Na realidade isto têm haver com razões pragmáticas de produção, pois até nos EUA a crise no sector da bd há muito que criou situações de "precariedade laboral". Ao que parece em formato "comic" a remuneração, mesmo na grande Image, é pouca (ou nenhuma?), e tal como tenho entretanto apresentado por aí, os modelos de produção podem passar por esta divisão de episódios desenhados por autores diferentes invés de toda a bd ser desenhada apenas um desenhador sobrecarregado e carenciado. Divide-se o mal pelas aldeias! Claro que o produto final poderá ter algum efeito nocivo. Acho o estilo de Forbes plástico, "photoshopado", totalmente artificial e relevador de um desenhador medíocre. E que realmente entra em colisão com as partes de Coelho, desenhador que consegue um compromisso entre o "realista" e "caricatural" (como Will Eisner idealizou para a bd), para além de como autor de bd, sabe elaborar páginas bem compostas de dinamismo / movimento / acção / velocidade - características típicas dos "comics" norte-americanos. Quanto a Zarcone, ainda a apalpar terreno entre Paul Poppe ou Adrian Tomine, não choca.
Ignorando as difrenças estílisticas do desenho, vamos ao que interessa: uma estória desvairada em ritmo de encontros e desencontros, enganos e coincidências que se vão formando num mundo obcecado por sexo desviante e aventura transmitida em banda larga. A parte de Zarcone é o contrário, nada se passa nos subúrbios excepto modorra. No final existe uma discoteca / festa, a "Forgetless" que servirá de cenário comum para os quatro vectores-personagens. Meio-estória-de-crime, meio-crítica-de-costumes, apesar de toda a fantasia urbana de modelos-assassinas-a-soldo é bastante convincente e divertido. E é isto que nós queremos de um "comic-book"...
Gracias Coelho pelo livro! E parabéns atrasados!

Com passado...


Uma prancha minha na exposição Futuro Primitivo - projecto de "DJing narrativo" publicado pela Chili Com Carne. A exposição está patente no Festival de BD de Beja até 12 de Junho.
Curiosidade, esta bd foi originalmente publicada no zine Osso da Pilinha #3 (2003) e recuperada para esta antologia que trata do pós-apocalípse.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Porque eu vivo para a música (2)


E sem saber de nada "participo" no último álbum do sueco Melanie Is Demented - se calhar ele curtiu a bd que fiz sobre o nosso primeiro encontro... Na faixa 10, SVERIGE ÄR ÄNTLIGEN RASISTISKT feat. Sexist Nigga With An Attitude, do disco online (não existe versão em CD ou vinil) Melanie är Demented, sou "samplado" numa edição do Invisual em que apresento uma música do Melanie...
O álbum têm de ser pago, o dinheiro será para as drogas legais e ilegais deste rapazola mamado... por isso só boas razões para pagar por uma coisa tão imaterial como ficheiros mp3. Se desconfiarem da qualidade desta "one-man band" saquem os EPs gratuitos que tem no sitío oficial para ouvirem e perceberem se curtem ou não. É um álbum mais calmo que o habitual e todo cantado em sueco. Eu que já não suporto Pop/Rock acho fixe... e não digo isto por ter "participado"!